Caldas
Xavier –(Lisboa,
25/09/1852 – Lourenço Marques, 08/01/1896 – Alfredo Augusto Caldas Xavier) –
Oficial do Exército Português (Major). Nascido em Lisboa, Alcança a patente de
Alferes em 1875, após ter ingressado na Escola de Exército e, no ano seguinte,
é colocado em Moçambique, onde efectua diversos estudos para a implantação do
caminho-de-ferro de Lourenço Marques. Em 08 de Agosto de 1884, sendo
Administrador do prazo* Maganja, no Chire, sofre a invasão de inúmeras forças
vindas da revolta do Massingir, calculadas em milhares de homens, resistindo
vitoriosamente, apenas com mais dois companheiros (um irmão cego duma vista e
um funcionário inglês) e um pequeno pelotão composto por cerca quinze
atiradores nativos da Companhia da Zambézia*, até ter sido socorrido por uma
coluna vinda de Quelimane*. Administra a Companhia do Ópio, até 1886, tendo-se
exonerado nesse ano. No ano seguinte segue para a Índia, chefiar os Caminhos-de-Ferro
de Mormugão e, em 1890, integrado na comissão de delimitação das fronteiras de
Moçambique, regressa a este território, já com a patente de Capitão. Comanda as
forças portuguesas do Batalhão de Voluntários de Lourenço Marques, que travam o
combate de Macequece**, donde sai derrotado, em Maio de 1891. Já com a patente
de Major e após uma breve estada na metrópole, regressa de novo a Moçambique, e
em 1894 assume o comando de defesa de Lourenço Marques. De seguida combateu nas
campanhas militares contra os vátuas de Gungunhana*, tendo travado o combate de
Marracuene. De seguida integra a coluna do Coronel Eduardo Galhardo no avanço
que este executa, pelo norte, contra o Reino de Gaza*, tendo ficado num sector
mais recuado, como responsável pelo sector dos transportes e alimentação,
atendendo ao seu estado de saúde. Quando a coluna se encontrava na zona de
Inhambane*, Caldas Xavier piorou, pelo que teve que regressar a Lourenço
Marques, onde veio a falecer pouco depois. Era possuidor, entre outras
condecorações, da Torre e Espada.
Chopes – No decorrer do século XVII
predominavam os chona-carangas na planície do Bilene, bem como na zona entre o
rio Limpopo e Inhambane*. Neste mesmo século, com a chegada de angunes* do clã “n´cuna”, tornou-se natural o seu
cruzamento o qual teria dado origem aos “Bila–N´culo”,
donde o nome da localidade de Vilanculos, povo proto-chope, tendo estes dominado
a planície do Bilene até ao início do século XVIII. A partir desta data chegam
outros povos dominantes, derivados dos Venda e Lobedo e, posteriormente, os Valois
e os Langa, um tronco dos cossa*. A tecelagem e apicultura, faziam parte das
actividades económicas dos chopes, cuja palavra deriva de “ku-txopa” (língua tswa), surgida no
século XIX, e que significa “atirar setas”.
Mas foi nas artes musicais que este povo atingiu a sua máxima expressão
artística, através da utilização concertada das timbilas** e dos tambores,
acompanhadas de danças coreografadas. Os chopes viviam em tribos autónomas umas
das outras e só no século XIX é que no regulado de Cambamda-Mondlane se tentou
a sua unificação, mas mesmo assim numa zona restrita. As invasões angunes
fraccionam os chopes e os que não se refugiaram nas áreas de influência
portuguesa acabaram chacinados pelos angunes, principalmente do reinado de Gungunhana*
que, em 1895, mandou os seus homens conquistar os cocolenes chopes, que
Binguane, Régulo* de Cambamda-Mondlane, tinha mandado instalar e reforçar, para
resistir aos angunes. Os chopes pagaram um elevado preço por esta resistência,
tendo sido massacrados aos milhares, em violentas lutas travadas nos cocolenes,
pela sua integridade territorial, tendo os sobreviventes sido vendidos como
escravos, por ordens de Gungunhana.
Cocolene – Paliçada
de troncos de árvores que protegiam os aldeamentos chopes. O mesmo que cocolo.
Combate de Cunenvecujana –Combate travado entre os dias 17 e 20
de Agosto de 1862 que opôs as forças de Muzila às de Maueva, em Cunenvecujana,
na zona da Moamba. Apoiado com material de guerra pelos portugueses e gentes de
João Albasini*, Muzila derrota o seu irmão e, após a vitória, ascende ao trono
do Reino de Gaza*.
Combate
deCoolela – No dia 07 de
Novembro de 1895, travou-se uma batalha entre as forças portuguesas, comandadas
pelo Coronel Eduardo Galhardo* e as colunas fiéis a Gungunhana*, junto dumapovoação com o mesmo nome e que dista
cerca de doze quilómetros da vila de Manjacaze, a fim de tentarem travar o
avanço da coluna portuguesa. Foi a primeira e única vez em que os regimentos de
Gungunhana*, entraram em confronto directo com forças militares portuguesas,
que culminaram com a vitória destes. Foi uma derrota pesada para os angunes*,
atendendo à desproporção de forças entradas em combate: uma média de dez mil
guerreiros angunes e de outros povos submetidos, contando com duas a três mil
espingardas e a combaterem no seu terreno contra a força portuguesa que englobava
cerca de mil homens, divididos em metade de infantaria europeia e outra metade
de forças nativas irregulares, para além dum reduzido número de homens de cavalaria
e quatro a seis peças de artilharia. Poder-se-á atribuir a derrota não à falta
de coragem das impis* mas sim ao elevado número de combatentes de outros povos
submetidos que não terão mostrado grande resolução em se sacrificarem pelos
opressores angunes, para além duma falta de liderança forte no comando das
forças, atendendo a que o seu chefe supremo, Maguiguana*, encontrava-se
ausente. O combate durou cerca de uma hora, tendo os portugueses sofrido cinco
baixas e noventa e seis feridos e as forças rebeldes terão sofrido cerca de quatrocentos
mortos e seiscentos feridos.
Combate
de Magul – Batalha travada em 08 de Setembro de 1895, em Magul,
entre as forças portuguesas, comandadas pelo Major Freire de Andrade e as forças
rongas aliadas de Gungunhana, estando estas comandadas por Matibejana e
Nonduane, em número calculado em cerca de seis mil homens, tendo o desfecho
sido desfavorável às forças destes. Neste combate achavam-se presentes impis*
angunes* de Gungunhana*, mas limitaram-se a assistir ao confronto, não tendo
intervido. A não intervenção das forças de Gungunhana no combate, apesar de
terem assistido à derrota dos seus aliados, ter-se-á prendido com o cumprimento
expresso de ordens do Rei angune, que ainda aspirava a uma solução negocial e
pacífica com os portugueses. As forças rebeldes calcula-se que sofreram cerca
de três mil mortos, tendo morrido cinco portugueses. Em 08 de Setembro de 1909,
quando se inaugurou o monumento de Magul, comemorativo desta vitória, trasladaram-se
as ossadas destes cinco portugueses, que ficaram definitivamente enterradas na
base do monumento.
Combate
de Marracuene –Batalha
travada entre forças portuguesas, comandadas por Caldas Xavier e forças rongas,
calculadas em cerca de três mil homens, comandadas por Mazule e Matibejana, em
02 de Fevereiro de 1895, que culminou com a vitória dos primeiros, sendo esta a
primeira derrota de forças aliadas a Gungunhana* e na qual os seus regimentos
não tiveram qualquer tipo de participação. Na madrugada do dia 02 de Fevereiro
de 1895 guerreiros rongas eliminaram sentinelas do acampamento português e,
vestindo as suas fardas, lançaram um ataque ao romper do dia. No entanto,
aplicando a táctica do quadrado, as forças portuguesas conseguiram debelar esse
e outros ataques subsequentes, acabando por regressar, vitoriosas, a Lourenço
Marques, dois dias depois. Mazule e Matibejana, bem como as suas forças, foram
perseguidos por forças dos régulos* da Matola e Maputo, tendo-se asilado em terras
de Gungunhana. A vitória dos portugueses trouxe, independentemente do factor de
recobro moral para a sua causa, uma expectativa de esperança para os povos que
se encontravam directamente oprimidos pelo Reino de Gaza*. Posteriormente, para
comemorar essa vitória foi erigido, no preciso local do combate, um monumento
evocativo, com o formato de uma pirâmide quadrangular, com dois metros de
altura e treze metros de lado, precisamente a medida da largura do quadrado
montado pelas forças portuguesas. A localidade de Marracuene viu, também, o seu
nome mudado para Vila Luísa, em homenagem à filha do Comissário Régio António
Enes*.
Freire
de Andrade – (Figueira da Foz, 19/12/1859 – Lisboa, 1929 -
Alfredo Augusto Freire de Andrade) - Oficial do Exército Português
(General) e Engenheiro. Ingressou voluntariamente no Exército em 1877 e, nos
onze anos seguintes, concluiu os cursos de Engenharia Militar na Escola
Politécnica, de Oficial da Escola do Exército e de Engenharia Civil de Minas, em Paris. Em 1889, com a
patente de Capitão, vem para Moçambique como Comissário Geral de Minas de
Metais e Pedras Preciosas e, no ano seguinte, integra a Comissão de Delimitação
da Fronteira de Moçambique com a República do Transval. Em 11 de Março de 1892
é nomeado Governador do Distrito de Lourenço Marques cargo em que se manteve
até ao ano seguinte altura em que regressa à metrópole onde exerce a actividade
de docência. Em 1895 retorna a Moçambique, integrado na comitiva de António
Enes*, desempenhado algumas missões de passagem tais como Governador interino
de Lourenço Marques e, depois, o de Chefe do Estado-Maior da coluna militar que
trava o combate de Magul, bem como membro da Comissão de Delimitação de
Fronteiras em Manica. Em
1906, com a patente de Major, é nomeado Governador-Geral de Moçambique, cargo
que desempenha nos quatro anos seguintes, retornando a Lisboa, onde vem a
desempenhar outros cargos políticos, tais como Director Geral das Colónias e
Ministro dos Negócios Estrangeiros (1914). Na sua condição de diplomata
defendeu a colonização de Portugal nos territórios africanos junto da Comissão
de Mandatos da Sociedade das Nações.
João Massabalane –(?-?) – Militar de segunda linha. Serviu como
intérprete de Mouzinho de Albuquerque* em Gaza. Em 28 de Dezembro de 1895 integrou as
forças que entraram em Chaimite* e procederam à captura de Gungunhana*. Dois
anos mais tarde, a 10 de Agosto de 1897, na perseguição a Maguiguana* e quando
este, encurralado, tenta alvejar o Alferes Vieira da Rocha não o consegue
porque João Massabalane alveja-o primeiro, baleando-o nas pernas. Em 1902 ainda
promove a prisão dum tio de Gungunhana, o Régulo* Cuio, acusando-o de traição
aos portugueses, no que virá mais tarde a provar-se ser falso e tendo o dito
Régulo sido solto por ordem de Aires de Ornelas**.
Kraal – Cidade
fortificada, aringa*. Termo bóer, que traduzido em português dá “curral”, como
sendo o lugar onde se guardam os animais e se acomodam as pessoas.
Manicusse
–(? - 1858) - Também conhecido
por Sochangane. Fundador do Reino de Gaza*, terá sido um chefe militar que
Shaka Zulu derrotou. Foge deste, face às suas atrocidades, juntamente com
outros chefes tais como Nuqaba** e Zuanguendaba** com quem, por volta de 1820,
rumam para o norte, entrando em Moçambique nesse mesmo ano e instalando-se
junto à baía de Lourenço Marques. Teria, nesta altura, cerca de 30 ou 40 anos
de idade e descendia de Munga Gaza, seu avô e a quem daria o nome do seu Reino,
em sua homenagem. Instala-se na zona da Catembe e é aqui que, em 08 de Outubro
de 1822, é entrevistado pelo Oficial da Marinha de Guerra Britânica W.F.Owen
que percorria aquelas paragens a avassalar régulos* para a Coroa Britânica.
Tendo entrado em conflito com os outros chefes angunes* afasta-se dos mesmos e,
entre 1825 e 1827, instala-se na zona da Moamba e, de seguida, para fugir às
forças de Shaka Zulu**, que o batalham em 1828, vai para as margens do Limpopo,
fundando o Reino de Gaza. Em 1833 as suas impis* atacam o Presídio de Lourenço
Marques* e chacinam a população, incluindo o governador Dionísio António
Ribeiro, mas outros relatos atribuem esta chacina às forças do Rei Dingane,
sucessor de Shaka Zulu. Nesse mesmo ano atravessa o rio Save e fixa-se na
região de Espungabera, onde reside dois anos, tendo sido talvez nesta altura
que muda o seu nome para Manicusse.
