"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)

domingo, 20 de maio de 2012

George Adamson e Joy Adamsom


AVENTUREIROS, EXPLORADORES E VIAJANTES




George Alexander Graham Adamson - (Etawah (Índia), 03/02/1906 - Parque Nacional Kora (Quénia), 20/08/1989) - Conservacionista. Depois de efectuados alguns estudos em Inglaterra, chega ao Quénia pela primeira vez em 1924 onde, após ter exercido algumas profissões marginais, tornou-se caçador e, em 1936, entra para o Serviço Florestal daquele território como fiscal de caça.



George Adamson


Em 1944 casa-se com Joy Adamson, de quem se virá a divorciar em 1970. Reforma-se dos Serviços Florestais em 1961 e continua a sua actividade de recuperar leões cativos e reintegrá-los na vida selvagem.



O casal Adamson


Em 1956 ele e Joy, recolhem uma leoa pequena que ficara órfã. Depois de a terem criado conseguem, ao fim de inúmeras tentativas, reintegrá-la na vida selvagem. A recuperação para a vida selvagem desta leoa, que baptizaram de "Elsa", dar-lhes-á visibilidade mundial quando, na década seguinte foi feito um filme, titulado de "Born Free" que reproduz esta história, baseado no livro escrito por Joy Adamson. 


Na década de setenta muda-se para o Parque Nacional de Kora, no Norte do País, desenvolvendo aí a sua luta em prol da defesa dos felinos, actividade na qual virá a ser considerado uma das maiores sumidades mundiais. Adquire estatuto lendário e é conhecido como "Lion Man". Tornam-se vulgares imagens dele junto a grupos de leões, onde mais ninguém ousava aproximar-se. Na realidade , quase que se pode dizer que ele não era um ser humano que lidava com leões. Era um leão com corpo humano. Acabará assassinado por caçadores furtivos somalianos, neste Parque.


Sepultura de George Adamson, em Kora


George Adamson pertenceu àquela plêiade magnífica de homens e mulheres que, não tendo nascido em África, mas tendo ido viver para lá, apaixonaram-se pela terra e amaram-na acima de tudo, por ela lutaram, por ela morreram. Foram mais africanistas que muitos africanos lá nascidos e que nada mais fizeram (ou têm feito) do que destruir aquele belo continente.


George Adamson pertence a este fabuloso escol que, infelizmente, começam a rarear nos tempos de correm. Porque a fauna selvagem começa também a rarear e a ficar apertada em Parques Nacionais. Cálculos efectuados por organizações ambientais apontam para que, nos últimos trinta anos do século passado, a população felina africana baixou de 200.000 para 40.000 animais.



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Joy Adamson (Friederik Victoria Gessener) - (Troppau (Ducado da Silésia), 20/01/1910 - Reserva Nacional de Shaba (Quénia), 03/01/1980) - Conservacionista, escritora e pintora. Casada, inicialmente, com um austríaco separa-se deste e casa-se com um britânico de quem também se separa para se casar, pela terceira vez, com George Adamson, de quem se virá a separar em 1970. Tinha um feitio muito instável.

Enquanto casada com George Adamson, com ele vive a aventura de criar a leoa "Elsa" e, posteriormente, reintegrá-la na vida selvagem.



Joy Adamson


Escreve o livro "Born Free" onde relata esta experiência, o que a catapulta para a fama internacional.  Percorre o mundo em palestras e recolhas de fundos para a preservação da vida selvagem em África mas, por vezes, o seu feitio e falta de discernimento, tornam-na alvo de críticas por parte dos próprios conservacionistas. Foi o caso, por exemplo, quando se deslocou à Austrália para uma série de conferências e onde envergava casacos feitos com peles verdadeiras de leopardo.


Joy Adamson e a leoa "Elsa"


Outra crítica que lhe era  feita devia-se à sua preocupação no seu próprio estrelato em detrimento do de George Adamson, querendo  monopolizar só para si a história de "Elsa". Após o divórcio continuou a sua cruzada conservacionista, escrevendo livros, pintando e desenhando, podendo grande parte da sua obra ser vista no Museu Nacional de Nairóbi. Em 1980, acabou assassinada por um seu criado, aparentemente por uma discussão de vencimentos.


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Elsa - Elsa foi uma leoa bébé capturada em 01 de Fevereiro de 1956, na área de Isiolo (Norte do Quénia), quando a sua mãe foi abatida pela equipa liderada por George Adamson. Juntamente com "Elsa" foram apanhados outros dois seus irmãos, e a razão do ataque leonino da sua mãe fora pelo facto da mesma sentir-se ameaçada pela presença humana e tentar defender o seu território e a sua ninhada, que estava a amamentar. "Era uma grande leoa, na força da vida, as tetas a regurgitar de leite. Só quando a viu assim é que George compreendeu porque estava tão furiosa e os enfrentara tão corajosamente. E arrependeu-se por não ter reconhecido mais cedo que o seu comportamento indicava que ela estava defendendo os seus filhos." (Joy Adamson - Uma leoa chamada Elsa). Levados para o acampamento base dos Adamson os três leões bébés (baptizados de "Big One", "Lustica" e "Elsa") crescem no mesmo.




Joy Adamson com "Big One", "Lustica" e "Elsa"


Seis meses mais tarde torna-se insustentável aos Adamson cuidarem dos três leões, pelo que "Big One" e "Lustica" são enviados para um jardim zoológico na Europa, ficando eles com "Elsa". Criada pelos Adamson, o seu crescimento começa a dar problemas na vizinhança, quando ataca gados vizinhos, o que vai obrigar o casal a tentar integrá-la na vida selvagem. Após diversas tentativas, logram ter êxito, no que terá sido considerado a primeira vez, que se tenha conhecimento, que se conseguiu devolver ao seu lar natural um animal nascido selvagem mas criado no meio de seres humanos.



"Elsa" e George Adamson, descansando juntos



Depois de estar integrada na selva, o casal Adamson ainda regressou ao mato a visitá-la, por diversas vezes, aparecendo sempre "Elsa", reconhecendo-os e brincando com eles. Elsa foi mãe de três crias (que ficaram sempre no seu habitat natural) e a última vez que foi vista terá sido em Julho de 1959.


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Livro: O livro que catapultou o casal Adamson para a fama mundial foi escrito por Joy Adamson, que o titulou de "Born Free". Existe uma tradução portuguesa (pelo menos), com o título "Uma leoa chamada Elsa", editada pela Livros do Brasil Lisboa, 179 págs., onde se relata toda a história, desde a sua captura, criação e tentativas de a reintroduzirem na selva, até o terem conseguido.



Capa do livro


George Adamson escreveu dois livros, dos quais não conheço nenhuma edição portuguesa. São eles "A lifetime with lions" e "My pride and Joy".



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Filme: Baseado no livro de Joy Adamson, foi rodado o filme com o mesmo nome, em 1966, dirigido por James Hill e tendo como actores principais Virginia Mackenna e Bill Travers, que eram casados na vida real e que representam, na tela, o casal Adamson. Existindo versão portuguesa, o filme foi rodado no Quénia, e com a presença dos Adamson, tendo sido utilizados nas filmagens alguns leões que George Adamson cuidava para tentar reintegrá-los na Natureza.


Filme "Uma leoa chamada Elsa" (95 minutos aproximados)


O casal de actores, que se travou de amizades com os Adamson até ao fim da vida destes, tornaram-se também, eles próprios, defensores da causa ambiental. 


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HISTORIANDO MOÇAMBIQUE COLONIAL






NOTA: Todos os textos do "Historiando Moçambique Colonial" encontram-se registados e protegidos pelos direitos de autor e propriedade intelectual em todos os países. A sua reprodução será  concedida desde que pedida e informado qual o destino a darem à mesma, carecendo da autorização do Autor.




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Nicolau Pascoal da Cruz - (1739(?) - 1808) - Prazeiro. Era um militar luso-siamês, natural do Sião (actual Tailândia). Serviu como Soldado e depois como Cabo no Estado da Índia (portuguesa). Chegou à Zambézia em 1767, como Sargento duma Companhia de sipaios* da Índia, acabando depois promovido a Alferes dessa mesma Unidade.

Casou-se com uma dona**, Luísa da Costa, que possuía alguns prazos* em Massangano e de quem teve vários filhos destacando-se, entre eles, o seu sucessor António José da Cruz.  Exerceu vários cargos públicos, tais como Feitor da Real Fazenda, Juíz e Governador interino da Capitania de Rios de Sena.


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António José da Cruz - (1777-1813) - Prazeiro. O filho mais velho de Nicolau Pascoal da Cruz é também referido pelos historiadores como "Bereco". Assenta praça muito novo, por volta de 1787 e, em 1792, tinha a patente de Alferes. Seis anos depois é promovido a Tenente e é colocado na Companhia de Infantaria de Tete sendo, em 1802, promovido a Capitão. Em 1798 acompanhou Lacerda e Almeida** na célebre viagem ao Reino do Cazembe, na África Central.


Em 1807 integra a coluna militar de Vilasboas Truão**, Governador de Rios de Sena, como guia e intérprete, na expedição punitiva ao Régulo Chimatanga, que era avassalado do Monomotapa* Chofombo, mas trai o Governador conluiando-se com as gentes do Monomotapa, sendo um dos responsáveis pelo desastre da expedição e pela morte de Vilasboas Truão, em Chicova*, como virá depois a ser acusado. Morreu enforcado e esquartejado na ilha de Moçambique*, depois de ter sido julgado e condenado por traição, num processo judicial controverso.

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Joaquim José da Cruz - (1803(?) - 1855) - Prazeiro. Filho de António José da Cruz. Era conhecido pelo cognome de "Nhaúde" e "Joaquim da Bamba", por residir numa terra denominada Bamba, perto de Tete. Em 1831 integrou a expedição do Reino do Cazembe, onde também seguia Pedroso Gamito**.  Mercador sertanejo, foi arrendatário dos prazos de Massangano e Tipue e, até cerca de 1850, nunca entrou em conflito aberto com as autoridades portuguesas, tendo instalado a sua aringa* em Massangano, composta por centenas de palhotas.

Em 1850, por um litígio menor, o Governador de Tete mandou um pequeno destacamento militar, comandado pelo Alferes Venâncio Raposo Sarmento, a Massangano a fim de trazer, sob prisão, Joaquim José da Cruz. Este, agastado com a ordem e como o modo como era tratado, não só desobedeceu como prendeu o Alferes durante dois dias, obrigando-o a trabalhar em regime de escravatura, soltando-o ao terceiro dia para este regressar a Tete e contar o que se passara. Começava aqui a rota de colisão entre Joaquim José da Cruz e as autoridades portuguesas, apesar destas terem comtenporizado e engolido o agravo sofrido. No entanto, pontualmente, Joaquim José da Cruz auxiliou as autoridades de Tete em protecção de caminhos e em pequenas guerras contra o seus fidagais inimigos, a família Caetano Pereira**.

Em Junho de 1853, forças do prazeiro Pedro Caetano Pereira**, o "Chissaca", juntamente com as do Makombe* Chipatata, do Reino do Barué*, cercaram a aringa de Massangano, cerco este que durou até Outubro desse mesmo ano, acabando com uma derrota das forças invasoras. Apesar dos insistentes pedidos de auxílio a Tete, por parte de Joaquim José da Cruz, as autoridades portuguesas  eximiram-se sempre a tomar parte no conflito, alegando ser um problema entre dois potentados. Com a  vitória sobre o "Chissaca", Joaquim José da Cruz acabou por prestar um valioso auxílio a Tete, pois a sua derrota implicaria, quase de certeza, a posterior tomada desta vila pelas forças invasoras, inimigo permanente das autoridades portuguesas.

Em 1854, após novas desinteligências entre as forças de Joaquim José da Cruz e as gentes de Tete levam as autoridades portuguesas a prepararem uma expedição punitiva a Massangano, comandada pelo Major Tito de Sicard. Dos confrontos havidos a vitória não tocou a nenhuma das partes, nomeadamente o combate ocorrido nas margens do rio Mucomadzi, em Novembro de 1854 mas, no cômputo geral, foi desprestigiante para as forças portuguesas, pois estas sublevaram-se contra o comandante Sicard, a ponto de o prenderem.

Em finais de Maio ou princípios de Junho de 1855 Joaquim José da Cruz morreu, em sua casa, sem nunca mais ter sido incomodado pelos portugueses.


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António Vicente da Cruz - (1839(?) - 1879) - Prazeiro. Filho de Joaquim José da Cruz, também passou à História com o cognome de "Bonga", que significa "gato selvagem". Após a morte do seu pai assume o prazo de Massangano e firma, com as autoridades portuguesas, um acto de submissão a estas. Passado algum tempo, em Janeiro de 1856, António Vicente da Cruz volta a mostrar a sua lealdade aos portugueses ao mandar prender, por ordem do Governador de Tete, o Tenente do Exército Alves Barbosa, que se acolhera na sua aringa e tentava aliciá-lo a guerrear Tete. Ainda nesse mesmo ano, solicita uma bandeira portuguesa para hastear nos seus domínios. A culminar toda esta submissão paga os arrendamentos dos seus prazos, que estavam em atraso, bem como as dívidas do seu pai à Fazenda Pública, caso raríssimo e nunca visto.

Em 1862 é agraciado pelo Governo-Geral de Moçambique em Sargento-Mor de Massangano, facto bastante vulgar naquela época. No entanto António Vicente da Cruz tinha um feito despótico, sendo frequentes incursões suas aos prazos vizinhos e, na sua área de influência, em Massangano, o seu modo de governar era cruel, baseado no terror e assassinato, enfeitando as paliçadas da sua aringa com caveiras.


A partir de 1867 entra em conflito aberto com as autoridades de Tete, começando por se recusar a pagar à Fazenda qualquer tipo de imposto. Após outros conflitos, Miguel Augusto Gouveia, Governador de Tete, decide-se por uma operação militar contra o prazo de Massangano, assumindo pessoalmente o seu comando. Esta primeira incursão militar salda-se num desastre total para as forças portuguesas, que foram chacinadas pelas gentes do "Bonga", em 06 de Julho de 1867, culminando com o aprisionamento e morte, sob tortura, do próprio Governador Miguel Augusto Gouveia, para além de terem sido mortos mais cinco oficiais, três sargentos, cinco cabos, dezoito soldados regulares e cerca de 300 soldados auxiliares, para além do diverso material de guerra que caiu nas mãos do "Bonga".

