"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Hanon




VIAJANTES, AVENTUREIROS E EXPLORADORES



 
Hanon - Desconhece-se a sua data de nascimento que se calcula que tenha sido por volta de 500 AC, presumindo-se que tenha falecido por volta de 440 AC. Foi um navegador cartaginês, por muitos considerado como tendo sido o primeiro navegador da Antiguidade a explorar a costa ocidental africana. No apogeu económico da cidade-estado de Cartago, decidiu-se expandir as suas actividades económicas para Ocidente, a fim de buscar outras fontes quer de absorção de matérias comerciáveis quer de colocação dos seus produtos.
 

Por volta de 800 AC navegadores fenícios, vindos de Tiro fundaram, na actual Tunísia, uma feitoria económica que chamaram de Cartago, sendo que a sua localização actual é um bairro de Túnis. Os fenícios eram excelsos marinheiros e habéis comerciantes, pelo que o desenvolvimento de Cartago foi uma consequência natural da sua actividade mercantilistico-marítima.
 
 
 
 
Ruínas de Cartago
 
 

O poderio cartaginês acabou por rivalizar com o de Roma, no domínio do Mar Mediterrâneo, pelo que o confronto bélico entre as duas potências foi o desaguar natural desta rivalidade, tendo originado três guerras (entre 264 AC e 146 AC) que acabaram com a vitória romana, acabando Cartago por ter sido riscada da História e englobada no Império Romano.


 
Mas foi no decurso do seu apogeu económico que esta Cidade-Estado resolveu enviar duas expedições marítimas para Ocidente, confiando uma a Himilco, com a finalidade deste atingir as Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar) e rumar para Norte e a Hanon o comando da outra expedição marítima a qual, após ultrapassadas as Colunas de Hércules rumaria para Sul e exploraria a costa africana.

 

Da expedição de Himilco pouco ou nada se sabe mas a história da expedição de Hanon sobreviveu até aos tempos actuais, por ter sido encontrada uma estela(1) onde o mesmo relatava a sua odisseia. Essa estela, conhecida pelo "Périplo de Hanon", colocada num templo cartaginês, acabou destruída após a terceira guerra romano-cartaginesa (guerras púnicas) mas sobreviveram-lhe cópias, quer em grego quer em latim. Foi a reprodução dessas cópias que levou ao conhecimento actual da odisseia de Hanon.

 
 
Pela leitura que se fez das referidas cópias apercebemo-nos que a expedição de Hanon tinha por missão explorar a costa africana até onde pudesse chegar e fundar, ao longo do percurso,  feitorias. Comandando uma frota de dezenas de navios e milhares de homens e mulheres Hanon, ultrapassado que foi Gibraltar (Colunas de Hércules) fundou feitorias ao longo da costa marroquina, após o que flectiu para sul, navegando sempre à vista. Atingiu a costa da actual República dos Camarões e continuou a navegar para sul, passando o rio Geba na actual Guiné-Bissau podendo ter atingido o Golfo da Guiné, dando por finda a sua viagem exploratória e retornando a Cartago.
 

 
 
 
O navio trirreme, uma criação naval fenícia
 
 
 
Nesta época os navios costumavam navegar junto à costa pelo que Hanon, perito neste tipo de navegação, ultrapassado Gibraltar e atingindo a extremidade noroeste africana flectiu para Sul, ao longo da actual costa marroquina. Dois dias após terem passado Gibraltar fundaram uma feitoria no vale de Sebu (Marrocos). Continuando a rumar para Sul, Hanon depara-se com um promontório tão assustador (cabo de Cantin) que aí erguem um templo dedicado a Poseidon .

 
 
Cerca de trinta milhas mais adiante atingem, eventualmente, o uadi (2) Tensift onde encontram elefantes e outros animais selvagens. Acabam por criarem mais cinco feitorias ao longo da costa atlântica marroquina. Posteriormente uma luz difusa no horizonte acaba por lhe revelar estar perante o deserto do Sahara. Resolve desembarcar para se abastecer de água em "Lixos, um grande rio que corre da África" (vem do interior africano), presumindo-se que seja o uadi Dra. Aqui tem o primeiro encontro com nativos, de relacionamento amigável. Levando alguns lixitas a bordo para servirem de intérpretes em terras mais a Sul acaba por atingir a enseada do rio Ouro onde funda mais uma colónia.
 

 
Continuando a sua navegação para Sul atinge a embocadura do rio Senegal onde avista muitos crocodilos e hipopótamos. Interna-se pelo rio senegal mas a hostilidade das populações nativas, muito agressivas, impedem-no  de desembarcar pelo que retorna ao Atlântico e desce até ter dobrado o cabo Verde (não confundir com o arquipélago de Cabo Verde). Finalmente, ao décimo segundo dia de viagem, acaba por mandar baixar as âncoras e permite que os seus homens venham a terra, onde as árvores tinham um perfume intenso e muito agradável.


 
A atingir o extremo da sua viagem marítima, dois dias depois a frota de Hanon atinge o rio Gâmbia e, após se ter abastecido de água doce, continua a navegar até que, dois dias mais tarde, atinge o rio Geba, na actual Guiné-Bissau e, muito provavelmente, navega nos Bijagós. Rumando ainda um pouco mais para Sul, terá atingido o Golfo da Guiné (muito discutível), onde capturam e matam três gorilas fêmeas cujas peles levam para Cartago.


 
Terminando abruptamente a sua narrativa de viagem, invocando escassez de alimentos, Hanon e a sua equipa desaparecem da História. Demorariam uns dois mil anos até que outros navegadores se aventurassem por aqueles mares atlânticos em direcção ao Sul. 


 
Desconhecem-se outros elementos biográficos sobre Hanon, salvo que regressou a casa e terá escrito o seu périplo. Tudo o mais são conjecturas, incompatíveis com o rigor histórico.

 
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(1) - Estela é uma placa de pedra onde se gravam desenhos e inscrições dos mais diversos matizes.
(2) - Uadi é o leito seco de um rio, que se enche apenas na época das chuvas. Trata-se duma palavra árabe que traduzida significa "rio" ou "águas correntes". 

 
 
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Périplo de Hanon

 
 
 
 
 
 
 Texto do Périplo de Hanon: tendo lido várias versões sobre este texto  (inglês, castelhano e português) e por serem todas traduções umas das outras, optei por verter para aqui o texto em português e constante na internet. As letras maísculas, em itálico e negradas, não são parte do texto copiado, servindo apenas de linha de guia condutoras da viagem com terminologia geográfica actual.
 
  1. "Os cartagineses ordenaram a Hanão que empreendesse uma viagem para além dos Pilares de Hércules e fundasse algumas cidades púnicas. De acordo com as ordens, ele navegou com 60 navios de 50 remos cada, transportando trinta mil homens e mulheres, com as provisões e outros equipamentos necessários.
  2. Depois de, na nossa viagem, atravessarmos os Pilares de Hércules (A), e navegarmos durante dois dias para lá deles, fundámos a primeira cidade, a que chamámos Thymiaterion. Abaixo dela existe uma extensa planície. (B)
  3. Navegando de lá na direcção do oeste, chegámos a Soloeis, um promontório africano, que está coberto por árvores. (C)
  4. Aqui dedicámos um templo a Poseidon. Navegando para leste durante meio dia, chegámos a uma lagoa. Não era longe do mar e estava coberta com abundantes juncos longos, que elefantes e outros animais selvagens estavam comendo. (D)
  5. Depois de deixarmos a lagoa, navegámos por um dia. À beira-mar fundámos cidades, chamadas Karikon Teichos, Gytte, Akra, Melitta e Arambys.
  6. Continuando a nossa viagem a partir daí, atingimos o Lixos, um grande rio que corre da África.(E) Os lixitas, uma tribo nómada, estavam a pastorear o seu gado junto a ele. Permanecemos com eles por algum tempo e tornámo-nos amigos.
  7. Para além do território deles, povos negros hostis ocupam uma terra plena de animais selvagens. Está rodeada pelas grandes montanhas de onde corre o Lixos. De acordo com os lixitas, povos estranhos habitam entre essas montanhas: homens das cavernas que correm mais rápido que cavalos.
  8. Quando conseguimos que intérpretes lixitas nos acompanhassem, navegámos para sul, ao longo da costa desértica, durante dois dias. Depois de navegarmos para leste por um dia, encontrámos, no recesso de uma baía (F), uma pequena ilha (G), cuja circunferência era de cinco estádios. Deixámos aí colonos e chamámo-lhe Kerne. Pela duração da viagem, calculámos que esta ilha fique na posição oposta de Cartago, pois o tempo de navegação de Cartago até aos Pilares de Hércules, e de lá até Kerne, era o mesmo.
  9. Navegando daí, atravessámos um rio chamado Chretes e atingimos uma baía que continha três ilhas maiores do que a de Kerne. Depois de um dia de navegação a partir dali, chegámos ao fim da baía, que era dominado por grandes montanhas, cheias de selvagens vestidos com peles de animais. Atirando pedras, eles impediram que desembarcássemos, e fizeram-nos afastar.
  10. Partindo dali, chegámos a outro grande rio, muito largo (H), cheio de crocodilos e hipopótamos. Regressando daí, voltámos para Kerne.
  11. A partir dali, navegámos para sul durante doze dias. Mantivemo-nos próximo da costa, inteiramente habitada por negros, que fugiam de nós quando nos aproximávamos. A sua língua era incompreensível, mesmo para os nossos lixitas.
  12. No último dia ancorámos junto a umas altas montanhas. Elas estavam cobertas por árvores cuja madeira era aromática e colorida.
  13. Navegando em torno das montanhas durante dois dias, chegámos a uma imensa baía, para além da qual, do lado de terra, estava uma planície (I). Durante a noite observámos grandes e pequenos fogos, dispersos por toda a parte, flamejando de tempo em tempo.
  14. Tomando aí aguada, continuámos viagem durante cinco dias ao longo da costa, até que chegámos a uma grande baía, que de acordo com os nossos intérpretes era o Corno do Ocidente (J). Nela havia uma grande ilha, na qual existia uma lagoa, salgada como o mar, e nela outra ilha (K). Aqui desembarcámos. De dia não conseguimos ver nada a não ser floresta, mas durante a noite vimos muitos fogos acenderem-se, e ouvimos o som de flautas, o bater de címbalos e tambores e os gritos de uma multidão. Tivemos medo e os nossos adivinhos aconselharam que deixássemos a ilha.
  15. Navegámos rapidamente para fora dali, passando ao longo de uma costa ardente cheia de incenso. Grandes torrentes de fogo vazavam no mar, e a terra era inacessível devido ao calor.
  16. Rapidamente e com temor, navegámos para longe daquele lugar. Navegando durante quatro dias, vimos, à noite, a costa cheia de fogo. No meio havia uma grande chama, mais alta do que as outras, parecendo subir até às estrelas. De dia, verificámos que era uma grande montanha, a qual era chamada Carro dos Deuses (L).
  17. Navegando dali ao longo das torrentes de fogo, ao fim de três dias chegámos a uma baía chamada Corno do Sul (M).
  18. Neste golfo havia uma ilha, parecida com a primeira, com uma lagoa, no interior da qual havia outra ilha, cheia de selvagens. A maioria eram mulheres com o corpo coberto de pelos, a que os nossos intérpretes chamavam gorilas. Apesar de os termos perseguido, não pudemos apanhar nenhum macho: todos escaparam por serem grandes trepadores que se defendiam atirando pedras. Contudo, capturámos três mulheres, que se recusaram a seguir os que as tinham apanhado, mordendo-os e arranhando-os com as garras. Por isso, matámo-las e tirámo-lhes as peles, que trouxemos para Cartago. Não navegámos mais, pois as nossas provisões começavam a escassear."
 


