"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)

domingo, 27 de maio de 2012

Dian Fossey

VIAJANTES, AVENTUREIROS E EXPLORADORES


Dian Fossey - (São Francisco (EUA), 16/01/1932 - Montes Virunga (Ruanda), 26/12/1985) - Zoóloga. Integrada numa família disfuncional desde muito jovem a sua relação com o mundo animal era a sua grande paixão, talvez como válvula de escape de encontrar a afectividade que não encontrava no ambiente familiar. Em adolescente a morte dum peixe de estimação leva-a, mais tarde, a dizer: "Chorei durante uma semana quando o encontrei, flutuando de barriga para cima, no aquário do meu quarto. Os meus pais acharam que até tinha sido bom e ...." Depois de completados os estudos secundários inscreve-se para Medicina Pré-Veterinária na Universidade da Califórnia, mas reprova no segundo ano. Acaba por se tranferir para o San Jose State College, licenciando-se em Terapêutica Ocupacional, em 1954. Emprega-se no Hospital Infantil Korsair, em Luoisville - Kentucky, onde lidera o departamento da Terapêutica Ocupacional e arranja uma casa numa quinta em Glenmary. Destes tempos dirá: "Nunca vi sítio tão belo como este agora no Outono. Em Glenmary os ribeiros  estão cheios de folhas douradas, vermelhas, verdes e de castanhas das florestas. ...... Quando acordo de manhã corro de janela em janela e fico cega com esta beleza." A paixão pelos animais é constante: "Muitas vezes vejo um guaxinim ou um opossum a correr, .......... Quando volto do trabalho levo cerca de vinte minutos a dar de comer a uma multidão de gatos rafeiros e ao grande cão-pastor......juntamente com os cães da quinta... que me adoptaram completamente." São os calmos e felizes dias que Dian Fossey desfruta, na pujança dos seus vinte e dois anos.


Diane Fossey


 
Pujança essa que se reflecte na sua vida amorosa e que, indirectamente, a leva a aproximar-se de África. Conhece Franz Forrester, um rodesiano cujas famílias tinham propriedades na Rodésia do Sul (1) mas recusa o convite deste para o acompanhar. O casamento não estava nos seus planos. Envolve-se na intimidade com um frade trapista, o Padre Raymond, que a leva a optar, ainda que fugazmente,  pela religião católica, o que escandaliza a sua família. Conhece um jornalista que trabalhava no "Courier Journal" de Louisville o qual, tendo feito uma viajem ao continente africano, lhe relatava com entusiasmo essa experiência fascinante que fora para ele. A ideia de viajar até África cimenta-se pois: "A ideia de estar num sítio em que os animais não foram ainda encurralados em pequenos recantos atrai-me imenso. Se ele voltar a África, como espera, vou atrás dele." Desta vez não recusaria como o fizera com Franz Forrester, mas o jornalista viajou foi para a Florida e saiu da vida de Diane Fossey, para sempre. Mas ele soubera-lhe, também, transmitir a sua paixão por África. 

 
Em 1960 uma sua amiga, Mary White, efectua um safari a África e Dian Fossey não a acompanha por não ter dinheiro para custear a sua viagem. É então que toma a decisão que iria àquele continente, custasse o que custasse. Em 1963 hipoteca os seus vencimentos dos próximos três anos a troco dum empréstimo financeiro para ir a um safari no Quénia. Contava resgatar a dívida com fotografias e reportagens que fizesse na sua viagem de quatro semanas. Lê tudo sobre África e fica com a a sua atenção presa num livro que lhe irá mudar o rumo da sua vida: "O ano do gorila" da autoria do zoólogo George Schaller, onde este descrevia o seu estudo pioneiro nos raros  gorilas-da-montanha que efectuara no Congo Belga. Decidindo-se a fazer uma reportagem sobre este tema, Dian Fossey amplia a sua viagem para seis semanas, de modo a visitar os montes Virunga, na África Central, e tentar ver os gorilas-da-montanha.

A 26 de Setembro de 1963 Dian Fossey inicia a sua grande aventura, partindo para África com trinta quilos de excesso de bagagem. No seu itinerário contava passar por Quénia, Tanganica (2), Uganda, Congo Belga e Rodésia do Sul, onde se iria encontrar com o seu antigo amado Franz Forrester. No Quénia é conduzida por um guia-caçador branco que contratara, John Alexander, que a leva ao Serengueti, a Tsavo e à cratera de Ngorongoro. Dian Fossey fotografa incansavelmente a fauna e a paisagem, cada vez mais deslumbrada com estes do que com as gentes com quem se vai cruzando.


 
Uma semana depois decide tentar encontrar um homem cuja obra o tornara mundialmente famoso, o Dr. Luis Leakey, paleontologista que desde os anos trinta se dedicava, na zona da garganta do Olduvai, a descobrir fósseis de hominídeos. Tem a sorte de o localizar no seu acampamento base do Olduvai e este encontro é um marco histórico na vida da Dian Fossey, pois o cientista, para além de a ter recebido com todas as honras, aconselha-a a deslocar-se ao encontro dos gorilas-da-montanha.

A 15 de Outubro 1963 Dian Fossey e o seu guia, John Alexander, atingem a aldeia de Kisoro, junto à fronteira do Uganda/Congo/Ruanda, e obtém a informação que o casal Alan e Joan Root (3) encontram-se no sector congolês dos montes Virunga a filmarem os gorilas-da-montanha, no monte Mikeno. Entram no Congo, sobem o monte Mikeno e instalam-se num acampamento, no cimo do mesmo. Durante uns dias tentam avistar gorilas mas nada conseguem. Por fim o casal Root convidam Dian Fossey a acompanhá-los numa surtida fotográfica aos gorilas. Deles e desta incursão dirá: "Uns dias mais tarde, Alan Root e a mulher, que estavam a viver numa tosca cabana ali perto e haviam levado a mal a nossa invasão, tiveram pena de mim e perguntaram-me se queria ir com eles. ......... É óbvio que tem confiança nas sua fotografias e sabe que é um dos melhores do mundo. E a mulher, Joan, parece feita à sua imagem. Palmilhavam aquele terreno como profissionais enquanto eu ofegava atrás deles. ...... Alan fez-me sinal e rastejei até ao lado dele, ficando ambos acocorados. Ele apontou e espreitei através da abertura. Lá estavam eles: os demónios das histórias nativas; a fonte do  mito King Kong; os últimos Reis  das Montanhas de África. Um grupo de seis gorilas olhava apreensivamente para nós......... Deixei o monte Mikeno no dia seguinte, sem duvidar por um momento que voltaria para aprender mais acerca dos gorilas dos Virunga." Retorna a Louisville, reassumindo de novo o seu emprego no Hospital e tenta, com muito pouco êxito, vender fotografias e reportagens sobre os gorilas a diversos jornais.

Mas em Março de 1966, surge-lhe a oportunidade da sua vida quando o Dr. Louis Leakey, que se encontrava nos Estados Unidos, vai a Louisville dar uma conferência. Dian Fossey assiste à mesma e no final aborda-o, acabando reconhecida pelo orador, o qual não se esquecera da sua ida ao Olduvai, três anos antes. Com base no interesse de Louis Leakey em que fosse para África estudar os gorilas, este consegue financiamento para tal projecto, por parte da National Geographic e, assim, a 15 de Dezembro de 1966 Dian Fossey, aos trinta e quatro anos, arranca de novo para África. Ia começar a sua aventura, mas agora não como turista, mas como cientista. Sete dias depois aterrava em Nairobi, para se pôr às ordens de Louis Leakey, o seu mentor do projecto dos gorilas-da-montanha. Reencontra Joan Root e passa o Natal com Jane Goodall e o seu marido, Hugo van Lawick, que trabalhavam num projecto de estudos de comportamento de chimpanzés.



 
Em Janeiro de 1967, acompanhada por Alan Root que se recusava a que ela, inexperiente e sózinha, se aventurasse a ir para o Congo, então já com conturbações políticas e com guerras internas, Dian Fossey atinge o monte Mikeno, onde monta o seu acampamento-base a mil e duzentos metros de altitude, na área de Kabara. Quando Alan Root volta para o Quénia (15 de Janeiro de 1967), depois de a ter ajudado a montar o acampamento, Dian Fossey relata: "Jamais conseguirei esquecer o pânico total que senti ao vê-lo partir. Ele era o meu último elo de ligação à civilização que eu conhecia. Dei por mim agarrada à estaca da tenda, simplesmente para evitar correr atrás dele." Quatro dias depois surge no acampamento Sanweke, o lendário batedor congolês que tinha trabalhado com Carl Akeley, George Schaller e com o casal Root. Um rosto conhecido, pois estivera com Dian Fossey quando esta, três anos antes, ali estivera com os Root e vira, pela primeira vez, gorilas. Tinha sido Swaneke quem, à catana, lhe abrira caminho na montanha para tal visão.


 
Nesse mesmo dia de 19 de Janeiro de 1967, acompanhada de Swaneke, Dian Fossey avista  um gorila. "Eram 11H10" escreverá ela no seu diário. Com este aparecerão outros, nessa mesma ocasião. Começava a nascer a lenda de Dian Fossey.

Face à guerra civil que se instala no Congo, Dian Fossey muda-se para o lado ruandês. Levará anos de observação paciente até começar a conquistar a confiança dos gorilas. Mas quando o conseguiu, Dian Fossey começou a interagir e a conviver socialmente com os mesmos. Anotou tudo, fotografou-os, atribuiu-lhes nomes, aprendeu a emitir os seus sons e ... quase que se tornou numa gorila. Em 1976 ingressa na Universidade de Cambridge e obtém uma licenciatura em zoologia. Em 1983, encontrando-se nos Estados Unidos, publica a sua obra "Gorila in the mist" e, após o que regressa ao Ruanda para prosseguir as suas pesquisas. Não conseguia viver longe da sua "tribo". Virá a perder aqui a sua batalha em defesa dos gorilas contra os caçadores furtivos. Não só esta batalha bem como alguns amigos que se afastam dela, por desaprovarem  os seus métodos de combater a caça furtiva, como também perderá o seu bem supremo:a vida.