Para se vingar desta humilhação, o Governo de Moçambique ordenou uma segunda expedição militar contra Massangano comandada, agora, pelo Tenente-Coronel João José de Oliveira Queiroz. Em Dezembro de 1867 chegam às portas de Massangano mas também não conseguirão levar de vencida as forças do "Bonga", acabando por se retirarem, derrotados, em 01 de Janeiro e 1868, depois de travados alguns combates. 

Em Fevereiro deste mesmo ano (1868) promove-se uma terceira expedição contra Massangano, desta vez comandada pelo Tenente-Coronel Guilherme de Vasconcelos. Em finais de Julho de 1868 o corpo expedicionário acampa frente à aringa do "Bonga" e prepara-se para o assalto, contando também com o apoio de forças auxiliares do prazeiro Manuel António de Sousa*. Após se terem travado diversos combates, em 05 de Agosto de 1868, as forças do "Bonga" derrotaram em toda a linha, as forças portuguesas, matando inclusivamente o comandante da expedição, o Tenente-Coronel Guilherme de Vasconcelos, para além de mais dezoito oficiais e sargentos e duzentos e vinte e dois soldados regulares, havendo ainda a contabilizar o abundante material de guerra que ficou na posse das gentes do "Bonga", naquela que foi considerada uma das maiores derrotas militares dos portugueses em Moçambique.


Em 1869 lança-se a quarta expedição militar contra o "Bonga" reunindo, os portugueses, tropas da metrópole, da Índia e do contingente moçambicano, entregando-se o comando da mesma ao Tenente-Coronel Tavares de Almeida. Desencadeado o ataque contra Massangano, a 22 de Novembro de 1869, salda-se de novo em fracasso para as forças portuguesas que, batidas, retiram-se em desordem, quatro dias depois, deixando no terreno sessenta mortos contabilizados, entre oficiais, sargentos e soldados e, como sempre, mais material de guerra abandonado.

Acabando por se estabelecer uma paz fictícia, em Julho de 1872 uma pequena coluna militar portuguesa, comandada pelo Alferes José Rodrigues Rego, atacou aldeamentos submetidos à área do "Bonga" e, dos combates travados, acabou por sofrer sete mortos. Em acto de retaliação, Tete é atacada pelas gentes de Massangano, a 02 de Agosto de 1872, mas consegue resistir ao cerco. Seguiu-se um período de acalmia e, em Janeiro de 1875, por iniciativa do "Bonga", este acaba por firmar, mais uma vez, a paz com o Governador de Tete.


Mantendo, desde então, uma relação pacífica com os portugueses, António Vicente da Cruz viveu os último anos da sua vida em Massangano, onde vem a falecer em 08 de Setembro de 1879, sem nunca mais ter originado conflitos.



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Vila de Zumbo - A área onde se situa a vila de Zumbo foi doada aos portugueses pelo Monomotapa Panzagute, no tempo do Rei português Dom Sebastião e correspondia ao antigo Império Daúde. O primeiro colonizador foi uma natural de Goa, de nome Francisco Pereira, de alcunha "Chidalea" que construiu, em 1710, uma povoação comercial na ilha Chitakativa, na confluência dos rios Zambeze a Arângua, referida por Méroé. Estabeleceu-se aí um presídio* com um Capitão-Mor e, nos primeiros tempos, a Capitania era referida por Ilha de Méroé. Em 1720 o Zumbo foi atacado por forças do Reino de Changamire* mas, no decurso desse século, acabará por beneficiar da protecção militar deste Reino, que tinha aqui a sua principal plataforma de exportação dos seus produtos tendo-se, em 1731, construído uma escola de artes e ofícios. O Zumbo atinge o seu apogeu entre 1730 e 1760 e vivia, essencialmente, do comércio do ouro, marfim*, panos e escravos. Em 27 de Abril de 1763 a povoação foi elevada à categoria de vila.

Em Março de 1804 o Régulo Buruma III ataca e arrasa o Zumbo que, na altura, era governado por José Pedro Diniz, o qual só se salvou por ter fugido a nado e acolhido pelo Régulo Inhapende. No contra-ataque luso, o Capitão-Mor João Baptista Octaviano Reis Moreira consegue derrotar, em finais deste mesmo ano, as forças de Buruma. Em 1813 o Zumbo é  de novo destruído pelas forças do Régulo Buruma IV, o qual mantém o território a ferro e fogo até 1818, ano em que acaba derrotado pelos portugueses, refugiando-se na sua aringa. Em 1830 Buruma IV volta a atacar o Zumbo, mas acaba morto na contenda. Em 1836 o Zumbo é, de novo, atacado e destruído, por completo, pelas forças do regulado de Buruma. Os portugueses tornam a abandonar a vila, que só foi reocupada em 1862 pelo capitão-Mor de Tete, Albino Manuel Pacheco. O marfim volta a correr na vila, havendo registos que no ano de 1864 foram abatidos 2.000 elefantes, que produziram 1.700 arrobas* de marfim.

Em 1889 é criado o Distrito do Zumbo, tendo sido nomeado como primeiro Governador o Tenente Luís Inácio, bem como se concluiu a construção do forte "Dom Afonso", fim de fazer frente à influência britânica. O Distrito foi delimitado com base no desmembramento de áreas do Distrito de Tete, sendo o mesmo dividido em dois comandos militares, um sedeado em Mucheza e outro na foz do rio Cafucué. Com a revolta do Reino do Barué*, em 1917, o Zumbo foi, de novo, totalmente destruído e só com o findar daquela sublevação é que a vila se reorganizou de novo. 


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Cidade de Tete - Situando-se na margem direita do rio Zambeze e a 175 metros cima do nível do mar, o povoado de Tete já existia quando os portugueses aí chegaram, ao pretenderem atingir o Reino do Monomotapa. Em 1563 o Rei de Portugal Dom Sebastião doou a Igreja de São Tiago Maior de Tete aos jesuítas. Por volta de 1608 construiu-se o forte de "São Tiago" do Presídio de Tete.



Em meados do século XVII, devido à sua situação geográfica privilegiada, Tete era o lugar donde irradiavam os caminhos comerciais para o interior e, por isso, reunia-se neste povoado o ouro e o marfim de diversas feiras do Reino do Monomotapa. A povoação de Tete foi elevada a vila por Carta Régia de 09 de Maio de 1761. Em meados de 1860 residiam, em Tete, cento e dezasseis europeus. A vila foi elevada a cidade pela Portaria nº 13.043 de 21 de março de 1959. 



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Brasão de armas de Tete - Composta de prata, possui uma torre vermelha aberta e iluminada de ouro, ladeada por duas cruzes de São Tiago. A coroa mural é de prata com quatro torres e o listel branco tem gravado a negro "Vila de São Tiago de Tete".


Nota: aquando da elevação a "cidade" no listel passou a constar  esta palavra em vez de "vila".



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* - Já fichado.
** - A abrir ficha.


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PINTURA

Hugo Seia - Natural de Maquela do Zombo - Angola, acabou por seguir as pisadas do pai e dedicou-se à caça grossa. Aos oito anos abateu o seu primeiro golungo  (antílope) e, vinte anos mais tarde, tornou-se caçador profissional. Depois de ter deixado Angola, aquando do eclodir das guerras derivadas da descolonização, percorre outros países africanos onde vai exercendo o seu mister.


Pintura de Hugo Seia


Mas não é da sua actividade predadora (da qual sou abertamente contra) que falo dele. Hugo Seia tem uma outra faceta que me apaixona: é pintor. Para mim não é só um pintor. É um pintor fabuloso. Não conhecia a sua arte quando, ao navegar por sítios da rede relacionados com Angola (tendo como bússula o sítio da poetisa Ana Paula Lavado), tropecei na sua galeria. E fiquei seduzido. Só tenho pena de não ter dinheiro para adquirir um quadro seu. Aqui fica uma sugestão: visitem a  galeria dos seus quadros. Vale a pena. 


Pintura de Hugo Seia


E assim Hugo Seia, de quem nunca tinha ouvido falar tornou-se, para mim, no binómio Deus/Diabo, enquanto pintor e caçador.


Como réstea de consolação para um conservacionista como eu direi que, ao menos a actividade cinegética valeu-lhe para fixar, em tela, pinturas espectaculares da fauna africana. Que está a desaparecer a uma voragem incontrolavelmente estúpida. 

A fauna, não a pintura.



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POESIA



Viriato Clemente da Cruz - (Porto Amboim, 25.03.1928 - Pequim, 13.06.1973) - Político e poeta. Tendo crescido num seio familiar com enormes dificuldades financeiras, mesmo assim ainda efectua estudos liceais. No início da década de 50 estabelece contactos com personalidades que lutavam contra o sistema colonial português e, no final dessa mesma década, foge de Angola e atinge Paris, onde trava conhecimento com Mário Pinto de Andrade. Está na primeira linha da fundação exterior do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola (1960) e assume o cargo de Secretário-Geral. Nesta qualidade desloca-se à China em busca de apoios para o Movimento e torna-se simpatizante da revolução chinesa e das teses políticas de Mao-Tsé-Tung. No regresso acaba por abandonar o secretariado do MPLA, em 1962, por divergências políticas com o Presidente do Movimento, Agostinho Neto, este defensor da linha moscovita. No ano seguinte é expulso do MPLA, e acaba por fixar residência, em Pequim, sob protecção das autoridades chinesas em plena Revolução Cultural (1966), os quais pretendiam utilizar o seu prestígio africano como uma das pontas de lança da penetração das teses maoístas neste continente. No entanto Viriato da Cruz virá a entrar em discordância com a linha política chinesa e acabará preso  em domicílio fixo e, posteriormente, remetido para um campo de trabalhos forçados, onde virá a morrer, auxiliado pela fome e maus tratos.


Como poeta deu um contributo importante para a afirmação da existência duma cultura de angolanidade. A Casa dos Estudantes do Império publicou, em 1961, num pequeno caderno denominado "Poemas", a sua obra poética, podendo a mesma ser encontra, na sua totalidade, no Volume II do "Reino de Caliban", uma monumental compilação poética feita por Manuel Ferreira.


Destaco dois poemas de Viriato da Cruz, o "Mãe Negra" e "Namoro". O "Mãe Negra" (o meu favorito de toda a sua obra) é a sua vertente poética universal, que ultrapassa as fronteiras angolanas, um cântico denunciador da globalização da escravatura mas também, em resgate final, de esperança num futuro vindouro.

Mãe Negra (Canto de esperança)


Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça
drama de carne e sangue
que a Vida escreveu com a pena de séculos.


Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais dos seringais dos algodoais....
Vozes das plantações da Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos banguês dos tongas dos eitos dos pampas das usinas
Vozes do Harlem District South
vozes das sanzalas.
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando dos vagões
Vozes chorando na voz de Corrothers:
"Lord God, what will have we done"
Vozes de toda a América. Vozes de toda a África.
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
na bela voz de Guillén...



Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aos sóis mais fortes do mundo
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor amaciando as mais ricas terras do mundo
Rebrilhantes dorsos (ai a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no tronco, pendentes da forca caídos por Lynch
Rebrilhantes dorsos (ah, como brilham esses dorsos),
ressuscitados com Zumbi, em Toussaint alevantados.
rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música
... do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...



Pelo teu regaço, minha Mãe
Outras gentes embaladas,
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos, poetas e sábios...
outras gentes...não tem filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias
mais são filhos da desgraça
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo.




Pelos teus olhos, minha Mãe,
Vejo oceanos de dor
claridades de Sol posto, paisagens
roxas paisagens
dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo também (oh se vejo...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus olhos ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza ...
cintilantemente firme - como a Esperança ...
em nós outros teus filhos,
gerando, formando, anunciando
o dia da humanidade,
O DIA DA HUMANIDADE.



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Namoro


Não transcrevo o poema "Namoro" pois o mesmo encontra-se legendado no vídeo seguinte, que se reporta à versão excepcionalmente musicada e interpretada por um dos meus cantautores favoritos: Fausto Bordalo Dias






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Sobre Fausto Bordalo Dias chamo a atenção para um excelente trabalho (como sempre) que ele lançou há uns anos atrás, com o título "A preto e branco", onde musicou e interpretou diversos poetas angolanos.


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LEITURAS




Não sou um especialista da obra épica "Os Lusíadas" de Luís de Camões. Nem um leitor frequente da mesma. Bem como o mesmo se passa com os seus restantes escritos, exceptuando os sonetos que, volta não volta, gosto de os ler.


Sobre os "Lusídas" conheço algumas passagens do livro, sei que o mesmo tem dez cantos - (contrariamente a uma certa personalidade da nossa praça política, que disse que tinha nove cantos - quem foi quem foi?, ofereço um doce a quem acertar na resposta e dou uma ajuda: gosta de comer bolo-rei, raramente se engana, e quase nunca tem dúvidas, não gosta de ler jornais, queixa-se que vive com dificuldades e tem um lote de conhecimentos de pessoas que venha o Diabo e escolha; quem é quem é?, branco é galinha o põe.) - num dos quais (o nono) fala da "Ilha dos Amores"  (pronto já cá faltava a pornografia; se calhar foi por isso que o outro não passou daí) e que é uma obra universal e canta a história de Portugal e a sua gesta marítima. E, praticamente, acaba-se aqui a minha cultura camoniana, salvo uma ou outra estrofe que sei de cor, para impressionar alguém.

Ora bem, ao passar num alfarrabista, tropecei num livro com um título interessante, que comprei e dei-lhe uma leitura em diagonal. Trata-se de "Camões contra a expansão e o Império: os Lusíadas como antiepopeia" da autoria de José Madeira, editado pela Fenda, em 2000 e com 261 págs., onde o autor explica que, afinal, o grande vate era contra a expansão portuguesa, indo buscar citações do mesmo nos Lusíadas para fundamentar a sua tese. Que, no entanto, não me convenceu.

Tenho para mim, do pouco que sei, que os "Lusíadas" são uma obra que canta a Lusa Gesta. No entanto e porque não sou nenhum especialista nesta matéria (serei nalguma?) chamo a atenção para este livro porque a tese que aborda raramente se encontra alguém disposta a defendê-la. Daí a sua originalidade. Pelo menos, só por isso, já vale a pena comprá-lo.



