"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Delia Julia Denning Akeley

Viajantes, aventureiros e exploradores



Delia Julia Denning Akeley - Winsconsin (EUA), 05/12/1875 - Daytona (EUA), 1970. Exploradora, caçadora e etnógrafa. Filha de emigrantes irlandeses, cansada da rudeza da vida familiar que levava, sendo a mais nova de oito irmãos, foge de casa aos treze anos de idade cortando, até ao fim da sua vida, com os laços familiares.

Em Milwaukee, onde chega em fuga, trava-se de conhecimento com Artur Reiss, com quem acaba por casar, uma casamento mais de necessidade e de circunstância do que de amor. É aqui que acaba por travar conhecimento com Carl E. Akeley, um caçador, taxidermista e escultor, e que foi o grande amor da sua vida, pelo que logo Artur Reiss passou à história, como um pequeno precalço da sua vida.

Casa-se, em 1902, com Carl E. Akeley que, ao serviço do Museu de História Natural de Chicago, efectuava safaris africanos para melhor recriar o salão africano daquele museu, safaris estes que se efectuaram em 1905 e 1909.

Para Delia Akeley esta primeira ida a África, em 1905, foi um descobrir dum novo e maravilhoso mundo que a irá acompanhar até ao fim dos seus dias. Durante dezoito meses, tempo que durou o primeiro safari, Delia Akeley aperfeiçoa os seus dotes de caçadora de caça grossa e, da sua conta pessoal, são enviados para o museu de Chicago, dois elefantes e um búfalo.

Em 1909, agora ao serviço do Museu de História Natural de Nova Iorque (NY) regressam ao Quénia para caçarem mais exemplares para o museu nova-iorquino. Esta expedição durará dois anos, e parte dela, contará com a presença de Teodore Roosevelt, Presidente dos EUA que se desloca a caçar ao Quénia e onde também abate dois elefantes que ofertará ao Museu Nacional de Washington.


Delia Akeley salvou a vida ao marido quando ele, certa vez e sem a sua companhia, se ausentou para localizar uma manada de elefantes e acabou gravemente ferido perante a investida dum paquiderme que o projectou pelo ar. Três dias depois deste evento é que Delia Akeley toma conhecimento dos factos, por carregadores que entretanto chegaram ao acampamento, e que tinham fugido da investida do elefante e abandonado Carl Akeley à sua sorte, convictos que ele estava morto e, surpesticiosos com eram, não tocavam em mortos. Decidida a localizá-lo consegue persuadir alguns carregadores a acompanhá-la, na busca do marido no meio da selva. Demorou dias a localizar o rasto do marido e à noite tinha que amarrar os carregadores, para estes não lhe fugirem com medo dalguma fera ou do frio. Finalmente, já desesperada, teve a sorte de o encontrar depois de disparar tiros de alerta, ao que este respondeu. Carl Akeley tinha perfuração pulmonar, traumatismo craniano e algumas costelas partidas e, mesmo assim, sobrevivera à sede e à fome, sozinho na selva.

Nesta segunda expedição a África, nativos capturam para Delia Akeley um macaco, que ela apelida de "JT", e a quem se afeiçoa como um animal de estimação a quem permitia todas as tropelias. Trá-lo para Nova Iorque, estudando o seu comportamento. Durante nove anos conviveu com este macaco, que estudou ao pormenor até que acabou por ter que o entregar ao Jardim Zoológico face aos seus comportamentos agressivos. Desta situação nascerá um livro da sua autoria: "JT the biography of an african monkey" (1928), onde  defendia que os primatas podiam comunicar com os humanos e tinham um linguarejar próprio.

Cansada de viver à sombra do marido e estando este envolvido  emocionalmente com outra pessoa, a exploradora Mary Jobe com quem virá posteriormente a casar, o casal consuma o divórcio em 1923. Três anos mais tarde Carl Akeley morrerá, numa outra expedição africana, de pneumonia, quando visitava o santuário dos gorilas nos montes Virunga. Já não tinha Delia ao pé de si para o salvar. 

Após o divórcio Delia Akeley viaja muito por África, centrando as suas atenções mais em estudos etnográficos de povos primitivos. Era uma caçadora de caça grossa experiente e uma atiradora de elite. Viveu na selva com pigmeus e estava preparada para uma morte rápida. Levava sempre consigo uma maneira rápida de acabar com a vida. Como ela disse, certa vez, numa entrevista: "Sinto sempre medo da selva e estou preparada para uma morte violenta. Nunca viajo sem levar comigo os meios mais adequados para acabar rapidamente com a minha vida se receber alguma ferida mortal. Mas este tipo de vida selvagem encanta-me."

Após a morte de Carl Akeley o Museu de História Natural de Nova Iorque contrata Mary Jobe para dar continuidade ao trabalho do falecido, o que Delia Akeley considera uma afronta a tudo o que ela labutara anteriormente para o referido museu. A somar a isso o facto do falecido ter declarado a sua segunda esposa como sua herdeira universal, relegando Delia Akeley como se nunca tivesse contribuído com nada para o seu património ainda mais a magoou.

Aos 49 anos de idade (1924), já era uma africanista experiente e conceituada, atravessou África de costa a costa, partindo do Quénia, atravessando o Uganda e atingindo o Oceano Atlântico no Congo Belga. Expedicionara sózinha, sem recurso a caçadores europeus ou guias e ao serviço do Museu de Artes e Ciências de Brooklin (NY), que a contratara para capturar exemplares da fauna africana e efectuar estudos etnográficos de tribos primitvas. Como ela própria referiu, depois: "Desde a minha primeira experiência com tribos primitivas da África Central, há já vinte e dois anos, fiquei com a firme convicção de que se uma mulher se aventurasse sozinha, sem escolta armada, e vivesse nas aldeias, conseguiria estabelecer amizade com as mulheres e obter informações muito valiosas e verdadeiras sobre os seus costumes tribais."

Chegada a Mombaça organiza uma expedição contratando carregadores e adquirindo animais de carga. Atravessa o Quénia e atinge o rio Tana, que atravessa de canoa durante dez semanas, explorando e fotografando o mesmo até atingir o posto britânico de San Kuri, onde repousa. Dirige-se para a Etiópia, atravessando o deserto somáli de camelo, numa viagem em que, naquela época, poucos europeus (todos homens) se tinham aventurado a tal. Demorou três meses a atingir o posto militar de Muddo Gashi, na Somália perante a incredulidade dos soldados aí de serviço, custando-lhes a crer que uma mulher, única pessoa europeia duma expedição, tivesse logrado tal façanha. Retorna ao Quénia, até Nairobi, onde embarca para os Estados Unidos toda a colecção de animais mortos e por si embalsamados na expedição. Dirás, desta aventura, mais tarde: " Fiz a primeira parte da minha viagem de canoa, subindo o rio Tana e viajando terra adentro a partir do Oceano Índico. Cacei no capim e ao longo da margem, à procura de elefantes e de antílopes, conservando e secando eu própria as peles. Tirei muitas fotografias e revelei os negativos conforme pude. Comprei camelos aos somalis, uma tribo nómada e pouco amistosa, e continuei a atravessar a terra árida do deserto entre i rio Tana e a Abissínia, avançando sempre à luz da lua para evitar morrer de insolação."


Deixa-se ficar no Quénia, até que decide ir viver com uma tribo o mais primitiva possível para estudá-la. Opta em deslocar-se para o Congo Belga, terra de feiticeiros e canibais, de selvas impenetráveis e com extensas áreas onde os europeus não tinham penetrado. Em Março de 1925 navega pelo rio Epulu e penetra numa selva africana diferente de todas aquelas que tinha conhecido até então. Muito mais fechada, densa e húmida, onde os próprios nativos eram muito mais violentos e pouco amistosos para consigo, fruto da sua condição de branca. Para muitos deles a pele branca significava escravidão, chicote e fome. 

Fixa-se durante meses na zona dos rios Ituri e Aluwini, onde viviam os mbuti , tribo de pigmeus em estado primitivo e sem qualquer contacto com europeus. Delia Akeley vive como um deles, estudando-os ao pormenor e fixará em centenas de fotografias a sua vivência no meio daquela tribo e da selva. Com as pigmeias vai à colecta do mel e frutos e com os pigmeus vai à caça do elefante. Meses depois está completamente esgotada e saturada, pelo que resolve terminar ali a sua estadia no meio dos pigmeus.

Parte para a remota aldeia de Niangara, na margem do rio Uela, no norte do Congo belga perto da fronteira sudanesa. Vai a caçar em Bafuka e convive com canibais, só se apercebendo disso quando servem carne humana à refeição: "O sultão enviou uma caçarola com comida para os meus criados e quando me aproximei com a lanterna para ver o que era descobri um antebraço bem cozido. Como os nativos da selva comem habitualmente macaco, achei que iam fazer um festim. Mas, para meu horror, o pedaço seguinte que descobri foi uma mão de bom tamanho que pertencia evidentemente a um ser humano. Fiquei bastante doente e o pior é que descobri que os meus dois criados de confiança eram canibais." Acaba por adoecer de malária, em Bafuka, caindo à cama e recordará, mais tarde: "Quando não estava a delirar conseguia ouvir o cozinheiro e o meu criado a discutir como deveriam preparar o meu corpo quando morresse e como iriam repartir os meus pertences. Todas as manhãs um deles entrava na minha tenda e perguntava-me educadamente se pensava morrer nesse dia." Quando recupera abandona aquela zona e dirige-se para Stanleyville e daí, navega pelo Congo até Leopoldville e de comboio até Boma, que atinge em Setembro de 1925.


Retorna a Nova Iorque onde a sua fama a precede. Em 1929 volta a África, para dar continuidade aos seus trabalhos sobre os pigmeus, sendo esta a sua última viagem a este continente. Arranca de Cartum, no Sudão, navega pelo rio Nilo e entra no Congo Belga, instalando-se nas margens do rio Ituri, em Avabuki. Durante cinco meses roda milhares de metros de filmes e de fotografias sobre pigmeus, e recolhe todo o tipo de instrumentos de arte, de artesanato, de caça, de ornamentos e de utensílios domésticos que pode, rodeando-se dum verdadeiro espólio etnográfico. Delia Akeley tinha a perfeita consciência que estava a registar os últimos sobreviventes da verdadeira e velha África antes de serem totalmente colonizados pelos europeus.

De regresso aos Estados Unidos centra-se em conferências científicas por todo o país e a escrever o seu livro "Among the pigmies in the Congo forest". Volta a casar-se com um antigo amigo seu, abandonando de vez a vida aventureira, indo viver esta nova fase da sua vida em Vermont. Tendo enviuvado em 1951, muda-se para Daytona, até que a morte a colhe aos 95 anos.

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Nota: As transcrições do discurso directo foram retiradas do livro "Memórias de África", de Cristina Morató, já  anteriormente referido.



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Historiando Moçambique Colonial

Abada - 1) Rinoceronte; 2) Nome que se dá ao chifre de rinoceronte e que, segundo convicção popular bastante disseminada em diversas partes do mundo, produz efeitos afrodisíacos quando reduzido a pó. Por outro lado, estes chifres, quando trabalhados num torno por artesãos, tornam-se taças translúcidas, provocando alterações de tonalidade que podem, em teoria, revelar a presença de veneno em bebidas. Assim, a busca do seu chifre, que ainda é muito frequente nos dias de hoje, quase que levou à sua extinção. A crença do seu poder afrodisíaco não tem, na ciência, qualquer fundamento.

Amanbo - Chefe territorial, súbdito dum Régulo, que desempenhava também a dupla função religiosa de manter os costumes ancestrais do seu povo e de servir de elo de ligação com os actos sobrenaturais.

Âmbar - É um produto que pode ser obtido por duas vias: vegetal e animal. No campo vegetal é uma resina fóssil, proveniente dum pinheiro existente na Europa e que era utilizado com fins medicinais, sendo conhecido por âmbar amarelo. No outro campo, há o âmbar pardo ou cinzento, sendo extraído do intestino dos cetáceos (baleias e cachalotes), tornando-se uma espécie de cera dura. Abundando no Oceano Índico, era utilizado para diversos fins, tais como o farmacêutico, de adorno, de feitiçaria e de perfumaria. Era um produto que tinha bastante procura em Moçambique sendo, no século XVI, monopólio dos capitães de Sofala e ilha de Moçambique.