Encontra-se, de novo, com as forças de Nuqaba, em 1837, que batalha e derrota-o
a leste de Chipinga, no actual Zimbabwé, após o que retorna para Sul, e funda a
sua capital em Chaimite*, por volta de 1840. O estabelecimento em Chaimite,
acrescido de diversas operações militares que desencadeou em toda a região
provocou um movimento migratório forçado (difacane*) de cerca de cem mil pessoas
que fugiram para o Transvaal. Deixa o seu filho Muzila no norte, a fim de submeter
a região compreendida entre os rios Save e Zambeze, o que este vem a conseguir.
Em 1849 as suas impis derrotam forças portuguesas do Governador de Inhambane
Pereira Chaves, que lhe fizeram frente. Na recta final da sua vida manteve
relações pacíficas com diversos povos, incluindo os portugueses, recebendo
embaixadas de Sena, Sofala*, Lourenço Marques* e de Inhambane*. À data da sua
morte, de doença, ocorrida em 11 de Outubro de 1858, no seu kraal de Chaimite o
seu Reino, com uma estrutura militar tipicamente importada da sociedade zulu, estendia-se
entre os rios Limpopo e Zambeze. Foi sepultado num bosque a cerca de dois
quilómetros de Chaimite, local tumular esse que se tornou sagrado para o seu
povo.
Manjacaze
–Localidade escolhida por
Gungunhana* para instalar a capital do seu Reino e onde residia. Após o combate
de Coolela, em que forças suas foram derrotadas pela coluna comandada por
Eduardo Galhardo*, Gungunhana foge daqui num carro que lhe fora ofertado em
nome da Rainha Victória, da Grã-Bretanha, guiado pelo seu motorista Acamela,
refugiando-se em Chaimite*, onde acabará preso. O kraal de Manjacaze veio a ser
totalmente destruído e incendiado pelas forças portuguesas, em 11 de Novembro
de 1895.
Matibejana
- (? - Angra do Heroísmo, 13/11/1927) – Régulo* ronga da localidade de
Zixaxa, que ficava perto de Lourenço Marques* e aliado de Gungunhana*. Em 14 de
Outubro de 1894 atacou Lourenço Marques, tendo ordenado a morte da sua mãe e um
seu tio, que se opuseram a esta incursão. Posteriormente as suas forças são derrotadas
nos combates de Marracuene e Magul. Tendo procurado refúgio na corte de
Gungunhana, que lho concedeu acaba, mais tarde, traído pelo Rei angune* que, em
acto de desespero para se tentar salvar, o entregou a Mouzinho de Albuquerque*,
quando o mesmo se encontrava sob a sua protecção. Acompanhou, forçado, Gungunhana
no exílio, para a ilha Terceira, no arquipélago atlântico dos Açores -
Portugal, onde veio a falecer, depois de baptizado com o nome cristão de
Roberto. Também referido por Zixaxa,
deixou descendência, que ainda hoje perdura naquela ilha.
Maueva
-(? - 1872) – Filho mais
novo de Manicusse, herda o trono vátua, após ter batalhado e vencido Muzila e
ordenado a morte doutros irmãos seus. No entanto, em 1862 é derrotado por
Muzila, na batalha de Cunenvecujana, que acabou por voltar a guerreá-lo,
auxiliado pelos portugueses. Depois desta derrota Maueva, auxiliado por forças
do seu sogro, o Rei Mussuate, da Swazilândia e pelo Régulo da Moamba, ainda
atacou por três vezes o território perdido, mas acabou definitivamente exilado
nas terras do seu sogro que, tendo perdido bastantes guerreiros, retirou-lhe
apoio militar. Veio a falecer, exilado, em Piggs Peak, na
Swazilândia, deixando numerosa descendência.
Mazule
–( ? - ?) –
Régulo*. Em 1892 sucede ao seu pai Mapunga, no regulado da Magaia, que ficava
na margem direita do rio Incomáti e abrangia Marracuene, Macaneta e Bobole. Em
1894, aliado a Matibejana adere à luta contra os portugueses e ataca Lourenço
Marques*. Combate em Marracuene* acolhendo-se, de seguida a esta derrota, à
protecção de Gungunhana*, afrontando sempre os portugueses. Será um dos
régulos, para além de Matibejana a quem os portugueses exigirão a Gungunhana a
sua entrega. Após a queda do Rei angune, Mazule foge até vir a ser detido, em
1896, acabando deportado na ilha de Timor, onde virá a falecer.
Muzila – (? – Moiamule, 08/1884) - Filho de
Manicusse, disputa ao seu irmão Maueva o trono angune mas vê derrotadas as suas
pretensões, em 1860. Por essa altura andando Diocleciano Fernando das Neves* na
caça, na zona de Chicualaquala, encontra Muzila que conhecera em tempo de vida
de Manicusse e protege-o, levando-o ao Transvaal onde o coloca sob protecção de
João Albasini*. Em 01 de Dezembro de 1861 Muzila apresenta-se ao Governador do
presídio de Lourenço Marques*, Onofre Lourenço Duarte, a solicitar auxílio aos
portugueses para expulsar o seu irmão, em troca de submissão a estes. Por
trazer pareceres favoráveis de João Albasini e de Diocleciano Fernandes das
Neves, o Governador Onofre auxilia-o, acabando Muzila por derrotar o seu irmão,
a 16 desse mesmo mês de Dezembro. No entanto Maueva, apoiado por forças swazis
do Rei Mussuate, seu sogro, volta a derrotar Muzila mas este, não desistindo,
acaba por travar o combate de Cunenvecujana, na zona da Moamba, em 29 de
Novembro de 1862, contra Maueva, provocando-lhe nova derrota, sempre auxiliado
pelos portugueses, nomeadamente por forças de João Albasini. Após a sua ascensão
ao trono do Reino de Gaza*, Muzila reestruturou o seu Reino e manteve relações
pacíficas com o Reino vizinho dos Ndebele, de Lobengula**, com quem casou uma
sua filha. Manteve um relacionamento distante com o Reino swazi, fruto do apoio
que este deu a Maueva e enviou emissários seus ao à colónia britânica do Natal.
Guerreou os povos no Transvaal norte e do actual Zimbabwé e com os portugueses
manteve um relacionamento dúbio, esquecendo-se bastas vezes que fora graças a
eles que ascendera ao trono. Atacou os caçadores de elefantes de João Albasini,
que actuavam no Transvaal Norte, bem como expulsou os caçadores de Manuel
António de Sousa* que actuavam entre os rios Búzi e Save, tendo sido travado
por este na serra da Gorongosa Esta lógica de combate e aparente ingratidão
prendia-se com a necessidade de manter o monopólio do marfim* nas suas mãos,
até porque o mesmo começou a escassear no sul a partir da 1870. Guerreou forças
de Inhambane*, entre 1869 e 1877, não tendo conseguido levá-las de vencida.
Morreu em Agosto de 1884, em Moiamule, sua última capital, tendo-lhe sucedido o
seu filho Gungunhana*.
Quadrado, Táctica do - Forma de
combate das forças coloniais, inspiradas no sistema inglês que, encontrando-se
sempre em inferioridade numérica face aos exércitos nativos, agrupavam-se em
quadrado, tendo em cada um dos lados do mesmo, por norma, três linhas de fogo
(uma deitada, outra de joelhos e outra de pé) o que, efectuando disparos
controlados, provocava uma cadência de tiro, tipo metralhadora, rasiando as
forças inimigas que, por norma, atacavam frontal e desordenadamente.
Rongas – Também referidos, no tempo colonial,
por landins e, modernamente, por tsongas. De origens chona-carangas, este povo
era referido pelos portugueses como “burrongueiros”,
no início do século XVIII. Instalados no sul de Moçambique, mantinham uma
actividade económica baseada em intermediários entre os povos do interior e os
do litoral, favorecendo as permutas entre panos*, missangas* e quinquilharia
diversa trazidas por comerciantes islâmicos ou portugueses por marfim*, âmbar*
e abadas*, trazidos pelas gentes do interior sul de Moçambique. Centralizados
no Reino do Inhaca, este Reino era extenso, abrangendo toda a zona a leste e a
sul do rio Maputo, no decurso do século XVI. No século seguinte esta unidade
política do Inhaca já se tinha esbatido, subdividindo-se em Inhaca Grande e
Pequeno, governando estes diversos núcleos populacionais. Com o incremento da
actividade comercial portuguesa, após a queda das suas possessões a norte de
Cabo Delgado, e a instalação de feitoria de diversas nacionalidades na baía de
Lourenço Marques, instalou-se uma lucrativa actividade económica para os rongas
que, para tal, criaram e dominaram corredores de exploração mercantil que atingiam
o Transvaal, na busca do marfim para comerciarem com os comerciantes estrangeiros
que aportavam no litoral com os seus navios. A concorrência entre comerciantes
de várias nacionalidades a disputarem o marfim, levou a que os rongas não
aceitassem de ânimo leve a decisão dos portugueses de monopolizarem os seus
portos, em meados do século XVIII, fechando-os à actividade de outros rivais.
Por volta de 1750, convulsões políticas afectaram os regulados rongas.
Nuamgobe, Régulo* de Tembe (actual Catembe), alargou os seus domínios até à cordilheira
dos Libombos e o Régulo da Matola conquistou as terras dos regulados de Mpfumo
e do Magaia. Em 1784 os portugueses fazem nova tentativa de reocuparem a baía
de Lourenço Marques, estalando conflitos com o Tembe e o Matola, que pugnavam
pela sua independência. Na década seguinte surgem conflitos dinásticos no
Tembe, por morte de Mhaide, intervindo os portugueses a favor dum dos pretendentes.
Em 1795 o Matola foi assolado por uma guerra civil, tendo também os portugueses
auxiliado Manhece, um dos pretendentes a dirigir o regulado. Em finais do
século XVIII os portugueses, faca à recusa do Matola, instalaram-se nas terras
do Tembe, que os acolheu. As invasões angunes*, ocorridas cerca de 1820, vieram
alterar toda a correlação de forças estabelecidas entre os diversos regulados
rongas de Tembe, Maputo, Matola e Moamba. Os de Tembe resistiram e foram
vencidos, e os da Moamba e Matola acoitaram a submissão. Até à fixação
definitiva e soberana dos portugueses, a região sul é atravessada por sucessivas
guerras tribais, em que estes, na política do dividir para reinar ora ajudavam
uns contra outros, alterando depois a correlação de forças, para melhor enfraquecerem
os adversários.
Vieira da Rocha –
(Évora, 1872 – Lisboa, 1952 – Ernesto
Maria Vieira da Rocha) – Oficial do Exército Português (General).
Forma-se pela Escola do Exército, ganhando a patente de Alferes em 1893. Em
1895 segure para Angola e, no ano seguinte é colocado em Moçambique, como
Ajudante de Campo de Mouzinho de Albuquerque*. Participa em alguns combates da
campanha dos Namarrais** e na perseguição a Maguiguana*, tendo sido ferido no
combate de Macontene. No cerco a Maguiguana este tenta alvejar Vieira da Rocha,
mas João Massabalane impede tal acto, salvando-lhe a vida. Em 1900 é nomeado
Governador do Distrito de Moçambique e, no fim desse mesmo ano regressa à metrópole,
findando a sua carreira ultramarina, mas tendo ainda desempenhado funções ministeriais.
Nova Guiné - Leio, na imprensa, que na Papua Nova Guiné, uma mulher de 20 anos, identificada como Kepari Leniata, foi acusada por populares da prática de feitiçaria, prática essa que teria levado à morte uma criança. Como forma punitiva, esses mesmos populares acabaram por torturar a mulher em causa após o que, estando a mesma ainda viva, a regaram com gasolina à qual atearam fogo, acabando a mesma por sucumbir. Esta situação foi desenrolada perante uma multidão onde se encontravam crianças a assistirem. (DN/Globo, 07/02)
Há uns tempos atrás, ao assistir a um dos programas do "Eixo do Mal", quando os comentadores debatiam o caso do "Zico" (o cão que matou a criança em Beja) Daniel Oliveira, um dos referidos comentadores ,afirmava: "A vida do ser humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico que mais gostamos. Sempre."
Não sei porquê, quando li a notícia do modo como Kepari Leniata morreu, com os seus assassinos a assistirem satisfeitos por terem feito "justiça popular" e com a presença de crianças, lembrei-me como seria a reação de Daniel Oliveira se ele lá tivesse estado presente. Não que ele aprovasse tal tipo de justiça, mas uma coisa é falarmos de barriga burguesmente cheia e outra é estarmos perante determinadas situações fracturantes.
É que, sem sombra de dúvidas, há animais irracionais que valem mais que certos bípedes.