Diane Fossey


Os gorilas eram chacinados por caçadores furtivos que aproveitavam as suas mãos para fazerem cinzeiros que depois eram comercializados nas cidades e povoações ruandesas. Desde sempre Dian Fossey foi uma opositora tenaz contra os caçadores furtivos, mas após a morte violenta do seu gorila favorito, "Digit", ela radicalizou ainda mais a sua acção, chegando a chicoteá-los quando os mesmos eram apanhados pelos seus homens. Para além de ter arranjado inimigos no meio dos caçadores furtivos, Dian Fossey também entrou em conflito com as autoridades ruandesas pois pretendendo estas abrir aos turistas caminhos para eles verem os gorilas, sendo isto uma fonte de receita para os cofres do Estado, Dian Fossey opôs-se, ameaçando abrir fogo contra qualquer pessoa que se aproximasse da sua área de pesquisa.

 

Na manhã de 27 de Dezembro de 1985 o cadáver de Dian Fossey foi encontrado por um seu colaborador nativo, que viu a porta da sua cabana aberta e julgou que ela já se tinha levantado. Ao entrar viu o seu cadáver no chão da sala, com a cabeça toda aberta. Tinha sido morta à catanada, no dia anterior. Para alguns que tinham contactado com ela e que desaprovavam abertamente os seus métodos de defender os gorilas, tivera a morte que merecera, pois: ".....Ela inventou tantas conjuras e inimigos....... Não foi morta porque estava a salvar gorilas. Foi morta porque se comportava como Dian Fossey... Maltratava toda a gente à sua volta e finalmente acabaram com ela." (Bill Webber) ou: "Dian não prestava como cientista.... Considerava-se um guerreiro lutando contra o inimigo que a queria apanhar. Foi um final perfeito, teve o que queria......." (Kelly Stewart).


Lápide tumular de Dian Fossey, no cemitério dos gorilas



 
As autoridades ruandesas acabam por prender Emmanuel Rwelenka, um batedor ruandês que trabalhara para Dian Fossey mas que esta o despedira uns meses antes. Conjuntamente com ele também foi acusado do crime um norte-americano, Wayne McGuire. A acusação, formalizada a 21 de Agosto de 1986, levou a que Wayne McGuire fugisse do Ruanda, com cumplicidade da sua Embaixada, e acabasse julgado à revelia com pena de morte por fuzilamento. Emmanuel Rwelenka acabou por se suicidar, por enforcamento, na sua cela, algumas semanas depois da acusação segundo as autoridades. A 09 de Junho de 2001, Protrais Zigirianiyrazo, ex-Governador da Província de Ruengheri - Ruanda, foi acusado de ser o mandante do assassinato de Dian Fossey, por esta ter descoberto que ele era o cérebro duma organização de caça clandestina e quem dominava o circuito comercial dos artefactos fabricado com as mãos dos gorilas e que pretendia denunciá-lo.


 
No entanto o legado de Dian Fossey perdura até aos nossos dias e, ainda nos tempos que correm, os gorilas da montanha, apesar das  várias vicissitudes que aquelas regiões atravessaram (como por exemplo o genocídio ruandês de 1994), existem e podem ser apreciados por quem lá passe. Em cada grito de gorila é a sua voz que ecoa como que a lembrar-nos que, se hoje podemos apreciar estes nobres animais, temos a obrigação de dar continuidade à sua obra. Precisamente com este fim e para honrar a sua memória existe o "The Dian Fossey Gorilla Fund International" que pode ser consultado na "rede".


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Livro: Sobre Diane Fossey foi publicado, em Portugal, o livro "Mulher na Bruma: A história de Dian Fossey e dos gorilas-de-montanha de África.", de Farley Mowat, editado pela Círculo de Leitores, 433 págs., em 1990.





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Filme - Também em DVD existe, legendado em português, o filme "Gorilas na bruma: a história de Diane Fossey" (124 minutos), realizado por Michael Apted e cujo principal papel foi entregue a Sigourney Weaver.


 

 

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(1) - Actual República do Zimbabué.
(2) - Actual República da Tanzânia.
(3) - Sobre Joan Root já se efectuou um trabalho sobre a mesma. 




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HISTORIANDO MOÇAMBIQUE COLONIAL






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Nota: Os Direitos de Autor e de Propriedade Intelectual dos textos encontram-se protegidos a nível internacional. O Autor prescinde dos mesmos desde que informado da sua utilização, carecendo da sua expressa autorização.  



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Capitão-Mor - Foi um título desenvolvido no século XVI e que era atribuído, em Moçambique, a algumas autoridades de certas áreas que tivessem funções de comando militar ou administrativo, pelo que lhe competia, a nível local, a defesa do território e o recrutamento de homens para campanhas e a manutenção da ténue ideia da soberania portuguesa nos territórios por eles conquistados. Este título também se aplicava aos comandantes das armadas.

 

A regulamentação dos capitães-mor sofreu um incremento através da Provisão Régia de 25 de Março de 1589. Bastas vezes os capitães-mor emergiam dentre os mais poderosos ou mozungos, à revelia dos interesses da Coroa Portuguesa que, sem administração e exército forte, limitava-se a caucionar os nomes, conferindo-lhes autoridade oficial.

 

Inicialmente europeus, com a sua rápida miscenização fruto do casamento com as nativas, os capitães-mor, autênticos senhores da guerra e donos de potentados, cedo se rebelaram contra a autoridade lusitana, mantendo com estas um ténue laço de conveniência. João de Azevedo Coutinho** referia-se a eles como: "... as únicas autoridades a quem, durante séculos, esteve cometido o encargo de representar a nossa soberania na África Oriental." Sobreviveram até finais do século XIX, acabando engolidos (tais como os prazos e os prazeiros) na voragem da instalação das companhias majestáticas** e na consolidação definitiva da soberania portuguesa.

 

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Capitão de Feira - Cargo criado pelos comerciantes zambezianos, no qual o eleito tinha a função de promover e regular a realização de feiras.


 
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Mozungo - Prazeiro; senhor. Eventualmente derivado da palavra chissena "kuzungo", que significa "passear", acabou por se aplicar mais tarde, em exclusivo, aos portugueses brancos ou seus descendentes pois, inicialmente, aplicava-se a todos os que, fruto das suas capacidades, adquiriam património que lhes permitisse levar uma vida mais folgada, vida de "passear".


 
Figura típica da sociedade zambeziana desde os primórdios  da colonização de Rios de Sena, os mozungos eram os senhores que, em roda livre, instalavam-se no sertão e criavam os seus próprios domínios senhoriais sendo, por isso, a génese dos prazeiros*. Partindo, muitos deles, para o interior, a mando dos seus senhores brancos e outros por conta própria, na busca de riquezas , muitos destes aventureiros acabavam por mandar às urtigas as instruções dos seus superiores e, à revelia de tudo e de todos, instalavam-se em qualquer parcela territorial por desbravar e criavam o seu próprio domínio. Astutos, corajosos, sem código de conduta e de honra (quem os tinha nessa época?) obedecendo apenas a si mesmos, estes homens saboreavam o fruto do poder que conquistavam e se recusavam a partilhar com outros.

Senhores do sertão, aventureiros sem bandeira, casando-se com as filhas das chefaturas locais e adquirindo, deste modo, o poder, como também pela força das armas, os mozungos constituíram parte do estrato social que moldou a lenda zambeziana.



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Dona - Título honorífico, sem regulamentação legal, mas que entrou no vocabulário zambeziano, a partir da criação dos prazos* e que se destinava a referir-se às senhoras dos prazos; ou esposas ou viúvas de um senhor e que mantinham, com maior ou menor grau, fidelidade à Coroa Portuguesa. Poderão ter tido origem no século XVII quando, do Reino de Portugal, enviaram-se para a Zambézia vários oficiais de diversas profissões e oito órfãs, todas com dote, para se casarem com portugueses e aí se fixarem.



Essas oito mulheres que, em 1677, partiram para Rios de Sena*, eram oriundas da Casa Pia de Lisboa e chamavam-se: Ana Maria Coutinho; Antónia Maria Leca; Helena Margarida de Alencastre;
Isabel Madalena Távora; Isabel Maria Teles; Leonor Maria Castelo Branco; Maria Micaela de Noronha e Mariana Teresa Mascarenhas. Com o decorrer do anos e com a implementação da política dos prazos, as donas ascendem na hierarquia social, tornando-se proprietárias de extensas terras, por morte dos maridos ou por heranças, o que as torna extremamente apetecíveis para os predadores matrimoniais que buscavam, através deste, o domínio de extensas áreas territoriais, escravos e posses financeiras.

No entanto este título não se aplicava às mulheres negras, mas sim às brancas ou mestiças com sangue português. Cônscias do poder que a fortuna lhes dava, atingem o seu zénite no decorrer do século XVIII, e muitas donas entraram na lenda zambeziana devido, não só, à vida faustosa que levavam como também devido à sua participação activa no influir dos acontecimentos políticos ou militares. Muitas delas eram proprietárias de terras de extensão infindável e de centenas, ou mesmo milhares, de escravos, que tutelavam directamente.


 
Nunca se tendo alcandorado no primeiro plano político, que era um feudo dos homens, estas mulheres entraram no imaginário zambeziano que perdurou muito para além do seu ocaso social, que começou através das mutações sociais no decorrer do século XIX, através da lenta destruição dos prazos, no fundo a sua razão de existência.

O incremento do tráfico esclavagista, as convulsões bélicas e a irresistível instalação das companhias majestáticas** foram o canto do cisne da sua razão de ser. Tal como aos mozungos, aos prazeiros, às sinharas, aos capitães-mor e aos achikundas, entre outros. No dealbar do século XX, às donas, restava-lhes um punhado de recordações e muita, muita nostalgia.  


 
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Sinhara - Mulher de cor, amantizada com um indivíduo de raça branca ou mestiço. Na escala social da Zambézia, no decurso dos séculos XVII a XIX, a sinhara estava abaixo das donas, quer por factores económicos, pois não tinham bens materiais próprios para oferecerem; quer por factores de linhagem, pois não tinham no sangue ascendência portuguesa; quer por factores sociais pois, quase sempre, não se casavam com o homem com quem viviam.


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Feira de Massapa - Era a principal feira portuguesa em terras do Monomotapa* e ficava a cerca de oitenta quilómetros de Tete*. Fortificada por Dom Estevão de Athaíde*, por volta de 1607, ficava perto das ricas jazidas de Cirungo, Chironga e Nhanha, o que permitia aos portugueses efectuarem bons negócios. O Capitão desta feira era o principal Capitão de Portas de todas as feitas em território mocaranga.