Ankhoswe - Guardião da sucessão dinástica do povo Chewa, do tipo matrilinear, função que acumulava com a de conselheiro real. Podia, ainda, exercer o cargo de chefe territorial.

Argentina - Nome que inicialmente era conhecido o pequeno Reino de Chicova, devido à forte presunção inicial do mesmo ser rico em prata.


Caçadores das terras - Forças irregulares nativas, fornecidas pelos régulos avassalados, quando convocados para tal. Podiam ter funções policiais ou guerreiras, numa determinada região e eram, quase sempre, pagas pelo direito de saque.


Caçadores de carne - Designação referente aos caçadores que eram contratados para abastecerem de carne de caça diversas empresas, públicas ou privadas, que laborassem no interior do território.


Cafraria - Terra dos cafres; África.


Cafre - Aportuguesamento da palavra árabe "kafir", que significa "infiel" (no sentido religioso, por não seguir os ensinamentos do Alcorão). Era deste modo que os árabes se referiam aos africanos que não professassem a religão muçulmana. Utilizada em sentido depreciativo, queria significar pessoa rude, do tipo bárbaro e, como tal, de capacidade intelectual limitada e de pouca ou nenhuma confiança. O sentido de superioridade rácica que prevaleceu nos povos colonizadores levou-os a generalizar este termo para qualquer tipo de africano.


Costa da Crafraria - Era a denominação inicial que os portugueses, nos primórdios das suas viagens marítimas, se referiam à costa africana e que abrangia desde o cabo das Agulhas à baía de Lourenço Marques.


(Frei) João dos Santos - (Évora, 1560/70(?) - Goa, 1622/25 (?)) - Sacerdote dominicano. Tendo tomado as ordens religiosas em 1584, como frade das Ordem dos Pregadores embarca, dois anos depois, para Moçambique estabelecendo-se em Sofala, até 1591. De seguida vai para Tete e, no ano seguinte, é colocado nas Quirimbas, local onde exerceu o sacerdócio até 1594. No ano seguinte ruma para Goa, onde se fixa durante cinco anos, após o que regressa a Portugal. Em 1608 publica o seu livro "Ethiopia Oriental e vária História de cousas notáveis do Oriente", que é um notável acervo dos conhecimentos de geografia, antropologia, flora e fauna que adquiriu ao longo da sua estadia africana e indiana. Em 1610 ou 1611 regressa a Moçambique e, após uma tentativa frustada de se estabelecer na corte do Monomotapa Gatsi Rucere, foi requisitado por Diogo Simões Madeira(*) para se estabelecer na área de Chicova, afim de exercer o seu apostolado, o que vem a suceder. Desta sua estadia resulta a "Relação do descobrimento das minas de prata de Xicova", saído à estampa em 1618, bem como ficou inédito um manuscrito intitulado "Comentário da região dos Rios de Cuama". Retorna a Goa, onde virá a falecer.


Presídio - Nome dado a uma oferta anual (e que depois passou a trienal) que os portugueses entregavam ao Monomotapa, como forma de testemunho de agradecimento pelos tratados de amizade e aliança que se firmavam. O presídio era pago em fazendas diversificadas e quinquilharias variadas e teve uma duração de cerca de 300 anos, até ser extinto em princípios do século XVIII.

Reino de Chicova - Pequeno Reino que se situava na zona de Tete, a Sul do rio Zambeze e que estava avassalado ao Reino do Monomotapa. A existência  de minas de prata nos seus territórios despertou o interesse e a consequente instalação dos portugueses. No ano de 1572 Francisco Barreto (**), no decurso da sua expedição militar ao Monomotapa, deixou uma guarnição de cerca de 200 homens, com a missão de conseguirem determinar onde se situavam as muito faladas minas de prata de Chicova. Esta guarnição acabou por ser chacinada pelas populações locais, cansadas de serem permanentemente espoliadas dos seus bens pelos invasores portugueses. Em 1614 Diogo Simões Madeira (*) mandou construir o forte de S. Miguel, mas as minas de Chicova nunca passaram de uma lenda. Foi em Chicova que se deu o massacre que vitimou o Governador Vilas-Boas Truão (*), em 1807.


Suhaíli - Palavra de origem árabe que significa "costa", "litoral" e, por extensão, "povo que vive no litoral". Com a chegada dos mercadores ao litoral de África e com a sua instalação nessas áreas, com o decorrer dos tempos acabaram por se misturar com os autóctenes, quer pela via do casamento, quer pela via do interesse comercial ou pela via do factor religioso. Assim, da fusão de africanos e árabes nasceu uma cultura cruzada em múltiplos campos, que vem dar origem a um novo grupo étnico, os suhaílis, os quais se estendiam em toda a costa oriental africana até ao centro litoral moçambicano. Em Moçambique deu-se, no litoral norte, este secular cruzamento biológico e cultural entre árabes escravocratas com mulheres macuas, pelo que os suahílis estendiam-se, ao longo da faixa litoral, desde o Rovuma até ao centro. 


Sultanato de Angoche - Este Sultanato terá sido fundado já no decorrer da segunda metade do século XV, por Mussa, alto dignitário de Quíloa que, tendo fugido de lá, juntamente com Husseine, rumaram para o litoral Sul, em busca de segurança. Tendo Husseine falecido, Mussa enterrou-o na foz do Angoche e, antes de se retirar para a ilha de Moçambique entronizou Xosa, filho de Husseine, como Sultão de Angoche. Foi o filho deste que deu continuidade à linhagem nobre do Sultanato. Esta feitoria afro-árabe serviu de escoamento aos produtos árabes vindos de Sofala quando os portugueses, ao instalarem-se ali, começaram a estrangular o comércio arabizado. Em 1511, como forma de tentarem acabar com essa via de escoamento dos produtos árabes e bem assim de se libertarem do estrangulamento que Angoche estava a praticar sobre a ilha de Moçambique, os portugueses atacaram Angoche e arrasaram-na, mas não deixaram nenhuma guarnição, o que permitiu ao Sultanato erguer-se das cinzas e revitalizar-se. No entanto o domínio que os portugueses começaram a estabelecer no vale do Zambeze, levou ao declínio de Angoche, devido à diminuição do volume de mercadorias vinda do interior, para exportação. Em princípios do século XVII o Sultanato estava comercialmente arruinado, tendo apenas uma economia de sobrevivência. Tendo sido conquistado pelos maraves do Karonga (1) Muzura, a sua actividade comercial resumia-se a conchas e missangas, marfim, âmbar e, principalmente, escravos. Após a dissolução da influência marave, o Sultanato readquiriu a sua independência. No século XVIII o seu comércio era quase nulo e Angoche sobrevivia num autêntico marasmo. Por volta de 1730 a povoação é assaltada e saqueada e o Sultão assassinado, vivendo o seu herdeiro em Mombaça pelo que, em 1755, os portugueses colaboram na sua restauração, reiniciando também um incipiente comércio com a ilha de Moçambique. Em finais deste século deu-se um surto de deslocação populacional dos imbamelas para a sua área, pelo que o Sultanato, com receio de perder o domínio dos portos, negociou a fixação dos mesmos entre Angoche e Sangage. O Sultano ressurge economicamente em meados do século XIX, graças ao incremento e desenvolvimento do tráfico esclavagista. Do seu porto exportavam-se escravos não só para Zanzibar, Comores e Madagáscar, como também para o Brasil. Em 1847 o Sultão de Angoche cortou decapitou três emissários do Governador da ilha de Moçambique, que ali os tinha enviado para exigir vassalagem. Hassane-Issufo (*) ascende ao poder do Sultanato em 1849 e passa-o para o seu irmão Mussa-Quanto quando o prazeiro João Bonifácio Alves da Silva (*) invade as suas terras, em 1861. Após o falecimento de Mussa-Quanto (*) perfilaram-se vários pretendentes ao poder do mesmo, acabando por ascender Ussene Ibrahimo (*). Após a morte deste é Farelay (*) quem passa a dirigir os destinos do Sultanato. Em finais do século XIX o Sultanato entrou em derrapagem económica, por a ilha de Madagáscar, que era o seu principal sustentáculo financeiro, ter caído soba  alçada do domínio colonial francês. No entanto, até finais da primeira década do século XX este Sultanato guerreará sempre os portugueses, até ter claudicado de vez.

(1) - Título dinástico marave.
(*) - A ser biografado posteriormente.
(**) - Já biografado.


Terras do Bororo - Zona geográfica indefinida na sua extensão, mas que os portugueses se referiam, no século XVI, às áreas a Norte do rio Zambeze, entre o Chire a a costa.


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Livro

A 25 de Abril de 1560 sai, de Lisboa com destino à Índia, uma armada de seis naus, na qual se integrava a "São Paulo" que era capitaneada por Rui de Melo Câmara. Era uma nau comercial de 500 toneis de arqueação e transportava 520 pessoas, no total. Em Maio, navegando por zona das Canárias, são surpreendidos por ventos Este, com cerca de 100 quilómetros/hora de velocidade e têm a primeira vítima, que foi um marujo que estava no cesto da gávea. A tempestade que sofrem era tão forte que quase atira com os navios para as costas marroquinas, acabando a mesma dispersa. Em finais desse mês de Maio estão nas costas da Guiné, onde a "São Paulo" fica meses a navegar em alto mar praticamente parada, por falta de vento. O excesso de calor, a humidade excessiva e a queda violenta e abrupta de chuvadas, a falta de alimentação adequada, tudo se conjuga para adoecerem cerca de 300 pessoas, para as quais só o sangramento e a toma de purgantes e xaropes são as únicas panaceias. Em finais de Julho atravessam a linha do equador e passam pelas ilhas da Trindade, de Ascensão e Tristão da Cunha.

Por esta altura, o piloto António Dias, desce para uma latitude Sul muito alta (40º) e flecte o navio para Oriente, informando quem o questiona que, quando tivesse atingido a latitude de Ceilão, rumaria então para Norte. Só que, por erro de cálculo, flecte a nau um pouco para Leste e o resultado é que, a 20 de Janeiro de 1561 estão perto do cabo Camorim, avistam bambus e vegetação à tona da água que nada tem a ver com a flora indiana e apercebem-se de dezenas de ilhas e ilhotas desconhecidas, até que são apanhados por uma tempestade que lhes quebra os mastros.

Durante a noite o navio, já sem velas, anda à deriva até que ao nascer do dia encalha num baixio e já dali não sai. Há quem salte do navio para, a nado, atingir um ilha e acaba morto ou ferido contra os corais. Decidem descer um esquife (1) da "São Paulo" e, durante todo esse dia (22/01/1560) após vária idas e vindas entre a nau e uma ilha, desembarcam todos os 330 náufragos sobreviventes, até ao cair da noite. Estão sem comida e água e, quando nasce o dia, alguns sobreviventes começam a saquear os bens dos mortos, um costume da época.  Estavam em Sumatra, mais concretamente no cinturão de ilhas que envolvem a costa Oeste desta, nas que são hoje as ilhas Malami, Siberute e Sitora. Naquela época Sumatra fazia parte do sultanato de Achém, liderada por Aladim-al-Sakar, inimigo dos portugueses desde que Afonso de Albuquerque conquistara Malaca (1513), criando uma feitoria que lhes fazia frente comercial.

Começa a desenhar-se a desunião entre os náufragos, quando alguns destes acusam os oficiais, os ricos mercadores e os padres de tentarem fugir no esquife, abandonando os outros ali. Pensam matarem as mulheres e as crianças, para terem menos bocas a alimentar e menos corpos para salvarem. Por fim dois padres jesuítas que estavam entre eles, Manuel Álvares e João Roxo, conseguem reunificar os desavindos e todos reconhecem no Capitão do navio o seu Capitão em terra, reconhecendo-lhe autoridade total.