União Indiana - Numa outra notícia sou informado que na Índia, no Estado de Bengala Ocidental, cerca de uma centena de mulheres pobres, que tinham sido sujeitas à operação de esterilização, após as cirurgias foram abandonadas num terrenos ao ar livre, para recuperarem, pois o hospital não tinha camas nem espaço para mantê-las até à sua recuperação. (DN/Globo, 07/02)
Bem, estamos a falar dum País que tem, no seu arsenal militar, a bomba atómica. Com todos os custos astronómicos que isso acarreta. Se eu fosse o Daniel Oliveira diria: "A dignidade do ser humano mais pobre vale mais que a bomba atómica que eu armazeno num silo." Mas eu não sou o Daniel Oliveira.
Belga de nascimento, cujo evento ocorreu na capital Bruxelas, a 02 de
Dezembro de 1896, desenrola a sua infância em Antuérpia, por força da
deslocalização do seu pai para aquela cidade onde exerceu a judicatura. Cresce
feliz e despreocupado no seio duma família conservadora e, nas férias
judiciais, a família viaja pela Europa donde adquire o gosto pela
deslocalização.
Combate na Primeira Guerra Mundial, incorporando-se no Exército aos 17
anos: “Alistei-me no próprio dia em que os exércitos alemães invadiram a
Bélgica…”, mas acaba capturado e remetido
para um campo de concentração na Holanda. Com dezoito anos foge do campo de
concentração e atinge a Bretanha francesa, onde se junta às residuais tropas
belgas que aí combatiam. Doente, fica hospitalizado e acaba enviado para
Inglaterra, em Oxford.
Fica a estudar química, em Oxford e, depois, entra na Royal Aircraft
Factory durante dois anos: “…fazendo experiências com combustível para
aviões, óleos lubrificantes e tinta acética.”
Depois volta a Oxford e acaba a licenciatura em Química. Viaja pela
Europa e, finalmente, retorna à Bélgica, onde se emprega: “…como químico
numa firma de engenharia, em Bruxelas, especializada no desenho e na construção
de fornos de coque metalúrgicos.” Daqui
ruma para Paris, onde vai trabalhar como Assistente do Professor Charpy, na
Escola de Minas de Paris, onde fica dois anos. Ruma depois para os Estados
Unidos onde se demora alguns meses, oficialmente a efectuar estudos científicos
sobra o carvão, mas na realidade a maior parte do tempo passou-a a viajar pelo
território americano. Adora viajar pelo imenso território americano onde
sentia: “…pura excitação por estar na América. Tinha estado tanto tempo
limitado à Europa, que a brisa e a imensidade deste novo continente ma subiram
à cabeça.” Retorna à Bélgica mas por
pouco tempo. Regressa aos Estados Unidos onde se emprega como: “químico
investigador num laboratório em Cambridge, no Massachusetts, junto da
Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia do Massachusetts.” Acaba por inventar: “um método de
controlo automático de volume, para aparelhos de rádio, que desde aí tem sido
universalmente empregado” (1926). Regista
a patente e vende o produto a uma empresa que lhe paga seis mil dólares pela
propriedade do invento. Despede-se do emprego que tinha, e resolve, depois de
pesquisar locais no planeta partir para a ilha de Bali (1). “Na altura,
Bali era apenas conhecida por uma pessoa em cem.” A paixão da adolescência pela fotografia vem ao de cima e amplia-se
pela arte cinematográfica. Decide ir a Bali realizar um filme qualquer, pelo
que adquire material fílmico e treina algumas horas o manuseamento do mesmo.
Embarca em Boston no navio “Silver Prince” que fazia escala em Bali. Consigo
viaja a sua companheira “Jake”, uma tartaruga dos Galápagos que adquirira
ilegalmente tempos antes.
Quando aporta a Bali, apaixona-se imediatamente pela ilha. “À
chegada a Bali, logo percebi que nenhum dos extravagantes elogios que eu tinha
ouvido antes de partir, me tinham preparado para a beleza da ilha.” Roda o filme “Goona Goona” (“Magia do
amor”, em javanês), cujo tema romântico se reporta a trágicos amores, como ele
próprio descreve: “O enredo era uma história tradicional de amor entre um
príncipe do Bali e a linda mulher dum pobre camponês. A tragédia desenrola-se
quando o camponês encontra a prova da infidelidade da mulher: um punhal
ricamente cravejado de pedras preciosas, caído ao pé da cama. Imediatamente o
trabalhador fica encolerizado com o ciúme, persegue o príncipe até à praia e,
depois duma luta terrível, fere-o de morte, com o seu próprio punhal.
Horrorizado por ter assassinado um príncipe real, o camponês serve-se do mesmo
punhal para se matar”. Maravilha-se em
Bali, apaixonando-se pela beleza ilhéu. Começa a aperceber-se que aquele paraíso
está condenado a desaparecer, com a chegada e fixação de comerciantes que,
trazendo novidades consumíveis, virão alterar de forma drástica o comportamento
vivencial não só daquelas gentes balinesas como também do ecossistema da ilha.
Começa a desenvolver teses sobre o conservacionismo, e a questionar até onde a
civilização terá o direito de destruir toda uma cultura ancestral: “Agora,
por fim, os comerciantes tinham chegado e estavam firmemente instalados. Os
balineses já compravam ansiosamente as suas primeiras bicicletas e automóveis.
A chapa ondulada tinha começado a deixar as suas cicatrizes nas aldeias.
Máquinas de tecer o algodão, vindas do estrangeiro, tinham já tornado obsoletos
os antigos teares manuais e corantes suíços baratos eram já importados pelos
diligentes holandeses (2), para tomarem o lugar dos ricos corantes de “batik”
que, durante séculos, se fizeram em Bali……… O sereno isolamento de Bali estava
a desaparecer para sempre………. O progresso aqui não substituía, destruía
simplesmente ……… A sua cultura degeneraria numa caricatura de civilização
primitiva para divertir os turistas ………… Foi este sentimento de deterioração
que originou em mim as primeiras dúvidas reais sobre o meu papel como
cientista…….”. Quatro meses mais tarde
depois de ter chegado a Bali, retorna aos Estados Unidos, quando o navio que o
trouxera ali, o “Silver Prince” efectuava a torna-viagem. Traz o filme “Goona
Goona”, para vender nos circuitos comerciais norte-americanos deixando a sua
tartaruga dos Galápagos, “Jake”, aos cuidados dos naturais duma aldeia balinesa
que a mimavam e lhe prestavam culto.
Chegado aos EUA contacta o Dr. Mees, cientista da Eastman Kodak
Company, em Rochester, que lhe dá emprego nos laboratórios da empresa e o ajuda
a salvar os negativos das bobines fílmicas de “Gona Gona”, que tinham sido mal relevados em Bali.
Assiste ao nascimento da fotografia a cores, o “kodachrome”, conhece
pessoalmente “Mr. Eastman” o fundador
da empresa e inventa uma máquina que reproduzia automaticamente as cópias negativas
dos filmes, invenção esta que a Kodak lhe compra por cinco mil dólares.
Dedica-se, a par do seu trabalho, a coleccionar répteis tendo atingido 200
ofídeos em casa. Efectua um filme sobre répteis que vende à Eastman Teaching
Films, uma subsidiária da Kodak: “Nesta altura, quando acabei o filme para
a Eastman, a colecção (de cobras) ultrapassava os duzentos exemplares. Gostei
muito de fazer o filme e aprendi muito sobre os répteis da América do Norte.” Através das suas visitas a casa de “Mr.
Eastman”, o dono da Kodak, vem a travar
conhecimento com um casal de fotógrafos e documentaristas a quem Eastman
financiava as suas viagens pelo mundo na rodagem de documentários: Martin e Osa
Jonhson, casal este que Armand Denis considerava os verdadeiros pioneiros do
documentarismo planetário: “…e, por seu intermédios (de Eastman) conheci duas pessoas que foram verdadeiros pioneiros do
que eu viria a fazer dentro de alguns anos. Chamavam-se Martin e Osa Johnson.
….. e, após o casamento com Osa, formaram uma equipa de marido e mulher,
viajando através de África e da Ásia e filmando por onde passavam.”
Viaja por diversas vezes a Nova Iorque na tentativa de vender o filme “Goona
Goona”. A sua inexperiência no seio da
comercialização cinematográfica atrasa o seu desejo de lucrar com o mesmo mas,
por fim, acaba por conseguir vendê-lo a um agente. Contra a sua expectativa o
filme acaba por ser um êxito de bilheteira: “O filme deu muito dinheiro,
muito mesmo, a alguns. Se eu não fosse tão verde e ignorante no negócio do cinema,
também me teria dado muito dinheiro.”
Este filme deu visibilidade a Armand Denis nos circuitos de produção
cinematográfica, o que o leva a ser convidado para realizar o filme “Wild
cargo” (“Carga selvagem”), em que o protagonista principal é o
famoso Frank Buck, um caçador de animais e aventureiro. “Frank Buck era um
do heróis da América. A lenda de Buck tinha principiado com uma série de
artigos na revista “Colliers” com o título excitante de “Tragam-nos vivos”,
descrevendo como este intérprido e resoluto aventureiro, com o chapéu tropical
e bigode à Errol Flynn, revolvia as selvas do mundo para trazer animais
selvagens para os jardins zoológicos e circos dos estados Unidos.” Rodado perto de Singapura, este filme,
com cerca de uma hora e meia, centra o seu guião nas actividades de caça de
animais bem como incorpora aspectos da vida selvagem. No entanto a realização
deste filme, se bem que não lhe tivesse trazido grande satisfação pessoal,
compensou-o quer em termos financeiros quer por ter viajado em grande estilo a
expensas da companhia produtora do filme. Começava aqui a ascensão de Armad
Denis como um dos pioneiros dos documentários sobre vida selvagem,
principalmente animal.
Em 1935, Armand Denis parte para o Congo Belga, a expensas do governo
de Bruxelas, onde realiza uma série de filmagens sobre a vida animal da
colónia, bem como também no campo antropológico onde filma danças e cantares
dos manbetu (3) e dos watutsis (4): “… e as nossas gravações incluíam os
tambores reais dos gigantes Watsutis, a música barulhenta dos negros da
floresta e as grandes orquestras da precursão da Manbetu, que se compõem muitas
vezes de mais de trinta tocadores”.
Organizando a expedição cinematográfica, partem de Nova York para a Europa,
onde é recebido pelos reis belgas. Da Bélgica, a expedição ruma para Espanha e,
atravessando o Mediterrâneo entre em Marrocos e, três meses mais tarde, atingem
o Congo, depois de várias peripécias: “A viagem, por terra, até ao Congo,
levou-nos aproximadamente três meses.”
Ficam seis meses a filmarem na paradisíaco Park National Albert (5) que: “… proporcionaram-nos
uma introdução única aos grandes animais de África, porque o parque era enorme
– bem mais de oito milhões de km2 – e como era comprido e relativamente
estreito, estendia-se por uma extraordinária diversidade de paisagem e
vegetação.” Roda cerca de vinte mil
metros de filme que envia para Bruxelas. Desta incursão pelo mato africano dirá
que: “O tempo que passei em Albert Park foi, verdadeiramente, a minha
primeira tentativa séria para fazer um filme com animais selvagens no seu
próprio ambiente…” Pela primeira vez, em
África, são efectuadas filmagens sonoras e do material fílmico ainda retira o
suficiente para produzir um filme de acção que titula de “Dark Rapture”, onde aproveita para filmar as grandes
manadas elefantinas do Congo. Aproveita para conhecer Pat Putnam (6) e convive
com os pugmeis da orla da floresta de Ituri. Demora dezoito meses a deambular
pela colónia belga após o que regressa aos Estados Unidos, com uma passagem
intermédia pela Europa.
Vende o filme “Dark Rupture”
em Holywood e o filme “Wheels across África” à Companhia Chrysler. Depois duma estadia de três nos Estados Unidos,
volta a partir. Entre 1939 e 1948 viaja pelos continentes africano e asiático, sempre
na realização de filmes e documentários sobre a vida selvagem. Percorre o
Oriente (China, Birmânia (actual Myanmar), Índia entre outros) e consegue
atingir o Nepal, por se ter relacionado amigavelmente com uma das filhas do
Marajá do Nepal, território este que, na altura, era muito restrito a autorizar
entradas a estrangeiros. Entra em Katmandu, que acaba por o aborrecer: “…apesar
de todas as associações românticas, achei-a um lugar completamente triste e
decadente, sem o mais pequeno encanto o interesse.” A II Guerra Mundial rebenta (1939) encontrando Armand Denis e a sua
equipa cinematográfica no Nepal. Abandona Katmandu, que detestou, e dirige-se
para a Índia, onde apanha um barco que o deixa em Mombaça, no Quénia.
Aliando-se a Al Klein, um caçador ali residente há 30 anos, que lhe serve de
guia, percorre toda a África Oriental (Quénia, Tanzânia e Uganda) filmando
cenas da vida africana captando imagens duma África ainda não desvirginada pela
colonização europeia: “Mas de todos, o mais notável aspecto de Ngorongoro
(7) era o facto de, naquele tempo, estar ainda virtualmente intacta. As
estradas que lá conduziam eram más. Somente alguns masai (8), uma tribo nómada,
que não é de caçadores e que respeita a caça faziam uso da cratera e nenhum
homem da tribo ali se fixava permanentemente…”.