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Paulo Mariano (I) Vaz dos Anjos - (Goa, ? - Massingire, 1825?) - Prazeiro. Vindo de Goa instalou-se em Moçambique em finais do século XVIII. Negreiro poderosamente rico, foi surpreendido pela Marinha Britânica  na sua actividade esclavagista, em 1823, na zona de Marero. Fundou a  dinastia dos "Mataquenha", do prazo de Massingire.


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Paulo Mariano II - (Massingire, ? - Chire, 1863) - Prazeiro (prazo de Massingire). Filho de Paulo Mariano Vaz dos Anjos, teve o cognome de "Mataquenha I" bem como a fama (com proveito) de ter sido um homem cruel. David Livingstone* relatou que ele, num só dia matou, pessoalmente, quarenta homens com zagaias, por pura diversão. Dedicou-se, também, ao tráfico negreiro e à anexação do territórios na zona de Sena, tornando-se num potentado inimigo dos portugueses e da família Cruz* de Massangano.


 
É preso no ano de 1857, quando se encontrava em Quelimane mas, tendo sido julgado em 1860 na ilha de Moçambique, acaba absolvido e solto, por falta de provas. No espaço de tempo que mediou a sua prisão os portugueses tentaram destruir o seu prazo*, tendo efectuado duas campanhas, ambas em 1858, até que conquistaram a sua aringa* principal, Chamo. No entanto nunca conseguiram prender o seu irmão Bonga (que nada tem a ver com o Bonga, da família Cruz* de Massangano), seu Lugar-Tenente e que era o comandante das suas forças, o qual continuou sempre a guerrilhar os portugueses.

Após a sua libertação reassume a chefia do prazo e instala-se na serra de Morrumbala, acabando os portugueses por actuarem de novo contra as suas terras, numa expedição liderada por Tito de Sicard, em 1861, onde acaba desalojado. No ano seguinte instala-se nas confluências dos rios Ruo e Chire e, montando o seu novo poderio a ferro e fogo sobre as populações locais, aí residirá até à sua morte. 



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Paulo Mariano III - (? - 1884) - Prazeiro. Filho de Paulo Mariano II. Teve o cognome de "Mataquenha II". Negreiro, na linha da tradição familiar, rebelou-se sempre contra os portugueses. A sua morte, por suspeição de assassinato, deu origem à revolta de Massingire.


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Revolta de Massingire - Após a morte de Paulo Mariano III (1884), havendo suspeitas de assassinato, a fim de se evitar a prática do "maubvi" que elementos do prazo queriam aplicar em suspeitos, os portugueses prenderam alguns chefes de Massingire e mandaram-nos para Quelimane. No percurso os mesmos fugiram e sublevaram as populações pelo que, entre Julho e Outubro de 1884, de Massingire a Mopeia, os revoltosos puseram tudo a ferro e fogo, só tendo sido parados pelos achikundas* de Manuel António de Sousa*, que os derrotou após violentos combates.   



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Maubvi - Prova de veneno, a fim de determinar a culpabilidade de alguém. Se a pessoa que ingerisse veneno sobrevivesse era considerada inocente da acusação que sobre ela pendia.

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* - Já fichado.
** - A abrir ficha.


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LEITURAS


António Lobo Antunes - Ando a reler as "Crónicas" de António Lobo Antunes. E não me canso. Admiro o fabuloso mundo literário deste Príncipe da Palavra. Logo no seu primeiro livro que li "Os cus de Judas" fiquei apaixonado pelo seu estilo literário. E essa admiração mantém-se até aos dias de hoje. Nunca me cansei de ler os seus romances e as suas crónicas. Recomendo vivamente: quem já o leu que o releia, quem nunca o leu que mergulhe no fantástico mundo da sua caneta.


 
António Lobo Antunes

É uma honra para um País ter um escritor desta estirpe nas suas fileiras. E, com toda a franqueza, nunca percebi porque é que é que a este homem ainda não lhe foi atribuído o Prémio Nobel. Devem estar à espera como a Jorge Amado: depois de ter falecido todos se lamentaram dele nunca ter ganho tal galardão, do qual era mais que merecedor.

Será que os nossos governos, associações de editoras, centros de cultura e afins não têm feito correctamente os "tpc" para porem a mexer os lóbies da Academia  sueca? E para mais ele, que é detentor de vários prémios literários, quer internos quer no estrangeiro.


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Da autoria de John Julius Norwich foi editado, pela Civilização Editora, o livro "Os Papas (a história)"  (2012, 597 páginas), um interessante livro que relata, em estilo de reportagem histórica, o percurso sinuoso da história do papado, desde os primórdios de São Pedro até aos nossos dias abrangendo, assim, um historial ao de leve de 280 Papas biografados.  Escalpelizando os seus comportamentos diversificados, que tanto podiam abranger o violador de viúvas e virgens como era João XII até à super estrela João Paulo II, com os violentos Bórgias e o antisemitismo de Pio XII de permeio,  a título exemplificativo.

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Em formato de livro de bolso tropecei num romance de guerra da autoria do jornalista Gérard de Viliers, com o título de "Angola a ferro e fogo" (Edições Saída de Emergência, 2010, 319 págs.) que se reporta a uma ficção enquadrada no tempo da descolonização iniciada logo a seguir ao golpe militar de 25 de Abril e quando os portugueses abandonam a "jóia da Coroa", que foi aquele território, vazio humano esse que começa logo a ser preenchido por empresários sem escrúpulos, revolucionários com cursos tirados por correspondência, assassinos, diplomatas corruptos, ex-PIDES e mercenários, entre outros, num festim sangue e paixões entrecruzados e que acabou por exaurir aquele território.

 
Um livro cuja escrita me fez recordar o estilo literário das obras de Jean Larteguy, outro jornalista francês, do qual tenho a obra quase completa e que um dia destes abordarei.


 
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POESIA


 
Rui Manuel Correia Knopfli - (Inhambane, 10/08/1932 - Lisboa, 25/12/1997) - Poeta que, tendo residido em Moçambique até Março de 1975, veio para Portugal, por não se ter adaptado aos novos rumos da política da nova Pátria moçambicana. Mas o conceito de Pátria para ele era: "Pátria é só a língua em que me digo." (do livro: "O escriba acocorado" (1978).

Rui Knopfli


Considerado um dos "primus inter pares" da intelectualidade luso-moçambicana, repassa na sua poesia o tropicalismo vivencial que tanto o marcou e que se recusou sempre a abandonar. Poeta, jornalista, crítico literário e de cinema, na sua terra natal colaborou com vários jornais tendo, de parceria com Eugénio Lisboa, dirigindo o suplemento literário do semanário "A Voz de Moçambique" e do diário "A Tribuna", na sua primeira fase, bem como foi um dos fundadores da revista "Caliban". Deixou a sua poesia espalhada por vários livros, sendo o meu preferido a "Ilha de Próspero" (1972), com poemas e fotografias dedicadas à ilha de Moçambique. 

Como ele referiu: ".../ eu trabalho dura e dificilmente / a madeira rija dos meus versos / sílaba a sílaba, palavra a palavra/..." (do livro: "Mangas verdes com  sal" (1969).


 
ILHA DOURADA

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade.
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento. 

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WINDS OF CHANGE


 
Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um Sol, violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É a África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante,
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo umas sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.


 
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RECORDANDO


 
Ventos de Mudança (1) - Aproveitando a deixa do título deste último poema de Rui Knopfli, este tema "winds of change" tem servido de mote a várias interpretações políticas. Por exemplo, em 1960, a África do Sul estava a cortar as amarras que ainda a prendiam ao Reino Unido (o que veio a suceder no ano seguinte) quando o político conservador Harold Macmilan, então na qualidade de Primeiro Ministro britânico, efectuou uma visita oficial àquele território e, no Parlamento sul-africano, a 03 de Fevereiro de 1960 em Cape Town, efectuou um discurso, que passou para a História como "Winds of change" ("Ventos de mudança") onde alertava para o caminho perigoso que o território estava a efectuar (a caminhar para o apogeu do apartheid) e onde afirmou, nesse mesmo discurso (tradução livre): "É, como eu digo, um privilégio especial estar aqui, em 1960, quando vocês estão a celebrar o que eu poderia chamar de bodas de ouro da União Sul-Africana (1). Neste momento é natural e justo que vocês devem de fazer uma pausa para fazerem um balanço da vossa actividade, ao olharem para trás no que conseguiram e a  olharem em frente para o que está por vir. Nos cinquenta anos da sua existência as pessoas na União Sul-Africana construíram uma economia forte assente numa agricultura sustentável e indústrias fortes e rentáveis. Ninguém poderia deixar de ficar impressionado com o imenso progresso material que foi alcançado. Que tudo isto tenha sido conseguido em tão pouco tempo é, sem dúvida, um facto   notável...................................................................................................................................................... ...................................................................................................................................................................
Desde o desmembramento do Império Romano um dos factores importantes na vida política da Europa tem sido o nascimento de nações independentes. Elas vieram a existir ao longo dos séculos sob diferentes formas, diferentes modos de governar, mas todos foram inspirados por um sentimento profundo de nacionalismo, que vem a crescer conforme o crescimento das nações. No século XX, e especialmente desde o fim da Guerra (2) os processos que deram origem aos estados nacionais da Europa têm-se repetido por todo o mundo. Vimos o despertar da consciência nacional em povos que há séculos viviam na dependência doutros poderes. Há uns quinze anos atrás este movimento espalhou-se pela Ásia. Inúmeros países, de diferentes raças e civilizações pressionam a sua reinvindicação para uma via independente. Hoje o mesmo está a acontecer em África, e  mais impressionante é essa força crescente do nacionalismo africano. Varia de formas consoante os lugares, mas está a acontecer em toda a parte. Assim, os ventos da mudança estão a soprar através deste continente e, quer gostemos ou não, este crescimento da consciencialização nacional é um facto político consumado. Todos nós devemos aceitá-lo como um facto e as nossas políticas nacionais devem ter isso em linha de conta.............................................................................................
...................................................................................................................................................................
Esta maré de consciência nacional que está a crescer em África é um facto irreversível, para que tanto vocês como nós e as outras nações do mundo ocidental são responsáveis............................................."