Ficam ali estabelecidos, não faltando alimento dos recursos  naturais (peixe, palmitos, cocos, etc.) até que em finais de Fevereiro (1561) avistam um bateis malaios e dois dos náufragos, que tinham ido à busca de alimentos, são encontrados mortos e parcialmente canibalizados. Tinham entretanto construído uma barca com remos e vela, com madeirame da "São Paulo" e recuperado o esquife e, em meados de Março, preparavam-se todos para partir quando o Capitão ordena o embarque apenas das mulheres, dos seus amigos, de homens ricos e dos oficiais, deixando em terra 170 homens entregues ao seu destino. Não havia espaço para todos, porque parte do navio fora preenchida com bens materiais dos homens ricos e com a construção duma casa de banho e quarto para as mulheres, que acabaram por tirar espaço e capacidade de carga.

Dos abandonados em terra cerca de 80 atiram-se a nado para os navios, na tentativa de os escalarem, mas são repelidos na ponta das espadas e lanças dos que lá se encontram. Aos que ficam em terra é-lhes recusado qualquer tipo de armamento para se defenderem bem como é recusado o embarque a crianças doentes. Não havia lugar a humanitarismos. É-lhes ordenado pelo Capitão que caminhem nove léguas para Sul, até uma enseada, onde serão então recolhidos. Atingida esta enseada ordenam-lhes, por um batel que vem a terra, que caminhem mais 30 léguas para Sul, para outra enseada, enquanto o navio navega à costa na mesma direcção.

É quando avistam uma pequena flotilha de juncos pirata malaios, que o barco português os combate  e leva-os de vencida graças à artilharia que tinham retirado da "São Paulo". Finalmente, com os juncos malaios apresados, já têm navios para embarcarem os que  estavam em terra. Como acto de vingança, pelo portugueses mortos no combate, decapitam os prisioneiros malaios excepto o piloto que os leva para o Sul de Sumatra, até à foz do rio Menencabo, na ilha de Mitau, onde são bem recebidos pelos gentios. A maior parte dos portugueses fica em terra a descansar, até que são atacados pelos malaios que liquidam 60 deles, conseguindo os restantes fugirem de novo para os navios. Depois de dias de provações atingem  o estreito de Bunda, onde são casualmente encontrados por navios portugueses que por ali passavam e os salvam. 


(1) - pequeno barco de apoio.

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Ora é sobre esta história da viagem e naufrágio da nau "São Paulo" e das peripécias dos seus sobreviventes que se narra no romance histórico "Malabar", autoria de Mário de Sousa Cunha (Bertrand Editora, 2008, 538 págs.), romance que, com agrado, li esta semana.



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Sobre a fonte histórica deste naufrágio pode-se ler o relato do mesmo através do testemunho escrito dum seu participante, de seu nome Henrique Dias em "Relação da viagem e naufrágio da nau São Paulo", (Volume I - Págs. 446/470) e que foi editado em dois volumes por Bernardo Gomes de Brito em "História Trágico-Marítima", entre 1735/36.  
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Poesia



Sobre a temática dos naufrágios transcreve-se um soneto de Camilo Castelo Branco:


Senhor! Vós que soprais a tempestade,
cavando abismos sobre o mar irado,
ouvide os roucos sons do afogado,
que geme nos umbrais da eternidade!


Nesses transes cruéis d´ansiedade,
rolando contra a rocha espedaçado,
a prece, que murmura o desgraçado,
é grito de perdão!... meu Deus! - piedade!


Perdoai-lhe, Senhor! ouvi, piedoso,
o brado d´aflição, que manda aos céus,
o filho, o amigo, o irmão mais caridoso!


Ouviu-lhe o seu clamor entre escarcéus;
pois, naquele morrer angustioso
bradou-lhe o coração - "Perdão, meu Deus!"

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Hoje (21/03/2012) assinala-se o Dia Mundial da Poesia. Muito justamente considerada como sendo o domínio da nobre arte da palavra, em homenagem do dia de hoje transcrevo, de memória (desde já me penitenciando dalgum lapso) o primeiro poema sobre o qual verdadeiramente me debrucei, nos meus idos tempos do liceu, era eu um rapazote. Ainda hoje, meio século volvido, esse poema baila na minha memória. Trata-se duma cantiga de amigo, da autoria do trovador medieval Estevão Pais Coelho e reza deste modo:


Sedia la fermosa seu sirgo torcendo
Sa vox manselinha fermoso dizendo
Cantigas d´amigo.


Sedia la fermosa seu sirgo laurado
Sa vox manselinha fermoso cantando
canbtigas d´amado.


Par Deus de Cruz, Senhora,
que d´amor mui haveis sofrido
que tam bem cantades
cantigas d´amigo.


Par Deus de Crus, Senhora,
que d´amoe mui haveis laurado
que tam bem cantedes
cantigas d´amado


Ayutre comesteis, que haveis advinhado!  


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Música


Robert Johnson - (1911 - 1938) - Compositor e cantor de blues rurais, do delta do Missipi. Nascido no seio da mais baixa escala da miséria humana, tem uma infância infeliz e violenta onde, inclusivamente, vê a sua mãe a fugir dum linchamento, naqueles duros tempos rácicos do Missipi. Apenas com  estudos rudimentares, cresce ao abandono, já que a sua mãe, na luta pela sobrevivência e com onze filhos, quase que se dedica apenas aos múltiplos amantes. Aprende a tocar harmónica e, depois, guitarra ao ver Son House e Charley Patton a tocarem este instrumento.


Cria o estilo de tocar viola com um gargalo de garrafa do dedo mindinho, o "bottleneck", desenvolvendo uma sonoridade metálica, tipo havaiano. As suas letras são o reflexo da vida errante que leva, que abarcam os amores passageiros, a solidão, a saudade da terra. Compôs 32 canções e nunca teve direitos de autor. Morreu jovem, eventualmente envenenado por um marido ciumento. Hoje é considerado uma lenda e inspirador de muitos músicos do panorama do rock´n roll.






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Filme

Inspirado na personagem de Robert Johnson, em 1896 Walter Hill realizou o filme "A encruzilhada", no qual um jovem (Ralph Machio) ajuda a fugir dum asilo de idosos um velho "bluesman" (Joe Seneca) e ambos partem para o Missipi, em busca duma lendária canção nunca editada de Robert Johnson. No entanto o destino leva-os a uma encruzilhada, local de eleição do Diabo para capturar futuras almas em troca duma vida terrena gloriosa e, aí, o jovem vê-se envolvido num (brilhante) duelo de guitarras com um guitarrista do Diabo, que acaba por  vencer e assim, resgatar a alma do velho que o acompanhava. Um filme singelo, mas um reconhecimento à importância dos blues do Missipi, que neste filme têm a sonoridade electrizante de Ry Cooder. A ver, numa soalheira tarde domingueira ou no esplendor duma noite de calor.







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Defenda a sua língua materna. Recuse-se a escrever com as normas do actual Acordo Ortográfico.


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Todas as marcas ou produtos referidos no presente texto são incompatíveis com intuitos publicitários. As referências aos mesmos reflectem, apenas, a opinião do Autor e nada mais do que isso.


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terça-feira, 13 de março de 2012

Bartolomeu Dias

Viajantes, aventureiros e exploradores


Bartolomeu Dias - (?/Atlântico Sul, 1500) - Navegador. Sendo desconhecida a sua data e local de nascimento, sabe-se que o mesmo era escudeiro real. A existência de vários homónimos seus contemporâneos obrigou eméritos historiadores a destrinçarem os factos que, historicamente, se podem atribuir sem dúvidas a este navegador.

A real política joanina da época centrava-se num objectivo: o atingimento da Índia contornando a costa do continente africano, pelos mares do Sul e, em simultâneo, a recolha de informes sobre a terra das especiarias, pelos caminhos do Oriente.

Se para Oriente foram enviados uns quantos espiões, nos quais se elevou o grande Pêro da Covilhã, "primus inter pares"; já para os mares meridionais, depois de sistematizadas as navegações, avultou a figura de Bartolomeu Dias que viria da dobrar o baptizado Cabo das Tormentas e rebaptizado Cabo da Boa Esperança.

Feito Capitão-Mor, por nomeação real, Bartolomeu Dias lidera uma expedição marítima de três navios que, em Agosto de 1487 sai de Lisboa rumando para o Sul da costa africana. Das três caravelas, comanda directamente uma, sendo as outras entregues ao seu irmão Diogo Dias e a João Infante. Tendo atingido a Serra Parda, onde findara o descobrimento anterior de Diogo Cão, navega à vista da linha da costa,  até atingir o Cabo das Voltas, em data incerta e, logo de seguida, a Angra das Voltas, assim apelidada pelo constante bolinar das naus, ou seja "pelas muitas voltas em que então ali andaram" (João de Barros, Ásia"); 

Deixando um dos três navios com alguns tripulantes, liderados pelo seu irmão Diogo Dias, na costa namibiana a fim destes tratarem de se reabastecerem de provisões que melhor aconchegassem os restantes aquando do seu regresso segue sempre na derrota para Sul acompanhado pelo navio capitaneado por João Infante.

A 26 de Dezembro atinge o Golfo de Santo Estevão; na dobragem do novo ano avista a Terra de São Silvestre e seis dias após o nascimento do novo ano atinge a serra dos Reis; após o que apanha ventos suestes que obrigam ao abandono da navegação à vista da costa durante dias, sempre para sul. Quando atinge a latitude dos ventos Oeste (35º a 40º Sul) e apanhando mares "já muito frios" (João de Barros, "Ásia") os navegantes flectem para Leste e, perante a ausência de terra que não logravam ver, Bartolomeu Dias ruma para Norte. Tinha ultrapassado o extremo meridional africano e rumavam agora no Oceano Índico, até que lograram avistar costa, a Angra de São Braz, a 03 de Fevereiro de 1488 e aguam na angra dos Vaqueiros. Prosseguindo a viagem na rota índica aporta na zona do rio Infante (Great Fish River), assim apelidado por ter sido o navio capitaneado por João Infante o primeiro a tê-lo atingido.

Acabando por ceder às pretensões de grande parte da sua tripulação que, cansada da viagem e com parcos meios para navegarem em mares desconhecidos, requer o regresso ao Reino. Efectua a torna-viagem, explorando agora os cabos das Agulhas e das Tormentas, acabando por chegar à barra de Lisboa num incerto dia de Dezembro de 1488.

Esta decisão de regressar ao Reino acabará por lhe cercear, no futuro, a nomeação para liderar outras viagens exploratórias, pois Dom João II não lhe perdoará a tibieza com que defrontou o motim da tripulação. O monarca tivera a percepção que se perdera ali, nas costa meridionais índicas, a rara ocasião de se ter antecipado o relógio da História. Um dos factos desta amargura real prende-se com o facto de, por exemplo, Bartolomeu Dias não ter sido feito nobre, contrariamente a que sucedera com Diogo Cão.

Na sucessão real, o novo Rei (D.Manuel I) acompanhará o pensar do seu antecessor e Bartolomeu Dias não é escolhido para liderar ou mesmo participar na armada que rasgará o véu do desconhecimento dos mares índicos; sendo o comando da mesma entregue a Vasco da Gama.

Após ter cumprido a viagem da sua vida, continua ligado à marinha sem grandes aparatos, para além de ter exercido o cargo de recebedor do Armazém da Guiné, entre 1494 e 1497 até que, em 1500, capitaneando uma nau integrada na Armada de Pedro Álvares Cabral, após o achamento do Brasil, Bartolomeu Dias cumpre a viagem da sua morte ao acompanhar o destino do seu navio num naufrágio que os apanha no Atlântico Sul.  

Postumamente o Rei D. Manuel I, a 02 de Julho de 1501, publica um alvará no qual, atendendo ao facto de ter morrido ao serviço da Coroa e, sem sequer aludir à sua descoberta da dobragem do Cabo da Boa Esperança, perdoa-lhe algumas verbas que estaria em dívida quando exercera o cargo de recebedor do Armazém da Guiné (que exerceu entre 1494 e 1497), dizendo: "... a quantos esta nossa carta de quitação virem, fazemos saber que pela arrecadação da conta que foi tomada a Bartolomeu Dias, escudeiro da nossa Casa e recebedor que foi do Armazém da Guiné nos anos de 1494, 1495, 1496 e parte do ano de 1497 se mostra receber de dinheiro doze contos novecentos e noventa e dois mil e dois reais, e muitas artilharias, pólvora, navios, cordoalha, enxárcia, velas, mastros, vergas e outras muitas coisas necessárias para despesas e maneio da dita casa, as quais aqui se não declaram para escusar larga leitura; do qual dinheiro e coisas, posto que pelo encerramento da dita arrecadação se mostre algumas delas ficar devendo a nós, por o dito Bartolomeu Dias falecer em nosso serviço na viagem da Índia, onde o enviámos

Na magnanimidade real prevalecera a sua morte em serviço, em detrimento do feito maior que fora a dobragem do Cabo Tormentoso.