Regressa aos Estados Unidos e monta um centro de estudos de investigação
científica de chimpanzés, recebendo vários destes animais vindos de África. No
Verão de 1941 arranca com este novo projecto: “ Nesse Verão, como o centro
de investigação ficou pronto, o número dos meus chimpanzés aumentou e, no
Outono de 1941 eu tinha comprado mais de quarenta, de todas as idades…”.
Em 1941, no decurso dum encontro fortuito com um conhecido seu num bar
em Nova York que lhe fala da existência de gorilas na África Equatorial
Francesa (9) vai levá-lo a efectuar a: “… mais desastrosa aventura da minha
vida…”. Apenas sabia da existência de
gorilas na colónia congolesa da Bélgica, tendo-os avistado aquando da sua
deslocação ao Park National Albert. Em Fevereiro de 1944 parte para Brazaville
e daqui segue para Okio, no Norte da colónia congolesa da França. Estabelece
relações com uma tribo semi-primitiva do interior, caçadora de gorilas como
forma de sustento. Assiste e filma uma violenta caçada a um grupo de gorilas
que termina num mar de sangue. Apercebe-se que será uma espécie a desaparecer
em breve, tal a intensidade com que e caçado, não só ali como noutras poucas
partes congolesas onde ainda subsiste. Paga pela captura de gorilas vivos e
arrecada trinta destes animais, com que retorna a Brazaville, depois de os
enjaular, para os levar para os Estados Unidos, a fim de os incorporar no seu
centro de estudos dos primatas. Mas uma epidemia acaba por matar todos os
gorilas capturados, ainda no Congo. Para o desastre ser completo, o filme que
efectuara ao longo desse ano sobre os gorilas, e a violenta caçada aos mesmos
desaparece no naufrágio do navio onde embarcara todo o seu equipamento, quando
este estava nas Bermudas. Armand Denis salvara-se porque tinha regressado de
avião. Restava apenas o seu testemunho.
Retorna ao Congo mais tarde (1946) em nova expedição cinematográfica.
Vai por Matadi até Brazaville e daqui atinge Okio onde revisita a tribo
caçadora de gorilas com que convivera. Fila cenas de gorilas, mas sem ser em
caçadas, bem como leopardos, elefantes e macacos. Atinge o reino dos watsuti,
onde lá estivera anos antes e reencontra o Rei dos mesmos, mais velho mas já a
trajar ocidentalmente e a viver numa vivenda. Abandonara o palácio e as famosas
danças guerreiras já só sabiam ser executadas pelos mas velhos. Sentia África a
mudar: “Dentro dalguns anos, mais uma parte sem igual da velha África teria
desaparecido e sido esquecida. Aquele mesmo progresso que tinha visto e odiado
em Bali, esteva agora aqui, em África.”
Vai até à floresta de Ituri e reencontra Pat Putnam e o seu hotel em estado
letárgico, onde fica duas semanas. De seguida percorre as enormes planícies da
África Oriental, penetrando no Uganda e apercebe-se que no vale do Rift a fauna
escasseia, contrastando com os milhares de espécimes que ali vira em 1940. A
predação humana estava à vista. Vai até Nairobi e vai filmando sequências que
darão origem ao documentário “Savage Splendor” (“Esplendor selvagem”), onde
chega a efectuar espectaculares filmagens de hipopótamos a nadarem debaixo de
água.
No regresso aos Estados Unidos, onde comercializa o seu último
documentário, acaba convidado a efectuar filmagens sobre uma viagem pela
América do Sul, onde captasse imagens das florestas, dos cumes e das tribos
humanas que, dentro do possível, estivessem o mais possível afastadas da
civilização branca. Nos finais da década de 40 percorre os Andes e é nesta
viagem que se cruza em Potosi, na Bolívia, com Michaela Holdsworth, aquela que
virá a seu o grande amor da sua vida. Casa-se com ela naquela localidade andina
e Michaela (agora Denis) será a sua companheira constante, até ao fim da sua
vida. Com ela viver´+a a sua lua-de-mel a atravessar as densas florestas do
Equador na busca da tribo dos índios Colorado que ainda mantinham a sua pureza,
o que virá a conseguir.
Michaela Denis
Londrina de nascimento, facto ocorrido em 28 de Agosto de 1914, fica
órfã do seu pai (o arqueólogo Yorkshire Holdsworth) pouco após o nascimento,
por o mesmo ter sido morto nas trincheiras a combater na Primeira Guerra
Mundial.
Estuda moda e estilismo em Paris, até ao eclodir da Segunda Guerra
Mundial, altura em que retorna a Londres. Colabora na rectaguarda no esforço de
guerra, integrando o serviço de voluntariado feminino, onde desenha a sua
própria farda. No findar da guerra conhece um Almirante norte-americano que se
apaixona por ela e a pede em casamento. Aceita, mas por pragmatismo, pois
sabia-o viúvo e com filhos na Califórnia. Apenas queria era entrar nos Estados
Unidos.
Viaja para os Estados Unidos mas, chegada a Nova York vai adiando
sempre a sua ida para a Califórnia, até que comunica ao desolado noivo que
mudara de ideias e já não se casava com ele. Aqui vem a travar conhecimento com
Armand Denis, com quem virá a casar-se passado algum tempo (1948), na Bolívia,
em Potosi,
Sendo ela uma amante de viagens e também para realizarem dinheiro que
lhes permitissem realizar o sonho de documentarem filmicamente a vida selvagem,
em 1950 o casal integra o grupo de trabalhos da equipa de filmagens da
longa-metragem “As minas do Rei Salomão”
(10), onde Michaela Denis actua como “duplo” (11) da actriz principal, Deborah
Kerr. Durante os seis meses que duraram as filmagens, o casal, bem como toda a
equipa de filmagem, viveu luxuosamente em acampamentos pagos pela companhia
cinematográfica MGM (Metro Goldwin Mayer), quer no Quénia quer noutros locais
onde decorreram as filmagens: “O contrato com a MGM durou seis meses e nós
passámos esse tempo a voar em aviões fretados para diversos lugares do
Tanganica, Uganda, Ruanda e Congo, dormindo em acampamentos luxuosos construído
especialmente para o pessoal do filme…”
O casal Denis
Juntos irão viver a vida até à exaustão dos sentidos, viajando por todo
o mundo sempre na realização de filmes e documentários sobre a vida selvagem,
principalmente patrocinadas pela britânica BBC. Quando as filmagens das “Minas
de Salomão” terminam o casal Denis resolve
ficar no Quénia, onde escolhem uma propriedade onde irão construir a sua futura
casa e preparam uma nova incursão cinematográfica pelo interior africano, que
ligasse as duas costas. Volta de novo a visitar os gigantes watutsis e aos
pigmeus do Ituri e, de seguida, desce o continente até à África do Sul, onde
termina a filmar leões-marinhos, perto da Cidade do Cabo e na Namíbia. Tal
viagem, que durou dezoito meses e quinze mil quilómetros, dará origem ao filme
“Below to Sahara” (“Sob o Sahara”), em 1953, cujos direitos venderam à
companhia cinematográfica RKO.
O casal organiza nova expedição cinematográfica, desta vez à Austrália
e Papua Nova-Guiné. A ideia era filmar a Grande Barreira de Coral e os
caçadores de cabeças da Papua, uma tribo que ainda vivia da Idade da Pedra.
Arrancam para Sidney na Primavera de 1952 e filmam crocodilos marinhos, no
norte australiano bem como toda a restante fauna. Quando estivera em Bali, na
sua primeira viagem, Armand Denis tinha avistado um crocodilo destes. Partem depois
para a Nova Guiné e sobrevoam o Vale de Waghi “no coração da montanha ainda
por explorar, situada no interior da Nova Guiné e que está sob mandato
australiano…” onde convivem durante algum
tempo com estes povos civilizacionalmente atrasados, efectuando filmagens sobre
os mesmos. Retornam aos Estados Unidos com os três filmes documentários
completos, rodados no norte australiano, na Grande Barreira de Recife de Coral
e na Papua Nova-Guiné.
Responsáveis da britânica BBC, vendo o potencial daquela dupla,
contratam-nos (1953) para realizarem para aquela estação televisiva
documentários da vida selvagem. Logo no ano seguinte começa a ser projectado
publicamente o documentário “Animais Selvagens” que se torna num estrondoso êxito. Depois desta série documental,
outras serão rodadas, quem em África quer na Ásia, todas elas sempre com
assinalável êxito. No entanto o casal não efectuava as filmagens todas como
dava a entender. Ao seu serviço tinham operadores de câmara, que distribuíam
por várias regiões da África Central colhendo depois as filmagens efectuadas
por estes. Um desses operadores foi o lendário Alan Root (12) a quem lhe
entregou a tarefa de cobrir as imagens do Serengueti. A partir de 1963 editam a
revista “Animals” que viria,
posteriormente, a tornar-se na “BBC Wildlife”.
As décadas de 50 e 60 foram o seu apogeu, tornando-se sua imagem de
marca os land-rover´s, as câmaras de filmar. O beleza e o “glamour” de Michaela
Denis sobressaem nos documentários aumentando ainda mais a empatia do público
para com aquela mulher que vivia os riscos da vida selvagem sem nunca se
esquecer de pentear o cabelo e pôr-lhe laca, pintar os lábios ou colocar o pó
de arroz no rosto, mesmo antes de entrar num rio onde fossem filmar crocodilos,
por exemplo. Estes tiques e toques de feminilidade que nunca perdeu, viriam a
ser parodiados e escarnecidos, mais tarde, por outros documentaristas e não só.
O próprio Armand Denis se referira a isso quando escreveu: “… Se Michaela
fizesse o que queria, iria sempre para o safari com várias malas cheias dos
vestidos mais chistosos que tinha e com uma extraordinária quantidade de
cosméticos e loções que ela achava indispensáveis…”
Em meados da década de 60 o casal assenta a sua base perto de Nairobi,
construindo uma casa dentro duma propriedade que adquiriram e daqui partiam
para as suas excursões documentaristas à escala planetária. Ambos crentes em
poderes psíquicos e em vida extra-terrestre afirmaram terem avistado um OVNI
(13) em forma duma nave espacial azulada, que planou sobre território masai
(8).
O fim
Na capital queniana virá a falecer Armand Denis, em 15 de Abril de
1971, atingido pela doença de Parkinson, aquele que, para muitos, é considerado
o pioneiro dos documentários da vida selvagem em larga escala e que deu um
contributo inolvidável para um melhor conhecimento da vida animal afro-asiática
e da sua preservação. Amava África até mais não: “…A diversidade de África
é inesgotável e embora eu tenha passado tanto tempo da minha vida com as
máquinas fotográficas, procurando e registando as maravilhas do continente,
lembro-me continuamente do que fica por descobrir. Uma vida só não é
suficiente.” Desaparecia da face da terra
um homem que vagabundeou tanto pelo mundo que dizia “…ainda considero a
tenda de campanha e o hotel as duas invenções mais sagradas do homem…”. Dele retenho uma frase emblemática que
lapidou no seu livro de memórias: “Desprezo o culto da caça do homem
branco, com fatos especiais, cães treinados, espingardas caras de precisão e o
cuidadoso luxo da morte. Nunca possuí ou usei uma espingarda de caça e não
posso sequer compreender porque é que alguém gosta de matar um animal, sem ser
por fome ou extremo perigo.”
Quatro anos de viuvez volvidos e Michaela Denis voltou a casar-se
(1974) mas foi de curta duração, pois o segundo marido (William Lidsay O´Brian)
faleceu pouco depois. Deixando-se ficar em Nairobi, Michaela Denis que se
afirmava detentora de poderes espirituais curativos abriu um consultório
esotérico. Tendo escrito alguns livros sobre animais e a sua relação com eles
(“Um leopardo no colo”, por exemplo),
viajou sempre por toda a África.
Conflituou com outras lendas de África tais
como com a escritora Karen Blixen (14) por a mesma detestar animais e queimar
árvores para fabrico de carvão e com a conservacionista Joy Adamson (15) pelo
modo como esta tratava desumanamente os criados. Faleceu a 04 de Maio de 2003,
aos 88 anos de idade.
………………………………………………………………………
(1) – Bali – Ilha mundialmente famosa no plano turístico, integrada na
República indonésia. Habitada essencialmente pela comunidade hindu, desenvolveu
a arte da dança como um dos seus pergaminhos mais preciosos. A par das
coralinas praias paradisíacas e da doçura e hospitalidade do seu povo, que lhe
valeu o charmoso nome de “Ilha do Amor” ou “Ilha dos Deuses”, esta última por
ali terem milenariamente florescido o culto a nove deuses hindus. Os seus
trajes e os seus adornos femininos, extremamente elaborados e graciosos,
aliados à incomensurável beleza inata dos habitantes dão um toque de Midas na
estética antropológica.