Foi um discurso que, como é lógico, caiu no desagrado dos defensores da apartheid, então liderado pelo Primeiro-Ministro sul-africano Hendrik Verwoerd o qual, na resposta, rejeitou liminarmente o pensamento político do seu colega britânico, dizendo: "Somos pessoas que trouxeram a civilização a África. Fazer justiça significa não apenas ser justo com os negros de África, mas também com os brancos de África."


(1) - A União Sul-Africana foi criada em 1910 e resultou da união política dos vários territórios uns de influência britânica outras de influência bóer, todos eles compondo o actual território da República da África do Sul. Os principais eram a Província do Cabo (de influência britânica) e o Transval (de influência bóer). Em 1961 cortou as amarras definitivas com o Reino Unido. O estudo da história da África do Sul (e dos restantes países da África Austral) será analisada quando terminar o "Historiando Moçambique Colonial".
(2) - O orador referia-se à Segunda Guerra Mundial.


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Ventos de Mudança (2) - Mas também na música, "Winds of change" serviu de canção política, como na balada do conjunto "Scorpion", ao efectuar una digressão pela União Soviética, então na sua fase agónica. Como a letra dizia (em tradução livre*):

Andei por Moscovo
Descendo até ao Parque Gorgy
Escutando o vento da mudança
Numa noite de verão em Agosto
Soldados a caminharem
A escutarem o vento da mudança.
O mundo está a acabar
Já pensaste?
Que poderíamos ser tão chegados, como irmãos
O futuro está no ar
Posso senti-lo em todo o lado
Soprando com o vento da mudança.
Leva-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças do amanhã sonhem
Com o vento da mudança.
Descendo pela rua
recordações distantes
Enterradas no passado para sempre
Andei por Moscovo
Até ao Parque Gorky
escutando o vento da mudança.
Leva-me até à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças do amanhã repartem os seus sonhos
Contigo e comigo.
Leva-me até à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças do amanhã ficam sonhando
Com o vento da mudança.
O vento da mudança sopra directamente
Na face do tempo
Como uma tempestade de vento que irá tocar
O sino da liberdade pela paz da mente
Deixa a tua balalaica cantar
O que a minha guitarra quer dizer.
Leva-me, leva-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças do amanhã dividem os seus sonhos
Contigo e comigo.
Leva-me, leva-me à magia do momento
Numa noite de glória
Onde as crianças do amanhã ficam sonhando
Com o vento da mudança.


 
* - Uma vez sem exemplo, por não ser apologista da tradução de poesia ou letras, pois entendo que devem ser lidas e sentidas na sua língua original.


 
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Video da música "Winds of change" do conjunto "Scorpions"


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PLANETA AZUL



"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos"
(Autor desconhecido)






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ACONTECEU


Gonçalo Ribeiro Teles - Comemorou o seu nonagésimo aniversário (ou deverei dizer o seu aniversário 90, em estilo Novas Oportunidades?). Admiro a obra, o exemplo e os actos de cidadania deste HOMEM. Ditosa Pátria que tal filho tem.


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Macacos de imitação - Há uns anos atrás havia um anúncio da Coca-Cola, transmitido nas televisões, o qual consistia em que diversas funcionárias duma empresa, às 16H30 (salvo erro) faziam uma pausa no trabalho e iam todas para a janela da firma extasiarem-se por verem um trabalhador da construção civil que, àquela mesma hora, subia num andaime, em tronco nu, todo musculado (até parecia eu, então não?), a beber um refrigerante desta marca. O anúncio caiu no gosto das pessoas, tanto que ainda hoje há quem diga, quando se faz uma pausa laboral, que está na "hora coca-cola".

Hoje em dia corre um anúncio nas televisões, publicitando a "Sapo Fibra" que não passa duma cópia baratucha daquele outro. Já anteriormente a SAPO projectara um anúncio televisivo que era uma cópia dum outro da marca de wiskhy "William Lawson" (onde aparece um grupo de jovens escoceses a cavalgarem e que oferecem os seus kilts a duas jovens que, ao circularem num carro descapotável e ao serem apanhadas pela chuva, ficaram ensopadas).


É uma falta de imaginação gritante. E é a copiarem ideias doutros que me querem convencer a utilizar os seus serviços? Não passam duns merdosos macacos de imitação. Com as minhas desculpas aos símios pela utilização abusiva das suas personalidades.  


 
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Balão - Enquanto condutor estou sujeito ao teste de alcoolémia, com o qual concordo. Nunca tive conhecimento de caçadores, tipicamente serem reconhecidos por andarem com as chouriças e os "palhinhas" a reboque, para confraternização entre eles, terem alguma vez sido submetidos a este tipo de teste. E serem-lhes retiradas as armas. Porque será?


 
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"Pó dos Livros" - Há uns tempos atrás, tendo feito umas leituras sobre a costa ocidental africana, pretendi ler um livro escrito por Graham Greene no qual ele relatava uma viagem que efectuara, em 1935, através da Libéria e da Serra Leoa. Não o tendo localizado em alfarrabistas desloquei-me à livraria "Palavra do Viajante",  inaugurada na Rua de São Bento - Lisboa e especializada em literatura de viagens e aventuras. Apenas tinham a  versão inglesa do mesmo, desconhecendo edições portuguesas e não tendo mostrado nenhum interesse em pesquisar tal livro no mercado. Acabei por adquirir a versão inglesa, um pouco a contra-gosto. Passados uns dias lembrei-me de colocar essa questão na livraria "Pó dos Livros", na Avª Marquês de Tomar - Lisboa, onde esporadicamente eu ia lá comprar livros. Nem de propósito: não só conheciam o livro, como sabiam que havia uma edição da Minerva dos anos 60 do século XX e que iriam tentar localizar o livro contactando alfarrabistas. E assim foi. Passado um par de meses enviaram-me uma mensagem para o telemóvel: já tinham localizado o livro e estava guardado para mim, podendo ir levantá-lo. O que fiz nesse mesmo dia e cobraram-me preço de saldo, atendendo a que era um livro em segunda mão.

Há uns tempos atrás, depois de ter lido o último livro de poemas de Ana Paula Lavado, que apreciei imenso ("Mentes preversas ... e outras conversas"), resolvi adquirir os outros dois que aquela poetisa já tinha editado ("Vozes do vento" e "Um beijo... sem nome"). Feito estúpido, passei pela FNAC e depois, feito parvo, passei pela Bertrand, ambas no Vasco  da Gama - Lisboa. Em ambas as funcionárias, com um ar entediado de entendidas informaram-me desconhecer esse nome, e que nada constava nos bancos  de dados da "rede", pelo que não podiam mandar vir nenhum livro. Lá tive um lampejo de inteligência e recorri de novo à "Pó dos Livros". Moral da história: em duas semanas tinha os dois volumes na minha posse.


Faço já uma declaração de intenções: não me relaciono pessoalmente com ninguém que trabalhe na "Pó dos Livros", nem tenho qualquer interesse financeiro, ou de qualquer outro tipo, na livraria em causa. Sou apenas, e tão somente, um cliente. Anónimo como muitos outros que lá  vão. É uma livraria média, de dois pisos, bem recheada de livros, com uma secção de livros em segunda mão a preços mais em conta e onde tem um pequeno bar onde se pode tomar uma bica enquanto se pesquisa algo. Mas, para mim, bate todas as FNAC, Bertrand e Palavras de Viajante. Estas... são para esquecer. E, por isso, a "Pó dos Livros" tem o meu aval e a minha recomendação: passem por lá e dêem uma vista de olhos. Principalmente se não encontrarem determinado livro que pretendam. Eles só não arranjam se não houver mesmo.


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Defenda o Planeta. Insurja-se contra a violência perpetada contra o indefeso Mundo Animal e Florestal. Participe activamente em associações ambientais. Porque o Planeta é a sua casa.

 


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Seja amigo do ambiente. Utilize os textos do Novo Acordo Ortográfico como papel higiénico. E, depois de devidamente utilizado, remeta-o para os responsáveis de tal aberração legislativa.

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As referências aos produtos acima referidos (livros, filmes, músicas, marcas, etc.) são incompatíveis com intuitos publicitários. Reflectem, apenas, a opinião do Autor.

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Todas as fotos do presente texto foram colhidas do Google Imagens e os vídeos e filmes do Youtube.


 
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domingo, 20 de maio de 2012

George Adamson e Joy Adamsom


AVENTUREIROS, EXPLORADORES E VIAJANTES




George Alexander Graham Adamson - (Etawah (Índia), 03/02/1906 - Parque Nacional Kora (Quénia), 20/08/1989) - Conservacionista. Depois de efectuados alguns estudos em Inglaterra, chega ao Quénia pela primeira vez em 1924 onde, após ter exercido algumas profissões marginais, tornou-se caçador e, em 1936, entra para o Serviço Florestal daquele território como fiscal de caça.



George Adamson


Em 1944 casa-se com Joy Adamson, de quem se virá a divorciar em 1970. Reforma-se dos Serviços Florestais em 1961 e continua a sua actividade de recuperar leões cativos e reintegrá-los na vida selvagem.



O casal Adamson


Em 1956 ele e Joy, recolhem uma leoa pequena que ficara órfã. Depois de a terem criado conseguem, ao fim de inúmeras tentativas, reintegrá-la na vida selvagem. A recuperação para a vida selvagem desta leoa, que baptizaram de "Elsa", dar-lhes-á visibilidade mundial quando, na década seguinte foi feito um filme, titulado de "Born Free" que reproduz esta história, baseado no livro escrito por Joy Adamson. 


Na década de setenta muda-se para o Parque Nacional de Kora, no Norte do País, desenvolvendo aí a sua luta em prol da defesa dos felinos, actividade na qual virá a ser considerado uma das maiores sumidades mundiais. Adquire estatuto lendário e é conhecido como "Lion Man". Tornam-se vulgares imagens dele junto a grupos de leões, onde mais ninguém ousava aproximar-se. Na realidade , quase que se pode dizer que ele não era um ser humano que lidava com leões. Era um leão com corpo humano. Acabará assassinado por caçadores furtivos somalianos, neste Parque.