Historiando Moçambique Colonial

Paiva de Andrada - (Lisboa, 1846 - Paris, 1928 - Joaquim Carlos Paiva de Andrada) - Explorador e Oficial do Exército Português (Coronel). Explorador de grande mérito é considerado, à escala lusitana, o "Cecil Rhodes português". Tendo concluído o curso de Oficial de Artilharia em 1867 é nomeado, dez anos mais tarde, adido militar em Paris, tendo assistido à guerra franco-prussiana. No ano seguinte (1878) cria a Sociedade dos Fundadores da Companhia Geral do Zambeze e obtém, nesse mesmo ano, do Governo português, os direitos de prospecção para uma vasta área que abarcava, na época actual, Manica e Sofala, parte do Zimbabué, do Malawi e também da Zâmbia. Tentando seduzir capitais franceses, Paiva de Andrada percorre grande parte desses territórios com técnicos mineiros daquele País (França), mas os relatórios destes são desfavoráveis.

Em Manica associa-se a Manuel António de Sousa, outro predador de almas e terras, verdadeiro senhor da guerra e prazeiro tipicamente feudal. Esta sociedade será frutuosa para os dois e, só no embate que travarão com as pretensões de Cecil Rhodes, é que serão derrotados. Andarilho incansável, percorreu as terras de Manica, Sofala e as do Reino de Gaza, sempre na busca de minas auríferas. Entre finais de 1884 e Fevereiro de 1885 percorre Manica, estabelecendo contactos com régulos e avassalando-os.

No biénio 1886/87, por questões relacionadas com as minas da zona de Manica, desloca-se à corte de Gungunhana pelo que, partindo de Chiloane dirigiu-se à corte deste potentado, atravessando o rio Gorongosa, após o que regressou a Sofala pelo vale do Búzi; de Sofala dirigiu-se ao rio Pungoé, subindo este até Mucaca, segundo depois para Vila Gouveia, donde marchou pelo Barué para o vale do Luenha.
No biénio 1888/89, com o fim de avassalar régulos, parte de Neves Ferreira, segue pelo rio Pungoé até Mucaca e, daqui, segue por Doere, Gomani, Chimoio e Manica; indo depois ao regulado de Mutassa, donde regressou a Vila Gouveia por Chimoio. Depois dum curto repouso segue para o Luenha e interna-se, de seguida, nas terras da Machonalândia (actual Zimbabué).

É um dos pais da feitoria da Beira, estudou a bacia do rio Save bem como a navegabilidade do rio Pungoé, navegabilidade esta que já analisara em 1883, numa expedição que efectuara juntamente com Gorjão de Moura.  Para além de todas esta actividade ainda criou companhias majestáticas, financiadas com capital estrangeiro como, por exemplo, a Companhia de Moçambique, para melhor servir a penetração e consolidação portuguesa nas terras do centro de Moçambique.

Em Outubro de 1890, a disputa de interesses económicos que incidiam sobre a região de Manica fá-lo-ão entrar em rota de colisão com as forças militarizadas de Cecil  Rhodes, a British South Africa Company (BSAC). E é neste contexto que Paiva de Andrada, juntamente com Manuel António de Sousa e João de Resende, sendo este último o representante da Companhia de Moçambique em Manica, acaba preso pelas forças da BSAC, facto este que ocorre a 15 do mês seguinte. Levado para a Cidade do Cabo, acabou por ser libertado, depois dos protestos diplomáticos do Governo português, junto de Londres.

Retirou-se da vida activa em 1907, tendo sido um dos principais percursores da entrada do capitalismo em Moçambique. Durante cerca de duas décadas palmilhou todo o centro e centro sul de Moçambique, um peregrinar pedestre de milhares de quilómetros por entre selvas, pântanos, rios, gentios inimigos, moscas de sono e febres palustres. A sua visão de implementação de companhias majestáticas estava adiantada para a época, ainda muito agarrada, em termos económicos ao sistema feudalizante dos prazos. O surgimento das companhias majestáticas ajudou a partir a resistência armada que muitos senhores de prazos, puros barões feudais, que persistiam na manutenção dum sistema económico feudal, assente na guerra como forma única de satisfazer as suas necessidades básicas. Para todos os efeitos a História veio-lhe dar razão.

Reino/Distrito de Manica - O Reino de Manica remonta ao início do século XVI e ter-se-á criado por fragmentação do Reino do Monomotapa. O seu Rei tinha o título de "Chicanga" e a riqueza mineira do território, aliado à amenidade do clima e abundância de água permitiu a criação de um Estado rico. Por outro lado os manicas dominavam rotas de comércio do ouro entre o interior e os portos marítimos.

Em 1575 Vasco Fernandes Homem atravessou este território, para atingir o Reino do Monomotapa, tendo sido bem acolhido pelos manicas. Foi celebrado um tratado entre os portugueses e o Chicanga, comprometendo-se este a facilitar a actividade mercantil dos portugueses em troca duma pensão anual paga em géneros. Dispondo de um bom dispositivo militar, cerca de 5.000 guerreiros, não é pacífica a teoria se o Reino era ou não avassalado ao Monomotapa.

No decurso do século XVII os chicangas começam a proibir a exploração das minas, devido à ganância dos portugueses e também devido à secagem das ditas minas. Por volta de 1630 recusam pagar qualquer tributo aos monomotapas e apoiam Capararidze, um Monomotapa deposto. O Monomotapa reinante, auxiliado pelos portugueses, derrota e mata o Chicanga, substituindo-o por um irmão, dócil às suas pretensões. O novo Chicanga reabre as minas à exploração e avassala-se ao Monomotapa. Fruto disso surge um incremento de novas feiras, sendo a principal a de Chuambo, perto de Macequece. Em 1673 o Chicanga auxilia o Monomotapa a liquidar alguns portugueses mais gananciosos na sua área.

Apesar disso, em 1719, João de Távora Sampaio reabre a feira de Manica e, ao longo do século XVIII, o relacionamento entre os portugueses e os chicangas foi muito instável. Tinha por base a tentativa dos chicangas controlarem a produção do ouro, no seu Reino, lançando e criando aleatoriamente sucessivos impostos, o que veio a esfriar o relacionamento com os portugueses. Os tributos tinham que ser devidos para pagar travessias, investiduras, recepções, resolução de conflitos e eram direcionados para vários elementos do poder, o que aumentava a carga fiscal. O Reino de Manica avassala-se ao Reino de Changamire e, no final deste século XVIII, entrou em guerra civil, por alteração do ramo dinástico. É nesta fase que se dá a expansão do Reino para o planalto de Inhanga, que se processou até aos princípios do século XIX.

No início deste século continuavam avassalados ao Reino do Changamire. Em 1830 e no seguimento dessa década, a região é assolada por invasões angunes, tendo a própria feira de Manica sido arrasada em 1836. Em 1874 o Reino é de novo invadido por povos do interior pelo que o Rei, que entretanto alterara o título dinástico de Chicanga para Mutassa, pede auxílio a Muzila, do Reino de Gaza. Mas as impis (1) deste acabam derrotadas, pelo que se socorreu a Manuel António de Sousa, tendo os achikundas (2) deste prazeiro debelado o perigo. Devido a isso o Mutassa enviou-lhe uma "ponta da terra", em sinal de submissão. Após a morte deste prazeiro, em 1892, a região sudoeste do território foi anexada pelos reis Lobengula (Rei da Matabelândia e da Machonalândia (3)e Muizilicati (Rei da Matabelândia) e a restante parte do território ficou sob a alçada da Companhia de Moçambique, terminando a existência deste Reino.

O território de Manica está, indelevelmente, ligado àquela companhia majestática mas, ainda mais, ao seu mentor, que foi Paiva de Andrada, que a percorreu em todos os sentidos. Em 1882 Paiva de Andrada elaborou um relatório que entregou na Sociedade de Geografia de Lisboa, onde alertava para que se modificasse o sistema de administração política do território, tendo como princípio basilar a ocupação real e efectiva do mesmo, explicando o quão ténue era a soberania lusitana no centro do território moçambicano. Apoiada nas referências do relatório de Paiva de Andrada, a Sociedade de Geografia de Lisboa propôs ao Governo de Lisboa que fosse criado um comando militar que abrangesse a região de Manica, subordinando-se a mesma a um comando de sessenta soldados e oficialato europeus. Em 14 de Junho de 1884 publicou-se o Decreto que criou o Distrito de Manica, com sede na antiga vila com o mesmo nome. Sobre este território Paiva de Andrada escreveu uma curta memória descritiva, em 1890, e que reza o seguinte:

"Dá-se hoje o nome de Manica tanto ao antigo reino deste nome como ao vasto território que compreende tudo aquilo e que é limitado ao norte pelo rio Zambeze, o qual, por um decreto com força de lei do a no de 1884, constitui desde então um dos actuais dez distritos da província de Moçambique. É só da relativamente pequena terra do reino de Manica, ou de Manica propriamente dita, que me ocupo. O reino de Manica confina ao norte com o antigo reino do Barué e a terra de Unhama, sendo separado do primeiro pelo curso do rio Arângua, que mais próximo da costa toma o nome de Pungoé, ao noroeste e oeste com a grande terra Manhungue, sendo dela em parte separado pelo curso do rio Odzi; a oeste e a sudoeste com a terra Bocha, também separada de Manica pelo rio Odzi; pelo sul e sueste até à margem do rio Revué, com as terras Djingue e Vumba; e finalmente com a terra de Ganda, que compreende todo o território a leste de Manica, situado entre os rios Revué e Pungoé. Direi algumas palavras com respeito aos chefes de todas estas terras do distrito de Manica. O antigo reino do Barué é hoje propriedade particular de dois filhos de Manuel António de Sousa, que há muitos a nos estão a educar em Lisboa por conta do Estado, na Escola Académica, e são netos do velho Mocambo, falecido régulo, que solenemente determinou em vida que o seu reino passasse à propriedade destes seus dois netos. Unhama, que é separado do Barué pelo rio Caurese, afluente do Luenha, tem por chefe o régulo Saunhama, que mais deve ser considerado um Inhacuana ou muanamambo (autoridade) de um prazo da coroa, do que como um régulo. A grande terra de Manhungue, que se estende muito para o norte do território compreendido entre os rios Luenha e seu afluente Mazoé, que limita ao oeste com o rio Mucheque, e que mais para o sul se estende ao longo do Save entre este rio e o rio Odzi até ao limite da terra Bocha, tem como régulo um dos pretos mais inteligentes, mais simpáticos e mais dedicados ao Rei de Portugal que eu conheço; infelizmente é muito velho. É o nosso bem conhecido e sempre leal régulo Macone. Quando pequeno, esteve por bastante tempo na vila de Sena, e tem pelos brancos portugueses como que adoração. Pouco depois de eu e o Manuel António de Sousa termos chegado a Manica, tive notícias de que as manifestações de regozijo na povoação de Macone, quando souberam que estávamos próximos, foram comoventes, e que o régulo declarara que, se o rei de Portugal quisesse entregar a sua terra aos ingleses, ele com toda a sua gente abandonaria esta terra e iria para algum terreno que continuasse a ser verdadeiramente português. Este régulo tem numerosas forças muito aguerridas. As terras Bocha, Djungue e Vumba têm respectivamente como régulos Marangue, Zimunha e Chirara, todos régulos mais pequenos sujeitos a Gungunhana, e que desde a estadia de João de Resende em Manica, mantinham como ele frequentes relações. Ganda é ao mesmo tempo nome da terra e nome da butaca do régulo. É a terra de Quiteve, que já fica mais próxima da costa, fosse um prazo da Coroa. É na terra de Ganda que está a povoação de Chimoio, que tenho citado e é meu particular amigo. Tenho dito em que terras do reino de Manica está encravado. Com relação à sua geografia física e hidrográfica direi que a área deste pequeno território está situada na bacia hidrográfica dos três grandes rios, Pungoé ao norte, Búzi ao centro e leste e Save no sul e sueste. Com relação à bacia dos dois últimos grandes rios, podemos restringir a designação hidrográfica, dizendo, em substituição do que acabo de escrever, que o território de Manica está situado nas bacias dos rios Pungoé, Revué (que é um afluente do Búzi) e Odzi (afluente do Save). O território de Manica é todo muito montanhoso; vindo da costa pelo caminho que indiquei, entra-se nele subindo pelo vale do rio Revué. É na margem esquerda deste rio que estava a antiga vila, feira ou chuambo de Macequece, em ruínas há muitos anos, e que João Resende escolheu em 1888 para sede da Companhia de Moçambique, dando pouco depois à nova povoação ou chuambo o nome de Andrada, continuando a parte da terra de Manica em que a povoação está construída a ter o nome de Macequece. O vale do Revué terá aí dois quilómetros de largura, serpenteando nele o leiro actual do rio; vastas serranias cortadas em parte por importantes afluentes do Revué se elevam dum e doutro lado, separando, as que ficam da margem esquerda, a bacia do Revué da do Pungoé, e as da margem direita, a daquele rio da do rio Odzi. A povoação de Andrada está no vale, mas num pequeno "plateau" suficientemente elevado sobre o leito do rio; de sobre este terraço, a vista do nobre vale comas enormes serras ao norte e sul é realmente encantadora. A montante de Andrada, o vale do rio começa a estreitar-se; as serras de um e outro lado a aproximarem-se, encaixando-se mais o rio, que a uns vinte quilómetros já vai apertado entre elas, correndo em muitas cascatas aí e desde a sua origem, onde as duas linhas de serras já estão unidas; mais para norte e oeste das origens do Revué, tendo desaparecido a bacia central, o grande maciço de serras tem, para um lado, vertentes para o Odzi. Tendo na minha primeira viagem a Manica feito caminho pelo Barué e atravessado o Pungoé muito em cima e em altura onde a divisória das águas deste rio e do Revué tem mais de quatro mil pés, supus durante muito tempo que a bacia do Revué era um verdadeiro "cul de sac" e que não poderia ser aproveitada como via de grande penetração para o interior. Há três anos tive razões para supor o contrário e desde então repetidas vezes tenho minuciosamnte informado a Direcção Geral do Ultramar sobre o assunto, tratando da enorme importância económica que deve vir a ter o caminho de ferro, a que desde o princípio dei nas minhas comunicações o nome de caminho de ferro de Sanhate. Num dos ofícios que estão em viagem para Lisboa, dou detidas informações acerca de Andrada, descrevendo edifícios, citando dimensões, para demonstrar como é bem manifesta na localidade a efectividade de uma sólida ocupação. Por curiosidade histórica, João de Resende levantou, no ano de 1888, as muralhas do nosso antigo forte, e dentro dele fez muitas construções, incluindo a grande casa de alvenaria em que ele mora e estão os escritórios da companhia; fora do forte, há também casas de alvenaria e muitas construções de madeira onde moram empregados europeus, outras para hospedar mineiros e mais pessoal que por ali passa constantemente, e alijamentos para numerosos pretos de serviço. Entre as ruínas das casas do antigo chuambo há muitas que mostram ainda claramente todas as repartições interiores. Na maior parte, estas ruínas são de casas de que se sabe quem eram os antigos donos. Uma delas era de um tio e sogro de Manuel António de Sousa; e ainda vive em Macequece um preto, bem velho, falando correntemente português, que foi criado do falecido parente de Manuel António de Sousa e que habitou na casa a que me refiro. Também por curiosidade histórica, Manuel António de Sousa resolveu mandar levantar uma nova casa, exactamente no lugar e com as repartições que a antiga tinha, e para este fim já se tinha começado a limpar do mato e ervas o local das ruínas. A uns cinco quilómetros a montante de Andrada e do lado da mesma margem, tem o Revué um importante afluente chamado Chua, que se despenha de um "plateau" elevado e cujo curso depois se desenvolve  num largo vale que parece todo rodeado de enormes montanhas. Aí trabalham mais de vinte mineiros e operários portugueses, espanhóis e franceses, empregados todos da Companhia de Moçambique. As barracas, algumas em forma de bonitos "chalets", em que estes empregados da Companhia vivem, espalhadas pelas encostas dos montes, tinham uma aparência muito pitoresca, e a todos revelavam um centro de actividade de gente branca. Em todos os países, o tipo geral das construções dependo do material que para elas mais facilmente pode ser empregado. Os ingleses do Cabo e do Natal, que não têm o flagelo da mosca tsé-tsé, e podem fazer os seus transportes em carros, e que além disso, como no horroroso país em roda de Kimberley e em torno de grandes centros de actividade do Transval, não têm arvoredo, utilizam, como material mais económico e de mais fácil emprego, a folha de ferro ondulada para fazerem as suas habitações. À cabeça de carregadores e por entre o mato não é possível transportar grandes folhas de ferro, pesadas e flexíveis; por outro lado temos abundância de madeira; portanto, as nossas primeiras habitações, correspondentes às abafadoras barracas de folha inglesa, são de madeira e palha, aliás muito melhor abrigo contra o calor; mas esta diferença justificada do sistema de construção é frequente objecto de crítica e de censuras contra nós. Direi, como curiosidade, que o Dr. Jameson (4), portador das minhas recomendações, hospedado pela Companhia de Moçambique, o melhor que foi possível na estação Sarmento, numa barraca rectangular com duas repartições, asseada, e de confortável abrigo, quando deitado e lendo os jornais, teve a contrariedade de deitar fogo a esta barraca, comunicando-se o incêndio a todas as construções da Companhia de Moçambique que ali havia, do lado para onde soprava o vento. Quando soube da notícia, compreendi o aborrecimento que o doutro deveria de ter tido; mas não me deixei de ressentir um pouco, quando mais tarde, por acaso, encontrei publicada num jornal da África do Sul uma crítica desfavorável acerca da aparência caquética do chefe da secção de Sarmento, e da natureza inflamável das casas desta estação. Continuando nas informações acerca do Revué direi ainda que mais acima, quando o rio já está encaixado entre montanhas próximas, há a povoação de Mogudo, parente do Mutaça, chefe desta região, e o antigo e constante emissário do régulo nas suas relações com o comandante militar de Sena e capitão-mor de Manica. Nesta bacia do Revué há poucas povoações indígenas. Nas vertentes do Pungoé ou na região norte de Manica, o país ainda é mais deserto. Nos rios desta vertente, designados nos documentos antigos como sendo muito auríferos, tinha agora a Companhia de Moçambique alguns pesquisadores. Toda a linha divisória de águas entre as vertentes do Pungoé e as do Revué, dentro de Manica, tem uma grande cota, formando as serras entre os dois rios por toda a parte uma barraca que é muito difícil de transpor. Assim é claro que, salvo despesas excessivas com aberturas de túneis, ou construção de linhas funiculares, seria impossível fazer seguir um caminho de ferro como está marcado em projecto no mapa da província de Moçambique, vindo da costa pelo vale do Pungoé para, depois de já ter entrado em Manica, passar para o Revué; e o mesmo se daria se pretendêssemos que o caminho que efectivamente se há-de construir, da margem do Pungoé, atravessando no Quiteve, mais próximo da costa, e enquanto a divisória tem pequena cota, para a bacia do Revué, de entrando em Manica pelo vale deste rio, continuasse para o interior, passando nessa altura para o vale do Pungoé. Por este lado, pois, a penetração é quase impossível. A terceira grande bacia hidrográfica em que está situado o território de Manica é, como disse, a de Saveo, ou mais restritamente a do Odzi; este rio serve, do lado poente, de limite ao reino de Manica, e portanto todo o terreno a que me refiro está nas vertentes, ou directamente do rio principal, ou dos numerosos afluentes da sua margem esquerda. Para simplificar, citarei, a partir de jusante para montante, apenas, e por motivos especiais, três desses afluentes que não são geograficamente os mais importantes: o Sucura, o Mutare, que alguns ingleses nas suas correspondências designam pelo nome de Untáli, e o Zonzoro. Podemos teoricamente considerar estes três rios paralelos, indo sucessivamente confluir em três pontos da margem esquerda do Odzi, sendo os restantes vales, bem como os dos outros afluentes intermédios não mencionados, separados uns dos outros por grandes esporões muito elevados, junto das terras divisórias do Revué e do Odzi, das quais destacam, e que vão diminuindo de cota e desaparecendo à proporção que se aproximam do vale do último destes rios. Os dois primeiros citados afluentes nascem nas serras que separam a bacia do Revué do Odzi, o terceiro nasce mais a oeste, e quando o Revué já tem acabado, no grande maciço que separa o Odzi do Pungoé. As enormes serras que separam o Revué do Odzi são, tanto numa como noutra vertente, profundamente entalhadas por numerosos rios, entre os quais estão os três citados, por cujos vales se pode subir até atingir diversos colos ou gargantas onde, com mais ou menos facilidade, se passa duma para outra bacia hidrográfica. É nas vertentes do Odzi e seus afluentes que está a maior parte da população indígena de Manica; no Mutare e numa relativamente pequena área, que todos os pesquisadores declaram não ter na Califórnia, na Austrália ou em qualquer parte do mundo, rival em abundância e riqueza de filões auríferos, é que desde 1888 têm sido feitas as principais descobertas de filões, e é ali que estão, ou pelo menos estavam, muitos empregados da Companhia de Moçambique e a maior parte dos representantes e pesquisadores das empresas arrendatárias que têm pessoal em Manica. A aringa (5) do régulo Mutassa está situada na bacia hidrográfica de Odzi junto à margem do rio Zonzoro e portanto mais a oeste do que todos os outros lugares de que tenjho falado, o que explica como agentes da "British South Africa Company", vindo do interior e tendo atravessado o Odzi, chegaram à aringa do régulo sem que, nem no Mutare, nem no Chua, nem em Macequece ou em Andrada, o ponto que fica mais a leste, por alguns dias houvesse conhecimento da sua chegada. Parece-me que quem ler esta breve descrição que tenho feito poderá facilmente traçar um esboço, mostrando a posição relativa das diferentes localidades cujos nomes são frequentemente citados."

Após a independência de Moçambique os limites geográficos de Manica mantiveram-se inalterados mas, de Distrito, passou a Província.
(1) - Regimento, coluna militar; o mesmo que "manga".
(2) - Termo que definia o escravo guerreiro que, na Zambézia, servia militarmente o seu amo, o prazeiro (senhor dos prazos). O termo achikunda é uma forma aportuguesada do verbo chona-caranga "kukunda", que significa "vencer". Os achikundas teriam tido a sua génese por volta de meados do século XVII, sendo recrutados de diversos povos. O conjunto destes escravos armados, com funções militares, policiais, guarda-costas e também de caçadores, formavam os exércitos privados dos senhores dos prazos, chegando a atingir a casa dos milhares, nalguns casos. Pertenciam à elite dos escravos e não podiam ser vendidos. Era-lhes permitido escravizar elementos das populações vencidas nas suas incursões e mantê-los como sua propriedade. Só tinham funções de guerra mas, no correr dos tempos, com o decréscimo populacional devido a guerras, doenças, fome e o crescimento desmesurado do tráfico de escravos, levou muitos prazeiros a vendê-los pondo fim, deste modo, a uma tradição secular o que provocou, no decorrer do século XIX, diversas revoltas destes achikundas contra os seus donos. Com o advento do capitalismo e a lenta abolição do comércio esclavagista e um melhor domínio administrativo do poder colonial, os achikundas evoluíram para os sipaios.
(3) - Territórios integrados na actual República do Zimbabué.
(4) - Refere-se a Leandar Jameson, braço direito de Cecil John Rhodes (este já biografado em 31/12/2011), sendo ambos inimigos acérrimos dos portugueses.
(5) - Aldeia fortificada, de raiz zambeziana, cuja concepção poderá ter sido desenvolvida a partir da ideia dos musitus, mas em escala maior e com outros tipos de materiais, situadas juntos de cursos de águas ou estradas importantes, tendo funções quer defensivas quer ofensivas. Muralhadas a troncos de árvores entrelaçadas, ou pedras, com seteiras, podendo-se ainda levantar paliçadas e, por vezes, separadas por valas, estes recintos bem fortificados tinham, no seu interior, para além da casa do prazeiro e do seu pessoal, bem como do gado, todo o tipo de casas oficinais necessárias à manutenção da cidadela. Correspondia, no Sul, ao kraal ou aos cocolenes.