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PLANETA AZUL



A Terra não é uma herança dos nossos Pais mas um empréstimo que pedimos aos nossos Filhos
(autor desconhecido).


E já que falámos de conservação das espécies (a propósito da actividade de Hugo Seia) recordemos "As baleias", uma música fabulosa, interpretada por Roberto Carlos.




Não sou contra a caça à baleia, desde que a mesma seja feita artesanalmente e como forma de subsistência duma comunidade. Era o caso das ilhas centrais do arquipélago açoreano, por exemplo. Mas como para determinadas decisões somos mais papistas que o Papa, tratámos logo de proibir tal actividade. Em nome da preservação das espécies. E depois temos a frota pesqueira japonesa (por exemplo) que são autênticas fábricas bombardeiros, a passar e a passear-se por todas as águas do planeta e a chacinar as baleias todas que apanham. 


Os nossos lideres políticos são suficientemente cobardes e japónico-dependentes para dizerem algo que seja incómodo aos japoneses, não vão eles ficarem ofendidos. Mas para as comunidades piscatórias açoreanas, que pescavam duas ou três baleias por ano pois apenas usavam meios artesanais e não punham em causa o ecossistema... aí, já os nossos "Queridos Líderes" souberam falar grosso.
  


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ACONTECEU




Manifes - Contava o  meu pai que no "tempo da outra senhora" chegou a acontecer-lhe, uma vez, ir a passear na rua com um amigo, em Lisboa, a conversarem calmamente e terem sido abordados por dois elementos que se identificaram, como sendo da PIDE. Depois de logo separados uns metros um do outro, cada um dos esbirros perguntou do que estavam a falar e, após de terem confirmado que ambos tinham dado a mesma resposta, deixaram-nos seguir. O meu pai, que era um simpatizante do salazarismo e do Estado Novo, esclareceu que esta era uma medida de segurança estúpida, pois os verdadeiros oposicionistas ao regime, quando circulavam na rua combinavam de antemão qual era o tema da conversa para o caso de serem abordados (geralmente era futebol) e só então falavam do que os tinha levado a reunirem-se. 

Vem isto a propósito da PSP ter identificado  meia dúzia de pessoas e constituído arguido uma delas (por desobediência à autoridade), por andarem a distribuir panfletos no Centro de Emprego do Conde Redondo, em Lisboa. E, segundo a PSP, tal actuação baseou-se num parecer da Procuradoria Geral da República (de 1989) que refere: "Manifestação será o ajuntamento em lugar público de duas ou mais pessoas com consciência de explicitarem uma mensagem dirigida a terceiros". Por isso, para a PSP: "Duas pessoas já  fazem uma manifestação." (sic). (Artigo do Expresso de 12/05/2012)

Não sei porquê lembrei-me da história que o meu Pai contava dos PIDE´s. E, não sei como, em holograma, dei-me a vê-lo sentado à minha frente, a sorrir ironicamente, e a dizer-me: "Mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades."

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Amizades - Pessoa amiga enviou-me um "mail" onde consta um despacho conjunto dos Secretários de Estado do Ensino Superior (João Rodrigues Queiró) e da Secretária de Estado da Ciência (Maria Leonor Parreira), despacho esse que tem o nº 774/2012 e datado de 11/01/2012, publicado no DR 2ª Série nº 14 de 19/01/2012, onde nomeiam Helena Isabel Roque Mendes para exercer determinadas funções na área de informática com um vencimento mensal de 1.575,00 euros.

Até aqui nada de  especial, chamando no entanto a atenção para o nº 3 do referido despacho que diz: "Nos meses de junho e novembro, para além da mensalidade referida no número anterior, será paga outra mensalidade de  E$ 1.575,00 (mil e quinhentos e setenta e cinco euros) a título de abono suplementar." (Nota: O sublinhado e em negrito é da minha lavra.)



Mas então, se àquilo se chamasse subsídio de férias e de Natal (que é do que verdadeiramente se trata), já não os podia receber, não era? Agora como é "abono suplementar" já pode pingar na conta da funcionária. E se os senhores governantes deixassem de ser a cambada de hipócritas e mentirosos que são?


Não sei porquê, deu-me para lembrar dum provérbio que diz "Amigos amigos, subsídios à parte" ou qualquer coisa parecida.



A findar duas observações: A) este apontamento não pretende visar directamente a funcionária nomeada para o cargo, mas sim o modo como os nossos políticos torneiam a Lei; B) Esta matéria não é secreta de modos fica um aviso ao nosso "James Bond de pacotilha", o inefável espião Silva Carvalho, que escusa de mandar "sms" para Miguel Relvas a par de pedidos de cunhas a informá-lo desta situação e para a Ongoing a troco duns miseráveis milhares de euros mensais.



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Ponto Contra Ponto - É um programa televisivo, concebido e apresentado por José Pacheco Pereira, de curta duração (cerca de 15/20 minutos), apresentado na SIC Notícias e transmitido aos Domingos às 21H30. Apesar de, politicamente, não concordar com diversos pontos de vista que ele defende não deixo de reconhecer, no entanto, que é um intelectual na sua plena soberania, sendo dos que pensa pela sua própria cabeça. Vejo-o como um homem livre, que não se deixa tolher pelas amarras da sua opção ideológica. Uma pessoa que se deve escutar com atenção. Mesmo que não concordemos com os seus pontos de vista. E até por isso mesmo.


Vem isto a propósito do programa "Ponto Contra Ponto" que ele apresenta. Um excelente momento de televisão, bem explicado, bem fundamentado e que eu, sempre que tenho oportunidade, vejo. Um programa que me põe a pensar, que me elucida, e que aborda assuntos interessantes. Este Domingo passado (13/05) por exemplo, o tema foi a actividade da censura no tempo do Estado Novo e de como essa mesma censura é aplicada em regimes democráticos, como nos EUA.


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Guerra na imprensa - Lembro-me, quando eu era miúdo (há mais de quinhentos anos, como o tempo voa) que uma das discussões que havia entre nós era de andarmos a discutir quem tinha o pai mais forte, ou mais rico ou "mais grande". Parvoíces mas que na altura tinha, para nós catraios de meia dúzia de anos, muita importância. Dava estatuto poder impôr que o nosso pai era mais isto ou aquilo que os pais dos nossos companheiros de brincadeiras. 


Nem de propósito: circulou há tempos na "rede" uma anedota em que aproveitando uma campanha publicitária da EDP  em que aparecem miúdos a dizerem que o pai ou a mãe são muito fortes porque constroem barragens, mais isto e aquilo, logo surgiu uma imagem dum miúdo chinês a dizer "o meu pai manda nos pais deles". Elucidativo.


Bem, toda esta lenga-lenga para dizer que cansa-me andar a ler, quer na "Visão" quer na "Sábado", anúncios auto-proclamativos a dizerem "eu vendi mais números esta semana que a outra" ou "neste mês nós batemos o recorde de vendas, segundo os dados da entidade tal", e por aí fora. Já fede. Parem de morderem-se e façam o vosso trabalho: boas reportagens, notícias isentas e bom jornalismo de investigação. É difícil? Se acham que não é... façam-no. Se acham que é... façam-no na mesma. Senão, fechem as portas, porque não servem para esta nobre profissão.


Mas parem de se armarem em campeões de vendas. Não é por uma andar a perorar que vende mais que a outra que leva uma pessoa a escolher esta ou aquela revista. O que eu quero ler são notícias, baseadas na trindade acima enumerada.


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Kalpana Saroj é uma empresária indiana, cuja empresas movimentam milhões de dólares/euros. Nada de especial até aqui. Mas esta mulher é notícia porque a sua origem social é dos  escalões mais baixo da sociedade indiana. Forçada a casar aos doze anos, com dezoito era costureira numa favela, em Bombaim. Conseguindo um pequeno empréstimo estatal, foi reinvestindo o mesmo noutras actividades, aumentando o seu cabedal financeiro até ter comprado uma empresa falida que rentabilizou. Hoje, aos 50 anos,  é multimilionária. (Revista Sábado nº 419).



Kalpana Saroj, no contexto social hindu, é uma "dalit" (intocável, impura), a classe* mais sofredora e desprezada das existentes. Existem apenas no contexto tradicional já que, legalmente, foram abolidas após a proclamação da independência. Mas, lamentavelmente, existem.


Em trinta anos esta mulher passou dum estado de pobreza total para um estado de riqueza total. Contrariamente a nós, enquanto País, que passámos dum estado aproximado da estabilidade financeira para o de indigência total. E, de repente, dei-me a fantasiar: será que não podíamos exportar para a Índia quase toda a nossa classe política, banqueira, empresarial do sector da construção civil  e judicial em troca desta mulher, que viria para nossa Primeira-Ministra? 


De certeza que perdia a Índia, mas nós... não. Infelizmente isto não passou duma fantasia momentânea.  Tinha adormecido no sofá e, quando acordei, estava o Primeiro Ministro (o nosso) a falar, patati patata etc. e tal nham nham nham. Desligei o televisor e voltei a deitar-me no sofá. Afinal, acordados, também temos pesadelos.


* - A corrente religiosa hinduista, refere que a sociedade encontra-se dividida em quatro castas principais, todas originadas de Brhama, o Deus supremo: "Bramânes" (sacerdotes) que vem da cabeça, "Kshatrias" (guerreiros) originários dos braços, "Vayshias" (comerciantes) originários das pernas e "Sudras" (operários, camponeses e artesãos) originados dos pés. Quando Brhama se deslocava levantava poeira e, desta, derivaram os "dalits", que são os impuros, intocáveis, pois não derivam directamente duma das partes do corpo de Brhama e, por isso, são desprezados por todos os outros.


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Leio (DN, 16/05/2012) que a Rainha Sofia de Espanha já não vai assistir às celebrações do sexagésimo aniversário do reinado de Isabel II do Reino Unido, porque existem tensões entre estes dois países por causa da soberania de Gibraltar. O mesmo acontecera em 1981 quando os reis espanhóis não foram ao casamento da Diana e do Carlos, porque estes disseram que iam passar a lua-de-mel em Gibraltar.


Isto realmente é um aborrecimento. Coitados dos reis não poderem andar a passear e irem a festas uns dos outros à conta do erário público, para comerem, beberem e ... sei lá o que mais. Como republicano dos quatro costados e até à medula dos ossos que sou... estou solidário com os monarcas e cheio de pena deles. Então, não?

Bom, mas voltemos à vaca fria. Gibraltar é um calhau (sem olhos), localizado no Mediterrâneo, governado pelo Reino Unido mas que Espanha reinvindica como seu território e, como tal, faz finca-pé desta sua pretensão.

Então, uma pergunta: E Ceuta, que fica no Norte de África e que é governada por Espanha, não é território marroquino?

E outra pergunta: Olivença, não é território português? Ah, mas com Olivença estão os espanhóis descansados. Os políticos portugueses jamais os irão incomodar com tal situação, porque são cobardes e espanholo-dependentes demais para ousarem a tanto. Quase que só falta pedir-lhes desculpa por seremos, na Península Ibérica, (teoricamente) independentes. Até já mexeram no feriado do 1º de Dezembro, onde se comemorava a Restauração da nossa independência contra o domínio espanhol.   

Pela norma da Constituição Olivença, sendo território português, é inalienável; no mapa de Portugal o traçado da fronteira da zona de Olivença está interrompido (deve ser caso único no mundo ocidental) mas os anos vão passando e nada se mexe. Para não incomodar os "nuestros hermanos".

Neste caso eu sou mais radical: acabe-se com esta hipocrisia política e, definitivamente, considere-se Olivença terra esponhola (nem que seja por usucapião), retire-se o artigo da Constituição na proxima revisão e desenhe-se, de vez, o traçado fronteiriço. Que hoje em dia também já não tem razão de existir.



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FOI ESCRITO



Leio, no Expresso de 12/05/2012, uma coluna de opinião demolidora assinada por Ricardo Costa, sob o título "Não há e-mails grátis" do qual transcrevo duas partes:


"...Um grupo empresarial com a mania das grandezas contratou um espião com a mania das grandezas, fechou a norma da decência num cacifo e deitou fora a chave. Juntos acharam que iam conquistar o mundo, munidos de aventais. Quebraram tantas regras em tão pouco tempo que foram apanhados..."  ////// ".... convém lembrar: no dia 23 de Julho de 2011 o Expresso escreveu que Silva Carvalho tinha passado informação à Ongoing antes de ser contratado. No dia 30 de Julho escrevemos que os serviços lhe continuavam a passar informação. O que aconteceu? Nada. Relatórios miseráveis, sindicâncias incompetentes, protecção de superiores e um ámen envergonhado do Governo. E espero que tenham corado com a  acusação." 


Como sempre, Ricardo Costa não  me desiludiu. Fazem falta mais jornalistas deste jaez. Nesta mesma edição o Expresso, mais uma vez, apresenta um excelente resumo esquemático de toda esta trama que envolveu serviços secretos, espionagem comercial/industrial, sexo, maçonaria, cunhas, favorecimentos de empregos, compadrios, incompetência dos serviços de fiscalização parlamentares, etc. e tal. 


Digno duma trama à John Le Carré. Mas para quê comprarmos livros deste autor? Basta viver em Portugal.


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Já a entrevista que Vasco Rato, administrador da Ongoing, dá à Sábado e publicada no nº 420 deste semanário, é o costume. O homem conhecia o "James Bond de pacotilha", almoçou com ele, apresentou-o ao PM, recebeu relatórios dele, patati patata etc. e tal nham nham nham, hoje não gosta dele, está arrependido de o ter apresentado ao PM, patati patata etc. e tal nahm nham nham. Enfim... o costume. São todos inocentes, puros e sãos. Mas agora, neste momento, o "Jorge Silva Carvalho não é um gajo que eu aprecie." (sic) segundo o dito cujo Vasco Rato, neste entrevista.


Comentários... para quê?




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Seja amigo do ambiente. Utilize os textos do Novo Acordo Ortográfico como papel higiénico.



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As referências aos produtos acima referidos (livros, filmes, músicas, etc.) são incompatíveis com intuitos publicitários de carácter comercial. Reflectem, apenas, a opinião do Autor.

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Todas as fotos do presente texto foram colhidas do Google Imagem e os vídeos do Youtube.