Sepultura de George Adamson, em Kora


George Adamson pertenceu àquela plêiade magnífica de homens e mulheres que, não tendo nascido em África, mas tendo ido viver para lá, apaixonaram-se pela terra e amaram-na acima de tudo, por ela lutaram, por ela morreram. Foram mais africanistas que muitos africanos lá nascidos e que nada mais fizeram (ou têm feito) do que destruir aquele belo continente.


George Adamson pertence a este fabuloso escol que, infelizmente, começam a rarear nos tempos de correm. Porque a fauna selvagem começa também a rarear e a ficar apertada em Parques Nacionais. Cálculos efectuados por organizações ambientais apontam para que, nos últimos trinta anos do século passado, a população felina africana baixou de 200.000 para 40.000 animais.



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Joy Adamson (Friederik Victoria Gessener) - (Troppau (Ducado da Silésia), 20/01/1910 - Reserva Nacional de Shaba (Quénia), 03/01/1980) - Conservacionista, escritora e pintora. Casada, inicialmente, com um austríaco separa-se deste e casa-se com um britânico de quem também se separa para se casar, pela terceira vez, com George Adamson, de quem se virá a separar em 1970. Tinha um feitio muito instável.

Enquanto casada com George Adamson, com ele vive a aventura de criar a leoa "Elsa" e, posteriormente, reintegrá-la na vida selvagem.



Joy Adamson


Escreve o livro "Born Free" onde relata esta experiência, o que a catapulta para a fama internacional.  Percorre o mundo em palestras e recolhas de fundos para a preservação da vida selvagem em África mas, por vezes, o seu feitio e falta de discernimento, tornam-na alvo de críticas por parte dos próprios conservacionistas. Foi o caso, por exemplo, quando se deslocou à Austrália para uma série de conferências e onde envergava casacos feitos com peles verdadeiras de leopardo.


Joy Adamson e a leoa "Elsa"


Outra crítica que lhe era  feita devia-se à sua preocupação no seu próprio estrelato em detrimento do de George Adamson, querendo  monopolizar só para si a história de "Elsa". Após o divórcio continuou a sua cruzada conservacionista, escrevendo livros, pintando e desenhando, podendo grande parte da sua obra ser vista no Museu Nacional de Nairóbi. Em 1980, acabou assassinada por um seu criado, aparentemente por uma discussão de vencimentos.


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Elsa - Elsa foi uma leoa bébé capturada em 01 de Fevereiro de 1956, na área de Isiolo (Norte do Quénia), quando a sua mãe foi abatida pela equipa liderada por George Adamson. Juntamente com "Elsa" foram apanhados outros dois seus irmãos, e a razão do ataque leonino da sua mãe fora pelo facto da mesma sentir-se ameaçada pela presença humana e tentar defender o seu território e a sua ninhada, que estava a amamentar. "Era uma grande leoa, na força da vida, as tetas a regurgitar de leite. Só quando a viu assim é que George compreendeu porque estava tão furiosa e os enfrentara tão corajosamente. E arrependeu-se por não ter reconhecido mais cedo que o seu comportamento indicava que ela estava defendendo os seus filhos." (Joy Adamson - Uma leoa chamada Elsa). Levados para o acampamento base dos Adamson os três leões bébés (baptizados de "Big One", "Lustica" e "Elsa") crescem no mesmo.




Joy Adamson com "Big One", "Lustica" e "Elsa"


Seis meses mais tarde torna-se insustentável aos Adamson cuidarem dos três leões, pelo que "Big One" e "Lustica" são enviados para um jardim zoológico na Europa, ficando eles com "Elsa". Criada pelos Adamson, o seu crescimento começa a dar problemas na vizinhança, quando ataca gados vizinhos, o que vai obrigar o casal a tentar integrá-la na vida selvagem. Após diversas tentativas, logram ter êxito, no que terá sido considerado a primeira vez, que se tenha conhecimento, que se conseguiu devolver ao seu lar natural um animal nascido selvagem mas criado no meio de seres humanos.



"Elsa" e George Adamson, descansando juntos



Depois de estar integrada na selva, o casal Adamson ainda regressou ao mato a visitá-la, por diversas vezes, aparecendo sempre "Elsa", reconhecendo-os e brincando com eles. Elsa foi mãe de três crias (que ficaram sempre no seu habitat natural) e a última vez que foi vista terá sido em Julho de 1959.


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Livro: O livro que catapultou o casal Adamson para a fama mundial foi escrito por Joy Adamson, que o titulou de "Born Free". Existe uma tradução portuguesa (pelo menos), com o título "Uma leoa chamada Elsa", editada pela Livros do Brasil Lisboa, 179 págs., onde se relata toda a história, desde a sua captura, criação e tentativas de a reintroduzirem na selva, até o terem conseguido.



Capa do livro


George Adamson escreveu dois livros, dos quais não conheço nenhuma edição portuguesa. São eles "A lifetime with lions" e "My pride and Joy".



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Filme: Baseado no livro de Joy Adamson, foi rodado o filme com o mesmo nome, em 1966, dirigido por James Hill e tendo como actores principais Virginia Mackenna e Bill Travers, que eram casados na vida real e que representam, na tela, o casal Adamson. Existindo versão portuguesa, o filme foi rodado no Quénia, e com a presença dos Adamson, tendo sido utilizados nas filmagens alguns leões que George Adamson cuidava para tentar reintegrá-los na Natureza.


Filme "Uma leoa chamada Elsa" (95 minutos aproximados)


O casal de actores, que se travou de amizades com os Adamson até ao fim da vida destes, tornaram-se também, eles próprios, defensores da causa ambiental. 


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HISTORIANDO MOÇAMBIQUE COLONIAL






NOTA: Todos os textos do "Historiando Moçambique Colonial" encontram-se registados e protegidos pelos direitos de autor e propriedade intelectual em todos os países. A sua reprodução será  concedida desde que pedida e informado qual o destino a darem à mesma, carecendo da autorização do Autor.




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Nicolau Pascoal da Cruz - (1739(?) - 1808) - Prazeiro. Era um militar luso-siamês, natural do Sião (actual Tailândia). Serviu como Soldado e depois como Cabo no Estado da Índia (portuguesa). Chegou à Zambézia em 1767, como Sargento duma Companhia de sipaios* da Índia, acabando depois promovido a Alferes dessa mesma Unidade.

Casou-se com uma dona**, Luísa da Costa, que possuía alguns prazos* em Massangano e de quem teve vários filhos destacando-se, entre eles, o seu sucessor António José da Cruz.  Exerceu vários cargos públicos, tais como Feitor da Real Fazenda, Juíz e Governador interino da Capitania de Rios de Sena.


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António José da Cruz - (1777-1813) - Prazeiro. O filho mais velho de Nicolau Pascoal da Cruz é também referido pelos historiadores como "Bereco". Assenta praça muito novo, por volta de 1787 e, em 1792, tinha a patente de Alferes. Seis anos depois é promovido a Tenente e é colocado na Companhia de Infantaria de Tete sendo, em 1802, promovido a Capitão. Em 1798 acompanhou Lacerda e Almeida** na célebre viagem ao Reino do Cazembe, na África Central.


Em 1807 integra a coluna militar de Vilasboas Truão**, Governador de Rios de Sena, como guia e intérprete, na expedição punitiva ao Régulo Chimatanga, que era avassalado do Monomotapa* Chofombo, mas trai o Governador conluiando-se com as gentes do Monomotapa, sendo um dos responsáveis pelo desastre da expedição e pela morte de Vilasboas Truão, em Chicova*, como virá depois a ser acusado. Morreu enforcado e esquartejado na ilha de Moçambique*, depois de ter sido julgado e condenado por traição, num processo judicial controverso.

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Joaquim José da Cruz - (1803(?) - 1855) - Prazeiro. Filho de António José da Cruz. Era conhecido pelo cognome de "Nhaúde" e "Joaquim da Bamba", por residir numa terra denominada Bamba, perto de Tete. Em 1831 integrou a expedição do Reino do Cazembe, onde também seguia Pedroso Gamito**.  Mercador sertanejo, foi arrendatário dos prazos de Massangano e Tipue e, até cerca de 1850, nunca entrou em conflito aberto com as autoridades portuguesas, tendo instalado a sua aringa* em Massangano, composta por centenas de palhotas.

Em 1850, por um litígio menor, o Governador de Tete mandou um pequeno destacamento militar, comandado pelo Alferes Venâncio Raposo Sarmento, a Massangano a fim de trazer, sob prisão, Joaquim José da Cruz. Este, agastado com a ordem e como o modo como era tratado, não só desobedeceu como prendeu o Alferes durante dois dias, obrigando-o a trabalhar em regime de escravatura, soltando-o ao terceiro dia para este regressar a Tete e contar o que se passara. Começava aqui a rota de colisão entre Joaquim José da Cruz e as autoridades portuguesas, apesar destas terem comtenporizado e engolido o agravo sofrido. No entanto, pontualmente, Joaquim José da Cruz auxiliou as autoridades de Tete em protecção de caminhos e em pequenas guerras contra o seus fidagais inimigos, a família Caetano Pereira**.

Em Junho de 1853, forças do prazeiro Pedro Caetano Pereira**, o "Chissaca", juntamente com as do Makombe* Chipatata, do Reino do Barué*, cercaram a aringa de Massangano, cerco este que durou até Outubro desse mesmo ano, acabando com uma derrota das forças invasoras. Apesar dos insistentes pedidos de auxílio a Tete, por parte de Joaquim José da Cruz, as autoridades portuguesas  eximiram-se sempre a tomar parte no conflito, alegando ser um problema entre dois potentados. Com a  vitória sobre o "Chissaca", Joaquim José da Cruz acabou por prestar um valioso auxílio a Tete, pois a sua derrota implicaria, quase de certeza, a posterior tomada desta vila pelas forças invasoras, inimigo permanente das autoridades portuguesas.

Em 1854, após novas desinteligências entre as forças de Joaquim José da Cruz e as gentes de Tete levam as autoridades portuguesas a prepararem uma expedição punitiva a Massangano, comandada pelo Major Tito de Sicard. Dos confrontos havidos a vitória não tocou a nenhuma das partes, nomeadamente o combate ocorrido nas margens do rio Mucomadzi, em Novembro de 1854 mas, no cômputo geral, foi desprestigiante para as forças portuguesas, pois estas sublevaram-se contra o comandante Sicard, a ponto de o prenderem.