Leituras



Sobre Bartolomeu Dias e a sua época aponto dois bons romances históricos, cuja aquisição e leitura recomendo, a saber:

Registo o agrado que me proporcionou a leitura do romance histórico "Levante, 1487 - a vã glória de João Álvares", de José Maria Pimentel (Edição do Autor, 2010, 444 págs.) que se reporta à viagem em que, pela primeira vez, navios lusos liderados por Bartolomeu Dias, mergulharam as quilhas dos seus navios em dois oceanos: o Atlântico e o Índico.

Transcrevo aqui o esclarecedor conteúdo da contra-capa do livro: "Acontece na costa desértica do Namib. Três naus do Rei João de Portugal (duas caravelas e uma urca) lançam ferro num lugar já conhecido de antes como Angra do Salto. A escala leva apenas o tempo necessário para o transbordo de todos os mantimentos para as caravelas, que abalam logo depois para a descoberta mais ansiada do Rei - a passagem para o mar das Índias, pelo sul do grande continente africano.
Na Angra do Salto fica a esvaziada urca dos mantimentos. Fica também o capitão Diogo Dias, com o encargo de a aprovisionar com água e mantimentos até ao glorioso regresso das caravelas do seu irmão - o capitão-mor Bartolomeu Dias.
João Álvares é o mestre da urca, competente, com origem nobre, dotes de bravura e um mesquinho azedume contra os caminhos da política no Reino. Com ele, são nove os marinheiros que, durante nove longos meses, comungam na inóspita angra com os Kwepes locais desígnios inimagináveis. Chegam as caravelas do cabo e recolhem os sobreviventes e os sinais do drama, e transportam-nos até ao poderoso rio do grande Reino do Kongo, onde se consuma a missão do Rei João e se sepultam segredos."

Baseado em factos históricos que aconteceram, suportado por uma boa bibliografia, dotado dum interessante glossário alfabético para os leitores menos avindos a termos de antanho e narrado na primeira pessoa de seis dos participantes desta viagem que partilham, no meio de muitos outros camaradas da aventura, o exíguo espaço das embarcações, a escrita torna-se de tal modo cativante e galopante, que o livro se transforma numa máquina do tempo e nos leva aos idos de 1487 e, de leitor, nos tansforma num qualquer anónimo marujo ali presente.

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O outro romance histórico sobre Bartolomeu Dias que, há muito, me prendeu trata-se de "O navegador da passagem - a história de um descobridor de mundos que o Mundo ignorou" , da autoria de Deana Barroqueiro (Porto Editora, 2008, 437 págs.). A minha paixão pela escrita de Deana Barroqueiro não me tolda a mente nem me desfoca o sentir lúdico que tenho pelos pontilhados da ponta da sua pena. 

"O navegador da passagem" é o romance de um homem amargurado, que se sente injustiçado por, ao ter aberto as portas da estrada aquática da canela, do cravinho e do colorau (mas não tendo franqueado as mesmas) foi forçado a deixar que outros depois de si as passassem e, à premonição da chegada do seu fim, anunciado num cometa quando ia de navegação no Atlântico Sul, revê a sua vida, no muito que deu e no pouco que recebeu.

Deana Barroqueiro, consagrada capitã-mor desta imaginária jornada quinhentista, leva-nos a viajar  pelas cortes joanina e manuelina, puros viveiros de intrigas, maledicências e traições, onde tudo era válido pela benesse da proximidade do poder, traçando-nos os perfis de Dom João II e de Dom Manuel I , férreo o primeiro e sortudo o segundo, para além de nos fazer embarcar em naus claustrofóbicas, pútridas e sobrelotadas de anónimos miseráveis que pouco se apercebiam do gigantismo que estavam a construir, naus carregadas de febres, viscosidades e doenças mas, onde no meio deste pantanal de madeirame, era capaz de florir o amor ficcionado da escrava Leonor pelo seu amo.

Bem documentado, pelo que se pode observar pela bibliografia consultada, bem estruturado na sequência narrativa dos factos, e bem encorpado numa linguagem escrita que, atirando-nos por vezes para as expressões da época, torna-se clara quando enquadrada no todo do texto, é mais um livro que lustra as letras portuguesas. Aqui e em qualquer parte do mundo. Por isso, sem complexos e com o à vontade de quem nunca se cruzou com a Autora posso, camonianamente, dizer: "Ditosa Cultura que tal escritora tem". 

Poesia


Ao ler a paixão romanceada da escrava Leonor por Bartolomeu Dias, veio-me à memória uma personalidade que tive a felicidade de conhecer e que que me honrou fazendo o favor de ter sido meu amigo, conselheiro e, acima de tudo, meu Mestre.

Refiro-me ao Professor Fernando de Macedo, poeta e dramaturgo que, infelizmente para mim e para muitos, já partiu para a Grande Grande Viagem. Conheci-o num jantar de aniversário de Umbelina Gil,  cantor da ilha do Príncipe.
Oriundo de São Tomé, neto do último Rei angolar daquela ilha, intelectual de craveira, Professor Universitário (jubilado quando o conheci), resistente à Ditadura e "compagnon de route" de muitos que ousaram dizer "não" a quem não nos queria deixar dizer "não" e que, depois, inicia um longo e lento caminho para o conservadorismo e a redescoberta do cristianismo, deixou em mim, apesar de muitas saudáveis divergências, uma saudade imensa. 

Mas deixou-nos os seus escritos, parte dos quais eu tive o sublime prazer de os dactilografar em primeira mão.  Dum conjunto de poemas inspirados na leitura do livro "História Trágico-Marítima" (anotada por António Sérgio, Editorial Sul, Lda.) a que ele titulou de "Mar e Mágoa" (Edição do Autor, São Tomé, 1994, 99 págs.) retiro e transcrevo dois poemas, titulados de "Leonor, Leonor" e "O lamento da escrava", poemas estes que me foram trazidos à memória pelo leitura dos amores da escrava Leonor no livro de Deana Barroqueiro, acima referido.


Leonor, Leonor
Descalça ondulante
alva e nua
ancas d´arremesso d´ondas
areias pisando ardente.
Ah! Leonor
Olhos d´Eden perdido
seios renegando angústia
passo lento
sem destino apetecido.
Oh! Leonor
Em sensual tristeza
d´abandonado desejo
chão abraça em desespero
como se ela a natureza.
Leonor, Leonor!
Poema baseado no seguinte texto: "E vendo-se D. Leonor despida, lançou-se logo ao chão e cobriu-se toda com seus cabelos que eram muito compridos, fazendo uma cova na areia, onde se meteu até à cintura sem mais se erguer dali. Manuel de Sousa foi então a uma velha sua aia, que lhe ficara ainda uma mantilha rota, lha pediu para cobrir D. Leonor, e lha deu; mas contudo nunca mais se quiz erguer daquele lugar onde se deixou cair quando se viu nua." - História Trágico-Marítima; Perda do Galeão Grande São João; Pág. 35, Volume 1. 
O lamento da escrava
De mim, tens memória, senhor?
Sou quem ao fogo
te refugou peixe seco
e à noite te dava amor.
Sou aquela que escolheste
percorrendo a sanzala
(esta não, aquela sim)
fui eu a que recebeste.
Eu sei que outros levaram
o suor dos nossos corpos
e a muitos maltrataram.
Tu não foste assim.
Porque morreste, deixando
teu calor dentro de mim?

Poema baseado no seguinte texto: "Depois que André Vaz se apartou de Manuel de Sousa e sua mulher, ficou com ele Duarte Fernandes, contra-mestre do galeão, e algumas escravas das quais se salvaram três." - História trágico-marítima, Perda do Galeão Grande S. João, pág. 36, Volume 1.

///
Esta noite, quando fechar o computador, vou reler "Mar e Mágoa", beber um tinto amornado e saborear um cigarro forte (como ele o faria). E sei que terei por companhia Fernando Macedo, com a sua longa cabeleira branca afunilada em rabo de cavalo, o seu sorriso sarcástico e o seu humor bonacheirão. Mesmo em holograma a sua companhia é-me mais querida que muitos de carne e osso. 
Culinária
Leitor que sou de tudo o que a escritora Deana Barroqueiro escreve, tive oportunidade de, tempos atrás, ter lido uma receita de culinária que a mesma publicou no seu blogue, no pretérito 17 de Fevereiro, receita essa que se reportava a "Lulas à Coge Çofar".
Amante que sou de adquirir, entre diversas coisas, de revistas antigas de culinária tenho uma "Crónica Feminina Culinária" nº 11 (sem data de lançamento mas reportando-se à década de 60/70 do século passado) a qual contou com a participação "dos mestres de cozinha, doçaria e serviço de mesa do Hotel Ritz de Lisboa." (sic)
Ora bem descobri aí, na página 31, a receita do "Bolo da Rainha do Sabá", receita essa que, cá em casa, já produzimos (1). Não achei nada de especial no bolo e, ainda hoje, estou para saber o que teria a ver a mítica Balkis, Rainha do Sabá, com este bolo. 



Mas podemos fantasiar que foi o doce que ela, juntamente com  o Rei Salomão, manjou na única noite em que se amaram e cujo fruto se viria a chamar Menelik, génese de uma lendária linhagem dinástica etíope que viria a fenecer nos revolucionários idos de 1975, com a morte do Negus Hailé Selassié que, para muitos crentes do Kebra Nagast, foi o último descendente directo da Casa Real judaica.

Caramba, o que um bolo nos põe a fantasiar. Mas, de qualquer modo, aqui vai a receita que transcrevo sem qualquer alteração:

"Desfazem-se no almofariz 60 gr. de amêndoas. Derretem-se 125 gr. de chocolate, partido em bocadinhos, em duas colheres-de-sopa de água a ferver, deixando-se cozer durante 10 minutos. Há quem deite 2 colheres-de-café deste produto solúvel na água a ferver que se destina a derreter o chocolate.
Acrescentam-se 125 gr. de manteiga ao chocolate, trabalha-se de forma a obter-se uma massa, incorporando-se depois as amêndoas, o açúcar (125 gr.), a farinha (50 gr.) e 3 ovos. Mexe-se muito bem sempre que se acrescenta um novo elemento.
Unta-se uma forma de "charlotte" e deita-se-lhe dentro a preparação, que cozerá no forno, em banho-maria, durante 35 ou 40 minutos. Deixa-se arrefecer, desenforma-se e serve-se coberto com natas batidas adicionadas de açúcar baunilhado."
(1) Digo "produzimos" pois tenho uma parceria com a minha mulher: ela faz os bolos e eu como-os.


Vai acontecer

Durante o corrente mês de Março uma exposição comemorativa do centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, figura grada das letras portuguesas do século XX, nas áreas do conto, crónica e romance. Na Biblioteca Museu da República e da Resistência (Rua Alberto Sousa - 10 A - Zona B do Rêgo - Lisboa) durante as horas normais de expediente. Entrada livre.

Encontro de escritores lusófonos onde tecerão comentários sobre o estado da literatura e poesia nos seus diversos países. No próximo dia 17 de Março, pelas 15H00, na Biblioteca Municipal Por Timor (Rua S.Bento - 182/184 - Lisboa). Entrada livre.

Exposição colectiva de artes plásticas, subordinada ao tema "Os Cavaleiros Templários". Entre os dias 18 e 30 de Março corrente, na Casa da Cultura dos Olivais (R. Conselheiro Mariano de Carvalho - 67/68 - Olivais - Lisboa).