Inicialmente aportada por navios portugueses, no decurso da epopeia
marítima no correr do século XVI, rapidamente os holandeses ali se implantaram,
a partir do início do século XVII através da sua Companhia Holandesa das Índias
Orientais.
No entanto, é a partir da década de 30 do século XX que a ilha entra no
roteiro mundial dos pintores, poetas, escritores, e outros agentes da cultura
quando um reduzido núcleo intelectual de europeus ali instalados a concebem num
projecto direccionado para o turismo em larga escala.
(2) – “…pelos diligentes holandeses…” – Na altura (década de 20 do século passado) a ilha de Bali, bem
como outras ilhas que hoje integram a República da Indonésia, era uma colónia
holandesa.
(3) – Mangbetu – povo que reside na parte oriental do Congo.
Tradicionalmente dedicados à música, desenvolveram um instrumento musical,
misto de harpa e viola, hoje em dia muito em voga e até bastante comercializado
em variantes sucedâneas, nas ruas de Lisboa, por exemplo, por vendedores
ambulantes.
Uma característica fisiológica dos elementos desta etnia era a sua
cabeça alongada artificialmente por panos nos bebés recém-nascidos, prática
esta que a partir da década de 50 do século passado começou a ser abandona por
acção do aumento da presença de europeus na região e que proibiam tal uso.
(4) – Watutsis – povo que habita maioritariamente as zonas orientais do
Congo, bem como do Ruanda e do Burundi.
(5) – Park National Albert – Criado em 1925, pelo Rei Alberto I da
Bélgica. Presentemente, com 7.800 km2 de área, é conhecido como Parque Nacional
Virunga, sendo classificado como Património Mundial pela UNESCO. Infelizmente a
gestão congolesa, ali instalada após a independência do País, tem-se revelado,
desde sempre, muito deficitária, não só devido à instabilidade política que o
País sempre teve, como as guerras e a corrupção generalizada que grassa no seio
das cliques africanas que têm responsabilidades sobre patrimónios valiosos.
(6) – Pat Putnam (1904/1953) – Um misto de aventureiro, antropólogo e
hoteleiro norte-americano, que efectuou levantamentos etnográficos sobre os
pigmeus no Ituri Como forma de financiar o seu projecto conseguiu a autorização
das autoridades belgas para construir um hotel junto à floresta, onde albergava
turistas ávidos de experiências africanas emocionantes.
A sua mulher, Anne
Eisner, pintora nova-iorquina encontra-se referida nesta mensagem, no campo “Pintura”.
(7) Ngorongoro – A cratera de Ngorongoro localiza-se na Tanzânia e é
uma região que alberga centenas de espécies de animais. Considerada Património
Mundial da Humanidade, este fabuloso ecossistema também é conhecido
popularmente por “Arca de Noé africana”.
(8) Masai – tribo nilótica, semi-nómada, que se dedica à pastorícia e
habita o Quénia e partes da Tanzânia.
(9) África Equatorial Francesa – possessões coloniais que a França
detinha na África Ocidental e que correspondiam, em termos geográficos, às
actuais Repúblicas do Congo, Gabão, Centro-Africana e Chade.
(10) – “As minas do Rei Salomão”
– filme inspirado na obra de Henry Rider Haggard, com o mesmo título. Trata-se
dum banal filme de aventuras e amor passado no coração de África, no qual uma
mulher e o seu irmão partem para aquele continente em busca do seu pai. Para
tal contratam um caçador-guia que os irá conduzir por terras interiores
africanas, surgindo então diversas peripécias que irão resolvendo até que
conseguem atingir os seus objectivos.
(11) – “Duplo” – No cinema o papel de “duplo” é o de interpretar as
partes mais perigosas duma filmagem, que possam pôr em causa a integridade
física do actor/actriz principal. Busca-se, nos duplos, as parecenças físicas e
fisionómicas com o artista que vão fugazmente substituir.
(12) – Alan Root – Espantoso aventureiro, documentarista da vida
selvagem e que foi casado com a não menos lendária Joan Root. Sobre ela já
abordei ao de leve aqui neste blogue. Brevemente voltarei à carga com a vida
fantástica deste casal, mas agora mais pormenorizadamente.
(13) – OVNI – Objecto Voador Não Identificado.
(14) – Já biografada resumidamente em mensagem anterior – ver Beryl
Markham.
(15) – Joy Adamson – Já biografada anteriormente – ver George Adamson.
António Enes –(Lisboa,
15/08/1848 – Queluz, 06/08/1901 – António José Enes) - Jornalista e político.
Tendo concluído o Curso Superior de Letras, e fundado o Partido Histórico,
trabalhou na redacção da “Gazeta do Povo” e depois tornou-se director do jornal
“O País”.
Deputado a partir de 1880,
seis anos mais tarde é nomeado Bibliotecário-Mor da Biblioteca Nacional de
Lisboa. Após o Ultimato entra para o Governo, em 14 de Outubro de 1890, como
Ministro da Marinha e do Ultramar. Cinco anos mais tarde, sendo nomeado Comissário
Régio em Moçambique, promove acções bélicas contra Gungunhana que, no entanto,
nunca quis prender, contrariando o parecer dos seus subalternos, tais como os
de Mouzinho de Albuquerque, mas tão-somente limitar-lhe o poder e abalar-lhe o
prestígio. Opositor da prisão de Gungunhana, contrariando as teses de Mouzinho
de Albuquerque ofereceu a este, como presente envenenado, o governo de Gaza,
pouco antes de regressar a Lisboa. Mouzinho de Albuquerque serviu a sua
vingança em prato quente, prendendo Gungunhana, ainda António Enes estava na
viagem de regresso a Lisboa. Enquanto Comissário Régio tenta incrementar
medidas de cariz político-administrativas, denunciando a incapacidade dos
colonos brancos que lhe eram remetidos da metrópole, tenta que as forças metropolitanas
sirvam apenas por curtos períodos de tempo nesta colónia, promove alterações na
admissão de funcionários para a administração pública, denuncia o perigo do
islamismo como potencial rastilho para acicatar os negros contra os brancos, e
incentiva para que as missões católicas “acostumem os indígenas a orarem na
língua do Rei”. Publicou vários trabalhos
sobre esta colónia, destacando-se o relatório “Moçambique”, onde relata a sua acção governativa e “A
guerra de África em 1895”. Em 1896 foi nomeado Ministro de Portugal
no Brasil. Membro destacado da Maçonaria, foi um dos mais conhecidos
governantes coloniais de Moçambique, apesar do escasso tempo que esteve à
frente dos destinos daquele território tendo, em sua homenagem, sido dado o seu
nome à vila de Angoche. Em 08 de Setembro de 1910 foi inaugurada, em Lourenço
Marques*, uma estátua de bronze em sua homenagem, da autoria do Mestre Teixeira
Lopes, tendo a mesma sido erguida sobre uma coluna de granito no mesmo local
onde, pela primeira vez, pôs o pé em terra quando desembarcou na capital, como
Comissário Régio.
Chaimite
- Local sagrado dos angunes*, por
aí se encontrar o cemitério real onde repousavam os restos de Manicusse**,
fundador do Reino de Gaza. Foi o último local de refúgio de Gungunhana, tendo
sido aí preso, em 1895, por Mouzinho de Albuquerque.
Combate de Macontene – Batalha
travada em 21 de Julho de 1897, na qual as forças portuguesas,
comandadas por Mouzinho de Albuquerque, vencem as forças de Maguiguana, induna
de Gungunhana e que escapara aquando da prisão deste. Maguiguana não sobreviveu
à derrota, tendo sido morto e decapitado, com o fim de se exibir a sua cabeça e
não restarem dúvidas sobre o seu trágico destino, perante régulos* que pudessem
vir a duvidar de tal facto. De referir que foi no decurso desta batalha que
ocorreu a primeira e única carga de cavalaria contra forças inimigas, em
Moçambique, liderada por Mouzinho de Albuquerque.
Eduardo Galhardo – (Lisboa, 26/06/1845 – Lisboa, 08/02/1908 –
Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo) – Oficial de Infantaria do Exército
Português (General). Estudou no Real Colégio Militar e cursou na Escola do
Exército.
Em 1863 assenta praça e, dois anos depois, é promovido a Alferes. Com
breves passagens pelas armas de Engenharia e Artilharia, retorna à Infantaria,
e ascende progressivamente na carreira militar, acabando promovido a Coronel em
1894. No ano seguinte encontra-se em Moçambique, comandando forças
expedicionárias que desencadeiam operações militares contra os apoiantes de
Gungunhana. Em 07 de Novembro desse ano derrota as forças angunes* no combate
de Coolela**. De seguida marcha sobre Manjacaze** e destrói o kraal** daquele
Rei vátua contribuindo, em larga medida, para a queda do Reino de Gaza. Em
Janeiro de 1896 regressa a Lisboa, onde é condecorado com a Medalha de Ouro do
valor Militar, pela sua campanha africana. Em 1897 governa Macau e três anos
depois é nomeado Governador da Índia, onde subjuga a que ficou conhecida por “revolta dos Ranes”
(campanha militar contra os maratas). Promovido a General em 1903, foi
condecorado por diversas vezes possuindo, entre outras, a comenda de Grande
Oficial da Torre e Espada.
Induna - Chefe militar.
Maguiguana
– (? - Mapulanguene 10/08/1897) –
Régulo* cossa*, de Magude e um dos chefes militares do exército angune*,
acabando mesmo por ser tornar o Comandante-Chefe das forças de Gungunhana, na
recta final da existência do seu Reino. No entanto não se achava presente no
combate de Coolela**, por se encontrar na zona do Bilene a tentar arranjar
forças para travar uma outra coluna militar portuguesas que tinha partido de
Inhambane*. Após a prisão de Gungunhana, mantém a sua actividade bélica contra
os portugueses. Em 21 de Julho de 1897, trava a sua última batalha, a de
Macontene, da qual saiu derrotado e, ironias da História, é um africano como
ele, João Massabalane**, fiel servidor das tropas coloniais que o alveja a tiro
e facilita a sua captura pelos portugueses, dias depois, em Mapulanguene. O seu
corpo foi reconhecido pelo seu irmão Jorge Cossa Torretana, que também promoveu
o seu enterro local. Depois de morto é decapitado e a sua cabeça foi exibida a
outros régulos* como prova da sua morte e da vitória das armas portuguesas e
também levada, como troféu, para Lourenço Marques. No local da sua morte e para
comemorar esta vitória, os portugueses erigiram, em 02 de Fevereiro de 1924, um
pequeno monumento.
Mouzinho de Albuquerque – (Batalha, 12/11/1855 – Lisboa, 08/01/1902
-Joaquim Augusto Mouzinho de
Albuquerque) - Oficial de Cavalaria do Exército Português (Tenente-Coronel).
Nasceu na vila da Batalha, tendo falecido, de forma voluntária, em Lisboa.
Esteve na Índia, em 1886, sendo colocado em Moçambique, no ano de 1890, onde
desempenhou as funções de Governador do Distrito de Lourenço Marques, cargo que
mantém até Abril de 1892, altura em que regressa a Lisboa. Em 1895 retorna a
Moçambique, integrando a coluna militar do Coronel Eduardo Galhardo, que tem a
finalidade principal de reforçar as forças portuguesas que combatem as do Reino
de Gaza. Desde sempre um acérrimo defensor da prisão de Gungunhana, opôs-se à
política do Comissário Régio António Enes, que apenas visava enfraquecer a
posição do Rei angune. Em 10 de Dezembro desse mesmo ano de 1895, António Enes,
nas vésperas de regresso a Lisboa nomeia-o Governador de Gaza. Mouzinho de
Albuquerque, imbuído dum espírito patriótico, sonhando com altos feitos
heróicos que redimissem a Pátria da vergonha do Ultimato**, jogando uma cartada
temerária, para os meios postos à sua disposição, lança-se no seu objectivo de
sempre - a prisão de Gungunhana - o que vem a conseguir depois de uma
perseguição, em marchas forçadas,
entremeadas de combates e tentativas de suborno. Antes do findar desse
ano de 1895, mais precisamente a 29 de Dezembro, na povoação de Chaimite,
Mouzinho de Albuquerque obrigava a ajoelhar-se, aos seus pés, Gungunhana e, a
seguir, era todo um País que se ajoelhava à sua passagem quando enviou o mesmo
Gungunhana para a metrópole. Pura operação de charme e vingança pessoal,
Mouzinho de Albuquerque, rotulado de herói nacional, colhe os frutos da sua
ousadia, sendo nomeado, deste modo, Governador-Geral de Moçambique em 13 de
Março de 1896 e Comissário Régio, do mesmo território, em 27 de Dezembro desse
mesmo ano. Desencadeia novas acções militares, para consolidar a soberania
portuguesa quer no Norte - Naguema e Itoculo, na campanha dos Namarrais** - quer no Sul – combate de Macontene –
culminando com o cerco e morte de Maguiguana**, em Agosto de 1897, o último induna
de Gungunhana a resistir aos portugueses. Transporta para a política a sua
faceta do “antes quebrar que torcer”
e granjeia inimizades quer no seio da classe política quer no seio da classe
empresarial colonial, o que o leva a pedir mais poderes de actuação junto de
Lisboa, crendo ainda na influência do Rei. Mas este nada pode contra o poder
executivo e Mouzinho de Albuquerque cai em desgraça. Face à recusa do Governo
Central em ceder às suas pretensões, não lhe resta outra alternativa senão
pedir a demissão. Como o próprio explica numa circular, onde refere: “Em 09
do corrente (09 de Julho de 1898) recebi um telegrama de Sua Exa. O Ministro e
Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar transmitindo-me na íntegra o
decreto de 7 de Julho pelo qual eram restringidas as funções dos Comissários
Régios, a ponto tal que julguei ficarem assim inutilizados quaisquer esforços
que fizesse para bem administrar esta Província e continuar a encaminhá-la no
sentido, não só de desenvolver, mas de nacionalizar em parte o comércio e
introduzir nos mercados da costa e do interior os produtos da indústria fabril
e também da agricultura nacional…”.