Em finais de Maio ou princípios de Junho de 1855 Joaquim José da Cruz morreu, em sua casa, sem nunca mais ter sido incomodado pelos portugueses.


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António Vicente da Cruz - (1839(?) - 1879) - Prazeiro. Filho de Joaquim José da Cruz, também passou à História com o cognome de "Bonga", que significa "gato selvagem". Após a morte do seu pai assume o prazo de Massangano e firma, com as autoridades portuguesas, um acto de submissão a estas. Passado algum tempo, em Janeiro de 1856, António Vicente da Cruz volta a mostrar a sua lealdade aos portugueses ao mandar prender, por ordem do Governador de Tete, o Tenente do Exército Alves Barbosa, que se acolhera na sua aringa e tentava aliciá-lo a guerrear Tete. Ainda nesse mesmo ano, solicita uma bandeira portuguesa para hastear nos seus domínios. A culminar toda esta submissão paga os arrendamentos dos seus prazos, que estavam em atraso, bem como as dívidas do seu pai à Fazenda Pública, caso raríssimo e nunca visto.

Em 1862 é agraciado pelo Governo-Geral de Moçambique em Sargento-Mor de Massangano, facto bastante vulgar naquela época. No entanto António Vicente da Cruz tinha um feito despótico, sendo frequentes incursões suas aos prazos vizinhos e, na sua área de influência, em Massangano, o seu modo de governar era cruel, baseado no terror e assassinato, enfeitando as paliçadas da sua aringa com caveiras.


A partir de 1867 entra em conflito aberto com as autoridades de Tete, começando por se recusar a pagar à Fazenda qualquer tipo de imposto. Após outros conflitos, Miguel Augusto Gouveia, Governador de Tete, decide-se por uma operação militar contra o prazo de Massangano, assumindo pessoalmente o seu comando. Esta primeira incursão militar salda-se num desastre total para as forças portuguesas, que foram chacinadas pelas gentes do "Bonga", em 06 de Julho de 1867, culminando com o aprisionamento e morte, sob tortura, do próprio Governador Miguel Augusto Gouveia, para além de terem sido mortos mais cinco oficiais, três sargentos, cinco cabos, dezoito soldados regulares e cerca de 300 soldados auxiliares, para além do diverso material de guerra que caiu nas mãos do "Bonga".

Para se vingar desta humilhação, o Governo de Moçambique ordenou uma segunda expedição militar contra Massangano comandada, agora, pelo Tenente-Coronel João José de Oliveira Queiroz. Em Dezembro de 1867 chegam às portas de Massangano mas também não conseguirão levar de vencida as forças do "Bonga", acabando por se retirarem, derrotados, em 01 de Janeiro e 1868, depois de travados alguns combates. 

Em Fevereiro deste mesmo ano (1868) promove-se uma terceira expedição contra Massangano, desta vez comandada pelo Tenente-Coronel Guilherme de Vasconcelos. Em finais de Julho de 1868 o corpo expedicionário acampa frente à aringa do "Bonga" e prepara-se para o assalto, contando também com o apoio de forças auxiliares do prazeiro Manuel António de Sousa*. Após se terem travado diversos combates, em 05 de Agosto de 1868, as forças do "Bonga" derrotaram em toda a linha, as forças portuguesas, matando inclusivamente o comandante da expedição, o Tenente-Coronel Guilherme de Vasconcelos, para além de mais dezoito oficiais e sargentos e duzentos e vinte e dois soldados regulares, havendo ainda a contabilizar o abundante material de guerra que ficou na posse das gentes do "Bonga", naquela que foi considerada uma das maiores derrotas militares dos portugueses em Moçambique.


Em 1869 lança-se a quarta expedição militar contra o "Bonga" reunindo, os portugueses, tropas da metrópole, da Índia e do contingente moçambicano, entregando-se o comando da mesma ao Tenente-Coronel Tavares de Almeida. Desencadeado o ataque contra Massangano, a 22 de Novembro de 1869, salda-se de novo em fracasso para as forças portuguesas que, batidas, retiram-se em desordem, quatro dias depois, deixando no terreno sessenta mortos contabilizados, entre oficiais, sargentos e soldados e, como sempre, mais material de guerra abandonado.

Acabando por se estabelecer uma paz fictícia, em Julho de 1872 uma pequena coluna militar portuguesa, comandada pelo Alferes José Rodrigues Rego, atacou aldeamentos submetidos à área do "Bonga" e, dos combates travados, acabou por sofrer sete mortos. Em acto de retaliação, Tete é atacada pelas gentes de Massangano, a 02 de Agosto de 1872, mas consegue resistir ao cerco. Seguiu-se um período de acalmia e, em Janeiro de 1875, por iniciativa do "Bonga", este acaba por firmar, mais uma vez, a paz com o Governador de Tete.


Mantendo, desde então, uma relação pacífica com os portugueses, António Vicente da Cruz viveu os último anos da sua vida em Massangano, onde vem a falecer em 08 de Setembro de 1879, sem nunca mais ter originado conflitos.



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Vila de Zumbo - A área onde se situa a vila de Zumbo foi doada aos portugueses pelo Monomotapa Panzagute, no tempo do Rei português Dom Sebastião e correspondia ao antigo Império Daúde. O primeiro colonizador foi uma natural de Goa, de nome Francisco Pereira, de alcunha "Chidalea" que construiu, em 1710, uma povoação comercial na ilha Chitakativa, na confluência dos rios Zambeze a Arângua, referida por Méroé. Estabeleceu-se aí um presídio* com um Capitão-Mor e, nos primeiros tempos, a Capitania era referida por Ilha de Méroé. Em 1720 o Zumbo foi atacado por forças do Reino de Changamire* mas, no decurso desse século, acabará por beneficiar da protecção militar deste Reino, que tinha aqui a sua principal plataforma de exportação dos seus produtos tendo-se, em 1731, construído uma escola de artes e ofícios. O Zumbo atinge o seu apogeu entre 1730 e 1760 e vivia, essencialmente, do comércio do ouro, marfim*, panos e escravos. Em 27 de Abril de 1763 a povoação foi elevada à categoria de vila.

Em Março de 1804 o Régulo Buruma III ataca e arrasa o Zumbo que, na altura, era governado por José Pedro Diniz, o qual só se salvou por ter fugido a nado e acolhido pelo Régulo Inhapende. No contra-ataque luso, o Capitão-Mor João Baptista Octaviano Reis Moreira consegue derrotar, em finais deste mesmo ano, as forças de Buruma. Em 1813 o Zumbo é  de novo destruído pelas forças do Régulo Buruma IV, o qual mantém o território a ferro e fogo até 1818, ano em que acaba derrotado pelos portugueses, refugiando-se na sua aringa. Em 1830 Buruma IV volta a atacar o Zumbo, mas acaba morto na contenda. Em 1836 o Zumbo é, de novo, atacado e destruído, por completo, pelas forças do regulado de Buruma. Os portugueses tornam a abandonar a vila, que só foi reocupada em 1862 pelo capitão-Mor de Tete, Albino Manuel Pacheco. O marfim volta a correr na vila, havendo registos que no ano de 1864 foram abatidos 2.000 elefantes, que produziram 1.700 arrobas* de marfim.

Em 1889 é criado o Distrito do Zumbo, tendo sido nomeado como primeiro Governador o Tenente Luís Inácio, bem como se concluiu a construção do forte "Dom Afonso", fim de fazer frente à influência britânica. O Distrito foi delimitado com base no desmembramento de áreas do Distrito de Tete, sendo o mesmo dividido em dois comandos militares, um sedeado em Mucheza e outro na foz do rio Cafucué. Com a revolta do Reino do Barué*, em 1917, o Zumbo foi, de novo, totalmente destruído e só com o findar daquela sublevação é que a vila se reorganizou de novo. 


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Cidade de Tete - Situando-se na margem direita do rio Zambeze e a 175 metros cima do nível do mar, o povoado de Tete já existia quando os portugueses aí chegaram, ao pretenderem atingir o Reino do Monomotapa. Em 1563 o Rei de Portugal Dom Sebastião doou a Igreja de São Tiago Maior de Tete aos jesuítas. Por volta de 1608 construiu-se o forte de "São Tiago" do Presídio de Tete.



Em meados do século XVII, devido à sua situação geográfica privilegiada, Tete era o lugar donde irradiavam os caminhos comerciais para o interior e, por isso, reunia-se neste povoado o ouro e o marfim de diversas feiras do Reino do Monomotapa. A povoação de Tete foi elevada a vila por Carta Régia de 09 de Maio de 1761. Em meados de 1860 residiam, em Tete, cento e dezasseis europeus. A vila foi elevada a cidade pela Portaria nº 13.043 de 21 de março de 1959. 



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Brasão de armas de Tete - Composta de prata, possui uma torre vermelha aberta e iluminada de ouro, ladeada por duas cruzes de São Tiago. A coroa mural é de prata com quatro torres e o listel branco tem gravado a negro "Vila de São Tiago de Tete".


Nota: aquando da elevação a "cidade" no listel passou a constar  esta palavra em vez de "vila".



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* - Já fichado.
** - A abrir ficha.


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PINTURA

Hugo Seia - Natural de Maquela do Zombo - Angola, acabou por seguir as pisadas do pai e dedicou-se à caça grossa. Aos oito anos abateu o seu primeiro golungo  (antílope) e, vinte anos mais tarde, tornou-se caçador profissional. Depois de ter deixado Angola, aquando do eclodir das guerras derivadas da descolonização, percorre outros países africanos onde vai exercendo o seu mister.


Pintura de Hugo Seia


Mas não é da sua actividade predadora (da qual sou abertamente contra) que falo dele. Hugo Seia tem uma outra faceta que me apaixona: é pintor. Para mim não é só um pintor. É um pintor fabuloso. Não conhecia a sua arte quando, ao navegar por sítios da rede relacionados com Angola (tendo como bússula o sítio da poetisa Ana Paula Lavado), tropecei na sua galeria. E fiquei seduzido. Só tenho pena de não ter dinheiro para adquirir um quadro seu. Aqui fica uma sugestão: visitem a  galeria dos seus quadros. Vale a pena. 


Pintura de Hugo Seia


E assim Hugo Seia, de quem nunca tinha ouvido falar tornou-se, para mim, no binómio Deus/Diabo, enquanto pintor e caçador.