A) - estreito de Gibraltar.
B) - vale do rio Sebu, em Marrocos.
C) - cabo Cantin, em Marrocos.
D) - uadi Tensif, em Marrocos.
E) - uadi Dra, em Marrocos.
F) - enseada do Rio do Ouro, em território Sahauri.
G) - ilha de Herne.
H) - rio Senegal, no Senegal.
I) - estuário do rio Gâmbia, na Gâmbia.
J) - estuário do rio Geba, na Guiné-Bissau.
K) - arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau.
L) - monte Kakulima, na Serra Leoa.
M) - estreito de Sherbro, na Serra Leoa.


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HISTORIANDO MOÇAMBIQUE COLONIAL
 
 



 
 
Boletim Oficial – Era o órgão de imprensa que difundia as notícias do Governo, tendo o seu primeiro número sido publicado no dia 13 de Maio de 1854 e, até 1870, foi o único jornal de Moçambique. No primeiro número consignava-se que Este Boletim sairá todos os sabbados, e assigna-se para elle na Secretaria do Governo Geral” (sic) e custava “assignatura por trimestre 800 (reis) Por semestre 1500 (reis) Folha avulsa 80 (reis)” (sic). Sendo de publicação semanal, manteve-se ininterrupto até à proclamação da independência do território, exceptuando o período que mediou entre 21 de Outubro de 1854 a 05 de Janeiro de 1855. As primeiras determinações publicadas no seu primeiro número reportavam-se ao acto eleitoral a realizar no território, determinando para 06 de Agosto desse ano a realização das mesmas. Antes do seu aparecimento, toda a legislação do território, bem como toas as restantes notícias oficiais do território (nomeações e demissões de funcionários, por exemplo), eram publicadas nas Actas do Conselho Ultramarino e das quais, até à data da independência, existia uma colecção completa em Lourenço Marques. Translada-se, na íntegra, por se poder considerar um documento histórico, o primeiro número publicado: Anno 1854 - Numero 1- Boletim do Governo da Província de Moçambique – Sabado 13 de Maio: A Imprensa é um dos melhores inventos do espirito humano. Ella tem prestado os mais importantes serviços ao Commercio, a industria, aos interesses, e á civilisação d´uma grande parte dos povos do universo. Convencido da sua utilidade, O Governo de Sua Magestade Ordenou que se instituísse n´esta Capital uma Typographia. – O Governo actual se lisongeia de ser o seu instituidor. Vai pois publicar-se regularmente uma vez por semana – O Boletim official do Governo da Provincia de Moçambique. O Governo reserva uma parte da folha para a publicação de seus actos que deseja cheguem ao alcanse de todos; e apreciará lealmente, as reflexões judiciosas, que sobre elles lhe forem feitas. A outra parte será destinada aos interesses do Commercio, e á publicação d´artigos de conveniencia publica. Alem d´isso a typographia está habilitada para dár ao prélo quaes quer outras obras que se convencionem. PARTE OFFICIAL – GOVERNO GERAL: O Governador Geral da Provincia de Moçambique, em Conselho determina o seguinte: Tendo por Portaria Circular do respectivo Ministério, sob o nº 1158, com data de 31 de Janeiro do anno proximo passado, sido mandado cumprir n´esta Provincia, o Decreto de 30 de Setembro de 1852, para as eleições de Deputados, e o de 17 de Janeiro de 1853, pelo qual o Governo deu algumas providencias, em virtude do art.118, para o primeiro ter a devida e regular execução n´esta Provincia. Attendendo a que para a execução do Decreto de 30 de Setembro de 1852, se tornar ainda mais prompta, mais exacta, e mais efficaz, se tornam necessárias outras provisões, absolutamente indispensaveis, e especiaes a esta parte dos domínios da Corôa Portugueza, sem as quaes todos os trabalhos elleitoraes, seriam impossiveis; provisões já previnidas e auctorisadas no art.118, #1º do Decreto Elleitoral – ouvido o Conselho do Governo, e com o voto unanime do mesmo: Hei por conveniente determinar, que tenha execução n´esta Provincia o Decreto Elleitoral de 30 de Setembro de 1852, com as provisões do Decreto de 17 de Janeiro de 1853, e as que se seguem: Art.1º - Não estando ainda estabelecido por Lei n´esta Província, o Tributo de Decima, para se poderem conhecer os maiores e menores Contribuintes, e sendo as Camaras Municipaes compostas dos principaes habitantes, naturaes, Europeus, e filhos de Goa, estabelecidos; estas continuarão a ser em toda a Provincia as competentes para a formação do recenseamento. # único – As Camaras poderão chamar uma, ou mais pessoas notáveis, e de maior simpathia do seu Districto, para as ajudar no desempenho dos trabalhos do recenciamento. Art. 2º - O recensiamento feito pelas Camaras Municipaes, começará em toda a Provincia no dia 30 de Junho, e no dia immediato será publicado por copia, na porta do edificio da Caza da Camara, e Igreja Parochial, aonde sera conservado até 5 de Julho, para as reclamações. Art. 3º - Das reclamações das decisões das Camaras ha recurso, na Cidade de Moçambique para o Juiz de Direito, e nos mais districtos da Provincia, para os Juizos Ordinários em primeira e ultima instancia. Art. 4º - Haverá n esta Provincia sete Assembleas Primarias a saber: em Moçambique, no Ibo, em Quilimane, em Senna, em Tette, em Sofalla, e Inhambane, e isto porque a topographia do paiz senão presta a uma outra melhor. Art. 5º - As Assembleas mandarão á Cabeça do Circulo Elleitoral: as de Moçambique, Quilimane e Inhambane, cada uma dous, as de Senna, Tette, Sofalla, e Ibo, cada uma um, Portadores d´Actas com todos os documentos de que falla a elleição do Decreto Elleitoral. Art. 6º - A elleição para Deputados terá logar em toda a Provincia, no dia 6 d´Agosto do corrente anno. Art. 7º - Os Governadores dos portos subalternos facilitarão a partida para a Capital do Circulo elleitoral a todos os portadores d´Actas, ou da remessa dos papeis de elleição, aos nomeados em Moçambique. Art. 8º - Logo que á Capital cheguem os Portadores das actas O Governador Geral em Conselho designará o dia para a reunião dos mesmos. Palacio do Governo Geral de Moçambique, 28 d´Abril de 1854. Vasco Guedes de Carvalho e Menezes. /// O Governador Geral da Província de Moçambique determina o seguinte: Havendo por Decretos Regios de 17, 18 e 19 de Outubro de 1853, sido creadas Alfandegas em diversos portos d´esta Provincia, e alterado o systema de direitos, que devem pagar os generos e mercadorias nacionaes e estrangeiras, que se despacharem nas Alfandegas da Provincia, ficando a Alfandega de Moçambique considerada como Alfandega de deposito por certo e determinado tempo; e tendo sobre um objecto tão delicado e melindroso, que altera o systema fiscal, e modo de viver dos povos d´esta Provincia, ao qual estavam costumados ha seculos desde o começo da conquista, ouvido o Conselho do Governo na conformidade do art. 16º do Decreto de 7 de Dezembro de 1836, as pessoas mais notáveis da Capital, e vinculadas aos interesses da Provincia, e de Sua Magestade, que foram d´opinião quasi na totalidade, “que nas actuais circunstancias da Provincia, a abertura dos portos, seria uma Calamidade para o Commercio portuguez, e para a administração publica, por isso que a Provincia, ainda não estava preparada para a adopção de taes medidas”: Hei por conveniente em conformidade, com o que se dicidio em duas reuniões do Conselho do Governo, e pessoas referidas, aonde se tratou a materia com a maior lealdade, experiencia, e perfeito conhecimento d´um objecto que ha tanto tempo agita a Provincia, suspender “provisoriamente”, a execução n´esta Provincia dos Decretos de 17, 18 e 19 d´Outubro do anno ultimo, em quanto Sua Magestade, á presença de Quem, vou mandar todo o processo da discussão, e opiniões por escripto dos homens entendidos na matéria, não resolver o contrario. Outro sim Hey por conveniente determinar, que como esperiencia, e mesmo, para observar, se de futuro se poderá levar a effeito o systema do Governo, quanto á abertura dos portos, e acabar, talvez, com o prejuízo, que possa haver, e que se tenha introduzido por uma longa educação e habitos na consciencia publica d´esta Capital, que no Ibo, nas Ilhas de Cabo Delgado, se estabeleça uma Alfandega, que receberá a despacho todos os generos e mercadorias, que são admittidas na Alfandega de Moçambique com a percepção dos mesmos direitos, que se percebem d´importação e exportação, pela Pauta da mesma Alfandega. O Governador das Ilhas de Cabo Delgado, ao qual se darão as competentes instrucções e regulamentos para a exacta, e fiel execução d´esta Portaria, e mais Governadores subalternos a Auctoridades da Provincia, assim o tenham entendido e cumpram. Palacio do Governo Geral de Moçambique, 1º de Maio de 1854 – Vasco Guedes de Carvalho Menezes. /////////////// O Governador Geral da Provincia de Moçambique, em Conselho determina o seguinte: Havendo sido restabelecida pelo Decreto de 24 de Novembro de 1853, nos territórios de Rios de Senna a antiga divisão em dous governos, iguaes em direitos, e consideração, que são «o Governo de Quilimane, e o Governo de Tette» auctorisando este governo em Conselho a estabelecer provisoriamente a divisão dos ditos territorios, entre os dous mencionados governos, e havendo sido esta materia maduramente ponderada em Conselho d´este Governo, e considerado mais vantajoso ás conveniencias do serviço, e mais rapidas communicações, unir-se a Villa de Senna ao Governo de Quilimane, e o Governo de Tette ficar separado, fixando-se os limites das jurisdicções os que até agora regularam aos dos Commandantes Militares das duas Villas, Senna, e Tette: Hei por conveniente conformando-me com o unanime voto do Conselho, determinar o seguinte: Art. 1º - A Villa de Senna fica reunida ao Governo de Quilimane, a jurisdicção do qual fica ciscunscripta até os limites que prezentemente constituem os da referida Villa de Senna. Art. 2º - O Governo de Tette fica independente do de Quilimane, exercendo o Governador d´esta Villa a sua jurisdicção por todas as terras da Coroa, onde actualmente a exercia o Commandante Militar da referida Villa de Tette. As Auctoridades, aquem o conhecimento d´esta pertencer, assim o tenham entendido, e cumpram. Palacio do Governo Geral de Moçambique, 2 de Maio de 1854. - Vasco Guedes de Carvalho e Menezes. /////////////// Decreto de 25 de Novembro de 1853 – Estando determinado