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domingo, 13 de maio de 2012

Samuel Baker e Florence Baker

VIAJANTES, AVENTUREIROS E EXPLORADORES

Samuel White Baker - (Londres, 08/06/1821 - Londres, 30/12/1893). Engenheiro, escritor, explorador. Filho de famílias abastadas estava destinado a seguir a profissão do pai, um banqueiro e comerciante do açúcar, mas a sua incapacidade para gerir negócios levou-o a abandonar esta carreira e dedicar-se a outros campos mais a seu contento, no que também foi ajudado pela boa situação económica familiar. Efectua os seus estudos quer em Inglaterra quer na Alemanha, onde se forma em Engenharia Civil (1841). Dois anos mais tarde casa-se e, juntamente com a esposa, desloca-se para as Maurícias, no Oceano Índico, a fim de supervisionar plantações da família.




Samuel Baker


Percorre as Maurícias (1843/1845) e, de seguida, vai para Ceilão (actual Sri Lanka) onde instala uma comunidade agrícola britânica, ficando aí oito anos. O território era propício a uma das grandes paixões da sua vida - a caça - que o leva a escrever dois livros sobre esta actividade cinegética "A arma e o cão de caça em Ceilão" e "Oito anos vagueando no Ceilão". Deste seu casamento nascem sete filhos e a esposa, Henrietta Martin, morre em Ceilão, vitimada por febre tifóide.


Regressa à Europa e, depois de percorrer a Turquia,  ruma para a região balcânica, na zona fronteiriça entre as actuais repúblicas da Roménia e Bulgária e, de seguida, percorre a Ásia Menor em viagem de recreio. Numa dessas viagens de lazer (1858/59), em que acompanhava o Marajá Dullep Singh (que fora dono do lendário diamante Kho-I-Noor) para uma caçada ao longo da zona balcânica, são forçados a parar em Viddin, cidade portuária do Danúbio, na actual Bulgária mas, na altura, dominada pelos turcos, para reparação do barco em que viajavam. Nesta localidade, ao visitá-la, passa por um mercado de escravos, negócio natural, lucrativo e legal e vê, num lote de  humanos vendáveis, uma jovem adolescente, caucasiana e muito loira.



Acaba por a adquirir pelo custo de sete libras. Na altura não se apercebeu que estava a comprar a felicidade. Reza a lenda que a referida jovem estava destinada ao Paxá otomano de Vidin, mas Samuel Baker subornou os guardas e foge com a mesma para Bucareste. Mas isto é apenas lenda romantizada. Ao libertá-la da escravatura dum harém, Samuel Baker prendeu-se, perdendo a sua liberdade. De qualquer modo esta mulher - Florence Finnian von Sass, que se tornará depois Florence Baker, será a companheira excepcional que com ele irá em todas as suas viagens, recusando-se a, como era costume na época, ficar a bom recato em casa, enquanto os maridos partiam para as Índias ou Áfricas.



Juntos viverão a aventura no pleno. Florence von Sass terá sido o melhor "investimento" que Samuel Baker fez na sua vida. E ele retribuirá em amor e respeito. Contrariamente ao espírito  machista da época, Samuel Baker sempre elogiará publicamente a sua mulher, quer por palavras quer por escritos, contrariando a opinião de ilustres membros da sociedade de então, que viam a mulher como um ser inferior.  Com ela partilhará a fome e a opulência, a doença e a alegria, o naufrágio fluvial e a sedenta caminhada ardente no deserto, o prazer da caça grossa  e a ânsia de quase terem sido caçados por negreiros. Só não partilhou com  ela a morte, porque partiu primeiro. Mas também isso não haveria de querer, porque lhe queria muito.


Foi, veridicamente, o casal aventureiro mais romântico que peregrinou pela África dezanoviana. 



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Florence von Sass - (1841? - 1916) - Exploradora. Pouco se sabe sobre a infância e adolescência desta notável mulher húngara ou romena, não se sabe ao certo. Tal como a sua data de nascimento. Em meados do século XIX, quer a zona balcânica quer grande parte da restante Europa, estavam em guerras permanentes. Apenas se apurou que, em pequena, a sua família fora massacrada e Florence von Sass fora salva por ter sido escondida por mão amiga. Desconhece-se como acabou escravizada e colocada à venda pelos turcos. Foi uma história que nunca contou, refugiando-se na amnésia. Talvez a Samuel Baker, mais tarde, ela lhe tivesse relatado tudo mas este também se calou, cavalheirescamente. Tinha tido educação pois falava as línguas alemãs e magiar, era organizada e possuía conhecimentos nas áreas domésticas e de saúde.



Florence Baker




Virá a viver com Samuel Baker a aventura pura e dura dos descobrimentos europeus em terras interiores africanas. Com ele, de quem foi uma fiel companheira, aprenderá muito mas retribuir-lhe-á em igual medida. Para além de amante, companheira, mulher, amiga, conselheira, enfermeira, guarda costas, com ele beberá os cálices de derrotas que ambos sofreram, as doenças mal curadas, das caçadas umas conseguidas outras falhadas, naufragarão em rios, escaparão a setas envenenadas, passarão fome e sede em terras do fim do mundo, serão salvos por caravaneiros esclavagistas, logo ela que escrava fora.


Mas também viverão, noutras alturas, o fausto, o luxo, as cómodas viagens turística e cinegéticas pelo mundo, as recepções em salões da nata das sociedades europeias. Mas, a verdade é que, no melhor e no pior, Florence von Sass jamais virou as costas ao perigo, à morte e ao marido. Nunca o traiu, nunca o abandonou, nunca o atraiçoou. E quando Samuel Baker faleceu, Florence Baker, assumindo luto rigoroso até chegar a sua hora, retirou-se para o mundo e viveu apenas para a sua família, para as suas memórias e para a escrita.



Meio século após a sua morte, descendentes Baker encontraram, no fundo falso duma mala, um diário e diversas cartas escritas por si. Depois de ter sido reestruturada toda a correspondência e textos do diário encontrados, foi editado um livro com o título "Morning Star", que era uma das expressões carinhosas com que Samuel Baker se referia à sua mulher. "Morning Star" é o relato, pela mão de Florence Baker, da sua segunda estadia sudanesa, acompanhando o seu marido quando ele foi nomeado Govvernador daquela região, entre 1870 e 1873.


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O casal Baker - Chegados a Bucareste, e depois de se terem separado do Marajá Dullep Singh, Samuel Baker decide não regressar à Grã-Bretanha. A presença de Florence von Sass começava a entrar na sua intimidade. Depois dum casamento insípido que durara quase década e meia, enviuvara há quatro anos e os filhos nados e sobrevivos do seu casamento estavam entregues ao cuidado duma sua irmã, na Escócia. A sua fortuna pessoal permitia-lhe viver em pleno desafogo e viajar pelo mundo.



Mas, apesar disso, para justificar o seu não regresso a casa, decide aceitar trabalhar como engenheiro supervisor na construção de pontes e ferrovias que se estavam a realizar para ligar o Danúbio ao Mar Negro (1859). Samuel Baker sabia que o código de conduta da mentalidade vitoriana que imperava no seu País não lhe toleraria a vivência não matrimonial que mantinha com uma ex-escrava. Mesmo sendo branca e loira.



Era a época em que os exploradores Richard Burton(*) e John Henning Speck(*) tinham regressado do coração de África e anunciado a descoberta do lago Vitória e em que se debatia se era ou não ali a nascente do rio Nilo. A febre exploratória tornou-se pandémica e muitos foram os britânicos que resolveram partir à aventura, por todo o extenso Império Britânico, galvanizados pelos exemplos destes dois exploradores e doutos contemporâneos, tais como David Livingstone(*).



Findado que foi o seu trabalho ferroviário, Samuel Baker decide, mais uma vez, adiar a sua ida para a pátria britânica. Era um viajante compulsivo, caçador inveterado, amante de emoções fortes e com uma excelente conta bancária. Podia dar-se ao luxo de juntar o luxo à luxúria da aventura. E, qual cereja no topo do bolo, tinha como companheira Florence von Sass, que de dia para dia entrava mais nas noites dos seus desejos. Escreve para a sua irmã, tutora dos seus filhos e diz-lhe: "Querida irmã: no fundo do meu ser palpita um espírito aventureiro que se impõe a tudo o resto. Virá o dia em que apreciarei as cidades mas, de momento, aborrecem-me. A minha agulha magnética leva-me para África Central."



Em Março de 1861 começa a aventura africana do casal, ao decidirem lançarem-se na procura geográfica mais famosa da época: a descoberta das nascentes do rio Nilo, que daria ao seu autor a entrada directa no panteão dos heróis. A imortalidade no meios dos mortais. Não o conseguem mas virão a descobrir o lago Alberto (14 de Março de 1864). Não prescindem do conforto pelo que, na caravana que organizam, transportam roupa de caça elegante, camas de campanha de metal e uma banheira de estanho, por exemplo. Para a caça um notável conjunto de espingardas de precisão e munições em abundância. Tudo do melhor, para viajarem em estilo. 



Partem do Cairo, navegando pelo Nilo até Assuão, altura em que deixam a navegação fluvial e caraveneiam em camelos, atravessando o deserto núbio, uma travessia duríssima de cerca de meia centena de quilómetros, sem um oásis ou um poço de água no percurso. Foi o baptismo aventureiro do casal. Por fim atingem o lugarejo de Sofi, no Sudão, ao terem seguido o curso do rio Atbara e, aí, resolvem montar acampamento-base, depois de terem remetido parte do seu equipamento para Cartum.


Constroem um pequeno casebre, onde irão viver os próximos os seis meses. E, no meio do nada, em terras áridas, ermas e árduas, longínquas de qualquer civilização, o estilo de vida europeu vem ao de cima. No casebre instalam as camas de ferro, a banheira, o toucador onde Florence von Sass exposiciona os seus perfumes e escovas de cabelo. E um armário onde Samuel Baker guarda ciosamente as suas diversas espingardas e pistolas. Durante seis meses vivem românticamente, entre caçadas e explorações geográficas da região. A região era fértil em caça: "Hoje vamos jantar hipopótamo..." dizia ele numa carta às filhas.



Em Junho de 1862 o casal chega a Cartum, no prosseguimento das suas viagens. Nesta cidade Samuel Baker recebe um pedido da Real Sociedade de Geografia de Londres, que lhe requere que se desloque a Gondokoro (1), em busca dos exploradores John Henning Specke e James August Grant(*) que tinham partido de Zanzibar para o lago Vitória e deveriam de subir o Nilo até Cartum, mas dos quais não havia notícias.


Samuel Baker organiza uma expedição numerosa, no que leva seis meses a concretizar tal operação. Cartum era uma cidade fétida e tépida, sem infra-estruturas de nenhuma espécie. Morria-se estupidamente por tudo e por tudo e nada se podia fazer; a lei não existia, salvo a dos mais fortes e os mais fortes eram os negreiros. Era uma cidade triste, infeliz e esclavagista. Florence von Sass odiou sempre aquela cidade, e todas as outras que atravessou, onde imperasse o tráfico esclavagista. Como ela disse, na altura: "Odeio profundamente a simples presença dos esclavagistas; sempre que vejo alguns deles lembro-me dos tempos passados."


Em Dezembro de 1862 o casal Baker, à frente duma expedição numerosa e devidamente apetrechada, partem para uma violenta viagem de 1.500 quilómetros até chegarem a Gondokoro. Se Sofi fora o Paraíso e Cartum o Purgatório, Gondokoro iria ser o Inferno. Navegando pelo Nilo, a viagem atrasa-se devido à intensa vegetação que cobre as águas e enredemoinha-se nos remos. Os pântanos e os mosquitos malarientos conjungam-se. "Aqui tudo é selvagem e brutal, duro e insensível.", dirá mais tarde. Demoram cerca de mês e meio a atingirem Gondokoro, onde chegam a 02 de Fevereiro de 1863 e onde não ainda havia novidades dos dois exploradores Specke e Grant. Deixam-se ficar nesta localidade, que vivia apenas do tráfico do marfim e da escravatura, a recuperarem. Em meados desse mês, no entanto, os exploradores aparecem, estoirados, esfomeados, esfarrapados. Tinham reconfirmado que a nascente do Nilo era o lago Vitória. A chegada dos exploradores é descrita por Samuel Baker assim: "Os meus homens correram loucamente para o meu barco, com o relato que estavam com eles dois homens brancos que tinham vindo do mar. Poderiam ser Specke e Grant? Lá fui eu a correr e conheci-os em pessoa.................... Todos os meus homens estavam completamente loucos de excitação. Ao dispararem tiros de saudação, como sempre com cartuchos de bala, mataram um dos meus burros. Um triste sacrifício como oferenda para a realização desta descoberta geográfica. Specke parecia o mais esgotado dos dois: estava excessivamente magro, mas na realidade estava em boa forma; tinha percorrido a pé todo o caminho desde Zanzibar e não montara a cavalo uma única vez durante a penosa marcha. Grant estava vestido com honrados farrapos, os joelhos nus projectados dos restos de calças que eram uma demonstração dum mau trabalho de alfaiate. Estava com um aspecto cansado e febril, mas ambos os homens tinham uma chama nos olhos que mostrava bem o espírito que os guiara até ali."



Samuel Baker sabe que, no regresso à Grã-Bretanha, aqueles exploradores irão comentar o seu concubinato com Florence von Sass, vivência essa que até ali tinha mantido em segredo. De qualquer modo, ante a desilusão de não terem descoberto as nascentes do Nilo, o casal Baker decide continuar a sua aventura por terras africanas. Tinham recebido informações de Specke e de Grant que haveria um outro lago, cuja localização ainda era desconhecida e provavelmente abastecedor do caudal nilótico.