Como réstea de consolação para um conservacionista como eu direi que, ao menos a actividade cinegética valeu-lhe para fixar, em tela, pinturas espectaculares da fauna africana. Que está a desaparecer a uma voragem incontrolavelmente estúpida. 

A fauna, não a pintura.



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POESIA



Viriato Clemente da Cruz - (Porto Amboim, 25.03.1928 - Pequim, 13.06.1973) - Político e poeta. Tendo crescido num seio familiar com enormes dificuldades financeiras, mesmo assim ainda efectua estudos liceais. No início da década de 50 estabelece contactos com personalidades que lutavam contra o sistema colonial português e, no final dessa mesma década, foge de Angola e atinge Paris, onde trava conhecimento com Mário Pinto de Andrade. Está na primeira linha da fundação exterior do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola (1960) e assume o cargo de Secretário-Geral. Nesta qualidade desloca-se à China em busca de apoios para o Movimento e torna-se simpatizante da revolução chinesa e das teses políticas de Mao-Tsé-Tung. No regresso acaba por abandonar o secretariado do MPLA, em 1962, por divergências políticas com o Presidente do Movimento, Agostinho Neto, este defensor da linha moscovita. No ano seguinte é expulso do MPLA, e acaba por fixar residência, em Pequim, sob protecção das autoridades chinesas em plena Revolução Cultural (1966), os quais pretendiam utilizar o seu prestígio africano como uma das pontas de lança da penetração das teses maoístas neste continente. No entanto Viriato da Cruz virá a entrar em discordância com a linha política chinesa e acabará preso  em domicílio fixo e, posteriormente, remetido para um campo de trabalhos forçados, onde virá a morrer, auxiliado pela fome e maus tratos.


Como poeta deu um contributo importante para a afirmação da existência duma cultura de angolanidade. A Casa dos Estudantes do Império publicou, em 1961, num pequeno caderno denominado "Poemas", a sua obra poética, podendo a mesma ser encontra, na sua totalidade, no Volume II do "Reino de Caliban", uma monumental compilação poética feita por Manuel Ferreira.


Destaco dois poemas de Viriato da Cruz, o "Mãe Negra" e "Namoro". O "Mãe Negra" (o meu favorito de toda a sua obra) é a sua vertente poética universal, que ultrapassa as fronteiras angolanas, um cântico denunciador da globalização da escravatura mas também, em resgate final, de esperança num futuro vindouro.

Mãe Negra (Canto de esperança)


Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça
drama de carne e sangue
que a Vida escreveu com a pena de séculos.


Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais dos seringais dos algodoais....
Vozes das plantações da Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos banguês dos tongas dos eitos dos pampas das usinas
Vozes do Harlem District South
vozes das sanzalas.
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando dos vagões
Vozes chorando na voz de Corrothers:
"Lord God, what will have we done"
Vozes de toda a América. Vozes de toda a África.
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
na bela voz de Guillén...



Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aos sóis mais fortes do mundo
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor amaciando as mais ricas terras do mundo
Rebrilhantes dorsos (ai a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no tronco, pendentes da forca caídos por Lynch
Rebrilhantes dorsos (ah, como brilham esses dorsos),
ressuscitados com Zumbi, em Toussaint alevantados.
rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música
... do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...



Pelo teu regaço, minha Mãe
Outras gentes embaladas,
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos, poetas e sábios...
outras gentes...não tem filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias
mais são filhos da desgraça
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo.




Pelos teus olhos, minha Mãe,
Vejo oceanos de dor
claridades de Sol posto, paisagens
roxas paisagens
dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo também (oh se vejo...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus olhos ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza ...
cintilantemente firme - como a Esperança ...
em nós outros teus filhos,
gerando, formando, anunciando
o dia da humanidade,
O DIA DA HUMANIDADE.



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Namoro


Não transcrevo o poema "Namoro" pois o mesmo encontra-se legendado no vídeo seguinte, que se reporta à versão excepcionalmente musicada e interpretada por um dos meus cantautores favoritos: Fausto Bordalo Dias






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Sobre Fausto Bordalo Dias chamo a atenção para um excelente trabalho (como sempre) que ele lançou há uns anos atrás, com o título "A preto e branco", onde musicou e interpretou diversos poetas angolanos.


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LEITURAS




Não sou um especialista da obra épica "Os Lusíadas" de Luís de Camões. Nem um leitor frequente da mesma. Bem como o mesmo se passa com os seus restantes escritos, exceptuando os sonetos que, volta não volta, gosto de os ler.


Sobre os "Lusídas" conheço algumas passagens do livro, sei que o mesmo tem dez cantos - (contrariamente a uma certa personalidade da nossa praça política, que disse que tinha nove cantos - quem foi quem foi?, ofereço um doce a quem acertar na resposta e dou uma ajuda: gosta de comer bolo-rei, raramente se engana, e quase nunca tem dúvidas, não gosta de ler jornais, queixa-se que vive com dificuldades e tem um lote de conhecimentos de pessoas que venha o Diabo e escolha; quem é quem é?, branco é galinha o põe.) - num dos quais (o nono) fala da "Ilha dos Amores"  (pronto já cá faltava a pornografia; se calhar foi por isso que o outro não passou daí) e que é uma obra universal e canta a história de Portugal e a sua gesta marítima. E, praticamente, acaba-se aqui a minha cultura camoniana, salvo uma ou outra estrofe que sei de cor, para impressionar alguém.

Ora bem, ao passar num alfarrabista, tropecei num livro com um título interessante, que comprei e dei-lhe uma leitura em diagonal. Trata-se de "Camões contra a expansão e o Império: os Lusíadas como antiepopeia" da autoria de José Madeira, editado pela Fenda, em 2000 e com 261 págs., onde o autor explica que, afinal, o grande vate era contra a expansão portuguesa, indo buscar citações do mesmo nos Lusíadas para fundamentar a sua tese. Que, no entanto, não me convenceu.

Tenho para mim, do pouco que sei, que os "Lusíadas" são uma obra que canta a Lusa Gesta. No entanto e porque não sou nenhum especialista nesta matéria (serei nalguma?) chamo a atenção para este livro porque a tese que aborda raramente se encontra alguém disposta a defendê-la. Daí a sua originalidade. Pelo menos, só por isso, já vale a pena comprá-lo.



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PLANETA AZUL



A Terra não é uma herança dos nossos Pais mas um empréstimo que pedimos aos nossos Filhos
(autor desconhecido).


E já que falámos de conservação das espécies (a propósito da actividade de Hugo Seia) recordemos "As baleias", uma música fabulosa, interpretada por Roberto Carlos.




Não sou contra a caça à baleia, desde que a mesma seja feita artesanalmente e como forma de subsistência duma comunidade. Era o caso das ilhas centrais do arquipélago açoreano, por exemplo. Mas como para determinadas decisões somos mais papistas que o Papa, tratámos logo de proibir tal actividade. Em nome da preservação das espécies. E depois temos a frota pesqueira japonesa (por exemplo) que são autênticas fábricas bombardeiros, a passar e a passear-se por todas as águas do planeta e a chacinar as baleias todas que apanham. 


Os nossos lideres políticos são suficientemente cobardes e japónico-dependentes para dizerem algo que seja incómodo aos japoneses, não vão eles ficarem ofendidos. Mas para as comunidades piscatórias açoreanas, que pescavam duas ou três baleias por ano pois apenas usavam meios artesanais e não punham em causa o ecossistema... aí, já os nossos "Queridos Líderes" souberam falar grosso.
  


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ACONTECEU




Manifes - Contava o  meu pai que no "tempo da outra senhora" chegou a acontecer-lhe, uma vez, ir a passear na rua com um amigo, em Lisboa, a conversarem calmamente e terem sido abordados por dois elementos que se identificaram, como sendo da PIDE. Depois de logo separados uns metros um do outro, cada um dos esbirros perguntou do que estavam a falar e, após de terem confirmado que ambos tinham dado a mesma resposta, deixaram-nos seguir. O meu pai, que era um simpatizante do salazarismo e do Estado Novo, esclareceu que esta era uma medida de segurança estúpida, pois os verdadeiros oposicionistas ao regime, quando circulavam na rua combinavam de antemão qual era o tema da conversa para o caso de serem abordados (geralmente era futebol) e só então falavam do que os tinha levado a reunirem-se. 

Vem isto a propósito da PSP ter identificado  meia dúzia de pessoas e constituído arguido uma delas (por desobediência à autoridade), por andarem a distribuir panfletos no Centro de Emprego do Conde Redondo, em Lisboa. E, segundo a PSP, tal actuação baseou-se num parecer da Procuradoria Geral da República (de 1989) que refere: "Manifestação será o ajuntamento em lugar público de duas ou mais pessoas com consciência de explicitarem uma mensagem dirigida a terceiros". Por isso, para a PSP: "Duas pessoas já  fazem uma manifestação." (sic). (Artigo do Expresso de 12/05/2012)

Não sei porquê lembrei-me da história que o meu Pai contava dos PIDE´s. E, não sei como, em holograma, dei-me a vê-lo sentado à minha frente, a sorrir ironicamente, e a dizer-me: "Mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades."

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Amizades - Pessoa amiga enviou-me um "mail" onde consta um despacho conjunto dos Secretários de Estado do Ensino Superior (João Rodrigues Queiró) e da Secretária de Estado da Ciência (Maria Leonor Parreira), despacho esse que tem o nº 774/2012 e datado de 11/01/2012, publicado no DR 2ª Série nº 14 de 19/01/2012, onde nomeiam Helena Isabel Roque Mendes para exercer determinadas funções na área de informática com um vencimento mensal de 1.575,00 euros.

Até aqui nada de  especial, chamando no entanto a atenção para o nº 3 do referido despacho que diz: "Nos meses de junho e novembro, para além da mensalidade referida no número anterior, será paga outra mensalidade de  E$ 1.575,00 (mil e quinhentos e setenta e cinco euros) a título de abono suplementar." (Nota: O sublinhado e em negrito é da minha lavra.)



Mas então, se àquilo se chamasse subsídio de férias e de Natal (que é do que verdadeiramente se trata), já não os podia receber, não era? Agora como é "abono suplementar" já pode pingar na conta da funcionária. E se os senhores governantes deixassem de ser a cambada de hipócritas e mentirosos que são?