pelo artigo terceiro do Decreto de vinte e nove de Dezembro de mil oitocentos e cincoenta e dous, que o pagaamento dos ordenados, soldos, prets, e quaesquer outros vencimentos, aos funcionarios civis, e militares da Provincia de Moçambique, que os recebiam em moeda provincial, seja feito em moeda forte, dando-se cem reis d´esta moeda por cada quatrocentos e dez reis provinciais, por ser esta então a proporção entre a moeda do reino, e a d´aquella Provincia; e sendo ha muito reconhecido, que os soldos, prets e ontros vencimentos dos Officiaes militares, e mais praças da guarnição da dita Provincia em consequencia das successivas alterações, que alli teve o valor da moeda, se acham de tal sorte reduzidos, que são evidentemente insifficientes não só para manter a decencia e decoro da profissão militar, mas ainda para attender ás primeiras necessieades da vida; Hey por bem, em Nome d´ElRei, Uzando da faculdade concedida pelo artigo quinze do Acto Addicional á Carta Constitucional da Monarchia, e Conformando-Me com o parecer do Conselho Ultramarino, depois de Ouvido o Conselho de Ministros, Ordenar, que desde o dia da publicação do presente Decreto na Capital da referida Provincia se observe provisoriamente o seguinte: = Artigo primeiro = Os soldos dos Officiaes da Provincia de Moçambique serão regulados pela tarifa de deseseis de Dezembro de mil setecentos e noventa, e as gratificações de commando de Corpo, ou Companhia serão abonadas na conformidade do Alvará de vinte e um de Fevereiro de mil oitocentos e deseseis. = Paragrapho unico = Cessa todo e qualquer abono, que até agora tenha sido feito com a denominação de mantimento, lenha, e azeite; e bem assim as gratificações aos Ajudantes de Corpo, Praça de São Sebastião; e outros não comprehendidos os de pessoa do Governador Geral. = Artigo segundo - O abono de forragens aos Officiaes que o devam ter, será feito na razão de trinta e seis mil e quinhentos reis, por anno. = Artigo terceiro - O pret á tropa será pago em quanto senão organisa definitivamente a força militar da sobredita Provincia , pela tarifa que faz parte do presente Decreto continuando a abonar-se-lhe o pão ou mantimento, e qualquer outro vencimento a que tenha direito, pela forma e segundo as ordens alli em vigor. = Artigo quarto – Fica derrogada toda a Legislação em contrario. O Visconde d´Atouguia, Par do reino, Ministro e Secretario d´Estado dos Negócios Estrangeiros, e dos da Marinha e Ultramar, assim o tenha entendido e faça executar. Paço em vinte e cinco de Novembro de mil oitocentos cincoenta e três. = Rei Regente = Visconde d´Atouguia = Está conforme, António Pedro Carvalho. ------------ Tarifa a que se refere o Decreto d´esta data, para provisoriamente regular o pret dos soldados e mais praças da Guarnição da Provincia de Moçambique, enquanto senão organizar definitivamente a força militar da dita Provincia: (Postos e pret diario (em reis)) Sargento Ajudante … 160; Sargento Quartel Mestre ...160; Tambor ou Corneta Mor …100; Cabo de Tambores ou de Corneta … 80; Coronheiro ou Espingardeiro alem da gratificação correspondente ao seu trabalho …80; Primeiro Sargento …100; Segundo Sargento …80; Furriel …70; Cabo …60; Anspeçada …45; Soldado …40; Tambor ou Corneta …60. Secretaria d´Estado dos Negócios da marinha e Ultramar em 25 de Novembro de 1853 --- Visconde d´Atouguia. --- Está conforme, António Pedro Carvalho. /////////////// O Governador Geral da Provincia de Moçambique determina o seguinte: Convindo dar a mais prompta execução do Decreto de 25 de Novembro de 1853, transmitido a este Governo por Portaria do Ministerio respecitivo, com data de 29 do referido mez e anno, sob o nº 1248, pelo qual se regula a tarifa, por que os Officiaes d´esta Provincia devem vencer os seus soldos, gratificações, e forragens, bem com o pret á tropa, segunda a tarifa a que se refere o art. 3º do referido Decreto: Hey por conveniente, que o citado Decreto de 25 de Novembro de 1853, e a tarifa, que faz parte do mesmo, tenha inteiro vigor, e execução n´esta Provincia, desde a publicação d´esta Portaria, como se acha ordenado naquelle Decreto. --- As Auctoridades a quem o conhecimento d´esta pertencer assim o tenham entendido e cumpram. Palacio do Governo Geral de Moçambique, 8 de Maio de 1854. – Vasco Guedes de Carvalho e Menezes. /////////////// Nº 149 = Quartel General do Governo da Provincia de Moçambique, no Palacio de S.Paulo, aos 12 de Maio de 1854. Ordem á Força Armada. Publica-se o seguinte, para que tenha a devida execução: Exonerado o Commandante Interino da Villa de Tette, por Portaria de 2 do corrente mez, em consequencia de hir tomar posse d´quelle governo, o Governador d´aquelle districto o Major Antonio Candido Pedrozo Gamitto, nomeado pelo Decreto de 6 de Dezembro de 1853. /// Exonerado o Governador Interino do districto de Sofalla, o Capitão Joaquim Carlos de Andrade, por Portaria de 2 do corrente mez, por se achar proximo a seguir o seu destino, o Governador d´aquelle Districto Francisco Duarte d´Oliveira Rego, nomeado pelo Decreto de 4 de Março de 1853. /// Exonerado o Governador Interino de Quilimane e Rios de Senna, o 2º Tenente da Armada Jeronimo Romero, por Portaria de 8 do corrente mez, por se achar proximo a seguir o seu destino, o Governador d´aquelle districto, o Coronel Joaquim d´Azevedo Alpoim, nomeado pelo Decreto de 24 de Novembro de 1853. /// Exonerado o Commandante Militar Interino da Villa de Senna, e nomeado para o substituir o Major Tito Augusto d´Araujo Sicarde, por Portaria datada de 11 do corrente mez. /// Concedida a licença, que pedio o Governador Interino d´Inhambane Pedro Valente da Costa Loureiro e Pinho, para vir a esta Capital, e nomeado para o substituir o Major d´Artilheria Jacintho Henriques d´Oliveira, por Portaria datada d´hontem. /// Exonerado o Cirurgião da 2ª Classe Joaquim Francisco Collaço, do cargo de Cirurgião do Batalhão d´Infanteria desta Capital, e nomeado para o substituir o Cirurgião da mesma Classe em Commissão Brutus Turquetille. /// Nomeado Commadante da Foeça expedicionária que deve marcjhar para Tette, o Capitão gregório Gomes Castellao. --- Continuará. /////////////// JUNTA DA FAZENDA PUBLICA – Acha-se em pagamento o mez de Setembro de 1853 a todas as classes subsidiadas pelo Cofre publico. Secretaria da Junta da Fazenda 6 de Maio de 1854. – Manoel de Aguiar. /////////////// SERVIÇO DE MARINHA – Registo do porto de Moçambique, 12 de Maio de 1854. – Embarcações entradas: Brigue de guerr inglez = Nardoba = Commandante Karro, de Quilimane, com 130 pessoas de tripolação. /// Patacho inglez = Anays = Capitão Mestre de Anjoanes, com differentes generos 12 pessoas de tripolação, e 8 passageiros /// Hiate portuguez = Esperança = Mestre Mamod Aly Ussene de Quelimane com marfim, e mais generos, 9 pesoas de tripolação, e 31 passageiros. /// Barca Americana = Emely Wilder = Capitão H. Riches, de Zanzibar com marfim, goma copal, e mais generos, 13 pessoas de tripolação, e 7 passageiros. /// Heate = 31 de Dezembro = Mestre Ismalgi Inufo, do Ibo com urzella, e 10 pessoas de tripulação. /// Pangaio Arabe = Falel Ker = Mestre Salamane Nous-Lee, com fasendas, 14 pessoas de tripolação, e 6 passageiros. /// Escuna Portugueza = 4 d´Abril = Mestre Ussene Salmagi, de Quilemane, com marfim, 15 pessoas de tripolação, e 36 passageiros. /// Pangaio Arabe = Reanie = Mestre Mussudi, de Anjoanes com differentes genros, 21 pessoas de tripulação, e 8 passageiros. /// Lancha Portugueza = flor de Matibana = Mestre Vaudila, do Ibo, com marfim, urssella, mais generos, 10 pessoas de tripulção, e 12 passageiros. /// Pangaio Arabe = Harf = Mestre Abdala ladry, de S.Lourenço, com fazendas Americanas, e chapeos de palha, com 13 pessoas de tripolação, e 2 passgeirs. /// Fragata Portugueza = D. Fernando = Comadante V. I. dos Santos Moreira de Lima, de Lisboa, com 229 pessoas de tripulação, e 483 passageiros. /// Lancha Portugueza = Resto = Mestre sabo, do Ibo, com goma copal, 8 pessoas de tripolação. --- Continuará. /////////////// COMMERCIO. Cambio e preços correntes da Camara Municipal de Moçambique, no mez d´Abril de 1854: (Dinheiro – reis): EM OURO: Uma onça … 57$600; Meia dobla … 32$600; Uma barrinha … 26$500; Uma libra sterlina … 18$000 /// EM PRATA: Um pezo hespanhol … 3$600; Um dito mexicano … 3$600; Um dito francez de 5 francos... 3$200; Uma pataca … 2$400; Um cruzado novo … 1$600 /// MARFIM E MAIS OBJECTOS (Uma Arroba): de marfim groço … 144$000; de dito meião... 120$000; de dito miúdo … 96$000; de dito cêra … 76$000; de dente de cavallo marinho torto... 120$000; de dito de dito direito... 20$000; de ponta d´abada... 21$600; de cera bruta... 20$000; de dita em vellas... 51$200; de vellas da terra... 40$000; de breu do reino... 3$200; de dito do norte... 4$000; de assucar em pó... 11$200; de dito em pedra... 14$400; de zerzelim... 6$400; de côco... 6$400; de ferro inglez... 4$800; de dito da suecia... 7$200; de pregos grossos... 8$000; de goma copal... 10$800; de café limpo... 10$000; Uma libra de tartaruga... 16$000; uma libra de chá bom... 4$800; /// UMA PANJA: de trigo de senna... 3$200; de arros fino limpo... 4$000; de dito grosso... 2$400; de zerzelim... 2$400; de feijão encarnado... $500; de dito branco... $800; de milho fino... $500; de muxuere... $500; de macaca... $300; de milho grosso... $400 ---- Reducção da moeda, na rszão de 100 rs. Por 410 --- Secretaria da Camara Municipal de Moçambique, 9 de Maio de 1854. /////////////// HOSPITAL MILITAR – Mappa do movimento de doentes do Hospital Militar de Moçambique desde o 6 até 11 do corrente: Existiam: Europeos 40; Nativos 9; De Goa 14; Todos 63 /// Entraram n´este mez durante os ditos seis dias: Europeos 26; Nativos 5; De Goa 3; Todos 34 /// Somma: Europeos 66; Nativos 14; De Goa 17; Todos 97 /// Saíram curados: Europeos 25; Nativos 5; De Goa 2; Todos 32 /// Fallesceram: Europeos 1; Nativos 0; De Goa 0; Todos 1 /// Ficam existindo: Europeos 40; Nativos 9; De Goa 15; Todos 64 /// N.B. – Fallesceo de Diatnese scorbutica, e de senectude. /// Hospital Militar de Moçambique, 11 de Maio de 1854. Dr. Jacques Nicolau de Salis – Phisico Mor. /////////////// Moçambique: - Na Imprensa Nacional.      
 