Demissão apresentada e aceite sem rebuço, Mouzinho de Albuquerque despede-se,
desgostoso, das tropas estacionadas na Província e, em nota publicada a 29 do
mesmo mês, dirigidas às mesmas, refere: “…É com o maior sentimento que
renuncio à honra de comandar tão briosas tropas, com as quais ainda esperava
concorrer, comandando-as, para mais exaltar o nome do Exército Português, que
tão alto aqui têm mantido saber…”. Volta,
em definitivo, para Lisboa e, em 1899 publica “Livro das campanhas” e “Moçambique 1896/ 1898”. Muito apreciado pelo Rei D. Carlos, que o
nomeia seu Ajudante de Campo e Aio do Príncipe Dom Luís, herdeiro da Coroa,
Mouzinho de Albuquerque, monárquico convicto, que não confundia o Rei com a
classe política assiste, impotente, à previsível morte anunciada deste regime.
Em 1901 escreve a sua famosa “Carta”
dirigida ao seu pupilo real, o Príncipe D. Luís onde discorre todo o seu pensamento
político, baseado sempre numa coluna vertebral militar e respeito pela causa
monárquica e pela indestrutibilidade da Nação. Em 1902, desgostoso com a vida
que levava, longe da acção e rodeado de uma classe política decadente, na qual
não se revia e que desprezava, instalado numa corte decrépita e autofágica,
Mouzinho de Albuquerque, essa mítica personagem do imaginário português buscou,
eventualmente, no voluntarismo da sua morte, a alforria da prisão dourada onde
o tinham encarcerado.
Gungunhana – (1850? – Angra do Heroísmo, 23/12/1906) -
Rei angune*, filho de Muzila**. Ascende ao poder em 1884 e depois de
mandar matar o seu irmão, Mafemane, que era, também, um forte candidato ao
trono.
Outros potenciais herdeiros, tais como Anhana e Mafambaze encetaram a
fuga do Reino e Como-Como desapareceu sem ter deixado rastro, pelo que se pode
admitir que também tenha sido morto. De seu nome original Mudungaze, adoptou o
nome de Gungunhana, que significa “homem
forte”, após a morte do seu pai. Manteve, quase sempre, um
relacionamento pacífico, com os portugueses tendo enviado, por duas vezes, dois
emissários seus – Ntonga e Udaca - à corte de Lisboa assinar um protocolo de
vassalagem, que se concretizou em 12 de
Outubro de 1885, documento esse que, devido à sua notabilidade histórica e para
melhor se entender a correlação de forças entre os dois reinos e o tipo de
padrão de vassalagem, se transcreve de seguida:“1)- O régulo Gungunhana, por si e seus sucessores, faz acto de
vassalagem ao Rei de Portugal e de obediência às leis e ordens que lhe forem
transmitidas pelo Governador-Geral da Província de Moçambique, ou pelos Agentes
subordinados a esta autoridade, comprometendo-se a não consentir, em seu
território, o domínio de qualquer outra nação; 2)- O território sobre que o
Régulo Gungunhana exerce jurisdição é aquele em que seu pai tinha domínio e lhe
havia sido garantido em 2 de Dezembro de 1861; 3)- Junto ao Régulo Gungunhana
haverá um Delegado do Governo Português, denominado Residente-Chefe, para o
aconselhar na forma de administrar o País e na resolução das questões que,
porventura, se levantem entre a sua gente e os súbditos portugueses; 4)- Nas
povoações principais do território em que o Régulo Gungunhana exerça jurisdição
e, principalmente, naquelas que confinam com os distritos de Lourenço Marques,
Inhambane e Sofala, haverá Residentes subordinados ao Residente-Chefe, para
exercerem sobre as autoridades locais, dependentes do referido Régulo, a tutela
a que se refere o número precedente; 5)- Os Residentes arvorarão a bandeira
portuguesa nas suas residências e terão, para sua guarda, a força militar que
lhes for destinada; 6)- Quando algum indígena, dependente da jurisdição do
Régulo Gungunhana, praticar crime ou delito em território sujeito à
administração das autoridades portuguesas, será julgado e sentenciado pela
justiça portuguesa; 7)- Os indivíduos portugueses que cometerem crime ou delito
nas terras sujeitas ao Régulo Gungunhana serão entregues ao residente da
localidade, ou ao mais próximo, para serem remetidos à autoridade portuguesa,
que os fará julgar no seu distrito; 8)- Em todos os actos solenes de sucessão
de Régulos será presente o Residente-Chefe, munido do acto de confirmação do
sucessor, passado pelo Governador-Geral da Província de Moçambique; 9)- O
Régulo Gungunhana obrigará a sua gente a entregar-se à agricultura e ao
aproveitamento de todos os produtos indígenas que possam servir à indústria ou
ao comércio; 10)- O Régulo Gungunhana terá um selo fornecido pelo Governo
português, com o fim de tornar autêntica qualquer ordem que expeça para os
outros Régulos, ou qualquer comunicação para as autoridades portuguesas; 11)-
Todos os súbditos portugueses transitarão livremente pelas terras do Régulo
Gungunhana e, semelhantemente, todos os naturais destas terras poderão
transitar pelas terras dos distritos governados pelas autoridades portuguesas;
12)- Somente aqueles indivíduos que se destinarem à caça dos elefantes terão de
obter prévia licença das autoridades dependentes do Régulo Gungunhana e autorização
do Residente-Chefe; 13)- O Régulo
Gungunhana permitirá a exploração de minas e de outros produtos do País aos
indivíduos que para esse fim tiverem obtido concessão do Governo Português e a
ela se apresentarem com os presentes correspondentes e usuais; 14)- O Régulo
Gungunhana facilitará, por todos os modos, a exploração e estudo de todos os
rios, montanhas e lagos que o Governo Português julgar necessários para
conhecimento corográfico do País; 15)- Sendo o intuito principal deste acto de
vassalagem o chamar, pouco a pouco, à civilização, os povos sobre que tem
jurisdição o Régulo Gungunhana, este fica obrigado a proteger a fundação de
escolas e missões religiosas que o Governo Português quiser estabelecer,
fornecendo gente e materiais para a construção dos edifícios que tais
estabelecimentos reclamarem, mediante a respectiva remuneração; 16)- O Régulo
Gungunhana terá a graduação, por decreto real, de Coronel de Segunda-Linha;
17)- Por proposta do referido Régulo, com intervenção do Residente-Chefe, poderá
o Governador-Geral da Província de Moçambique conceder as honras de Capitão de
Segunda-Linha aos dois principais secretários do mencionado Régulo, honras que
perderão com a destituição do seu cargo.”
No entanto, em 1890, estabelece idêntico protocolo com enviados da British
South Africa Company**. Mantendo a política de boa vizinhança com o Reino
N´bedele, encetada por seu pai, casa com uma das filhas de Lobengula**. Em 1889
desloca a sua capital, Manjacaze**, do planalto interior a norte do rio Save, fixando-a
no sul, numa área compreendida entre os rios Limpopo e Inharrime. Em 1892 é
descrito pelo médico missionário Liengme, que o visitou, do seguinte modo: “Em 1892 por ocasião da nossa visita,
Gungunhana poderia ter 40 a
45 anos. Era um ébrio inveterado. Após qualquer das numerosas orgias a que se
entregava, era medonho de ver com os olhos vermelhos, a face tumefacta, a
expressão bestial, que se tornava diabólica, horrenda, quando, nesses momentos
se encolerizava. Lembramo-nos de, um dia, termos ousado contradizê-lo a
propósito dos Chopes, seus mortais inimigos, defendendo que também eram seres
humanos e como tal deviam ser tratados. Apossou-o um furor terrível, rilhando
os dentes, rolando os olhos ferozes, invectivou esses desgraçados Chopes que,
segundo ele, deviam ser exterminados ou reduzidos à escravatura...” Desencadeia a campanha contra os
chopes** e vencendo-os em toda a linha, depois de combates ferozes. Nesta
campanha teve ajuda portuguesa, em armamento, como referiu, por exemplo, Caldas
Xavier**: “... ajudámos com
artilharia e outro armamento moderno, os soberanos angunes a submeter os chopes”. Receosos
do seu poder, e da grandeza territorial e guerreira do Reino de Gaza; que ia do
Limpopo às terras de Manica e, militarmente, estruturada nos moldes zulus**, os
portugueses, fruto da nova política colonial europeia, em que eram obrigados a
colonizar os territórios em toda a sua efectividade, sob pena de os perderem
para outras potências e, a fim de travarem os apetites dos ingleses da BSAC**,
desencadeiam a guerra aos vátuas. Para tal serviu-lhes de pretexto a recusa de
Gungunhana em lhes entregar os chefes rebeldes Matibejana** e Mazula**, que se
tinham asilado no seu kraal**, recusa essa que se baseava num costume angune no
qual a concessão de asilo a alguém tornava-se num acto sagrado e inviolável. A
recusa de entregar os régulos* acolhidos no seu seio não foi pacífica entre os
conselheiros da Gungunhana que, estrategicamente, advogavam a sua entrega aos
portugueses como forma de os acalmar, mas este recusou sempre tal pretensão,
por estar convencido que o conflito com os portugueses iria acontecer de
qualquer maneira e, a ceder a tal pretensão, trar-lhe-ia desprestígio no seio
das populações e dificuldades em arregimentar forças. Em dois combates, no
decurso de 1895, as forças aliadas a Gungunhana foram batidas em Marracuene**,
Magul**, mas onde as suas forças não intervieram. Em Outubro desse mesmo ano
Gungunhana desmobiliza, inexplicavelmente, o seu exército de cerca de quarenta
mil homens que mantinha nas imediações de Manjacaze**, acto suicida, atendendo
a que uma coluna militar portuguesa, comandada pelo Coronel Eduardo Galhardo e
saída de Inhambane*, já se encontrava em Chicomo. Por fim, em Coolela**, deu-se
o combate que opôs directamente angunes* contra europeus, culminando com a
derrota daqueles. Em desespero de causa, vendo o seu Reino a desmoronar-se com
a consequente perca de poder e prestígio, Gungunhana tenta o suborno aos
portugueses, enviando-lhes marfim* e ouro e, violando regras dos costumes do
seu povo, manda entregar o Régulo Matibejana**, numa tentativa humilhante de
travar o ímpeto dos portugueses, mas nada detém as intenções de Mouzinho de
Albuquerque. A 28 de Dezembro desse mesmo ano Gungunhana é preso, por Mouzinho
de Albuquerque, em Chaimite, terra sagrada dos angunes*, consumando-se a queda
do Reino de Gaza. Após a sua prisão, Gungunhana é trazido para Lisboa, onde é
exibido, baptizado pelos cânones da religião católica com o nome de Reynaldo
Frederico Gungunhana e graduado em Sargento de segunda linha. Deportado para a
ilha Terceira, nos Açores, em Portugal, aí veio a falecer, em 1906.
Acompanharam na sua deportação o régulo* Matibejana*, o seu tio e conselheiro
Molungo e o seu filho Godido, tendo todos falecido nos Açores. Déspota,
assassino, alcoólico, faltando-lhe a estatura administrativa e militar do seu
avô Manicusse**, ou o perfil diplomático e pragmático do seu pai Muzila**,
ultrapassado no tempo e sem nunca se ter apercebido dos novos ventos a História
que se estavam a formar, Gungunhana foi um joguete nas mãos dos europeus, quer
portugueses quer britânicos, sendo completamente injustificável todo o
branqueamento que alguns historiadores tentaram fazer da sua figura como
lutador anti-colonial, já que o mesmo não passou dum peão no tabuleiro do
xadrez político que se jogou o destino da África meridional, em finais do
século XIX. Estava desfasado no tempo, e nunca se apercebeu disso. Em 1985
trasladaram-se as suas ossadas para Moçambique, onde foi sepultado como herói nacional,
numa pura operação de demagogia política levada a cabo pelo regime ditatorial
moçambicano.