Não sei porquê, deu-me para lembrar dum provérbio que diz "Amigos amigos, subsídios à parte" ou qualquer coisa parecida.



A findar duas observações: A) este apontamento não pretende visar directamente a funcionária nomeada para o cargo, mas sim o modo como os nossos políticos torneiam a Lei; B) Esta matéria não é secreta de modos fica um aviso ao nosso "James Bond de pacotilha", o inefável espião Silva Carvalho, que escusa de mandar "sms" para Miguel Relvas a par de pedidos de cunhas a informá-lo desta situação e para a Ongoing a troco duns miseráveis milhares de euros mensais.



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Ponto Contra Ponto - É um programa televisivo, concebido e apresentado por José Pacheco Pereira, de curta duração (cerca de 15/20 minutos), apresentado na SIC Notícias e transmitido aos Domingos às 21H30. Apesar de, politicamente, não concordar com diversos pontos de vista que ele defende não deixo de reconhecer, no entanto, que é um intelectual na sua plena soberania, sendo dos que pensa pela sua própria cabeça. Vejo-o como um homem livre, que não se deixa tolher pelas amarras da sua opção ideológica. Uma pessoa que se deve escutar com atenção. Mesmo que não concordemos com os seus pontos de vista. E até por isso mesmo.


Vem isto a propósito do programa "Ponto Contra Ponto" que ele apresenta. Um excelente momento de televisão, bem explicado, bem fundamentado e que eu, sempre que tenho oportunidade, vejo. Um programa que me põe a pensar, que me elucida, e que aborda assuntos interessantes. Este Domingo passado (13/05) por exemplo, o tema foi a actividade da censura no tempo do Estado Novo e de como essa mesma censura é aplicada em regimes democráticos, como nos EUA.


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Guerra na imprensa - Lembro-me, quando eu era miúdo (há mais de quinhentos anos, como o tempo voa) que uma das discussões que havia entre nós era de andarmos a discutir quem tinha o pai mais forte, ou mais rico ou "mais grande". Parvoíces mas que na altura tinha, para nós catraios de meia dúzia de anos, muita importância. Dava estatuto poder impôr que o nosso pai era mais isto ou aquilo que os pais dos nossos companheiros de brincadeiras. 


Nem de propósito: circulou há tempos na "rede" uma anedota em que aproveitando uma campanha publicitária da EDP  em que aparecem miúdos a dizerem que o pai ou a mãe são muito fortes porque constroem barragens, mais isto e aquilo, logo surgiu uma imagem dum miúdo chinês a dizer "o meu pai manda nos pais deles". Elucidativo.


Bem, toda esta lenga-lenga para dizer que cansa-me andar a ler, quer na "Visão" quer na "Sábado", anúncios auto-proclamativos a dizerem "eu vendi mais números esta semana que a outra" ou "neste mês nós batemos o recorde de vendas, segundo os dados da entidade tal", e por aí fora. Já fede. Parem de morderem-se e façam o vosso trabalho: boas reportagens, notícias isentas e bom jornalismo de investigação. É difícil? Se acham que não é... façam-no. Se acham que é... façam-no na mesma. Senão, fechem as portas, porque não servem para esta nobre profissão.


Mas parem de se armarem em campeões de vendas. Não é por uma andar a perorar que vende mais que a outra que leva uma pessoa a escolher esta ou aquela revista. O que eu quero ler são notícias, baseadas na trindade acima enumerada.


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Kalpana Saroj é uma empresária indiana, cuja empresas movimentam milhões de dólares/euros. Nada de especial até aqui. Mas esta mulher é notícia porque a sua origem social é dos  escalões mais baixo da sociedade indiana. Forçada a casar aos doze anos, com dezoito era costureira numa favela, em Bombaim. Conseguindo um pequeno empréstimo estatal, foi reinvestindo o mesmo noutras actividades, aumentando o seu cabedal financeiro até ter comprado uma empresa falida que rentabilizou. Hoje, aos 50 anos,  é multimilionária. (Revista Sábado nº 419).



Kalpana Saroj, no contexto social hindu, é uma "dalit" (intocável, impura), a classe* mais sofredora e desprezada das existentes. Existem apenas no contexto tradicional já que, legalmente, foram abolidas após a proclamação da independência. Mas, lamentavelmente, existem.


Em trinta anos esta mulher passou dum estado de pobreza total para um estado de riqueza total. Contrariamente a nós, enquanto País, que passámos dum estado aproximado da estabilidade financeira para o de indigência total. E, de repente, dei-me a fantasiar: será que não podíamos exportar para a Índia quase toda a nossa classe política, banqueira, empresarial do sector da construção civil  e judicial em troca desta mulher, que viria para nossa Primeira-Ministra? 


De certeza que perdia a Índia, mas nós... não. Infelizmente isto não passou duma fantasia momentânea.  Tinha adormecido no sofá e, quando acordei, estava o Primeiro Ministro (o nosso) a falar, patati patata etc. e tal nham nham nham. Desligei o televisor e voltei a deitar-me no sofá. Afinal, acordados, também temos pesadelos.


* - A corrente religiosa hinduista, refere que a sociedade encontra-se dividida em quatro castas principais, todas originadas de Brhama, o Deus supremo: "Bramânes" (sacerdotes) que vem da cabeça, "Kshatrias" (guerreiros) originários dos braços, "Vayshias" (comerciantes) originários das pernas e "Sudras" (operários, camponeses e artesãos) originados dos pés. Quando Brhama se deslocava levantava poeira e, desta, derivaram os "dalits", que são os impuros, intocáveis, pois não derivam directamente duma das partes do corpo de Brhama e, por isso, são desprezados por todos os outros.


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Leio (DN, 16/05/2012) que a Rainha Sofia de Espanha já não vai assistir às celebrações do sexagésimo aniversário do reinado de Isabel II do Reino Unido, porque existem tensões entre estes dois países por causa da soberania de Gibraltar. O mesmo acontecera em 1981 quando os reis espanhóis não foram ao casamento da Diana e do Carlos, porque estes disseram que iam passar a lua-de-mel em Gibraltar.


Isto realmente é um aborrecimento. Coitados dos reis não poderem andar a passear e irem a festas uns dos outros à conta do erário público, para comerem, beberem e ... sei lá o que mais. Como republicano dos quatro costados e até à medula dos ossos que sou... estou solidário com os monarcas e cheio de pena deles. Então, não?

Bom, mas voltemos à vaca fria. Gibraltar é um calhau (sem olhos), localizado no Mediterrâneo, governado pelo Reino Unido mas que Espanha reinvindica como seu território e, como tal, faz finca-pé desta sua pretensão.

Então, uma pergunta: E Ceuta, que fica no Norte de África e que é governada por Espanha, não é território marroquino?

E outra pergunta: Olivença, não é território português? Ah, mas com Olivença estão os espanhóis descansados. Os políticos portugueses jamais os irão incomodar com tal situação, porque são cobardes e espanholo-dependentes demais para ousarem a tanto. Quase que só falta pedir-lhes desculpa por seremos, na Península Ibérica, (teoricamente) independentes. Até já mexeram no feriado do 1º de Dezembro, onde se comemorava a Restauração da nossa independência contra o domínio espanhol.   

Pela norma da Constituição Olivença, sendo território português, é inalienável; no mapa de Portugal o traçado da fronteira da zona de Olivença está interrompido (deve ser caso único no mundo ocidental) mas os anos vão passando e nada se mexe. Para não incomodar os "nuestros hermanos".

Neste caso eu sou mais radical: acabe-se com esta hipocrisia política e, definitivamente, considere-se Olivença terra esponhola (nem que seja por usucapião), retire-se o artigo da Constituição na proxima revisão e desenhe-se, de vez, o traçado fronteiriço. Que hoje em dia também já não tem razão de existir.



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FOI ESCRITO



Leio, no Expresso de 12/05/2012, uma coluna de opinião demolidora assinada por Ricardo Costa, sob o título "Não há e-mails grátis" do qual transcrevo duas partes:


"...Um grupo empresarial com a mania das grandezas contratou um espião com a mania das grandezas, fechou a norma da decência num cacifo e deitou fora a chave. Juntos acharam que iam conquistar o mundo, munidos de aventais. Quebraram tantas regras em tão pouco tempo que foram apanhados..."  ////// ".... convém lembrar: no dia 23 de Julho de 2011 o Expresso escreveu que Silva Carvalho tinha passado informação à Ongoing antes de ser contratado. No dia 30 de Julho escrevemos que os serviços lhe continuavam a passar informação. O que aconteceu? Nada. Relatórios miseráveis, sindicâncias incompetentes, protecção de superiores e um ámen envergonhado do Governo. E espero que tenham corado com a  acusação." 


Como sempre, Ricardo Costa não  me desiludiu. Fazem falta mais jornalistas deste jaez. Nesta mesma edição o Expresso, mais uma vez, apresenta um excelente resumo esquemático de toda esta trama que envolveu serviços secretos, espionagem comercial/industrial, sexo, maçonaria, cunhas, favorecimentos de empregos, compadrios, incompetência dos serviços de fiscalização parlamentares, etc. e tal. 


Digno duma trama à John Le Carré. Mas para quê comprarmos livros deste autor? Basta viver em Portugal.


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Já a entrevista que Vasco Rato, administrador da Ongoing, dá à Sábado e publicada no nº 420 deste semanário, é o costume. O homem conhecia o "James Bond de pacotilha", almoçou com ele, apresentou-o ao PM, recebeu relatórios dele, patati patata etc. e tal nham nham nham, hoje não gosta dele, está arrependido de o ter apresentado ao PM, patati patata etc. e tal nahm nham nham. Enfim... o costume. São todos inocentes, puros e sãos. Mas agora, neste momento, o "Jorge Silva Carvalho não é um gajo que eu aprecie." (sic) segundo o dito cujo Vasco Rato, neste entrevista.


Comentários... para quê?




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Seja amigo do ambiente. Utilize os textos do Novo Acordo Ortográfico como papel higiénico.



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As referências aos produtos acima referidos (livros, filmes, músicas, etc.) são incompatíveis com intuitos publicitários de carácter comercial. Reflectem, apenas, a opinião do Autor.

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Todas as fotos do presente texto foram colhidas do Google Imagem e os vídeos do Youtube.


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