 
 
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IN MEMORIAN
 

 
Neil Armstrong, o homem que todos nós adoraríamos ser ou ter sido, partiu para a sua Grande Grande Viagem intergaláctica. Não me vou debruçar sobre a lendária vida deste Homem das Estrelas, já por todos nós conhecida. Admiro-o por tudo: pelo que fez antes, pelo que fez durante e, principalmente, pelo que fez depois de ter sido alcandorado para a fama, numa pura e permanente aula de humildade, descrição e recato.





 
A notícia do agora seu falecimento físico trouxe-me à memória o meu dia/noite em que ele alunou. Estava eu no coração do belíssimo Niassa, em Moçambique e, tal como milhões de seres humanos, acompanhei a sua saga pelo relato radiofónico. Foi das rarísimas ocasiões da minha vida em que deleguei um orgasmo por procuração. Nessa longa madrugada, em plena zona de guerra colonial, a Paz pairou com o calar das armas e o cantar dos corações descontrolados. Pelo menos nessa madrugada fomos todos americanos humanos.      



Neil Armstrong, dando corpo ao sonho de Ícaro, mais do que ter capitaneado a Apollo 11, para mim, mais importante, foi ele ter sido o Almirante dos sonhos da Humanidade.


 
 
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UMA PERSONALIDADE PARA A ETERNIDADE
 

 
 
Nicolas Winton, cidadão britânico nascido em 1909, resgatou da antiga República da Checoslováquia (1) 669 crianças judias pouco antes do eclodir da II Guerra Mundial, conseguindo que as mesmas escapassem à barbárie nazi. Conseguiu integrá-las no Reino Unido e Suécia tendo mantido, durante longos anos, um total silêncio sobre esta sua actividade humanitária.
 
 
 
 
 

 

Posteriormente a sua acção de resgate tornou-se pública e acabou por ser, justamente, reconhecido quer pelas nações quer pelos seus "filhos" sobreviventes. Titular de várias condecorações europeias e com o seu nome dado a  alguns estabelecimentos escolares, apenas por ter antepassados judeus é que Israel não o considera "Justo entre as Nações" (2).

 
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(1) - Após a bendita queda do Muro de Berlim a Checoslováquia cindiu-se em dois países: as repúblicas Checa e Eslováquia.

(2) - Prémio instituído pelo Yad Vashem (Autoridade para a Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto, criada por Israel em 1953) e atribuído a todos os que, não sendo judeus nem tendo tal ascendência, praticaram actos para salvar elementos desta comunidade.


 
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LEITURAS

 
 
Título - Kahina, a profetisa
Sub-Título - A história verídica de uma princesa berbere
Autora - Gisèle Helimi
Editora - Bertrand Editora         Ano - 2007             Págs. - 246            Género - Romance







No pretérito dia 29/05/2012 publiquei, neste blogue, um pequeno resumo sobre a vida de "Khaina, a Rainha magrebina" na secção "Relembrando Histórias e Lendas de África". Por lapso (acontece a todos) não aludi a um romance que aborda a vida desta mulher, sendo o mesmo aquele que se encontra acima referido.



A autora - Gisèle Halimi - é uma advogada franco-tunisina, combatente de primeira linha de causas que envolvam os direitos humanos e a emancipação das mulheres. O livro acima assinalado trata-se dum romance ligeiro, que aborda de forma apaixonadamente épica a vida de Kahina, heroizando a mesma aos píncaros. 



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Título - O Rei do Monte Brasil
Sub-Título - Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque: guerra, traição, amor e morte num conflito que marcou a história portuguesa.
Autora - Ana Cristina Silva
Editora - Oficina do Livro           Ano - 2012                Págs. - 166           Género - Romance
 







Mouzinho de Albuquerque é, ainda para muitos portugueses, um exemplo de patriota impoluto e incorrupto. A sua saga bélica nas terras moçambicanas atingiu o apogeu quando, quase contra tudo e contra todos, arriscou tudo numa odisseia que o levou a capturar Gungunhana sendo este, na altura, o potentado do Reino de Gaza.



À captura de Gungunhana seguiu-se a sua exibição nas ruas de Lourenço Marques e, de seguida, a sua vinda, sob prisão, para Lisboa, juntamente com outros elementos da sua comitiva. A capital do Reino não foi o término do seu périplo de cativo, pois acabou enviado para a ilha Terceira, nos Açores, onde viveu os últimos anos da sua vida, depois de ter sido baptizado segundos os ritos católicos e onde lhe foi atribuído o nome cristão de Reynaldo Frederico Gungunhana, tendo falecido em 1906, no forte que existe no Monte Brasil, perto da cidade de Angra do Heroísmo. Juntamente com ele, acompanharam-no mais três companheiros de infortúnio, o régulo Matibejana, o seu tio Molungo e o seu filho Godido. Todos eles faleceram naquela ilha atlântica e apenas Matibejana deixou descendência açoriana, que ainda hoje existe. 