Aconteceu

Mais uma vez o nosso mui amado Venerando Chefe de Estado voltou a borrar a pintura, agora a acertar contas atrasadas com José Sócrates, no seu prefácio do livro "Roteiros VI". O homem não acerta mesmo, coitado. Eu ando para aqui a cogitar que ele vai ter que nascer duas vezes para aprender a ser um político a sério. Sobre este seu comportamento muito se tem escrito e eu nada de novo viria para aqui  debitar. Até porque quase ninguém me lê e ninguém me liga nenhuma, que é o mais certo. Mas, de qualquer modo, de tudo o que se escreveu recomendo a leitura do artigo de opinião de Gonçalo Bordalo Pinheiro que, sobre este tema, publicou na Visão nº 411, subordinada ao título "As perguntas da semana". Lapidar.

Leio no Público que os golfinhos voltaram ao Tejo. Mas apenas pintados nas sapatas da Ponte 25 de Abril. É pena, mas é o mundo em que vivemos. É tudo ou quase tudo fictício, virtual, a fingir.

A Procuradora Cândida de Almeida, Directora da Direcção Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), estranhou que se tivesse feito burburinho por a Caixa Geral de Depósitos (CGD) ter patrocinado um Congresso do Sindicato que os representa. Disse a senhora que a escolha do banco se devera a ser do Estado, com dinheiros 100% públicos e não correr nenhum processo crime daquela instituição bancária. Azar. Quatro dias depois (13/03) destas afirmações o Diário de Notícias parangonava uma notícia onde quatro gestores da CGD tinham sido acusados pelo DIAP de Évora por burla tributária. Anda a dormir esta senhora?

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Defenda a sua língua materna. Recuse-se a escrever com as normas do actual Acordo Ortográfico.

Todas as marcas, referências ou produtos aqui referidos são incompatíveis com intuitos publicitários, reflectindo apenas a opinião do Autor. 

António Fernandes

Exploradores, Viajantes e Aventureiros



António Fernandes - (?/ 1525) - Explorador. Condenado à morte, não se sabe por que crime, no reinado de Dom Manuel I, vê a sentença ser tansformada em degredo. Integrado na armada de Pedro Álvares Cabral, em 1500, é lançado (1) em Mombaça e, daí, segue para Quíloa, onde obtém as boas graças das autoridades locais. Na segunda viagem que faz para a Índia, Vasco da Gama vai encontrá-lo em Quíloa, onde serve de língua (2), tendo: "prestado informação a João da Nóvoa acerca do que se passava entre aquela bárbara e infiel gente", segundo relatou posteriormente o cronista João de Barros, nas suas "Décadas".

Por volta de 1505 ou 1506 encontra-se na feitoria de Sofala e, aventurando-se no interior, António Fernandes atinge as terras do Reino do Monomotapa e priva com o monarca, sendo o primeiro português a chegar àquele Reino. Entre 1511 e 1515 percorre, em diversas viagens, as terras do Reino do Monomotapa, vistoriando a actividade mineira  no mesmo e todas as informações colhidas transmite-as aos seus conterrâneos.

O seu peregrinar exploratório levou-o, também, a percorrer outros reinos, tais como os de Sedanda, Quiteve e Butua, pelo que é considerado como o primeiro português a internar-se não só no sertão moçambicano mas também no interior zimbabuano. Terá atingido um grande prestígio no seio das populações nativas do interior africano e, sobre ele, Gaspar Veloso escreveu: "...onde ele vai ainda que haja guerra por amor dele logo são apagadas...". Este notável aventureiro e explorador morreu em Sofala.

(1) - Lançado - Degredado que, no decurso duma viagem marítima era deixado, ao abandono, num qualquer ponto da costa africana, com a finalidade de estabelecer relações com os povos locais e transmitir essas informações a um próximo navio que por ali passasse.

(2) - Língua - Intérprete.

Língua do Estado - Intérprete oficial.

Historiando Moçambique Colonial

Reino do Monomotapa - Reino territorialmente extenso; cuja área abrangeria, nos tempos actuais, parte da zona oriental do Zimbabué e os territórios moçambicanos situados entre os rios Limpopo e Zambeze e que, desde sempre, povoou o imaginário dos portugueses, ávidos de lucro fácil e rápido, pois as informações que possuíam deste Reino é que era extremamente rico em ouro, esse mítico mineral que tanto aguçava o apetite dos conquistadores. A existência deste Reino, que bebeu parte da sua estrutura cultural do Reino do Zimbabué, com a proliferação de histórias sobre as suas míticas riquezas, é que levou os portugueses, logo no início das suas viagens marítimas para a Índia, nos anos quinhentos, a estabelecerem uma feitoria em Sofala, cuja missão principal era a de comerciar o ouro vindo desse Reino. No entanto Sofala acabou por ser um desastre económico para os cofres portugueses, não só porque o Monomotapa não possuía o ouro que a avidez lusitana lhe queria atribuir, como também a actividade de guerrilha comercial levada a cabo pelos arabizados lá instalados há bastante mais tempo naquelas paragens, minava a corrupta administração portuguesa. Ter-se-á iniciado a partir de linhagens carangas do planalto setentrional zimbabuano que, no século XV, se terão fixado no vale do rio Alto Luia, afluente do rio Mazoe que, por sua vez é afluente do rio Luenha e expandido, posteriormente, avassalando outros povos e reinos e nunca se tendo avassalado ao Reino do Zimbabué. A palavra "monomotapa" é a grafia aportuguesada de "Muene Mutapa" (Rei Mutapa) que foi um poderoso chefe que viveu no princípios do século XV, de verdadeiro nome Nzatsimba e que adoptou, como nome de guerra, o de Muntoba Ihuru Chamutapa. No entanto, foi o seu filho herdeiro Matope quem, após diversas incursões militares fundou, verdadeiramente, o Reino do Monomotapa, ao qual se encontravam mais ou menos avassalados outros reinos de menor dimensão territorial. Na linha sucessória, após a morte de Matope, ocorrida em 1480, o seu filho Nizima, sem o rasgo militar do seu pai, assiste ao desmoronar do Reino, criando-se outras dinastias rivais, das quais a mais importante terá sido a do Reino de Changamira, fundado por Changa, ex-Governador do Reino no tempo de Matope, a quem serviu com lealdade. Serão os changamires quem, no correr dos tempos, destruirão o poder real do Monomotapa, até que este se tornou num joguete nas mãos dos portugueses. Quando estes chegaram a Sofala já o Reino do Monomotapa abanava nas suas estruturas, mas o seu nome ainda inspirava sonhos fantasiosos de lendárias minas auríferas. No entanto, povos vindos do Sul sublevam as tribos do Reino a não pagarem tributos ao Muene, o que também facilitou a penetração portuguesa. Em 1560 uma missão jesuíta, encabeçada pelo Padre Dom Gonçalo da Silveira, atinge a corte do Monomotapa onde é bem recebida mas, fruto das intrigas dos islamizados, o prelado acaba morto tornando-se, assim, no primeiro mártir daquela confissão religiosa em terras do interior de Moçambique. Nove anos depois os portugueses, invocando várias razões, entre elas a morte de Dom Gonçalo da Silveira, enviam uma força numerosa para punir o Monomotapa. Reinando, em Portugal, Dom Sebastião, foi reunida a Mesa da Consciência, constituída por teólogos e juristas do Reino português, nas Cortes de Almeirim, em Janeiro de 1569, onde determinaram: "... os imperadores de Monomotapa mandam matar e roubar, muitas vezes, os seus vassalos e inocentes e fazem outros males e tiranias por causas leves e mandaram matar e roubar alguns portugueses, indo eles pacificamente e sem escândalo, antes com a sua doutrina e com exemplo se converteu el-rei, a rainha e os principais do reino, os quais depois todos apostataram, deixando a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo que professavam, voltando aos seus tiros gentílicos e, na morte do dito Padre D. Gonçalo da Silveira, não se guardou ordem natural nem figura de juízo..."; "...e visto outrossim, como roubaram e retiveram na sua terra dois portugueses que iam mandados pelo Capitão de Sofala para embaixadores, sendo eles invioláveis, segundo comum direito das gentes..."; "... e acolhem nas suas terras muitos mouros, inimigos da fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e que foram autores de muitas das ditas ofensas e lesões e o serão ao diante, sem se provar, que da parte dos ditos portugueses houvesse culpa ou desordem." Por fim decidiram: " Pode e deve El-Rei Nosso Senhor mandar promulgar o Santo Evangelho nos reinos e senhorios do Monomotapa..." Em relação ao desencadear da guerra aconselhavam: "... que, antes de se fazer a guerra ao dito rei do Monomotapa, se lhe requeira em nome de El-Rei Nosso Senhor que lance logo, em tempo limitado, todos os mouros de suas terras e senhorios, como inimigos que são da fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e entregue os mais culpados..."; "... e não deferindo o dito rei este requerimento e não lançando nem entregando os ditos mouros pode-se-lhe fazer guerra e seguir todos os direitos dela." No entanto, quer a morte do jesuíta D. Gonçalo da Silveira quer os outros motivos invocados não passaram de um pretexto oficial para sancionar uma invasão que nada mais tinha em mira senão o de atingirem as miríficas minas de ouro do reino, que tanto apetite abria à gula lusitana. Esta expedição, comandada por Francisco Barreto parte, da ilha de Moçambique, em Novembro de 1571 com destino a Quelimane e, a 18 de Dezembro seguinte, flecte para Sena, via Zambeze. Em Julho de 1572, depois de reorganizadas as forças em Sena, Francisco Barreto interna-se no Barué e razia alguns regulados daquela zona, até que chegam a Sena enviados do Reino do Monomotapa, que aceitam as condições dos portugueses. No balanço final, esta expedição saldou-se num novo fracasso, não por acção dos guerreiros do Monomotapa mas por incúria dos portugueses que, minados por febres tropicais, falta de comando militar efectivo (já que este tinha que submeter as suas decisões à chefia religiosa da expedição entregue ao padre jesuíta Monclaro, numa controversa decisão emanada de Lisboa) e sem nenhum apoio logístico perderam, nas matas, a quase totalidade dos expedicionários, incluindo o seu comandante e sem terem atingido os seus verdadeiros objectivos finais que era o de tomarem posse das minas de ouro do Reino africano. No entanto, apesar de militarmente esta expedição ter sido um desastre, ela trouxe, aos portugueses, um mais aperfeiçoado conhecimento do terreno o que lhes facultou, mais tarde, um melhor implante na escolha dos locais e das rotas das suas actividades comerciais. Vasco Fernandes Homem, que assume a chefia do que resta da expedição após a morte de Francisco Barreto, efectua um levantamento parcial das minas do Reino, apercebendo-se da sua fraca produtividade. No entanto, em 1589, Gatsi Rusere sucede a Nogomo e, tendo que fazer frente a revoltas intestinas no Reino, pede auxílio aos portugueses por troca da concessão das suas minas de ouro. Por essa altura já as matas são palmilhadas por muitos aventureiros, que se vão sedentarizando em diversas zonas do Reino, criando os seus próprios estados, enquadrados por temíveis milícias de escravos começando, assim, a ascenção dos prazos, que também ajudam à minagem do poder do Monomotapa. Entre 1611 e 1612 Dom Estevão de Ataíde (1) promove outra incursão militar a este Reino e ordena a construção de fortes e feiras que melhor cimentam a influência portuguesa. Os monomotapas tornam-se dependentes dos portugueses e, em 1616, necessitam do auxílio militar destes para fazerem face a convulsões internas, tendo para tal Belchior de Araújo, Capitão-Mor de Tete, acorrido em seu auxílio. Só em 1628 é que Nyambo Kaparidze, referido pelos portugueses como Capranzine, guerreia os seus opressores, auxiliado pelos reis do Quiteve e de Manica, o que origina a morte de centenas de portugueses. No entanto, a resposta portuguesa é fulminante e Diogo de Sousa, liderando um força militar portuguesa, reprime a revolta. Derrotado, Capranzine retira-se e, daí em diante, os  monomotapas são eleitos, muitas das vezes, consoante o interesse dos portugueses adoptando, inclusivé, nomes lusitanos como, por exemplo: Mazuva / Dom Filipe; Siti Kazumku Musapa / Dom Domingos. Em 1630 o Monomotapa Mavura expulsa os mercadores árabes ou arabizados instalados no seu Reino. Minados, os  monomotapas tornam-se vítimas do Changamire Dombo que, em 1693, lhes guerreia sem quartel, obrigando o Monomotapa Mandhé Pedro a refugiar-se em Tete, sob total alçada portuguesa. No início do século XVIII o Reino encontra-se em guerra civil que só terminará no início da segunda década desse mesmo século, fruto de lutas por sucessões dinásticas, ocorridas após a morte do Monomotapa Macombué. Dois dos seus filhos disputaram o poder a um outro, Nhacumnembire, que acabou derrotado e exilado no Reino de Changamire. Por volta de 1760 o Monomotapa Mupunzagatu foi assassinado, o que arrastou o Reino para outro período de guerra civil que originou, de vez, a quebra do que restava do poderio deste Reino, que acabou diluído em diversos regulados, ao sabor das conveniências portuguesas. Por esta altura as fronteiras do Reino estavam diminuídas e fixavam-se, parcialmente, na área de Tete, a sul do rio Zambeze. A principal causa da extinção deste Reino residiu na incrementação da política de instalação de novos prazos, nos quais os prazeiros, com os seus exércitos de achikundas munidos de armas de fogo, debelavam qualquer tentativa de autonomia. Contam-se, entre os prazeiros que assinaram a sentença definitiva do Reino do Monomotapa, Inácio de Jesus Xavier, João Lobo, José de Araújo Lobo,José do Rosário Andrade, Sebastião Morais de Almeida, Vicente José Ribeiro e Vicente Ribeiro da Fonseca. Em finais do século XIX o Monomotapa rebelar-se-á contra os portugueses, através do seu Rei Kandi e, depois, pelo seu filho Chioco, revolta essa que será definitivamente finda com a morte deste.