O casal Baker




Partem de Gondokoro numa noite (Março de 1863), em cáfila e, durante dois anos, passaram o inferno para encontrarem o dito lago. De tudo amargaram, desde terem que pagar preços escandalosamente altos a mercadores para adquirirem géneros, a chefes locais para poderem passar pelas suas regiões, a negreiros para os protegerem de ataques hostis, apanharam paludismo e malária, a maior parte dos animais de carga morreram das picada da mosca do sono, mataram várias vezes a fome comendo ervas, por terem perdido carregadores, devido a deserções ou mortes, tiveram que abandonar material, atravessaram lugarejos infernizados pelos esclavagistas, cruzaram-se com caravanas em que crianças e mulheres iam agrilhoadas aos tombos, pelo peso da fome e dos ferros. A isto Florence von Sass assistia impotente, o que ainda mais a revoltava. Gondokoro e Cartum eram o destino destas caravanas de zombies e o estalo dos chicotes misturava-se com o silêncio ensurdecedor dos escravizados. Eram as marchas dos condenados.
Em princípios de 1864 encontram-se no Reino de Unyoro (actual Uganda) do Rei Kamrasi. O casal estava doente, mal se podiam ter de pé e os medicamentos tinham acabado. A situação torna-se desesperante e Kamrasi começa por lhes extorquir tudo o que pode para lhes conceder autorização de passagem pelo seu reino até que, em determinada altura (Fevereiro de 1864) informa Samuel Baker que pode partir, mas a mulher ficaria com ele. A pele branca e o cabelo louro de Florence von Sass enlouquecia os negros. Não era a primeira vez que tal sucedia. Sempre fora objecto de olhares gulosos de traficantes de escravos, muito mais quando em diversas regiões o casal eram os primeiros brancos a aparecerem e a cor da pele e tipo de cabelo liso e colorido causava sensação aos nativos.


Novamente Samuel Baker relata nas suas memórias: "Pedi então a Kamrasi que nos deixasse partir, pois não podíamos perder uma hora. Da forma mais fria ele replicou: "Mandar-vos-ei para o lago e para Shooa, como prometi, mas tem de deixar a sua mulher comigo." Nesse momento fomos cercados por um grande número de nativos e as minha suspeitas de traição ao ter sido levado para o outro lado do rio Kafoor pareceram confirmadas por esta insolente exigência. Se ia ser o fim da expedição eu decidi que seria também o fim de Kamrasi e, sacando rapidamente do meu revolver, apontei-o a cinquenta centímetros do peito dele e, olhando-o com desprezo indisfarçado, disse-lhe que se tocasse no gatilho nem todos os homens dele poderiam salvá-lo e que se se atrevesse a repetir o insulto o mataria imediatamente. ................ A minha esposa, naturalmente indignada, tinha-se erguido do assento que ocupava e, enlouquecida com a excitação do momento, fez-lhe um pequeno discurso em árabe do qual ele não percebeu uma única palavra....."  Perante a reação do casal, que não estava à espera, e a ameaça da arma de fogo apontada a si, Kamrasi acaba por ceder.


A marcha penosa em direcção ao lago continua. Doentes, sem medicamentos, vagueando por terras nunca percorridas por europeus, bombardeados por mosquitos, atacados por formigas, passando por aldeias miseráveis e abomináveis, a busca do maldito lago era uma pura descida aos Infernos. Na travessia do rio Kafu, um afluente do Nilo, Florence von Sass desmaia e mergulha nas águas, afundando-se. Recuperada do fundo das águas não dá acordo de si, conforme relatará mais tarde o marido: "... estava totalmente insensível, como morta....... Era uma insolação." Durante mais de uma semana Florence von Sass trava uma luta, inconsciente no coma, pela vida. Consegue recuperar e prosseguem a caminhada. Finalmente, a 14 de Março de 1864, o casal Baker vê espraiar-se ante os seus olhos o lago que logo baptizam de Alberto, em homenagem ao consorte da Rainha Vitória. Exploram e estudam o lago, concluindo que o mesmo era atravessado pelo Nilo, a quem fornecia caudal, mas exagerou nos cálculos que efectuou dando importância excessiva à grandeza do mesmo.




Lago Alberto

Na viagem de regresso encontram umas cataratas que baptizam de "Cataratas Murchinson", em homenagem ao Presidente da Real Sociedade de Geografia de Londres. Os barcos em que viajam são apanhados pelos torvelinhos da água e viram-se, causando um naufrágio fluvial onde perdem parte do equipamento e alimentos e de água potável. O costume. Mesmo assim a sorte não foi tão madrasta quanto isso, pois não foram atacados nem por crocodilos nem por hipopótamos. Encontram-se novamente na região do Reino de Unyoro e aí ficam vários meses a descansarem e a recuperarem forças. Em Setembro de 1864 desesperados, por praticamente já nada terem de seu que os pudessem tirar dali, mentalizam-se que vão morrer naquela zona. Só que a sorte sorri-lhes com a chegada duma caravana de negreiros, vindas de Gondokoro, que vinham em sua busca. Regressam agora a Gondokoro, sob protecção dos negreiros, onde chegam em Fevereiro de 1865 e se apercebem que já tinha sido considerados mortos. Rumam para Cartum, que estava assolada por uma epidemia de peste onde finalmente encontram cidadãos britânicos. Vislumbrava-se, para o casal, a civilização. Para trás ficavam dois anos violentos de caminhadas por terras nunca antes pisadas por europeus, a descoberta de um lago africano importante, o curso de alguns rios, o conhecimento de tribos. O vazio geográfico africano ficava um pouco mais preenchido.


Em Outubro desse mesmo ano retornam à Grã-Bretanha, onde Samuel Baker acaba reconhecido como explorador pela Real Sociedade de Geografia de Londres, que o condecora com uma medalha de ouro e também pela sua congénere parisiense. A Florence Baker nada, pois assim mandavam os costumes da época. Aliás, o seu passado esclavagista ostracizavam-na na púdica sociedade vitoriana. O casal formaliza a sua união numa igreja londrina e, a partir daí, o estatuto de Florence agora formalmente Baker, começa a mudar. A moral vitoriana era rígida.


Samuel Baker aproveita a boa-maré londrina e retoma a escrita, publicando livros onde relata as suas viagens europeias e africanas, saindo a prelo, como não podia deixar de ser "O lago Alberto" (1866) e "Explorações das fontes do Nilo" (1866) e "Os afluentes do Nilo na Abissínia" (1867). Acaba feito cavaleiro do Império Britânico, com direito ao título de "Sir" que recebeu das mãos da Rainha Vitória. Por arrastamento Florence Baker torna-se "Lady" mas nem assim a rainha Vitória s digna a recebê-la. Mas a vida decorre pacífica na mansão do casal, em Norfolk, com uma intensa vida social, junto da alta roda social. Os Baker são extremamente populares e cultivam a arte do bem receber e conviver.




Aquando da inauguração do canal de Suez (2), no Egipto, o Príncipe de Gales requereu a companhia de Samuel Baker nessa sua deslocação, de quem se travara de boa amizade. No Cairo Samuel Baker trava conhecimentos com o Quediva (3) Ismail Pashá (4), governante supremo daquele território. O governante turco, que conhecia o passado africanista de Samuel Baker, convida-o a organizar e comandar uma expedição militar ao sul do Sudão, uma terra de ninguém, a fim de integrar o mesmo sob a esfera do domínio otomano.  



Samuel Baker aceita com condições muito vantajosas para a sua posição social e financeira. O mercenarismo do explorador, celebrado em contrato por quatro anos, torna-o detentor do posto de General do Exército otomano, dum salário que rondaria o global de 150.000 libras pelo total da comissão e sendo ainda nomeado Paxá (5) do território que viesse a conquistar. Regressa a Londres a preparar esta nova aventura e a buscar Florence Baker, que mais uma vez o acompanhará noutra descida aos infernos e a preparar a expedição que terá, entre outros objectivos, reprimir a escravatura e abrir novos caminhos interiores à livre circulação de mercadorias, para além do conhecimento científico dos aspectos geográficos dessas regiões inóspitas.



Em princípios de Fevereiro de 1870 o casal Baker, liderando uma expedição militar de cerca de dois mil homens e com dois navios  a vapor, parte de Cartum em direcção a Gondokoro, descendo o Nilo Branco. Mas, de novo, a viagem será um tormento. A navegabilidade do Nilo é dificultada quer pelas toneladas de plantas marinhas que derivam à tona quer pelos rápidos que encontram e que tornam a marcha lenta. As insolações provocadas pelo calor abrasivo e as doenças disseminadas principalmente pelas nuvens de milhentos de mosquitos encarregam-se de minar o moral das tropas. Montando acampamentos ao longo desta descida fluvial, onde estaciona por largos períodos, Samuel Baker vai dando caça aos esclavagistas, capturando-lhes os barcos. Demora um ano  a chegar a finalmente Gondokoro  mas é rápido no granjeamento de inimigos. Os milhares de empresários de carne humana não iriam tolerar que um estranho, ainda por estrangeiro branco e que nem sequer professava a sua religião, lhes fosse cortar com um secular negócio tão rentável. A empresa utópica de Samuel Baker, como "condottieri" do megalómano Quediva Ismail Pashá, estava condenada ao fracasso. 






Paxá Samuel Baker


Chegam a Gondokoro em 19/05/1870 e Samuel Baker, impante e fardado de Paxá, renomeia a cidade de Ismaília (em homenagem ao Quediva), hasteia a bandeira turca e anexa, no papel, toda aquela região (indefinida) para o Império otomano, dando à mesma o nome de Equatória. Pouco mais fez do que isto. Sitiado na cidade, pois os traficantes não o deixavam praticamente sair dos limites da mesma, bastas vezes atacado por tribos locais que usavam flechas envenenadas, com as suas tropas a desertar, por mal pagas e sem motivação e por aliciadas pelos traficantes, mesmo assim os Baker resolvem fazer uma surtida para sul (actual território ugandês)  a fim de anexarem território para Equatória. 


Em meados de Janeiro de 1872 vão até ao Reino de Unyoro (onde já tinham estado e o Rei Kamrasi quisera ficar com Florence Baker) sendo agora o seu filho, de nome Kabarega quem reinava. Pelo caminho vão-se cruzando com caravanas negreiras, uma chaga constante. Em Março seguinte atingem Masindi, capital de Unyoro e Samuel Baker ordena a construção duma casa governamental perto da casa do Rei Kabarega e anexa todo o Reino como parte integrante da Província de Equatória. Só que Kabarega não se dispõe a entregar o seu Reino e o seu trono aos interesses estrangeiros sem luta e, assim, em Junho deste mesmo ano trava-se a batalha de Masindi, onde as forças otomanas de Samuel Baker acabam derrotadas, sendo todos obrigados a fazerem uma retirada humilhante. Florence Baker relatará mais tarde: "... faltam-me palavras para te contar a nossa marcha esgotante. Posso apenas dizer-te que nos armavam emboscadas em toda a parte. Tivemos de lutar durante sete dias neste país pavoroso onde era praticamente impossível vislumbrarmos o inimigo enquanto uma chuva de lanças caía à nossa frente." A retirada é um inferno em toda a linha, com ataques guerrilhentos permanentes que semeiam a morte entre as forças de Baker e as correspondentes deserções. A fome e a doença ajudam ao desespero. A morte de animais de carga obriga ao abandono de material e de comida. Os caminhos, infestados de pântanos, dificultam a marcha. Foram sete dias de puro e duro desespero. "Tinha os pés totalmente em chaga de tanto andar, dado que por vezes tínhamos que percorrer quase vinte e cinco quilómetros de terrenos pantanosos com meio metro ou um metro de profundidade." como relatará mais tarde Florence Baker. Conseguem, apesar de tudo, aguentarem-se milagrosamente e atingem Fatiko, perto do lago Vitória, onde reinava Rionga, um rival de Kabarega, que lhes dá asilo. Aqui finalmente terão seis meses de paraíso idílico. Samuel Baker apressa-se a passar a batata quente para Rionga, nomeando-o representante do Egipto e Governador de Bunyoro, puro acto formal que não passará do papel.



Em princípios de Janeiro de 1873 abandonam este paraíso terrestre, regressando a Ismaília. Em meados deste mesmo ano vão para o Cairo, onde Samuel Baker deturpa os factos e relata uma governação sua vitoriosa, principalmente no tocante à repressão dos esclavagistas. Nada de mais falso. Ao ritmo secularmente lento, as caravanas negreiras continuavam na longínqua Equatória, ao som compassado do chicote nas costados dos escravos agrilhoados. Depois da muito, mas muito, ligeira pedrada no charco  traficante que provocou um parco ondular de águas, estas voltaram ao seu remanso de sempre. O estrangeiro branco infiel e a sua mulher tinham sido derrotados. Como outros brancos que viriam a seguir.

Como até aos dias de hoje, infelizmente.


 Regressam à Grã-Bretanha, onde tinham sido dado como mortos. Recebidos como heróis, até ao fim dos seus dias, Samuel Baker escreve e dá conferências, sendo um membro respeitado na sociedade britânica. O casal efectua diversas viagens por todo o mundo, em lazer ou em caça, vivendo prazenteira e burguêsmente os seus últimos de vida juntos.



Quando Samuel Baker morre, Florence Baker reclusa-se na mansão do casal, em Sandford Orleigh e vive para a família e para as memórias. Como ela sempre disse "Devo tudo a Sam".


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(*) - Já biografado.
(1) - Gondokoro localizava-se perto da actual Juba.
(2) - Canal com uma extensão total de 165 quilómetros e que liga os mares Mediterrâneo e Vermelho. Deste modo encurta a distância nas ligações marítimas entre a Europa e a Ásia, evitando a rota do Cabo, pelo sul do continente africano. O Canal foi construído na década que mediou entre 1859/69; construção essa liderada pela empresa de Ferdinand de Lesseps (1804/1894) e que também esteve na génese da construção do Canal do Panamá, na América Central, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico. No acto da inauguração do mesmo, ocorrida em 17/11/1869, estiveram presentes inúmeras personalidades europeias, dos vários quadrantes políticos, sociais e profissionais. Entre eles encontrava-se o escritor português Eça de Queiroz. A exploração comercial do Canal esteve sempre nas mãos europeias, até o mesmo ter sido nacionalizado (26/07/1956) por Gamal Abdel Nasser (1918/1970) então Presidente egípcio.
(3) - Quediva - Título do império otomano e que correspondia, nos moldes europeus, ao de Vice-Rei.
(4) - Ismail Pashá, o "Magnífico" - (Cairo, 31/12/1830 - Constantinopla, 02/03/1895). Governou, como Quediva do Império Otomano, o Egipto e o Sudão entre 1863 e 1879. Dotado de uma visão avançada para a época, sonhava tirar o Sudão e o Egipto do atraso em que viviam, investindo fortemente na indústria, na cultura e nas vias ferroviárias. Combateu a escravatura e a sua ânsia de se expandir para a Etiópia levou-o a entrar em guerra com este País, acabando derrotado. Apoiou a construção do Canal de Suez e viajou pelas principais cortes europeias. A derrocada financeira a que levou aos cofres públicos  foi a causa da sua queda.
5) - Paxá - Título do império otomano e que correspondia, nos moldes europeus, a governador.