Mouzinho de Albuquerque faleceu voluntariamente em 1902, depois de meter uma bala na cabeça quando seguia a bordo duma caleche, em Lisboa. A sua morte prematura levantou muitas teorias de conspiração, que ainda nos dias de hoje não são consentâneas umas com as outras. É dos portugueses mais biografados e a sua vida meteórica não deixa ninguém indiferente. Gigante que foi da implementação da  presença portuguesa no Sul moçambicano, militar probo e incorrupto, era fidelíssimo à trilogia espiritual de Deus, Pátria e Monarquia. 



E é sobre estas duas personagens - Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque - vividas em mundos antagónicos e inconciliáveis que a Autora - Ana Cristina Silva - nos oferece um romance no qual põe-se na mente dos mesmos e nos relata os seus pensamentos e as suas ansiedades, quando ambos caminham para o crepúsculo das suas vidas.



Um livro ligeiro que, pela abordagem original que faz dos personagens, transmite-nos uma leitura que nos prende da primeira à última página. No entanto não gostei do monólogo de Gungunhana. É elaborado demais, um falar pensante muito virtuoso. Aí, para mim, reside o pecado deste livro: dava trabalho pôr o linguarejar de Gungunhana mais consentâneo com o seu modo de ser e estar. Pô-lo a falar mentalmente como se toda a vida tivesse convivido nos salões da aristocracia lisboeta... não lembrava ao Diabo. Lapso da Autora ou uma forma simplificada de escrever um livro? E, assim, uma excelente e original ideia de escrita, acaba esbatida na distração ou na preguiça. O que é pena.


 
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FILME



Título - África dos meus sonhos.
Realização - Hugh Hudson   Actores - Kim Basinger, Vincent Perez nos papeis principais.
Ano - 2000   Tempo - 120 minutos  Género - Biografia/Drama








Já tendo visto este filme à venda em estabelecimentos da especialidade, há muito tempo, nunca me senti atraído a comprá-lo. Tinha a sensação que se tratava de um filme cor-de-rosa, em que África apenas serve de pano de fundo a uma rebuscada historieta qualquer de amores mal entendidos. Um pouco à imagem do filme "África Minha" que, para mim, não passa duma lamechice sobre a vida da falhada Karen Blixen.


Num destes últimos dias calhei de ver este filme na televisão e verifiquei que se tratava da história da vida de Kuki Gallmann, um italiana nascida em 1942 que, mãe de um filho e casada em segundas núpcias, acompanha o marido para o Quénia, onde se estabelecem numa fazenda (1972). Posteriormente à morte do marido e do filho, deixa-se ficar naquele País com uma filha, envederando pela carreira de escritora e tornando-se uma conservacionista de primeira linha. Fundou a Gallmann Memorial Foundation, em homenagem aos falecidos marido (num desastre) e filho (de picada duma cobra), tendo sido premiada por diversas vezes.





Kuki Gallmann



Um filme ligeiro, sem nada de especial a assinalar, onde os acontecimentos fluem ao ritmo africano mas, apesar de tudo, um pouco mais suportável de ver que o oscarizado "África minha". Tive sorte em vê-lo num sonolenta tarde calorenta, deitado no sofá e a dormitar aos bochechos. Não perdi grande coisa, atendendo a que a mais valia do mesmo é a presença da sempre bela Kim Basinger, que desempenha o papel principal.




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PORQUE SÓ HÁ UM PLANETA



Pessoa amiga remeteu-me um "mail" contendo uma listagem dos subsídios que o Estado forneceu a pessoas ligadas ao ramo da tauromaquia durante parte do ano de 2011.



Pessoalmente sou contra o espectáculo da tauromaquia, que rotulo de bárbaro, sádico e violador dos princípios de avanços civilizacionais que julgamos já ter atingido. Por isso também me oponho a todo e qualquer subsídio que, oriundo dos meus impostos, sirvam para financiar esta tristeza.



Daí que subscrevo, na íntegra, o grito de revolta desta pessoa minha amiga e transcrevo, de seguida, o "mail" que a mesma me remeteu sem alterar uma vírgula.


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"Subsídios para as touradas

Por falar em subsídios, no passado dia 21/03/2012 foi publicada no Diário da República a lista dos subsídios atribuídos pelo IFAP no 2.º semestre de 2011, tal como se havia publicado a listagem relativa ao 1.º semestre de 2011 no dia 26/09/...2011.



No ano de 2011 o IFAP atribuiu subsídios no valor de €9.823.004,34 às empresas e membros das famílias da tauromaquia :

Ortigão Costa - 1.236.214,63 €
Lupi - 980.437,77 €
Passanha - 735.847,05 €
Palha - 772.579,22 €
Ribeiro Telles - 472.777,55 €
Câmara - 915.637,78 €
Veiga Teixeira - 635.390,94 €
Freixo - 568.929,14 €
Cunhal Patrício - 172.798,71 €
Brito Paes - 441.838,32 €
Pinheiro Caldeira - 125.467,45 €
Dias Coutinho - 389.712,42 €
Cortes de Moura - 313.676,87 €
Rego Botelho - 420.673,80 €
Cardoso Charrua - 80.759,12 €
Romão Moura - 248.378,56 €
Brito Vinhas - 53.686,78 €
Romão Tenório - 283.173,89 €
Sousa Cabral - 318.257,79 €
Varela Crujo - 188.957,35 €
Assunção Coimbra - 330.789,44 €
Murteira - 137.019,76 €


Andam os canis municipais a matar cães e gatos porque não têm mais espaço para os acolher e há 10 milhões de euros aplicados na tourada só no ano de 2011? As associações vivem de CARIDADE! Tal como os velhotes que nem têm dinheiro para pagar os medicamentos com a porcaria de reforma que recebem!



Este Verão vamos ver mais e mais florestas a arderem porque as câmaras não têm subsídios para a limpeza das mesmas, e Portugal não tem dinheiro para comprar helicópteros. Andam as esquadras da polícia podres e os carros enfiados em garagens porque não há fundos para os arranjar.



Andam as crianças a ir para a escola sem tomar o pequeno almoço porque há famílias que só têm dinheiro para pagar as rendas, para não dormirem na rua. Foram cortados subsídios de Natal para ajudar a pagar a dívida portuguesa ao estrangeiro.


Não há dinheiro para nada mas há 10 MILHÕES DE EUROS para a tauromaquia só num ano?"



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Chamar a isto arte seria para rir... senão fosse trágico.


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Caro leitor: Não seja cobarde e assuma-se como Pessoa Civilizada que diz ser. No caso da tauromaquia não pactue com barbaridades medievais. Dê o primeiro passo: recuse-se a ir ver espectáculos tauromáticos, por exemplo. Se todos nós aderíssemos a esta ideia... isso é que seria um belo espectáculo: ver uma praça de touros deserta de público.







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Solidariedade institucional







Não sei porquê o visionamento deste pequeno vídeo fez-me lembrar dois elementos dos dois grandes partidos do "arco do poder" do nosso País (PS e PSD)a comerem do mesmo tacho (Orçamento).



Nota: Desde já apresento as minhas desculpas ao cachorro e ao pássaro por estar a compará-los com políticos portugueses. Não tive intenção de ofendê-los (aos animais).



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ACONTECEU

 
 
EUA - Faleceu Scott Mackenzie (1939/2012). Passou, no panorama musical na década de 60, como um dos autores e intérprete da mais que famosa música "San Francisco", que rapidamente se tornaria no hino da contra-cultura do movimento hippie (1967).







Ao ler o óbito deste cantor lembrei-me de, na altura em que esta canção era presença permanente na rádio ter visto, numa tarde domingueira, quando me preparava para ver uma matiné no cinema Gil Vicente (ou Manuel Rodrigues, já não me recordo bem), em Lourenço Marques, aparecerem dois jovens engravatados e cada um deles com uma flor na orelha. Alvos de chacota de muita gente ali presente (até eu mandei umas "bocas", armado em marialva), o par de jovens não cedeu e entraram no cinema sem terem retirado as flores. Fizeram jus à canção. Hoje pergunto-me onde estarão agora esse par de jovens na altura.


 
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Paquistão - Uma criança cristã, de 11 anos, foi acusada do crime de blasfémia, no Paquistão, acusada por um clérigo muçulmano de ter queimado folhas do Alcorão. A criança, que sofre de perturbações mentais, arrisca-se a prisão perpétua ou a ser condenada à morte.


 
Posteriormente a Polícia acabou por deter o clérigo muçulmano que acusara a referida criança, pois teria sido este a queimar as referidas páginas do livro sagrado e colocá-las nos pertences da criança, para criar um movimento de onda repulsiva anti-cristã.  

 
 
Uma pergunta ingénua: e não se pode extreminar o tal clérigo? Por exemplo, por "lapidação religiosa": enterrá-lo só com a cabeça de fora e atirar-lhe bíblias ao toutiço, até ele arranjar guia de marcha para ir ter com as 72 virgens paradisíacas.
 




 
 
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África do Sul - O Ministério Público sul-africano deteve e acusou 270 mineiros pela morte de 34 camaradas laborais, que foram mortos pela Polícia numa repressão grevista. Baseou-se numa lei do tempo do apartheid e não revogada que é a da "intenção comum" que criminaliza quem participa em manifestações que acabem com mortos. Espantoso mundo este em que vivo.


 
Uma pergunta ingénua: e se tudo isto se tivesse passado no tempo dos governos do apartheid? Não ouvi, como então ouvia, coros de protesto por este mundo fora. Se fossem brancos a mandar matar pretos eram nazistas, mas se forem pretos a mandar matar pretos... bom, vamos lá estudar a situação. Até dá para invocar as estúpidas leis do apartheid.  
 
 
 
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DECLARAÇÃO DE INTERESSES
 
 
Textos escritos em desrespeito pelas novas normas do Acordo Ortográfico.
 