Reino
de Gaza – Reino angune*, fundado
por Manicusse**, que entrou no actual território de Moçambique por volta de
1820, em consequência do difacane**. Abrangia os actuais territórios situados
entre os rios Limpopo e Zambeze, em Moçambique. Teve quatro governantes:
Manicusse**, Maueva**, Muzila** e Gungunhana. Em 1895 com a prisão de
Gungunhana, os portugueses puseram fim a este Reino, cujo nome é uma homenagem
do fundador do mesmo ao seu avô. Era um Reino assente numa estrutura
centralizadora e militar, no qual o poder do Rei era inquestionável. O poderio
militar, peça fundamental nesta monarquia, era copiado à imagem do que fora
idealizado por Shaka Zulu**, sendo extremamente violento e economicamente
parasitário, pois vivia em permanente estado de guerra, única forma de manter
os seus guerreiros activos e com os seus pensamentos desviantes para outros
povos mais fracos, com as consequentes rapinagens e direitos de saque com que
se alimentavam. No entanto a existência de fenómenos naturais adversos, tais
como pragas, secas e doenças, levava os angunes a arrasarem outras aldeias mais
além, em busca de gado para se alimentarem, o que acabava por aumentar a
pobreza das regiões, atendendo a que a agricultura não tinha cabimento no
conceito de gestão do Reino. Assim, tendo uma estrutura económica baseada
principalmente no direito de saque, o Reino era miserável e as populações
famintas. Como exemplo refira-se que, quando Gungunhana mudou a sua capital
para o Sul, por volta de 1890,
a migração forçada de milhares de pessoas deslocadas
gerou situações de miséria absoluta. Outro exemplo reporta-se ao exército que
Gungunhana tinha de cerca de quarenta mil homens, perto da sua capital e por si
mandado destroçar em Outubro de 1895, o qual padecia de fome e de prolongado
estado de subnutrição. As permanentes incursões militares provocavam também
desgaste na actividade da caça e a destruição de núcleos comerciais, como
aconteceu com Inhambane*, em 1834, provocava também total ruptura no
abastecimento alimentar das regiões o que aumentava o estado de miséria das
populações locais que se punham em fuga e, como consequência, criava-se o ciclo
vicioso de novas incursões militares em busca de gado e escravos. O permanente
estado de guerra atrofiava as relações comerciais com o exterior, tendo mesmo
Manicusse* proibido de entrarem navios na barra do Limpopo. Em relação à
escravatura, o mesmo Rei proibiu o tráfico da mesma. Muzila, mais aberto,
incrementou o tráfico de marfim*, como forma de aumentar os seus proventos,
tendo sido no período do seu reinado que aumentou a exportação de marfim* para
a ilha de Moçambique*, bem como acabou por remover a proibição do seu pai e
autorizar a entrada de navios no Limpopo e também terá permitido o tráfico de
escravos para o Transvaal. Com a migração de súbditos seus para a África do
Sul, para trabalharem na indústria mineira, a moeda inglesa começou a correr no
seu Reino, conjugada também com as visitas que recebia de comerciantes
britânicos que se deslocavam às suas terras. O findar da riqueza proveniente do
comércio do marfim, devido ao seu desaparecimento por excesso de caça e o
surgimento de novas fontes de riqueza no Sul, onde a libra de ouro britânica
começava a circular em abundância terá sido uma das razões fulcrais que
levaram, mais tarde, Gungunhana a mudar a capital do seu Reino de Mossurize, no
norte, para Manjacaze, no sul, a fim de poder estar mais perto dessas mesmas
fontes de riqueza. O tráfico externo de escravos nunca terá tido grande
importância no seu reinado, contrariamente ao interno, que se incrementou
aquando da destruição dos chopes**. Mas já então o Reino se encontrava no seu
ocaso.
A propósito do filme “As minas de Salomão”, acima referido pelo facto da Michaela Denis ter desempenhado no
mesmo o papel de “dupla” da actriz principal Deborah Kerr, nas cenas mais
arriscadas, o filme em causa inspirou-se no livro com o mesmo título e que foi
escrito por Henry Rider Hagard. A lenda
das minas de Salomão teve bastante disseminação no século XIX e foi um dos
temas mais apaixonantes que passaram pelas mentes dos nossos bisavós europeus.
Muitas outras lendas existiram, tal como a do cemitério dos elefantes,
que fantasiosamente afirmava que todos os elefantes instintivamente procuravam
um local certo para morrerem. Quem localizasse um cemitério de elefantes
ficaria poderosamente rico face ao marfim aí localizado. Nada disto era verdade
pois os paquidermes morrem em qualquer local quando a hora chega ou são
caçados.
No decurso do século XIX começou a descoberta do interior africano, até
aí desconhecido e cujos mapas apresentavam grandes manchas em branco. Aliás, na
África Central, face ao desconhecimento geográfico desses territórios uma
enorme área era referida por “Montanhas da Lua”, razão deste nome já aqui explicado numa mensagem anterior.
A par das expedições militares, religiosas, mercantis, geográficas e
científicas ou doutro tipo que iam rasgando o continente em todos os pontos
cardinalíceos, quase todas eram movidas pela ânsia da gigantesca posse de terra
e de gentes. As minas de Salomão foram uma das muitas lendas que encaminharam
aventureiros das setes partidas para África, na busca de encontrarem fortunas
de ouro e pedras preciosas que remontavam aos tempos biblicamente salomónicos.
………………………………………………………
A lenda das minas de Salomão:
Como qualquer lenda desconhece-se a sua paternidade, a sua fonte de
origem. Uma das fontes inspiradoras desta lenda poderão ter sido os relatos
descritos no Kebra Nagast (1).
Baseava-se a mesma na existência de Salomão, um Rei bíblico, sábio,
poderoso e muito rico que tinha a sua corte em Jerusalém e que aí viveu mil
anos antes de Cristo. A sua fama ultrapassava as fronteiras e chegou ao Reino
de Sabá, no actual Iémen, onde reinava a Rainha Balkis (também chamada de
Makeda). Esta, desejosa de criar laços comerciais com Salomão, armou uma
caravana com o que de melhor havia no seu Reino e deslocou-se a Jerusalém, tendo
ficado na corte judaica durante uns meses. Os dois acabaram por gerar um filho,
a quem deram o nome de Menelik. Reza a tradição, ou a lenda como lhe queiram
chamar, que Salomão sempre desejou carnalmente Balkis, mas esta, inteligente e
sagaz, sempre se esquivou às investidas do Rei. Então certa vez, Salomão,
cansado dos resultados infrutíferos dos seus pedidos, ofereceu um jantar real
exclusivo à Rainha e ordenou aos seus cozinheiros que condimentassem bem os
manjares a serem servidos, para esta ingerisse bastantes líquidos para se
dessedentar. Rezam as crónicas que, nessa noite, Balkis bebeu mais do que a
conta e quando deu por ela estava nos braços salomónicos.
E foi esta a causa do nascimento de Menelik. Seja como for, Balkis
acaba por regressar ao seu Reino, com o filho gerado com Salomão e, na fase da
adolescência deste, envia-o para junto do pai, a fim de melhorar a sua educação
pois, com a sapiência paterna, evoluiria muito mais. Menelik fica na corte do
seu pai vários anos, onde aprende o mestrado na arte da política e é quando
Salomão, sentindo-se velho e com a morte a aproximar-se, entrega a Menelik o
comando duma faustosa caravana cameleira, carregado de riquezas inimagináveis e
remete-o, de novo, para a corte materna. Rezam as crónicas que, nessa caravana,
Salomão terá entregue a Menelik a Arca da Aliança (2).
De seguida Menelik ruma para África e instala-se em Axum, dando origem
a um reino que seria a Etiópia. Inicia, então, o mais longo reinado africano
que iria durar, intermitentemente, dois mil e quinhentos anos, até 1974, quando
o seu último descendente em linha directa (3) – o Imperador Hailé Selassié (4)
– foi deposto por um golpe de estado militar nesse ano e falecido em 1975.
Ora foi toda esta lendária fortuna de riquezas inimagináveis que
Menelik I e os seus descendentes, a fim de evitarem que a mesma caísse em mãos
alheias e com base no princípio de não pôr todos os ovos no mesmo cesto, que
dividiu a mesma em várias partes e mandou, secretamente, esconder a sua fortuna
em vários pontos de África. Um desses locais secretos onde parte da sua fortuna
estaria guardada seria no que é hoje o Zimbabwé.
………………………………………………
Nota: Na próxima mensagem finalizar-se-á a história desta lenda
…………………………………………………
(1) – O Kebra Nagast, também conhecido pelo “Livro da Glória dos
Reis”, é como que a Bíblia copta,
sintetizada. É um livro sagrado, como a Bíblia, o Alcorão ou a Tora, onde se
encontra relatado o relacionamento do Rei Salomão e da Rainha de Sabá, o
nascimento do filho de ambos, Menelik e a sua vinda para a Etiópia, donde
descende a linhagem monárquica que findou com Hailé Selassié.
(2) – A Arca da Aliança seria uma caixa onde se encontravam guardadas
as tábuas dos Dez Mandamentos, bem como seria um elo de ligação entre Deus e os
hebreus. Nunca tendo sido encontrada, relata-se que a mesma desapareceu quando
Jerusalém foi conquistada por Nabucodonosor, e que poderia ter sido escondida
por fiéis. A história da Arca da Aliança tem sido combustível que tem
alimentado a fornalha de inúmeros romances sobre a mesma e, por sua vez,
geradora de miríades de lendas.
(3) – Historicamente isto não corresponde à verdade. Ao dizerem que a
linhagem de Menelik I foi ininterrupta até Hailé Selassié queriam dar uma razão
místico-religiosa à mesma, pois sendo Menelik I filho de Salomão, todos os seus
descendente seriam consanguíneos de Jesus Cristo.
Na realidade, ao longo dos dois milénios e meio que a Coroa etíope terá
prevalecido, sofreu diversas quebras dinásticas, documentadas historicamente.
(4) Hailé Selassié – (1892/1975) – Último Négus (Imperador) etíope.
Tafari Makonem era o seu nome de nascença (Tafari – nome próprio; Makonem –
nome do pai, segundo o costume cristão copta). De linhagem nobre torna-se Ras
(Governador) de Herer. Ascende à coroa etíope em 1930, adoptando o nome de
Hailé Selassié (traduzido: Poder da Trindade) I. Em 1923 conseguiu a admissão
da Etiópia na Sociedade das Nações (antecessora da actual ONU), apadrinhado
pelos governos português e francês. Combate as forças italianas que invadem a
Etiópia em 1935, mas acaba derrotado e exila-se. Com o findar da II Guerra
Mundial e a derrota das forças italianas, regressa ao trono. Governou com mão
de ferro o País tendo sido um dos fundadores da OUA – Organização de Unidade
Africana, actual UA – União Africana. Foi deposto em 12 de Setembro de 1974 e
morreu, sob prisão, em 27 de Agosto de 1975.
Apenas encontrei este livro, na sua edição portuguesa, em
alfarrabistas. Trata-se das memórias de Armand Denis sobre a sua vida de
documentarista da vida selvagem e sobre o qual assentei as transcrições que se
encontram plasmadas na sua biografia.
Esta obra, publicada em 1885, em plena época vitoriana é, na área da
literatura de aventura, dos livros mais vendidos de todos os tempos, sempre com
sucessivas edições de múltiplos editores, em quase todas as línguas do planeta.
Trata-se da narrativa ficcionada dum grupo de aventureiros que liderados por
Alan Quartmain (o principal personagem do livro) penetram no interior africano
na busca dum local onde estariam guardadas fabulosas riquezas provenientes do
tesouro real de Salomão, o Rei bíblico, sucedendo-se pelo caminho diversas
aventuras. Foi um dos primeiros (para não dizer o primeiro) livro de aventuras
que se escreveu com o cenário africano a dominar toda a narrativa. Mais de um
século volvido sobre a sua publicação ainda continua a fazer as delícias de
muitos leitores, sendo transversal a todos os grupos etários.
Editora: Esfera dos Livros
Ano: 2012 Págs.:
637 Género: Romance
Trata-se do primeiro romance deste historiador, professor universitário
e politólogo. Abarca o cruzamento de diversas vidas no período temporal entre
duas agonias: o Verão de 1973 – o crepúsculo do Império Português – e o Outono
de 1975 – o findar do período revolucionário que se seguiu.