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Leituras: Sobre as memórias de Florence Baker não conheço nenhuma tradução em língua portuguesa. Existem, a título exemplificativo, diversas edições em língua inglesa, tal como: A) "Morning Star: Florence Bakers´diary of the expedition to put down the slave trade on the Nile (1870/1873)", editado por William Kimber, em Londres, 1972.; B) "Morning Star: the life of Florence Baker, wife of the explorer Sir Samuel Baker", que é uma biografia histórica da autoria da escritora britânica Anne Baker (Londres, 1972).


Sobre os vários livros escritos por Samuel Baker, alguns do quais já acima referidos, também não conheço nenhuma edição em língua portuguesa, encontrando-se à venda edições francesas e inglesas.

Fontes de pesquisa: A) O lago Alberto - Samuel Baker; B) Memórias de África - Cristina Morató; C) O livro dos viajantes - Eric Newby; D) Diversos sítios do Google. 


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HISTORIANDO MOÇAMBIQUE COLONIAL





Nota: Todos os textos do "Historiando Moçambique Colonial" encontram-se registados e protegidos pelos direitos de autor e propriedade intelectual, em todos os países. A sua reprodução será autorizada, gratuitamente, desde que pedida e informado qual o destino a darem à mesma, carecendo sempre da autorização expressa do Autor.  


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Lourenço Marques (cidade) - A descoberta e colonização de Lourenço Marques (actual Maputo) foi extremamente atribulada, reflexo directo do tipo de colonização implementada pelos portugueses, sempre feita aos solavancos.


Não se sabe ao certo quem terá descoberto a baía de Lourenço Marques, inicialmente conhecida por Delagoa, Alagoa, Lagoa Bay ou Baía da Boa Morte. Admite-se, como sendo historicamente provável, que tenha sido o navegador Diogo Dias(*), irmão de Bartolomeu Dias, o qual comandava um navio integrado na Armada de Pedro Álvares Cabral, na segunda viagem marítima que os portugueses fizeram à Índia. Essa Armada, que saiu de Lisboa a 09 de Março de 1500, rumo à Índia, ficou na História dos Descobrimentos por ter sido a que chegou ao Brasil, pela primeira vez, a 22 de Abril desse mesmo ano. De seguida rumaram para o Cabo da Boa Esperança e, apanhados em temporal, quatro navios separaram-se da Armada, sendo um deles precisamente o de Diogo Dias que, desgarrado, ruma à aventura, por Madagáscar que descobre em dia do santo católico São Lourenço, razão porque baptiza com este nome a ilha-continente e tendo, talvez, chegado à baía da Lagoa. De qualquer modo é ponto assente que, em 1502, os cartógrafos já conheciam a baía e os rios que aí desaguam, pois os mesmos aparecem no planisfério que Alberto Cantino (1).




Planisfério de Alberto Cantino



Não havendo dúvidas de que foram os portugueses os primeiros descobridores admite-se, assim, que tenha sido Diogo Dias o seu descobridor histórico. No entanto, na Carreira da Índia(*), a baía  da Lagoa não era ponto de varagem das naus, já que estas tinham optado por Sofala(*) e ilha de Moçambique(*), pelo que  a baía sulista ficou ao abandono, sem qualquer interesse para os portugueses, que só lá iam para resgatarem náufragos ou a comerciarem.


Em 1544 as autoridades portuguesas enviaram, para aquela zona, o explorador Lourenço Marques(*), a fim de sondar a área, reconhecê-la com mais pormenor, verificar as intromissões estrangeiras e pesquisar marfim(*) ou qualquer outro produto que fosse economicamente rentável. Lourenço Marques cumpriu a sua missão, que terá mediado entre Setembro de 1544 a Abril de 1545, explorando a actual baía de Maputo e o rio Limpopo. Assim, pode-se considerar este homem como o descobridor político e económico da zona sendo, em sua homenagem, que as autoridades portuguesas, mais tarde, baptizaram a baía com o seu nome, por decisão régia de Dom João III, e que ali mandou instalar um entreposto comercial, por se ter constatado que aquela área era rica em marfim, artigo de bastante procura.


Antes de 1552 enviou-se nova expedição sondatória, tendo o comando da mesma sido entregue a António Caldeira(*). Desde essa data até ao início do século VIII os portugueses mantêm uma carreira irregular entre a baía de Lourenço Marques e a ilha de Moçambique, a negociar com as gentes locais mas nunca se fixando na área. Navios doutros países também demandavam aquela zona, a negociarem e a estabelecerem feitorias*, o que veio a provocar atritos com os portugueses, tal como, por exemplo, em 1598, em que um navio português, comandado por Jerónimo Leitão(*), arrasou um fortim inglês que encontrou. Os portugueses adquiriam marfim, âmbar(*), escravos, mel, cornos e unhas de rinocerontes e cera, deixando, em troca, panos(**), missangas(*) e álcool.




Marfim

Em Outubro de 1698, o navio "Noord", de nacionalidade holandesa, cartografou a baía e, em Abril de 1721, os holandeses do Cabo (actual Cidade do Cabo, na África do Sul), comandados por Guilherme von Taak, montam uma feitoria - "Forte Lagoa" - que teve uma experiência efémera de um ano, abandonando-a depois de um ataque de forças piratas britânicas.


Novamente, em 1725, os holandeses do Cabo montam outra feitoria a que dão o nome de "Forte Lijdsaamheijd", capitaneada por Jan van Capelle, face ao total abandono com que os portugueses tinham votado aquela zona, tendo por lá ficado até finais de 1730, altura em que se retiram para o Cabo, vencidos pelas doenças, guerras com gentios locais e negócios mal parados.


O total abandono que, quer o Governo da Índia quer a Capitania-Geral de Moçambique (2), votavam à baía de Lourenço Marques só é quebrado em 1755, ano em que, após várias insistências de Lisboa, é enviado um navio de reconhecimento, ordenado pelo Capitão-General (ou Capitão-Geral) Francisco Melo e Castro que, segundo referia nos seus relatórios, apenas conhecia a baía por tradição: "... nada sei de tal porto, apenas o conheço por tradição, pois há muitos anos que para lá não navegam portugueses." Voltam, de novo, em 1763, onde encontram vários navios estrangeiros a comerciarem com os nativos.


Em 1777, o aventureiro inglês Guilherme William Bolts, monta uma feitoria sob bandeira austríaca, que teve vida até 1781, altura em que os portugueses lhe puseram fim, através duma acção armada. Nesse mesmo ano o Tenente-Coronel Godinho de Mira, colocado na Índia, recebe a incumbência de desalojar os estrangeiros que se encontravam na baía de Lourenço Marques pelo que, comandando uma força de três navios, cumpre tal determinação. No relatório de sua lavra, que apresenta ao Vice-Rei da Índia, pode ler-se sobre estes factos: "... em 30 do mesmo (Março) entrei no rio do Espírito Santo, tendo com muito trabalho de sonda passado felizmente por entre os muitos baixos de que a baía de Lourenço Marques é cheia. Dentro daquele rio estavam ancorados três embarcações de gávea: um com bandeira portuguesa e passaporte passado pelo Governador de Damão, José de Oliveira Leitão, outra com bandeira inglesa cujos proprietários da primeira são de Surate e de Bombaím os da segunda, finalmente a terceira embarcação, que era uma pala de mastro e meio, tinha bandeira imperial, pertencente à Companhia de Trieste, entre esta e uma bateria de treze peças que estava em terra com a mesma bandeira imperial fui ancorar. Apenas surto dispus a minha tropa para executar as determinações de V.Exa., participadas na minha Instrução, e mandando parte dela com os seus competentes oficiais tomar posse da pala imperial que estava ancorada, prevenida para qualquer resistência que se lhe fizesse e com ordem de não fazer a menor hostilidade, isto mesmo foi executado, e a pala entrada sem a menor resistência nem ofensa, deixei ficar a bordo para a comandar o capitão-tenente Francisco Lobo da Gama com uma competente guarnição; e eu com alguma tropa me encaminhei para a bateria da terra que entrei sem resistência. Mandei logo arriar a bandeira imperial e, no dia seguinte 1 de Abril, pela manhã içar a bandeira portuguesa salvando-a com vinte e um tiros de peça, a esta salva respondeu a fragata com o mesmo número; imediatamente mandei tocar a faxina, desmontar e conduzir a artilharia para bordo da fragata, demolir a bateria, mandando logo os dois tenentes do mar Cândido José Mourão Garcez Palha e Cristóvão da Costa Athaíde a bordo das outras duas embarcações que ali se achavam..."


Sé em 1781 é que um governante português lança as bases da fundação de Lourenço Marques, criando o presídio (3) com o mesmo nome, em definitivo. De seu nome Vicente Caetano da Maia e Vasconcelos pode-se considerar o fundador administrativo da actual cidade de Maputo, na senda de Diogo Dias e de Lourenço Marques. No entanto, novas atribulações ainda esperavam o Presídio. Em 1782, por ordem de Vicente Cetano da Maia e Vasconcelos zarpou, da ilha de Moçambique, o "Santíssima Trindade", com sessenta homens a bordo, comandados por Joaquim de Araújo, nomeado primeiro Capitão-Mor e Governador de Lourenço Marques, tendo sido estes os verdadeiros fundadores do que é, hoje, Maputo. Tinham, por missão, estabelecerem-se parte na Inhaca e parte no continente, onde hasteariam a Bandeira Real para que os navios estrangeiros tomassem conhecimento da soberania portuguesa, fornecer-lhes hospitalidade mas interditar-lhes, por completo, o comércio conforme rezava o regimento assinado, em 25 de Novembro de 1781, por Vicente Caetano da Maia e Vasconcelos ao primeiro governador do Presídio de Lourenço Marques, Joaquim de Araújo: "Tendo a Rainha Nossa Senhora mostrado eficazmente pelas ordens dirigidas ao governador da Índia, e este ao d´este estado, quanto é da sua real intenção estabelecer o comércio desta capital para o Cabo das Correntes e baía de Lourenço Marques, me determinei nomear Vossa Mercê, em o real nome da Rainha Nossa Senhora, por capitão-mor e governador daquela baía e seus adjacentes para efeito de restabelecer ali uma feitoria e casa forte, e formar aquelas mesmas defesas que os austríacos tinham feito, conformando-se com a instrução que o governador da Índia mandou a este governo neste presente ano e juntamente para regular o comércio de forma que possa ser útil à Coroa de Sua Majestade, para o que Vossa Mercê executará o que nestes capítulos lhe ordeno e são os seguintes: PRIMEIRO: que Vossa Mercê em chegando à ilha da Inhaca dará fundo no seu surgidouro, e mandará a terra o capitão Belchior, ou outro qualquer que seja hábil, escoltado da gente que lhe for necessária, e mandará chamar o régulo que for daquela ilha e lhe dirá da minha parte: que sabendo eu que aquele porto era só dos portugueses, como ele e os seus também sabiam, e que como vassalos da Rainha de Portugal era preciso mantê-los e defendê-los de outras nações que, ambiciosas dos géneros (4) daquele País (5) quererão apossar-se daquelas terras contra a vontade de Sua Senhora, que é a Rainha de Portugal, para depois os tratarem com tiranias e roubos próprios de quem vai buscar o que não é seu, eu determinei ali mandar fazer outra casa e que estivessem portugueses com fato (6) para fazerem aquele comércio que até ali estavam fazendo aquelas outras embarcações, ara o que eu lhe mandava um saguate (*) em sinal de amizade que queria conservar com aqueles povos; que eu lhe prometia de mandar todos os anos fazendas para eles contratarem e se vestirem. E Vossa Mercê deixará ali trinta homens com o capitão Belchior e o alferes Francisco Mourão, com tudo o que for preciso para a construção da dita casa forte e acomodação dos soldados, estabelecimento este para o que Vossa Mercê deve aplicar todas as suas forças. SEGUNDO: Que depois que Vossa Mercê chegar ao canal onde se costuma dar fundo, que é onde os austríacos tinham uma bateria, mandará chamar o rei Capela, e matola, e todos os demais régulos da praia e lhes dirá a mesma arenga do primeiro capítulo, fazendo por agradar muito a estes régulos, não consentindo, debaixo de graves penas, que nenhuma pessoa que estiver debaixo do seu comando faça violência alguma a estes negros, salvo se eles quiserem roubar ou insultar os portugueses, porque nesse caso é a defesa natural. Depois de sagoatear os régulos da minha parte com os saguates indicados na relação junta, estabelecerão com eles que o marfim e mais géneros daquele país devem vir à praia ou a bordo enquanto não se estabelece alguma pequena povoação junto à bateria e bandeira que Vossa Mercê logo deve arvorar e pôr todo o cuidado para que as mais nações vejam a posse que nós temos com justo título. TERCEIRO: Far-se-á uma faxina para postar as peças de artilharia que lhe parecer, no mesmo sítio onde estava a outra, por me parecer lugar mais próprio, defendendo esta com uma estacada, porém tudo em situação onde haja água e aquelas comodidades que se fazem precisas na terra firme, e de bordo da embarcação donde se não deve tirar nada sem tudo estar pactuado, a fim de que tudo se faça com sossego. QUARTO: No caso de que àquele porto vão algumas nações estrangeiras fazer mantimento, Vossa Mercê lhe dará toda a hospitalidade, proibindo exactissimamente que façam negócio algum naquele porto; e no caso que alguma embarcação de maior força lhe queira fazer algum insulto e desobedecer à ordem que a respeito do nosso domínio lhe intimar, Vossa Mercê lhe fará um protesto por escrito, com o seu escrivão e algumas pessoas, e lho remeterá dizendo que de tudo fará parte ao seu governador do estado, para o representar à corte de Portugal; mostrando-se Vossa Mercê sempre com um ar dominante, favorecido das ordens que eu lhe tenho dado. QUINTO:  No caso que a esse porto chegue Guilherme Bolts, Vossa Mercê lhe dirá da minha parte e em nome da Rainha Nossa Senhora, que ele deve despejar aquele porto com toda a breviedade, e do contrário protesta pelo atentado que comete contra o direito dos limites; e de tudo isto fará Vossa Mercê um auto com testemunhas, e não entrará de forma nenhuma em práticas supérfulas com o dito Bolts, mostrando o desagrado com que ali o vê, e impedirá qualquer acção que ele queira fazer contra a nossa propriedade, até onde chegarem as nossas forças, regulando todos estes movimentos pelos termos mais prudentes e seguros que lhe seja possível; e isto se deve entender com toda a nação estrangeira. SEXTO: Depois de estabelecida a amizade com os cafres, formalizará Vossa Mercê o negócio de forma que a arroba de marfim grosso não passe de quarenta panos, e o meão, miúdo, cera, ponta de abada*, dente de cavalo marinho à sua proporção; de sorte que nunca os cafres fiquem enganados, e que conheçam que não queremos senão igualdade no negócio; e no caso que Vossa Mercê veja que esses cafres estão com outros costumes, executará o que lhe for insinuado pela sociedade que está formalizada para esse porto a respeito do comércio, considerando a utilidade para os mercadores desta praça e direitos de Sua Majestade. SÉTIMO: No caso de que dos portos do norte venha alguma embarcação a comerciar, de forma nenhuma Vossa Mercê o consentirá, e fará vir a esta capital (7) pagar os seus direitos a Sua Majestade, por já ter mandado dizer o governador da Índia que não mandasse navio para aquele porto com fazendas, por estar o comércio dependente de uma sociedade desta capital; e no caso que a sociedade necessite de alguma fazenda a poderá comprar, fazendo Vossa Mercê pagar os direitos, os quais remeterá a esta alfândega. OITAVO: De todos os soldos dos oficiais, soldados e marinheiros Vossa Mercê mandará fazer folha, para que a sociedade contribua com o fato (8) sorteado para pagamento de toda a guarnição e tripulação, que a fazenda real levará em conta pelo preço desta capital. NONO: Todas as fazendas e munições de boca e guerra estarão no paiol, o qual terá três chaves, uma na mão do governador, outra na mão do escrivão e outra na mão do mestre de embarcação. Nada se poderá retirar sem a decorrência das três chaves, cujos claviculários ficarão responsáveis pelas suas faltas. DÉCIMO: Não se gastará pólvora alguma com salvas, e só nos anos da Rainha Nossa Senhora se dará uma salva com as peças de quatro, conforme a necessidade que houver dela, preferindo a utilidade comum a este material. Se algum navio entrar no porto e salvar à Bandeira Real o receberão com três tiros de bateria, debaixo da mesma condição acima referida. DÉCIMO PRIMEIRO: Mandará Vossa Mercê ao comandante da tropa que arranje os soldados na melhor forma que convier, para assim passarem melhor; e não consentirá que os soldados e oficiais inferiores andem dispersos na terra firme, e quando forem comprar alguns víveres vão sempre municiados e debaixo de comando de oficial inferior muito prudente, com recomendação de não fazerem nenhuma desordem. DÉCIMO SEGUNDO: Vossa Mercê todas as ocasiões que tiver mandará mapa da tropa e dos marinheiros, com as alterações que houver tido, a fim de eu poder saber a necessidade de gente que aí houver; como também mandará tirar a planta dessa baía pelo capitão Belchior, a mais exacta que puder ser. DÉCIMO TERCEIRO: Todas as vezes que houver algum acontecimento que não esteja estabelecido por lei ou regimento, Vossa Mercê convocará para a sua decisão todos os oficiais de trope e do navio, e decidirão o que melhor convier, seguindo a pluralidade de votos e fazendo de tudo termo pelo escrivão, assinado por todos. DÉCIMO QUARTO: Como conheço a grande experiência que Vossa Mercê tem dos cafres, e a capacidade e prudência de que Vossa Mercê se orna, espero, que tudo aqui que se omitir, Vossa Mercê com o seu discernimento remedeie ou acautele como melhor lhe parecer justo, enquanto me dá parte. /// Ilha de Moçambique, 25 de Novembro de 1781 - Vicente Caetano da Maia e Vasconcelos."