 
 
 
 
 
Todas as referências constantes na presente mensagem e que se reportem a livros, fotografias, documentários, filmes, músicas; empresas comerciais, industriais ou de qualquer outro género; associações humanitárias, de defesa ambiental, animal ou florestal, bem como nomes de pessoas são incompatíveis com intuitos publicitários de carácter comercial ou que envolvam qualquer outro tipo de permuta material. Reflectem, apenas e tão-somente, a opinião do Autor.
 
 
 
 
Todas as fotografias, documentários e filmes constantes na presente mensagem foram colhidos do Google Imagens e do Youtube. Deste modo, a sua utilização não pressupõe a concordância dos Autores dos mesmos com as opiniões constantes nos textos onde estejam inseridos.
 
 
 
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Uauhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!! Vou descansar outra vez.
 
 
 

domingo, 5 de agosto de 2012

Conclusão do Relatório George Stucky



Nota: Estou de férias até meados de Setembro. Hoje, só para não adiar mais, limito-me a colocar o final do relatório de George Stucky na Campanha do Niassa, na História de Moçambique Colonial; a análise sucinta de dois livros que li; dois pequenos vídeos sobre o bailado dos estorninhos e dois pequenos comentários sobre outras tantas notícias que li. E chega de computador. A partir de Setembro, este blogue será actualizado quinzenalmente.
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HISTORIANDO MOÇAMBIQUE COLONIAL






Relatório da Campanha do Mataca, de George Stucky (Parte IV)