Um livro que é um libelo acusatório contra a opressão a que as mulheres
afegãs estão submetidas nas suas várias vertentes. Tratadas como peças de carne
para prazeres inconfessáveis, escravas domésticas e domesticadas, saco de
pancadas para descarregamento das frustrações dos homens que as violam,
violentam e vilipendiam, neste livro há toda uma recolha corajosa de
testemunhos das mulheres humilhadas e ofendidas por homens que, em nome dum
radicalismo religioso, não passam de bestas bípedes.
………………………………………………………
Acabo de ler na imprensa diária (DN, 24/0172013) a notícia que uma
jovem afegã, de 15 anos de idade e residente na província de Daikundi, após ter
sido violada não se calou e denunciou o facto conseguindo que o violador fosse
identificado, preso, julgado e condenado a 16 anos de prisão (e cinco para um
cúmplice). Posteriormente colocada num abrigo governamental que acolhe mulheres
em risco, para serem protegidas, acabou por ser novamente violada por vários
elementos desta instituição, numa mesma noite. Voltou a denunciar os factos e o
escândalo foi tal que obrigou o Presidente da República, Hamid Karzai, a enviar
uma força especial investigatória dos factos. De novo logrou a prisão dos
autores. No entanto, este é um dos raros casos em que uma mulher, numa
sociedade culturalmente dominada pelos homens, ergue a cabeça e, corajosamente,
denuncia as humilhações a que é forçada a ter. Mas que o seu exemplo de coragem
e tenacidade seja um ponto de partida para que outras vozes femininas rompam o
silêncio a que se encontram violentadas.
Porque nenhuma religião, opção política, ou mentalidade, seja ela qual
for, pode justificar tais atrocidades.
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MÚSICA
Júlio Fernando de Jesus Pereira
Um dos mais importantes músicos do actual panorama português, nasceu em
Lisboa, em 1953. Iniciou-se nos meandros da música na área do rock, na década
de 70, ao integrar o grupo “Petrus Castrus”, conjunto este já aqui abordado em mensagem anterior. Para além de
ter integrado este conjunto também contribuiu com a sua participação em eventos
doutros músicos, tais como José Afonso, Fausto e Carlos do Carmo, entre outros.
Compositor e musicólogo português, especialista virtuoso a tocar alguns
instrumentos de raiz popular portuguesa, a ele se deve a redescoberta do
cavaquinho, esse pequeno instrumento de cordas que tão abandonado andava e já
quase só se ouvia nas feiras e romarias nortenhas e que muita gente julgava ser
havaiano (o ukelele). O cavaquinho é um instrumento de cordas originário do
Minho. Encontra-se amplamente divulgado em várias partes do Mundo,
principalmente onde a emigração portuguesa mais afluiu. Até que apareceu Júlio
Pereira e repôs as coisas no seu devido lugar. Em 1981 lançou “Cavaquinho”
um excepcional álbum dos mais importantes da música instrumental portuguesa.
Música: "Venho de comer macela"
No
ano seguinte editou outro álbum memorável – “Braguesa” – onde também recupera
os acordes deste instrumento de cordas. Titular duma discografia onde se contam
por dezenas os títulos por si compostos e tocados, Júlio Pereira, que considero
um musicólogo a quem a cultura do nosso País muito deve, tem andado,
infelizmente, arredado dos holofotes públicos.
Música: "Chula de Lisboa"
Talvez porque recuse a
mediocridade. Mas, nem que fosse só por isso, aqui lhe presto o meu sincero
aplauso de um admirador incondicional da sua obra.
Actores: Richard Chamberlain; Sharon Stone e outros
Ano: 1985 Género: Aventura Duração:
100 minutos
Esta é uma versão mais recente deste tema, inspirado parcialmente no
livro de Rider Haggard. Pesquisando no Youtube logrei visionar esta mais
recente versão que aqui reproduzo.
O primeiro filme a ser rodado, em 1950 tinha, como actores principais,
Stwart Granger e Deborah Kerr (que Michaela Denis fez de dupla nalgumas
partes), com 100 minutos de duração. Na minha opinão, ambos são de fraca
qualidade, sem grande motivo de interesse, apenas os anotando aqui por se ter
referido ao mesmo quando acima se biografou o casal Denis.
Em 1930 o antropólogo norte-americano Pat Putnam (Patrick Tracy Lowell
Putnam; 1904/1953) instalou-se no Congo Belga a efectuar trabalhos de pesquisa
sobre os pigmeus Mbuti. Numa das suas idas à terra Pátria logrou conhecer Anne
Eisner, uma pintora nova-iorquina que se apaixonou por ele e se deixou embalar
pelas histórias que ele relatava em conferências sobre o fascinante mundo
africano no geral e dos pigmeus em particular que viviam nas belíssimas
florestas de Iuturi.
As mulheres 1956
Acompanha-o no seu regresso a África e, no período
compreendido entre 1946 e 1958 Anne Eisner desenvolve trabalhos etnográficos
sobre os pigmeus Mbuti, transcrevendo por exemplo, todo o acervo de lendas
deste povo – para cima de duas centenas – a par de continuar a sua arte da
pintura. Foi a primeiro mulher branca a conviver na intimidade com este povo.
Mãe com criança (1957)
Em 1953, após a morte do seu amado, Anne Eisner continua no Congo junto dos
pigmeus a dirigir a estação antropológica que o seu marido tinha fundado bem
com o hotel que albergava os turistas até que, em 1958, por ter fracturado a
anca foi obrigada a regressar aos EUA para ser operada. Não mais voltou aos
seus amados pigmeus das selvas do Ituri, entretanto exterminados na voragem do
avanço duma civilização que criou outros tipos de selvas, tendo ela falecido de
cancro.
Consiste em 50 placas de aço com 10 metros de altura, cortadas a laser
e inseridas na paisagem, representando o 50º aniversário da captura e prisão de
Nelson Mandela, em 06 de Agosto de 1962, no próprio local onde tal sucedeu e
que lhe custaria 27 anos de cárcere.
Num ponto específico de observação, a visão em perspectiva das colunas
surpreende ao assumir a imagem de Nelson Mandela. O escultor é Marco
Cianfanelli, de Joanesburgo, que estudou Belas-Artes em Wits.
Trata-se dum canídeo carnívoro, típico habitante do deserto do Sahara e
península arábica. O que chama desde logo a atenção são o tamanho das suas
orelhas, que atingem os 15 cms. de comprimento num corpo cuja altura não
ultrapassa os 30/40 cms. de altura e ma mesma medida para o comprimento (sem
contar com a cauda). Trata-se dum cão extremamente bem adaptado ao deserto,
pois o tamanho desproporcionado das orelhas tem como função expulsar o excesso
de temperatura corporal atendendo a que, não tendo glândulas sudoríferas,
poderia sobreaquecer. Para além do mais também funcionam como excelentes
instrumentos de captação de sons de baixo intensidade provenientes de eventuais
presas (insectos, répteis e pequenos roedores) ou de eventuais predadores que o
caçam (aves de rapina e caracais, por exemplo).
Outra admirável adaptabilidade ao rude solo desértico são a espessa
camada de pêlos que se encontram sob a ponta das patas, almofadando as mesmas,
o que não só o protege do excessivo calor que emana do solo, durante o dia como
também, nas suas deslocações, o almofadam da aridez do solo pedregoso para além
de lhe fornecer deslocações mais seguras em terrenos arenosos que por si são
mais instáveis.
O corpo encontra-se também protegido por uma espessa pelagem cor de areia,
que o camufla durante o dia, confundindo-se com o solo como também o protege
das quedas abruptas de temperatura quando desce a noite. Caça solitariamente,
apesar de viver em comunidades que podem atingir os dez indivíduos. A raposa do
deserto também é conhecida por feneco e, felizmente, não corre perigo de
extinção.
O rio Senegal, com cerca de 1600 quilómetros de comprimento, nascendo
nas montanhas do Futa-Djalon desagua no Oceano Atlântico. O seu último terço de
percurso delimita a fronteira entre as repúblicas mauritana e senegalesa. O
estuário deste rio, que é bastante amplo, acaba por constituir um local de
repouso para um grande número de aves migrantes que, vindas da Europa em fuga
aos frios invernosos, ali chegam. O cruzamento das águas marinhas, que são
salgadas, com as do rio que são doces promove o surgimento dum ecossistema
endémico. A vegetação ribeirinha, essencialmente de juncos e canaviais,
proporciona um abrigo e refúgio a numerosas aves. Os insectos que ali esvoaçam
acabam por proporcionar alimento bastante às aves ali acoitadas.
O Parque, deste modo, tornou-se num fabuloso santuário centenas de
espécies de aves migratórias que ali, ou vindas da Europa repousam antes de
prosseguirem mais para Sul, ou então ficam a fazer a sua invernada, até
regressarem às suas fontes de origem. Com cerca de 10.000 hectares de
superfície e localizado no Senegal, abriu ao público em 1971 e conta, como seus
hóspedes anuais, garças, garcetas, marabus, íbis, patos, pelicanos, flamingos.
Este fabuloso habitat ornitológico está classificado pela UNESCO como
Património Mundial.
A sua passagem de fim de ano num dos hotéis mais luxuosos no Rio de
Janeiro revelou, mais uma vez, a falta de sentido de Estado e de ética deste
“xico-esperto” da política portuguesa. O luxo faustoso com que se rodeou
(interessante saber das suas origens e apurar donde veio tanto dinheiro)
perante um povo que come o pão que o Diabo amassou, revelou uma insensibilidade
e mentalidade terceiro-mundista, como soía dizer-se. Não sei porquê quando o
vejo vem-me à memória o Jean Bedel-Bokassa. E assim, temos um Primeiro-Ministro
refém deste seu Ministro que, sozinho, consegue desgastar mais a imagem do
Governo perante a opinião pública que o restante elenco governativo. Que
favores deverá Passos Coelho a este energúmeno da política para ainda não o ter
demitido?
……………………………………………
Para além do local faustoso da passagem do ano, também o passou com
duas companhias das mais gradas dos portugueses (então não?): Dias Loureiro e
José Luís Arnaut. Realmente, lembra-me do dito popular: “diz-me com quem
andas dir-te-ei quem és.” Enfim, um nojo.
Quando vi fotos dos três todos lambareiros no hotel a gozarem à tripa forra,
lembrei-me do BPN, esse banco da elite “laranja” que os meus/nossos netos ainda
andarão a pagar as falcatruas do mesmo, por cobardia da nossa classe política
que não consegue domar os homens de cinzento da SLN.
Num comunicado lavrado a 09 de Janeiro corrente, a Sociedade Portuguesa
de Autores (SPA) veio informar que não adoptava as normas do novo Acordo
Ortográfico, face às posições assumidas pelo Brasil (que adiou para 2016 uma
decisão final) e por Angola (que sempre se manifestou contra o Acordo). Mais
adiantava que face à posição destes dois países não fazia “… sentido dar
como consensualizada a nova norma ortográfica quando o maior Pais do espaço
lusófono (Brasil) e também Angola tomaram posições em diferente sentido.” O comunicado em causa lamentava ainda a
actuação da classe política portuguesa nomeadamente do ex-Ministro dos Negócios
Estrangeiros Luís Amado, que não se dignou a ouvir as partes interessadas
(entre elas a própria SPA) e da Assembleia da República que “foi
subalternizada no processo do debate deste assunto.” Enfim, tardaram mas lá se decidiram.
O banqueiro Ricardo Salgado, do Banco Espírito Santo, não declarou 8,5
milhões de euros no seu IRS “por esquecimento”, como justificou ao ter sido apanhado “na curva” como popularmente se
diz. A verba em causa reportava-se a rendimentos de capitais e de trabalho no
estrangeiro. Pois claro. Também não percebo a sanha popular que recaiu sobre o
pobre homem. Que Diabos, oito milhões de euros são amendoins. Uma ninharia. Ao coitado,
não declarar oito milhões e meio de euros “por esquecimento” é normal. Acontece a qualquer um. Até a
mim. Realmente este povo é pobre e mal agradecido.
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Foi este mesmo senhor que teve que se deslocar ao (Departamento de Acção
e Investigação Penal (DIAP) para ser ouvido mas frisando que fora: “a seu
pedido”. Assim mesmo. Eu pensava que era
o DIAP que decidia quem queria ouvir no âmbito de processos e não o contrário.
Mas afinal eu estava enganado. Ele pediu
para ser ouvido e o DIAP fez-lhe a vontade. Ouviu-o. Então é assim: amanhã
ninguém me liga nenhuma e eu quero falar com alguém, mas não tenho com quem.
Ah, não faz mal. Vou ao DIAP e peço para ser ouvido: “Olhe, faz favor,
senhor Procurador, ouça-me.” E então
fazem-me a vontade. E ainda nos queixamos do DIAP. Realmente este povo é pobre
e mal agradecido.
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DECLARAÇÃO DE INTERESSES
O texto acima reproduzido foi escrito em desacordo com o Novo Acordo
Ortográfico.
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