Em Abril de 1782 a Bandeira Real é hasteada nascendo, assim, o Presídio de Lourenço Marques, que se instala na margem esquerda do rio Espírito Santo, sob a invocação protectora de Nossa Senhora da Conceição, construindo-se um pequeno fortim em madeira enfaixada e barro, génese do forte de Nossa Senhora da Conceição(**). Em 1783 o Presídio é abandonado e recuperado no ano seguinte. Em 1786 o mesmo encontra-se num estado miserável e, dez anos depois, os franceses ocupam-no militarmente, pondo-se os portugueses em fuga. E só em 1799, numa expedição comandada pelo Tenente Luís José, é que os portugueses vão recuperar, em definitivo, Lourenço Marques, expedição esta que já vinha sendo adiada desde 1797 por falta de verbas.


No início do século XIX os portugueses instalam-se em Lourenço Marques, não mais a abandonando até 25 de Junho de 1975, data da independência deste território. No decurso deste século XIX o burgo mantém-se um pequeno povoado, não ultrapassando a centena o número de europeus, por volta de 1875. Meio século antes (1825) apenas existia uma casa de madeira para além do presídio militar. No ano seguinte instalam-se no povoado os primeiros colonos, compostos por dois feitores, três casais e quatro degredados, a soldo da Companhia Comercial de Lourenço Marques e Inhambane, que tinha sido fundada em Lisboa, colonos esses que se instalaram na actual baixa citadina, junto ao mar, pois um imenso pântano isolava os moradores da Maxaquene.


Em 1825 segue um ofício para o Ministro da Marinha e Ultramar, com uma proposta para se mudar de localidade, a fim de fugir às emanações pútridas do pântano que a circundava, referindo o mesmo: "os habitantes desejam ansiosamente verem-se livres dum local que só coopera a apoucar-lhes a sua existência." Tal pretensão não teve seguimento ministerial e, em 1829, chegam mais sete colonos que se instalaram em palhotas. Em 1836 o Major Custódio José António Teixeira informa que em Lourenço Marques "... as casas... estão construídas sobre areia solta e a sua construção é de estacas enterradas na areia, enlaçadas com caniço, barradas e caiadas." Só em 1843 é que Lourenço Marques recebeu, pela primeira vez, um Governador-Geral, de seu nome Rodrigo Luciano de Abreu Lima. Nesta altura o povoado contava apenas com dezanove casas de madeira para além duma centena de palhotas. O Governador relatou que o povoado era: "...inferior a qualquer aldeia de pescadores, não havendo nem prego nem tábua, nem quem dela faça uso."






Rodrigo Luciano de Abreu Lima




Esta miserabilidade habitacional é confirmada dois anos depois, pelo Juíz Visconde de Arriaga, que relatou: "Os moradores viviam em casas térreas cobertas de palha e a mesma miséria acompanhava a força pública, que sendo organizada com degredados e pretos, ignorando uns e outros a profissão de armas, representava um desgraçado papel que era a nossa vergonha aos olhos dos estrangeiros quando, por acaso, ali passavam." Não havia em Lourenço Marques nenhuma escola, igreja de qualquer culto ou hospital. Os despachos alfandegários faziam-se debaixo duma árvore, junto à fortaleza e, de novo, o Visconde de Arriaga relata: "Tal era o estado em que encontrei Lourenço Marques em 1845, quando Juíz de Direito em Moçambique e, em 1851, quando fui Governador-Geral, achava-se nas mesmas circunstâncias."


A 25 de Agosto de 1843 forças conjuntas dos régulos da Magaia e da Moamba atacam Lourenço Marques, mas são rechaçadas, acabando por se refugiarem na ilha de Bangalane. Os portugueses contra-atacam-nos aí mas, tendo-se virado uma lancha que causou a morte dum oficial, três praças e alguns nativos de forças de segunda linha, acabam por desistir e recuam. A situação deplorável a que se encontrava o Presídio e a indisciplina das forças que o guarneciam, assente na base de degredados, era tal que, em Agosto de 1850, o Governador local, Capitão Joaquim Carlos de Andrade, foi preso pelos seus próprios Soldados, quando andava no interior do sertão com emissários bóeres a mostrar os limites territoriais, por os Soldados o acusarem de os obrigarem a carregar os seus próprios pesados fardos de trato (9), com que andava a comerciar do seu próprio negócio. Preso e algemado foi conduzido de novo pelos revoltosos ao Presídio. Entre Março e Junho de 1868 o Presídio vive momentos angustiantes, fruto de ataques sucessivos que sofre por parte das forças do Régulo Amule, o qual beneficiava de apoios no interior do povoado a pontos de, a 05 de Maio, ter sido declarado estado de sítio. Uma guarnição militar enviada da ilha de Moçambique para socorrer os defensores laurentinos naufraga, a sul de Inhambane (*) quando seguiam a bordo do brigue "Nossa Senhora da Conceição" (28 de Maio de 1868), ficando os sobreviventes aprisionados às ordens de Muzila (**), que só viria a soltá-los mediante pagamento de resgate. A 16 de Junho desse mesmo ano o Governador local, Capitão Sá e Simas, efectua um contra-ataque inesperado e  consegue levar de vencida as forças do Régulo rebelde, que acaba morto. 



Em 1868 Augusto de Castilho (**) descrevia Lourenço Marques como: "... uma aldeia de cafres com algumas casas caiadas, muitos pretos nus, um ou outro habitante branco, degredado ou não, macilento e enfraquecido pelas febres ......... A pequena povoação é composta por duas irregulares ruas paralelas cortadas por várias travessas e em que as casas de alvenaria eram poucas a ainda assim cobertas de palha ...........e palhotas redondas da mais primitiva construção." 



A 05 de Abril de 1870 novamente Sá e Simas, que governou o Presídio laurentino entre 1867 e 1873, envolve-se em combate com forças inglesas que se encontravam instaladas na ilha da Inhaca, derrotando-as. Mas, nesta década de setenta, Lourenço Marques já apresentava cinquenta e seis casas de pedra e cal. A partir de 1875 o povoado sofre um grande impulso, pois a descoberta de diamantes e ouro no Transval, tornam a sua posição geográfica muito importante, devido ao porto. A 24 de Julho de 1875, em arbitragem internacional, que opunha os interesses britânicos aos lusitanos sobre a posse daquela área, o Presidente francês Mac-Mahon (**) reconhece a soberania portuguesa na "questão da baía de Lourenço Marques" (**) e, no ano seguinte, pelo Decreto de 19 de Dezembro de 1876, publicado no Boletim Oficial nº 10 de 05 de Março de 1877, é elevada à categoria de vila, rezando o diploma o seguinte: "Atendendo a que a povoação de Lourenço Marques, na Província de Moçambique, se tem tornado ultimamente muito importante pelo progressivo aumento da sua população e pelo desenvolvimento do comércio, hei por bem ordenar que a referida povoação seja elevada à categoria de vila, com a denominação de Vila de Lourenço Marques, ficando por esta minha mercê obrigada a respectiva Câmara Municipal a tirar carta, pagos previamente os respectivos direitos. O Ministro e o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Interino da Marinha e Ultramar, assim o tenham entendido e façam executar." Assim, foi criada uma Comissão Municipal que realizou a sua primeira sessão em 27 de Agosto de 1877, constituída por Augusto de Castilho, Pedro Andrade Oliveira e Joaquim Tomás da Fonseca e, a 18 de Novembro do ano seguinte, elegeram-se pela primeira vez, os vereadores da  Câmara Municipal, os quais tomaram posse a 02 de Janeiro de 1879.


Em 1876 encontrava-se em Lourenço Marques o Engenheiro Richard Thomas Hall, encarregado pelo Presidente bóer Burguers, de estudar o traçado duma linha férrea que ligasse o Transval à vila laurentina. A ele se deve o primeiro e mais completo estudo de drenagem do pântano que asfixiava o desenvolvimento da localidade, propondo a abertura dum canal de enxugamento do mesmo, o qual também contemplava a edificação das bases da futura cidade, que ampliava o seu raio de acção para o topo da colina após o referido saneamento. Ainda neste mesmo ano de 1876 é criada a Comarca Judicial de Lourenço Marques, a 30 de Novembro, tendo sido Eduardo Alfredo Braga de Oliveira o primeiro Juíz, nomeado a 25 de Janeiro de 1877 e instalação do Tribunal em Setembro desse ano.




Lourenço Marques, finais do século XIX





No ano de 1877 contabilizavam-se, em Lourenço Marques, 31 casas com terraço, 27 cobertas de  zinco e 50 com cobertura de telha. Não tinha iluminação pública nem esgotos e as ruas não tinham nome. A 07 de Março deste ano desembarca, na vila, a Expedição de Obras Públicas, chefiadas pelo Engenheiro Joaquim José Machado (**) que criam as bases definitivas como, daí em diante, as obras públicas se irão implementar no futuro. Uma das consequências a curto prazo desta Expedição, foi o ordenamento urbano de Lourenço Marques, semente duma das mais belas cidades que o continente africano viu nascer. Ainda em Dezembro deste mesmo ano é apresentado o ante-projecto de ampliação da vila, da autoria de Joaquim José Machado  e de António José Araújo (**), muito justamento considerado um dos pais urbanísticos da futura cidade, ante-projecto esse que ficou conhecido como "Plano Araújo" e no qual expandia Lourenço Marques até à depois baptizada Avenida Pinheiro Chagas (rebaptizada de Eduardo Mondlane, após a independência). O "Plano Araújo" veio a ser aprovado, na sua maior parte, em 01 de Dezembro de 1892. Face ao desenvolvimento do interior transvaliano, o porto de Lourenço Marques (**) entra em grande actividade, pelo que urge a construção do caminho-de-ferro que ligue esse mesmo porto às repúblicas bóeres, o qual começa a ser construído em 02 de Junho de 1886 (data oficial).