1 de Novembro: Descanso. Um irmão do Mataca manda também uma ponta de marfim e umas 50 espingardas. Pequena chuva de manhã; bom tempo de tarde. Devíamos partir amanhã mas há contra-ordem. 2 de Novembro: Esperamos, parece, o irmão do Mataca: o tal que enviou ontem o marfim e as armas – mas se faz como o seu sénior? Pelas 11 horas sei indirectamente (pois não vou mais ao quartel) que o Zarafi fugiu! Consequência imediata: razia de todos os habitantes das povoações. Pelo meio-dia, uma pequena força de soldados, acompanhada de sipaios, sai do acampamento. Os sipaios regressam de tarde com uma coluna considerável de presos: homens, mulheres e crianças que os seguem docilmente, sem a mínima observação. Não tiveram custo nenhum os sipaios para apanhar tanta gente, que se encontrava tranquilamente assentada diante das palhotas, e que não fez a menor resistência. Ainda mais, não mostram o mínimo medo. Mas que vamos fazer com tanta gente – que será naturalmente necessário nutrir durante o caminho? Às 8,30 horas da tarde sabemos que o regresso está fixado para amanhã. Começávamos a desesperar. 3 de Novembro: Saída às 6 horas. Os prisioneiros (?) de ontem oferecem uma ocasião única de curiosos instantâneos. Ai de mim! Não tenho nenhum aparelho fotográfico. Não se pode imaginar nada de mais estranho, de mais singular – e ao mesmo tempo – de mais triste, que o desfile desta massa humana. A contar de hoje, não estou mais na vanguarda: assim o decidiu o Major. Estou na retaguarda – posto de honra – e encarregado do comboio (vigilância). Poderia tirar orgulho de ter sido escolhido para este perigoso posto, mas tenho na ideia que não é precisamente para a honra o perigo para que eu fui designado, mas para livrar-se da minha presença. Será talvez engano meu? É facto que a vigilância do comboio ma obrigará a ficar a uns 2/3 quilómetros da coluna europeia. Pois bem, confesso que esta mudança, apesar do perigo ainda possível, trabalho e a responsabilidade suplementar que me dará, não é para desagradar-me, pois vou estar completamente livre dos meus movimentos, e quase desobrigado de relações de serviço directos com S. Exa. Um imenso alívio moral dum lado, compensado, do outro, por mais perigos, mas é preciso imaginar-se que me sairei a bem desta nova missão. Tenho, felizmente, para me ajudar o capitão Mateus e posso contar absolutamente com ele para vigiar, repreender, ajudar se for preciso os retardatários e defendê-los se fosse necessário. O Bastos, apesar de muito abatido, sempre me ajudará na medida do possível e em caso de emergência perigosa, sei que posso ter o mais dedicado dos amigos. A sua dedicação por mim participa tanto de amizade sincera, como do mais puro patriotismo. Tenho que me louvar de tê-lo guardado no nosso regresso do Kouemba, em vez de o mandar acompanhar os carregadores a Milange e Namacurra. Não fui encarregado – felizmente – da condução dos prisioneiros. Boa maçada a menos… Marcha de 24 quilómetros… Almoçámos às 2,30 horas um punhado de arroz com 3 sardinhas assadas. De tarde, um pobre soldado morre de disenteria crónica – por falta de medicamentos – sem falar dos cuidados que era de todo impossível proporcionar-lhe em campanha. É o quinto, creio, que falece na coluna. 2 em Napulu e 2 à chegada a Zomba. Que tristeza, ver esta mocidade sucumbir aos insultos do clima, às fadigas tremendas da campanha e a tantas privações. Não sou convidado às exéquias deste infeliz companheiro de luta – e do meu livre arbítrio, não quis assistir, a fim de evitar mais um conflito; mas darei parte ao Governador-Geral, desta falta de cortesia. Que Deus tenha a alma deste coitado e que descanse em paz. 4 e 5 de Novembro: Sem incidentes: etapas de 28 e 24 quilómetros. 6 de Novembro: A coluna parece completamente desorganizada. Cada um faz o que quer. O Major vai adiante, mergulhado nos seus pensamentos. Deixou o cavalo e vai de machila, o que é mais cómodo e rápido. Está muito enfraquecido, muito abatido. Como todos, envelheceu muito e mete pena. Marcha agora em primeiro e sem se preocupar de nada. Os soldados marcham como querem. Uns puderam arranjar machilas de ocasião (um pau armado em bambu e uma rede como maca e, assim, vão arrastados por carregadores armados em machileiros) outros nuns burros que vieram de Napulu e os mais robustos a pé. Param, tagarelam, fumam de vez em quando e deixar-se-iam ficar para trás – atrás de mim, se não insistisse com gentileza, mas com firmeza. É preciso dizer também a favor deles, que estas marchas são simplesmente excessivas, rápidas demais, quase as de machileiros e sem descanso nenhum desde a manhã, 6 horas, até à chegada ao campo pelo meio-dia e às vezes mais tarde. Isto é uma andadura para pretos ou caçadores bem treinados, mas nunca para soldados europeus enfraquecidos e desanimados. Aqueles que por qualquer razão pararem, que deixarem durante algum tempo a coluna, não podem mais reunir e tornam-se retardatários forçados. O almoço fica sempre pronto demasiado tarde: 21 e 23 horas. Hoje, S. Exa. parou às 11 horas debaixo da sombra, sem dúvida para deixar respirar os machileiros. Como não desse ordem nenhuma, a coluna continuou naturalmente a marcha, excepto o cozinheiro que, retido pelo Major, com ele demorou. Pela 1 hora de tarde, os oficiais mandaram parar a marcha e deram ordem de acampar. Depois, esperaram: - esperaram 1 hora, depois 2 horas e enfim 3 horas sem notícias do Major, nem, bem entendido, do “mestre”. Às 4,30 horas manda S. Exa. o seu ajudante exprimir o seu descontentamento, queixar-se da falta de consideração para com a sua pessoa, ajuntando que, quem quisesse almoçar (e naturalmente jantar) deveria vir encontrá-lo, pois não mandaria aí o “mestre”. Os oficiais estão, pois, obrigados ou a privarem-se do almoço/jantar ou a fazer uns 4 quilómetros de marcha – e a noite está quase fechada – para comer. Compadeço-me muito de quem for obrigado a submeter-se a estas obrigações. Enquanto a mim, prefiro mascar um pau de mandioca e uma bolacha, do que aturar uma tal brincadeira. Estamos apenas no 4º dia de marcha e já faltam o vinho e o açúcar. Isto é o menos, pois temos água boa dos mucurros e não necessitamos de açúcar (excepto os doentes). 7 de Novembro: Mais uma etapa medonha. Há uma quantidade de retardatários. Por excepção almoçámos às 2 horas (algum bacalhau com uma pequena porção de arroz e 3 sardinhas assadas). Temos mesmo um pouco de café. É fraco, muito fraco este pobre café, mas estamos muito felizes por bebê-lo, mesmo sob esta forma tão diluída. 8 de Novembro: Boa marcha de 26 quilómetros. Estaremos amanhã em Napulu. Chuva miúda de manhã. 9 de Novembro: Aqui estamos em Napulu, antes do meio-dia. Vamos poder-nos restaurar-nos, pois sabemos que temos víveres frescos. Era tempo que o nosso regime monacal parasse. Restava-nos só uma vitela de leite, e em qual estado pode imaginar-se, depois de tantos quilómetros percorridos. Uma sombra de vitela. Tenho o prazer de tomar conhecimento com o novo comandante do forte D. Carlos. É um oficial de marinha muito distinto, que me oferece logo de tudo que possa dispor. Uma jóia de camarada. Quanto estou comovido por tanta generosidade, depois do que tenho sofrido, algures! Mau tempo. Forte chuva de tarde. Contanto que a gente não se demore aqui. 10 e 11 de Novembro: Descanso. O rancho é melhor e há vinho à refeição. Que banquete! 12 de Novembro: Saída às 5,30 horas. O Major decide que todas as praças europeias irão montadas a cavalo, burro, machila, a fim de ganhar tempo na marcha e de evitar-lhes as fadigas que não poderiam mais aguentar. Manda-se fazer machilas com fibras tecidas que para alguns dias sempre servirão. Cerca de 800 sipaios estão afectados aos transportes das praças e recebem só 5 dias de poço, que não me parece chegar para atingir Milange, mas o Major conta sobre umas compras que deve fazer o Sinderam. Mas onde o bom do Sinderam poderá comprar alguma coisa? Só em território inglês, pois toda a região entre o Chirua e Kouemba é completamente raziada. E depois, mesmo se comprar, terá que transportar os volumes, tarefa não fácil. Mas verdade é que o homem é muito esperto e tem imensa prática com os pretos. Marcha enorme de 30 quilómetros. Apesar de andar de machila, uma boa metade das praças fica para trás, e os portadores, quer cansados, quer com má vontade, têm a culpa disto. Mas também deve dizer-se que a maior parte dos tais portadores nunca foram machileiros, o que é a sua desculpa. Não há almoço, porque os carregadores não chegaram. 13 de Novembro: Marcha das 6 até às 10 horas. Alto em Tamboué para almoço. Segunda etapa de tarde das 6 à 1,30 horas da manhã! 14 de Novembro: Pelas 7 horas da manhã a maior parte das praças ainda não chegou e os senhores carregadores armados em machileiros chegam só pelas 8/9 horas. Preferiram ontem, acampar à meia-noite e põem-se de novo a caminho pela manhã cedo. Fazem o que querem. 15 de Novembro: Boa marcha de mais de 25 quilómetros. O Chirua está à vista às 8 horas. Os montes de Zomba estão apenas visíveis. Aí, muito longe, ao Sul, perdidos nas nuvens, os picos de Milange. Fico um grande momento a contemplar a beleza da paisagem que se depara aos nossos olhos. Acampamos ao pé do monte Comoni. 16 de Novembro: Devíamos parar aqui (acordo Major/Sinderam) para receber o poço dos sipaios mas o Major, já não pensa mais no contrato feito e continuamos o caminho sem levar os volumes que o Sinderam pôde reunir. O Major, certamente doente e preocupado por não sei qual sonho, anda, anda sem parar; não parece interessar-se por coisa alguma… senão pela marcha. Marcha enorme de 37-38 quilómetros. Os soldados mesmo têm dó dos seus portadores: uma boa parte prefere andar a pé, do que estafar por completo e impor fadigas impossíveis à gente esfomeada e cujos ombros estão esfolados já desde há dias e os pés inchadíssimos. A coluna chega só pelas 5 horas. 17 de Novembro: O Major percebeu – enfim – que se devia deixar descansar os carregadores. Sinderam – bom rapaz – faz seguir as cargas que ele pode arranjar (alguma mapira, algum milho). Os sipaios recebem só litro e meio em vez dos 5 litros que deveriam ter. Campo levantado às 5 horas da tarde para irmos acampar ao Sambani, às 8,30 horas. Temperatura realmente admirável para viajar de noite – que é uma boa ideia. 18 de Novembro: Acampamento junto à serra Maosi. 19 de Novembro: Chuva durante toda a noite e até ao acampamento às 2,30 horas, perto do Toundo. Caminhos horríveis. O mais pequeno riacho torna-se rio. Oficiais e soldados chegam num estado lastimável, molhados até aos ossos. Obrigados a fazer algumas fogueiras para secarem-se. Nas somos ainda muito felizes de encontrar algumas velhas palhotas par abrigar-nos da chuva que não cessa. As praças têm as suas tendas – por assim dizer impermeáveis – mas a chuva é tão forte que não leva tempo nenhum para atravessá-las completamente. Outrossim, se encontra palha alguma para guarnecer o solo e os soldados, coitados, deverão dormir sobre a terra molhada. Inútil mesmo sonhar em utilizar os capotes e os cobertores, completamente encharcados. Quantas bronquites amanhã! Felizmente que Milange está à vista. Felizmente ainda que tivemos bom tempo durante toda a campanha: senão, não sei como teríamos chegado ao Mataca. Os pântanos da planície encheram-se de água de tal maneira que muitos machileiros tinham água até ao peito, alguns até ao pescoço. Como teriam passado as praças se não fossem os pretinhos? 20 de Novembro: Chegamos ao forte às horas do almoço. O comandante informa-me logo que o Governador de Quelimane tem dado ordens para que os nossos sipaios sejam desarmados aqui mesmo e sejam reenviados imediatamente, com o poço necessário, para os prazos. Isto é uma boa novidade. S. Exa. percebeu ou adivinhou as nossas atribulações… graças lhe sejam dadas. Estamos, pois, desligados, Bívar e eu, de todas as nossas obrigações militares e livres. Vejo na decisão do Governador uma resposta indirecta ao pedido que tínhamos feito, Bívar e eu, em Zarafi. Bívar, sobretudo, exultava. Apenas foi informado da decisão do Governador, foi falar com o Major e preveni-lo que não receberia mais ordens; é provável que lhe dissesse algo mais… Isto para quem conhece o seu carácter vivo, mas, se tal sucedesse, o Major não o teria um pouco merecido? A coluna partirá amanhã, os sipaios da Companhia da Zambézia a acompanharão até ao Chilomo. Os sipaios do Boror, Maganja e Marral estão livres de partir quando quiserem. 21 de Novembro: Ordem de saída às 6,30 horas, mas é só pelas 9 horas que a coluna põe-se em marcha para Chilomo. Não é sem uma certa emoção que me despeço de todos os meus camaradas, não sem estar profundamente comovido que me separei do Bívar e do Terry, os meus fieis companheiros de lutas e misérias, tão modestos heróis às horas do perigo (e disso tive muitas provas) como dedicados e sinceros na sua inalterável amizade. Quão terna foi a sua camaradagem e quão vivas “saudades” guardarei de sua memória, se a vida não nos permitir de mais nos encontrarmos… um dia. Durante estes cinco meses de campanha, havia-se criado entre nós – e diria mesmo entre todos os oficiais que conheci – uma sorte de comunhão de ideais, de sentimentos verdadeiramente atraentes. Esta comunhão, inspirada pela maior das virtudes: o amor da Pátria, é certamente inerente a todos os que participam durante tanto tempo nos mesmos perigos, nos mesmos sofrimentos. Amanhã, por minha vez, tomarei o caminho do regresso, que não é o dos meus lares, mas o da liberdade, do rude trabalho que me resta cumprir na Zambézia, até à extinção das minhas forças, enquanto estas forças poderem ainda “servir” no interesse supremo da País. Quando vi desaparecer a uma curva do caminho, lá ao longe, na orla da floresta, a última machila, o último carregador da coluna senti em mim mesmo como uma espécie de grande falta, como se perdesse de repente um ente caro – e muito custo tive para reter diante dos meus sipaios as lágrimas que estavam para jorrar dos meus olhos entristecidos. /// Seria um ingrato se, no momento de fechar estas notas, não dirigisse aos meus colaboradores os agradecimentos e os louvores que merecem: ao Bastos, em primeiro lugar, pela dedicação que deu tantas provas: homem calmo, pontual, reservado, sempre pronto para tudo, valente sem jactância, como se fosse uma coisa natural. Ao capitão Mateus (antigo regula da Maganja da Costa – nota do Autor: consultar ficha de Mateus (filho)) comandante dos sipaios da Companhia: modelo de chefe indígena, duma superioridade incontestável, grande táctico, caçador de grande classe, dedicado, valente, hábil, de sangue frio – vi-o fumar muito sossegadamente quando as balas lhe sibilavam por todos os lados – com golpe de vista infalível no terreno. Enfim, a todos os sipaios e carregadores, que têm cumprido com tanta abnegação e bom humor, e com a devida coragem nos combates – aoponto de verem-se citados na ordem do dia mais de uma vez, isto sem contar com as privações que sofreram com uma santa resignação, digna de toda a nossa admiração. Quanto aos pobres carregadores não morreram de doença e de esfalfamento nos ásperos caminhos do Kouemba. É preciso reconhecer ao preto da Zambézia a homenagem e o reconhecimento que lhe são devidos, pois sem as suas qualidades de disciplina, de confiança absoluta, de respeito que eles têm pelos Brancos – qualidades inculcadas desde pequenos pelos arrendatários dos prazos – jamais Europeus teriam podido conseguir o “tour de force” de chegar ao Mataca. E quando foi do regresso, quando estes Europeus, já extenuados, desmoralizados, doentes, quase todos, quando a MORTE já girava em roda deles, foram ainda os bons sipaios, armados em machileiros, que os têm salvado. E os têm salvado por caminhos impossíveis, por montes e vales, com machilas improvisadas – verdadeiros instrumentos de suplício para os seus ombros emagrecidos – a barriga vazia, os pés doloridos e feridos, sem que jamais um murmúrio lhes venha aos lábios, como se fossem plenamente conscientes da grandeza do papel que a Pátria lhes pedia para cumprir. Não só lhes haviam facilitado o caminho da vitória, como ainda os acompanhavam ao caminho definitivo da Pátria, com a mesma dedicação e o mesmo espírito de sacrifício. – George Stucky”. Em 1900 fez-se a ocupação militar da metade oeste da região, entre os rios Lúrio e Rovuma criando-se  alguns postos militares fixos no terreno, tais como o de D. Luís Filipe e Mululuca nas terras do régulo de Metarica,  Mandimba na serra Tambadala e Luângua, Metangula e Cobué nas margens do lago. Em 1907 o engenheiro hidrógrafo Eduardo Neuparth efectua estudos geológicos no lago Niassa. Por incapacidade de gestão, o Governo de Lisboa já tinha entregue a exploração deste território à Companhia do Niassa, mas a administração territorial desta companhia majestática era extremamente deficitária. Finalmente em Setembro de 1912, parte uma coluna militarizada, comandada pelo Capitão Potier de Lima para desmantelar de vez o poder do Mataca. Montando a sua base de operações em Oizulo, acabou por levar de vencida as forças do régulo e, na própria capital do Mataca foi erigido um forte ao qual foi dado o nome de Valadim, em homenagem a Eduardo Valadim que ali fora trucidado. Em 14 de Setembro de 1929, pelo Diploma Legislativo nº 182, foram mandados reintegrar, a partir de 28 de Outubro do mesmo ano, os territórios do Niassa que se encontravam sob administração da Companhia do Niassa, os quais foram divididos em dois distritos administrativos: Cabo Delgado e Niassa. Em 1931 foi criada a capital deste território, com o nome de Vila Cabral. Em 28 de Junho de 1955 Portugal e a Grã-Bretanha estabelecem um protocolo que altera parcialmente o tratado subscrito em 1891, sobre a delimitação da fronteira de Moçambique na zona do lago Niassa, alteração essa que se reportava à compartilha hidrográfica do lago, pela qual as águas se dividiram a meio. Esta alteração veio a pôr cobro a uma situação disparatada do acordo celebrado em 1891, na qual as águas do lago eram totalmente da área britânica, o que significava que as águas que banhavam o território português… eram britânicas. Entrando em letargia colonial, o Niassa fica ao semi-abandono, e só a partir da década de sessenta do século XX é que, fruto da guerra independentista desencadeada pela FRELIMO, que aí estabelece a sua segunda frente, é que os portugueses promoverão um lento desenvolvimento, baseado na instalação de colonatos europeus e na ligação ferroviária ao litoral.