É elevada à  categoria de cidade a 10 de Novembro de 1887, com publicação do respectivo Decreto no Boletim de Mçambique nº1, de 07 de Janeiro de 1888, o  qual tem o seguinte teor: "Tomando em consideração o notável incremento que tem tido a vida de Lourenço Marques, capital do Distrito do mesmo nome, na Província de Moçambique, em resultado dos melhoramentos materiais ali ultimamente realizados, e atendendo à excepcional importância que tanto aquela vila como o porto hão-de adquirir com a próximas exploração do caminho-de-ferro que há-de ligar, por uma comunicação fácil e rápida, aquele distrito com a República do Transval, importância que é já hoje muito sensível no aumento da navegação e do comércio, e na transformação rápida que se está operando nas condições económicas e sociais daquela vila, hei por bem decretar que a mencionada vila seja elevada à categoria de cidade, com  a denominação Cidade de Lourenço Marques. O Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar assim o tenham entendido e façam executar."



Em 1898 tornou-se capital da Província, nunca tendo perdido esse estatuto, que manteve após a independência, como capital do País, agora renomeada de Maputo. Popularmente conhecida como "Cidade das acácias" ou "Pérola do Índico", a cidade de Lourenço Marques/Maputo, fruto do traçado urbano é, sem dúvida, uma das maiores obras de vulto legada pelos portugueses em África e que ainda hoje perdura.




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(1) - Alberto Cantino, estando em Lisboa e ao serviço de espionagem do Duque de Ferrara remeteu, para Itália (1502), o mapa pormenorizado dos descobrimentos portugueses, dessa época. Esta carta terrestre é considerada o primeiro mapa-mundo. 
(2) - Moçambique, até 1752, esteve subordinado ao governo do Vice-Rei da Índia. A autoridade política máxima de Moçambique teve as seguintes denominações: Capitão de Sofala: de 1505 a 1507; Capitão de Sofala e Moçambique: de 1507 a 1609; Governador de Moçambique, Sofala, Rios de Cuama e Monomotapa: de 1609 a 1750; Capitão-General: de 1750 a 1837; Governador-Geral: de 1837 a 1975. Houve, também, os cargos de Comissário Régio e Alto Comissário. Na recta final deste trabalho será elaborada uma lista de todos os governantes portugueses de Moçambique.
(3) - Presídio era o nome da instalação inicial dum pequeno forte militar, dotado duma pequena guarnição de homens, apenas com o fito de assegurarem a posse soberana dum determinado território e tentar estabelecer pontes de vassalagem ou de diálogo com as chefaturas gentias locais. Como título exemplificativo Lourenço Marques e Beira* começaram a sua arrancada como presídios.
(4) - Riquezas.
(5) - O termo "País" aqui referido reporta-se ao território em causa, neste caso, a ilha da Inhaca.
(6) - Mercadoria.
(7) - Ilha de Moçambique.
(8) - Fato - Imposto.
(9) - Trato - Negócio.

Nota: os textos foram transcritos para a grafia da actual língua portuguesa.
* - Já biografado.
** - A efectuar-se ficha

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Brasão de Armas da cidade de Lourenço Marques - Criado por Decreto Régio de 22 de Agosto de 1889 e da autoria de Joaquim Lapa (**) é formado por um escudo dividido em duas diagonais que formam quatro triângulos no seu interior. O triângulo superior possui campo de ouro com galeão preto sobre ondas, no triângulo intermédio esquerdo possui um campo de prata com palmeira, no triângulo direito em campo azul tem um Sol nascente em ouro e no triângulo inferior um campo vermelho com esfera de prata onde sobressai o continente africano. Sobranceiro ao escudo existe uma coroa castelar e na parte inferior e externa do mesmo a legenda: "descoberta e soberania portuguesa".








Este desenho teve a sua heráldica fixada, em definitivo, pela Portaria Ministerial nº 19.409 de 01 de Outubro de 1962, publicada no Boletim Oficial de Moçambique nº 41 - 1º Série de 13 de Outubro desse mesmo ano.




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LIVROS

Jonas Savimbi foi uma personalidade incontornável na História angolana do século XX. Diabolizado por uns, santificado por outros, a sua vida de eterno comandante guerrilheiro, o seu sonho sempre adiado de vir a ser Presidente da Angola e a sua morte em puro estilo guevariano, ocorrida às 15H00 do dia 22/02/2002 colocaram-no, logo a seguir ao seu fatal evento, no topo dos líderes africanos chorados. Uma década volvida após o seu falecimento já se consegue escrever história objectiva. Isenta e esclarecedora.



É o caso do livro "Jonas Savimbi - no lado errado da História" de Emídio Fernando (D.Quixote, 2012, 364 págs.), um livro que traça  o percurso sinuoso deste homem que, quase tendo tido o mundo a seus pés, acabou morto  numa mata aos pés dos seus adversários, no culminar da "Operação Kissanda", a maior operação de caça ao homem jamais realizada em Angola.




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"Última saída para Brooklim", de Hubert Selby Jr. (Antígona, 2006, 382 págs) é, mais que um livro, um violento testemunho dum tipo de sobrevivência humana num gueto marginal novaiorquino. E nesse pequeno mundo, mas que é o mundo total para os que lá habitam, cruzam-se blocos de pessoas agrupados em tendências políticas, sexuais, criminais e é assim que vemos travestis, prostitutas, sindicalistas, operários, delinquentes adolescentes, marinheiros, tudo e todos cruzando-se numa amálgama de álcool, tabaco, sexo, lutas sindicais, corrupção. Cruzando seis histórias, aparentemente independentes umas das outras, o Autor põe-nos a percorrer a Brooklin dos anos 50 e transporta-nos para um mundo surreal em tudo oposto ao "American Dream".


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Filme: Baseado neste livro foi realizado, por Uki Edel, em 1990 nos EUA, o filme com o mesmo título e com duração de 102 minutos aproximadamente. Existe traduzido em português, em videocassete (consta na minha filmoteca), não tendo logrado encontrar em versão DVD.


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POESIA




António Jacinto do Amaral Martins (Luanda, 1924 - Lisboa, 23/06/1991), poeta angolano. Filho de pais portugueses que se tinham radicado em Angola, completa os seus estudos liceais em Luanda, não tendo prosseguido a carreira universitária.



Apesar das suas raizes familiares serem coloniais, António Jacinto foi um opositor do regime de Oliveira Salazar e um contestário do colonialismo o que lhe valeu a prisão em 1959 e novamente em 1961, Condenado a  14 anos, cumpriu-os no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde. Em 1971 fixam-lhe residência em Lisboa, mas consegue fugir para a Argélia, onde se junta às forças do MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola. Após a independência deste território foi Ministro da Educação e Cultura angolano no triénio 1975/78.



Deixou a sua poesia espalhada por vários livros, tais como "Poemas",  "Vovô Bartolomeu" e "Sobreviver em Tarrafal de Santiago", entre outros.


Reproduzo dele "Monamgambê", um dos mais belos poemas que já foram escritos contra a opressão colonial portuguesa e que, independentemente da sua origem nacionalista, pode-se aplicar a qualquer colonialismo. É nisto que tem de belo, a sua pluralidade continental.



Monangambê
Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
porrada se refilares?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- Monangambêêêêê..........
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
- Monangambêêêêê...........




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Este mesmo poema foi musicado e interpretado por Rui Mingas, magistralmente. 





"Monangambê" - António Jacinto (letra) / Rui Mingas (Música e voz)





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ACONTECEU


Justiça portuguesa - O eterno folhetim "Isaltino Morais", infelizmente vai ter, mais uma vez, o destino de todos os processos judiciais que envolva "colarinhos brancos": arquivo. As apostas sobre as causas dos arquivamento é que podem ser ou por falta de provas, ou por falha técnica ou por prescrição. Neste caso vai ser por prescrição. E não digo infelizmente porque quisesse a condenação (ou não) de Isaltino Morais. Isso a mim não me caberia ajuizar. 
Neste caso específico tratava-se dum processo que envolveria favorecimento pessoal a um empreiteiro a troco de dinheiro, remontando o caso a 1996. Passados mais de 15 anos sobre os factos denunciado a Justiça portuguesa não se decidiu sobre a culpabilidade ou inocência dos acusados? E outra questão que se coloca: supondo que se tinha demonstrado a culpa do ou dos arguidos, com a respectiva condenação prisional, o ou os arguidos iam para a cadeia, volvido este tempo todo? É isto o sentido de justiça? E outra questão: a Isaltino Morais não lhe cabe o direito de um Tribunal o inocentar ou culpar de vez? Tem que ficar a viver com a anátema de eterno suspeito/arguido? Condenado na opinião pública? E que tal se ele agora intentasse uma acção contra o Estado Português por atrasos de Justiça, que puseram em causa o seu bom nome? E que tal serem apenas os funcionários judiciais que tiveram responsabilidade no andamento do processo  (juízes e procuradores) a pagarem do seu bolso a indemnização cível, caso Isaltino Morais ganhasse essa acção ? (e penso que ganharia).
E, já agora, se pusessem os juízes da Relação, do Supremo, do Constitucional a trabalharem, para variar? Que é o  que eu faço, por exemplo. Em vez de estarem carregados de mordomias, isenções de horário e vencimentos chorudos? Que é o que eu não tenho, por exemplo. Ainda por cima são uma classe corporativa que gostam de ter "Sol na eira e chuva no nabal" pois são orgãos de soberania e têm sindicato. Surrealista.



E como se não bastasse esta triste figura que a Justiça portuguesa anda a fazer, ainda vem Cândida Almeida, Magistrada do Ministério Público que dirige o DCIAP Lisboa, dizer que tais situações se devem ao facto dos arguidos abusarem dos recursos pois, segundo ela:" o nosso sistema é muito bom, agora o abuso que dele é feito é  que é mau." Mas esta senhora anda a dormir? Não, não anda. Não passa é duma desculpa esfarrapada para defender, corporativamente, toda um grupo de magistrados preguiçosos, que não justificam o que ganham e que andam a contribuir para que este País não avance. Alguém lhe explique (mas ela sabe, de certeza) que aos arguidos são-lhes concedidos direitos na Lei, que eles usam. Não abusam. Mudem a Lei, se acham que ela está mal e atravanca os processos, mas não venham choramingar desculpas esfarrapadas de mau pagador.


Enoja-me esta (in)Justiça Portuguesa.




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Ferreira Fernandes - Adorei a excelente crónica que Ferreira Fernandes escreveu no Diário de Notícias de 12/05/2012, subordinada ao título "Podem rir mas é deprimente". Não, não é sobre juízes mas sobre os nossos Serviços de Informação e, como não podia deixar de ser, fala sobre as actividades de Jorge Silva Carvalho, o nosso James Bond de pacotilha. No fim de a ter lido não sei se estava a chorar por ter-me rido tanto ou se estava  rir-me para abafar as lágrimas de raiva.   



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Toponímias lisboetas (1) - Ao circular por Lisboa, na zona de Chelas, deparei com uma avenida larga, comprida, com três faixas em cada sentido, como várias outras que ali têm sido construídas. A placa toponómica baptiza-a de "República da Búlgária". Ponho-me a pensar: que raio terá passado na cabeça dos membros da Comissão de Toponímia da Câmara alfacinha para atribuírem este nome a uma avenida grande e larga. Nada tenho contra o País em si e os seus naturais. Mas não vejo o que é que a Bulgária e nós tenhamos tido em conjunto, ao longo das nossas Histórias, para lhe atribuirmos esta honra. Percebo a Avenida EUA, a Praça de Espanha, e outras afins. Agora... República da Bulgária? Por exemplo, não conheço nenhuma Avenida Timor-Lorosae. E bem que eram merecedores de tal homenagem, depois da merda que lhes andámos a fazer durante anos, a seguir ao 25/04 (e já agora atmbém antes) em que quase, quase os abandonámos. Andava o Ramos Horta a pedinchar favores aos nosso emproados políticos, de chapéu na mão, à porta dos ministérios onde quase não o deixavam entrar. Só depois da atribuição do Prémio Nobel é  que acordámos e deu-nos para o orgasmo fraternal. Colectivo, por sinal.


Voltando à vaca-fria: Avenida da Bulgária?  



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Toponímias lisboetas (2) - Mas a zona de Chelas continua a surpreender-me. A uma outra avenida, tal como a "búlgara", enorme, larga com três faixas para cada sentido também e perto desta, foi-lhe dado o nome de "João César Monteiro".


Para início de conversa faço já uma declaração de intenções: detesto a obra cinematográfica de João César Monteiro. É duma atrasadice mental de todo o tamanho, não passando de baixa crítica bacoca. Até eu, que nada sei de realização e produção de filmes, arrisco-me a dizer que faria melhor do que ele fez.


Mas não é o facto de não gostar do sua obra que me leva a criticar a atribuição do seu nome a uma rua. Podiam-na dar, mas não a uma da grandeza desta. A volumetria duma rua tem que estar na razão directa do simbolismo que representa. Por isso, Liberdade e República, por exemplo, são as avenidas que são. Por isso, a Avª Dom João II ou a Praça Marquês de Pombal (já agora um àparte: nunca mais o meu Sporting é  campeão para irmos por um cachecol verde e branco na estátua). Por isso a Avª. EUA, a Praça de Espanha, etc. Completamente de acordo com estas placas toponómicas e as suas localizações. Agora a um chupista da Nação darmos o nome a uma avenida daquela grandeza?


Não me esqueço que João César Monteiro foi o cineasta (se é que lhe podemos chamar assim) que recebeu de subsídios estatais (ou seja dos meus impostos) 130.000 contos (650.000 euros em moeda corrente) do Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia e mais 26.000 contos (126.000 euros em moeda corrente) da RTP para realizar o filme (se é que lhe podemos chamar assim) "Branca de Neve", em que o espectador (melhor dizendo o parvo) leva quase 75 minutos a ver uma tela toda preta a passar. E só estou a falar deste pseudo-filme.


E, ainda por cima, se gabava de dizer (vi-o a dizer isso numa reportagem televisiva) que "estou-me a cagar para que os meus filmes sejam vistos por um ou por mil espectadores."  Pois claro, com o dinheiro dos outros.  



Mas não é ele que tem culpa do seu nome ter sido atribuído a uma rua daquela envergadura. Tal decisão terá saído daquele lote de iluminárias que vão decidindo o nosso destino, enquanto autarquia, enquanto País. Por isso... estamos como estamos.




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PARTIDAS



Bernardo Sasseti, músico de águas critalinas, partiu e deixou este pobre País ainda mais pobre. Não vale a pena estarmos aqui com as costumeiras palavras de pesar. Honremo-lo, escutando-o. 





Beenardo Sasseti / Promessa




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