Niassalândia – Território colonial britânico que estava integrado na Federação das Rodésias e Niassalândia correspondendo, presentemente, à República do Malawi. O nome de Niassalândia foi determinado pelo Governador Alfred Sharp, em 1907, em substituição de Protectorado Britânico da África Central.



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LIVROS

Título: Venturas e aventuras em África
Sub-Título: Venturas e aventuras em África: Bissau, Guiné 1969/1970; Inhambane, Moçambique 1971/1975.
Autora: Cristina Malhão-Pereira
Editora: Civilização Editora                Ano: 2007           Págs.: 343        Género: Autobiografia






Mais um livro autobiográfico, memórias de toda uma vida que, felizmente para a Autora e o seu agregado familiar e círculo de amigos, correu sempre tudo bem. Trata-se, no fundo, de mais um livro de memórias familiares muito cor-de-rosa mas, para o público em geral, nada traz de valor acrescentado.

A Autora nasceu, cresceu, estudou, casou (e bem, segundo relata) com um Oficial da Marinha, viajou (e bem, segundo relata) por algumas partidas do Império a acompanhar o esposo onde teve oportunidade de... caçar, pescar, fazer umas regatas e outras passeatas, chás canastas, etc. e tal, e viva a Marinha de Guerra que tanta paz lhe trouxe. Agora já é avó, África ai África que eu adoro, (mas tá quieto ir viver para lá), etc. e tal., as banalidades do costume e... pronto, ficamos por aqui.

Enfim, um livro que, já que o comprei, recomendo a mim mesmo para as minhas noites de insónia. É tiro e queda. Ao segundo parágrafo já ronco.



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Título: A conquista do sertão
Sub-Título: 1888, Angola. A história da busca de uma nova vida, de uma fazenda e de uma herança.
Autor: Guilherme de Ayala Monteiro 
Editora: Casa das Letras / Oficina do Livro      Ano: 2012      Págs.: 194         Género: Romance





Trata-se de mais um romance cuja saga se encontra perfeitamente enquadrada, no tempo, espaço e tema, no sub-título do mesmo. Saído de uma amor frustado, o jovem Pedro Costa embarca para Benguela e, palmilhando o interior do sertão africano, vê a sua vida a passar pelos anos enquanto luta, com denodo, pela concretização dos sonhos de mercador, com altos e baixos, fruto de eventos históricos que não pode controlar, tais como a revolta quilengue,  a proclamação da República ou a eclosão da Primeira Guerra Mundial. E o seu sonho começa a tomar forma apenas no findar da sua vida, quando adquire uma fazenda para plantio de café e algodão. A almejada prosperidade do seu investimento, com que sempre lutou com denodo durante toda a sua vida de sertanejo, apenas se virá a concretizar após a sua morte.


Um romance suave, escrito numa linguagem diplomática, como foi parte da vida profissional do seu Autor e que, num determinado espaço de tempo, o mesmo foi contemporâneo da personagem por si criada. Por isso, fica-me até a dúvida se este romance não terá partes memoriais da vida do Pai do Autor, que "incansavelmente trabalhou pela civilização em terras angolanas, sacrificando-lhes a saúde e a vida, conservando até ao fim a honra e a fé nos destinos dos portugueses em África", e da mãe do Autor que "pelo seu espírito de família e pelo amor à terra em que nasceu, me faz conhecer Angola", como o mesmo refere na dedicatória do livro.



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PORQUE SÓ HÁ UM PLANETA

O fabuloso bailado dos estorninhos

O bailado dos estorninhos é uma fantástica coreografia feita por dezenas de milhares destas aves que, compactamente, efectuam uma revoada gigantesca e absolutamente hipnotizante.

Os cientistas estimam que é necessário um tempo de reacção inferior a 100 milisegundos para evitarem colisões, pois basta uma para provocarem o catastrófico efeito dominó e que nem os computadores conseguem reproduzir os algoritmos complexos por detrás desta movimentação, com a mesma eficiência e harmonia.

Uns atribuem a isto como uma forma de fugirem a predadores (águias, falcões, etc.), outros à comemoração após a época do acasalamento, outros ainda a uma forma de celebração do fim duma longa jornada.

Seja como for é um hino a tudo o que de belo possamos imaginar conforme se pode verificar nestes dois vídeos que, aleatoriamente, aqui coloco.



"Starling on Otmoor"



"Murmuration on vimeo"


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NESTA QUINZENA ACONTECEU



Quénia(DN, 08/08) O Parlamento deste País sofreu obras de renovação que orçaram, no global, em cerca de 10 milhões de euros. Cada cadeira para um parlamentar se sentar custou cerca de 2.500 euros.

Num dos países mais pobres de África, onde o nível de corrupção é dos mais elevados do mundo e onde os deputados decretaram, em 2010, um auto-aumento de 18%, passando a  auferir cerca de 95.000 euros anuais, quando o rendimento da população, per capita, é de 1.400 euros anuais... vale a pena fazer algum comentário?



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Portugal - Penso que a menopausa afecta a capacidade intelectual dalgumas mulheres, turvando-lhes o raciocínio e pondo-as a dizer baquoquices. Foi o caso há uns tempos atrás de Helena Roseta, uma das inefáveis ex-viúvas política de Sá Carneiro, ter-se lembrado de contar uma história em que Miguel Relvas a tentou aliciar (a ela enquanto liderava a Ordem dos Arquitectos) para o favorecimento duma determinada empresa. Só que essa conversa acontecera apenas entre os dois (a ter havido) e passara-se há mais duma década. Fiquei com a sensação que a senhora precisava de publicidade e, como estava na moda bater no Miguel Relvas... havia que malhar no ferro enquanto estava quente. Ou seja, não havia testemunhas, os factos era longevos no tempo, e tudo não passou duma conversa privada (mais uma vez repito, a ter acontecido) entre duas pessoas. Mais valia estar calada.



Veio agora Zita Seabra, campeã olímpica do salto em comprimento político (saltou directamente do PCP para o PSD, onde lhe foi logo atribuído um tacho) dizer, sem provas note-se, que o PCP fizera espionagem em diversos departamentos do Estado através da introdução de microfones em aparelhos de ar condicionado, instalados pela FNAC que, na altura, era liderada por Alexandre Alves, conhecido por "Barão Vermelho" fruto das suas simpatias pelo PCP e pelo Benfica (o Benfica não é vermelho mas encarnado, segundo amigos meus lampiões me informam). Tal como Miguel Relvas, quando foi atacado pela Helena Roseta, estava na berlinda também agora Alexandre Alves saltou para os escaparates por causa dum problema com uma empresa sua em Abrantes, como toda a gente sabe.

E agora esta inefável ex-viúva do comunismo veio lembrar-se de tal história de espionagem, digna de Jonh le Carré. Não ponho as mãos no fogo pelo PCP e até posso admitir que isso tivesse acontecido mas... acusar sem provas fidedignas, vir a público lançar uma atoarda destas sem consubstanciar com factos (tempo, local, pessoas intervenientes, etc.) é idiotice, é dar a sensação que quer publicidade.


E se a menopausa afecta o cérebro das mulheres, a andropausa também afecta o cérebro dalguns homens. Num ápice veio a PGR (também conhecida pela Arquivadoria-Geral da República) dizer que vai averiguar se há matéria crime e agir em conformidade. Sr. Pinto Monteiro, acorde. Agora que está de saída é que lhe deu a tesão da investigação? Oh homem, isto já se passou há décadas (a ter-se passado, note-se). O seu Departamento, que chupa dos meus impostos que não é brincadeira, nem sequer conseguiu apurar nada do José Sócrates, como se viu agora num Tribunal que inocentou os arguidos e mandou reinvestigar o ex-PM. Nem sequer conseguiram ouvir o ex-PM José Sócrates. O cúmulo da desfaçatez e da pouca vergonha. Não lhe pesa a consciência quando recebe o seu vencimento?

Realmente, recomendo a estas dinossaurias da política que podiam fundar um Clube, tipo Clube das Tiazinhas Ex-Viúvas Tentadas Politicamente Falhadas, onde se juntariam aos fins de tarde e, no meio de cházinhos e bolinhos, contavam histórias da treta umas às outras, enquanto se dominavam para não fazerem batota no jogo do Monopólio. Cujo banqueiro podia ser o Pinto Monteiro.

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DECLARAÇÕES DE INTERESSES



Texto escrito em desrespeito pelas normas do novo Acordo Ortográfico.




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