(1) - Já biografado a 01/02/2012.

Reino de Changamire - Vasta região do interior africano meridional, de limites incertos mas que se situava a Oeste do rio Save (territórios dos matabeles) no que é hoje o Zimbabué. Rico em minério, o seu ouro era comercializado em Sofala. Os seus chefes tiveram influência decisiva no Reino do Monomotapa, chegando a assumir a dinastia no decurso do século XVI. Foi um changamire, alto funcionário do Reino do Monomotapa que, em finais do século XV, rebelou-se contra o Monomotapa, assassinando-o juntamento com grande parte dos seus filhos. Cerca de cinco anos depois um dos filhos sobreviventes conseguiu executar o changamire, tendo os descendentes deste se refugiado no Reino do Butua. No decurso do século XVIII este Reino deu ampla protecção à feira do Zumbo, principal entreposto para exportação dos seus artigos para o litoral norte moçambicano, se bem que não autorizassem os comerciantes portugueses a penetrarem no seu território. Em 1743 o Changamire puniu forças suas que saquearam o Zumbo e, em 1772, outra expedição changamire salvou de novo esta feira, dum ataque das forças do Monomotapa Ganhambadzi, voltando-se a processar esta protecção em 1780. Os artigos comercializados giravam en torno do ouro, marfim, panos e missangas. A criação e posse de gado bovino era desenvolvida, não só por uma questão alimentar, mas também como forma de pagamento dos acordos nupciais, conferindo poder social e político, a quem possuísse grandes manadas. 


Reino do Quiteve - Integrava a nação chona e tinha a sua localização geográfica centralizada no actual Chimoio e estendia-se para Este até ao Dondo e para Oeste até Manica e, a Sul, até sensivelmente o rio Búzi. Presume-se que tenha sido em finais do século XIX que este Reino tenha iniciado um processo se separação do Reino do Monomotapa, o qual foi percorrido por António Fernandes, entre 1513 e 1514. Era rico, quer em agricultura quer em ouro e marfim e o seu Rei utilizava o título de "Sachiteve". Nas primeiras seis décadas do século XVI pouco se sabe deste Reino, havendo registos portuguese que, em 1561, entrou em conflito com o Reino do Monomotapa. Em 1574 o Sachiteve exige a Vasco Fernandes Homem que lhe indemnize os bens que este apropriava à força, acabando por o atacar na serra de Sitatonga, mas é derrotado e a sua capital incendiada. No ano seguinte submete-se aos portugueses, que lhe restituem os familiares aprisionados como reféns, tendo-lhes prometido também não vedar as rotas comerciais. Tornou-se independente do Reino do Monomotapa e, na relação com os portugueses, exigia a Sofala o pagamento anual da "curva", cifrada em 200 panos. Em 1640, auxiliado por Sisnando Dias Baião, o Sachiteve Peranha reassume o poder e reabre as terras do seu Reino aos portugueses. Este estado de graça durou apenas oito anos, altura em que mandou encerrar as minas de ouro e incrementar a agricultura, havendo a atestar tal facto, um relatório português que referia, em 1667, que o Quiteve não era produtor de ouro. Esta situação terminaria em 1676, quando diversos prazeiros mandaram assassinar o Sachiteve reinante e restauraram o domínio português. Em 1762 relatos portugueses referiam que o ouro deste Reino era de muito boa qualidade e que também era muito rico em marfim. Em finais do século XVIII o Reino do Quiteve era o mais importante economicamente, sendo apenas suplantado pelo do Monomotapa, tendo ainda sofrido um incursão militar portuguesa, por se ter aliado ao Reino do Changamire, a quem se avassalara. O primeiro quartel do século XIX apresenta-se turbulento, com crises dináticas em 1803 e instalação angune do chefe Nuqaba, que assolou a região entre 1827 e 1837, massacrando a família real em 1832. Dez anos depois o Reino é integrado no Reino de Gaza, por Manicusse, que entretanto derrotara Nuqaba. Manuel António de Sousa é nomeado Capitão-Mor do Quiteve e instala um conjunto de três aringas, que ligavam o rio Pungué ao Luenha, mas como o centro do Reino estava desprotegido este continuava a pagar vassalagem ao Reino de Gaza.


Reino do Butua - Nome atribuído pelos portugueses ao Reino dos povos chona-caranga, que se situava a Oeste do Reino do Monomotapa até ao princípio do deserto do Kalahari e, no sentido Norte-Sul, entre o actual Zimbabué (parte inferior) e o Transval, no que viria a denominar-se depois por Matabelândia (terra dos matabeles). O Butua, também referido pelos europeus como "Mãe do Ouro", era um dos reinos derivados do Reino do Zimbabué, tinha a sua capital em Khami e foi visitado por António Fernandes, que referiu ser o Reino muito rico em ouro. Pouco se conhece da estrutura interna deste Reino que não era vassalo do Reino do Monomotapa, com quem bastas vezes guerreava. Em 1640 estalou um guerra civil neste Reino, tendo sido massacrados diversos indivíduos ligados à corrente islâmica. Após ter sido deposto, o Rei do Butua pediu auxílio a Sisnando Dias Baião, que lhe reconquistou o trono abrindo, de seguida, o apetite a outros prazeiros que ali se instalaram. O Changamire Dombo ascende ao trono deste Reino e muda a capital de Khami para Danangombe, em finais do século XVII. 


Reino de Sedanda - Situava-se, geograficamente, a Sul do Reino do Quiteve. Estendia-se, sensivelmente, entre os rios Búzi e Save e terá sido visitado por António Fernandes, entre 1511 e 1512, podendo ter sido o seu fundador o Rei Inhamunda. Este Reino, em revolta contra o Reino do Monomotapa, do qual estaria avassalado, enviou em 1515 uma delegação a Sofala, a solicitar uma aliança com os portugueses bem como nomeação de representantes da Coroa Portuguesa na sua corte. Garantia, em troca, a liberdade de comércio e fornecimento de mercadorias. António Fernandes esteve nesse Reino, como representante dos interesses portugueses, entre 1517 e 1518, conseguindo aumentar o incremento comercial entre aquele Reino e Sofala. Em 1519 a situação piorou para os portugueses quando Inhamunda ordenou o bloqueio das rotas comerciais, confiscou mercadoria e escravizou enviados do Capitão de Sofala. Esta situação arrastou-se até 1526, apesar de cinco embaixadores do Reino de Sedanda terem visitado Sofala, em busca de resolução de conflito. Em 1526 Sofala fica cercada por forças do Reino de Sedanda o que obrigou o seu Capitão-Mor, Lopo de Almeida, a negociar, conseguindo-se o desbloqueio para as caravanas poderem circular. Após a morte de Inhamunda, parte deste Reino foi absorvido pelo Reino do Quiteve, obrigando os sedandas a rumarem para o Sul. No finaldo século XVI o Reino estender-se-ia do rio Save até à zona de Inhambane. Com a decadência de Sofala deu-se também a decadência deste Reino, tendo-se agravado no decurso do século XVIII, com a invasão de povos vindos do Sul, que se apossaram das suas riquezas. A posterior integração no Reino de Gaza e as actividades predatórias dos angunes levaram à quase destruição étnica, cultural e linguística dos sedandas, que se dispersaram no seio doutros povos, com quem se misturaram, o que também contribuiu para a sua auto-destruição.


Reino dos Tonga - No decurso do século XV ocupavam uma área que ia desde o rio Pungoé, a Sul, os rios Zambeze e Luenha, a Norte, e a Oeste e a Leste por diversas terras delimitadas por vários rios contando-se, entre eles, o Zangue, Mucua e Msicadzi. Culturalmente bem distintos dos chona-caranga, falariam uma língua com afinidades aos senas e o seu rei tinha o título de "Samungazi" que se corrompeu para o "Mongaz" português. Podem-se subdividir em dois grupos: os que se submeteram aos chona-caranga e ajudaram à formação do Reino do Barué e os que continuaram independentes e a resistir, quer aos monomotapas quer aos portugueses e angonis, entre outros. Dos tonga do Reino do Barué saíam as nomeações do "mukomowasha". Os tonga nunca foram integralmente dominados pelos monomotapas, que por diversas vezes pediram ajuda aos portugueses para os dominarem. Em 1572 batalharam os portugueses, contra a expedição de Francisco Barreto que, no entanto, contava entre os seus aliados tongas chefiados por Chombe e, apesar de vencidos, debelaram bastante as forças portuguesas e, de seguida, batalharam as forças do Monomotapa Nogono. No entanto, em finais do século XVI estavam formalmente avassalados ao Reino do Monomotapa. Em 1608 o Samungazi foi morto às ordens do Monomotapa Gatsi Rusere, que o desconfiava aliado dum rival, o que provocou a sublevação dos tongas. Em 1613 o Reino revolta-se de novo, o que obriga Diogo Simões Madeira a combatê-los, acabando por os derrotar, o que permitiu o restabelecimento do tráfego fluvial do Zambeze e o descongestionamento de Tete e das mercadorias para o reino do Monomotapa. Em 1640, um chefe Tonga, Sanapache, atacou diversos prazos, tendo sido repelido pelo prazeiro Lourenço Matos e, em 1667, face à constante prepotência dos prazeiros, despoleta-se nova revolta tonga, que acabou violentamente sufocada cinco anos mais tarde. Durante o século XVIII assistir-se-á à plena integração forçada dos tongas na política de consolidação dos prazos, desaparecendo este Reino, enquanto independente.



Dom Gonçalo da Silveira - (1523/1561) - Missionário jesuíta. Estudou na cidade de Coimbra, onde conheceu e se travou de amizades, para o resto da vida, com o grande poeta Luís de Camões que, mais tarde, cantará a morte do missionário na epopeia dos Lusíadas. Entrou para a Companhia de Jesus em 1543 e doutora-se em Teologia em 1550, em Espanha. Seis anos mais tarde segue para a Índia onde se manteve até 1560, tendo exercido o apostolado em várias partes do Oriente. Vai para Moçambique, decidido a ir ao Reino do Monomotapa, Reino este que lhe fora falado pelo Bispo católico de Cochim, Dom Jorge Temudo. Aporta à ilha de Moçambique em 05 de Fevereiro de 1560 e, acompanhado pelos padres André Fernandes e André da Costa, desce ao litoral de Inhambane, ao Reino Tonga. Demorando-se pouco e deixando aí os seus companheiros, regressa à ilha de Moçambique, onde organiza uma expedição religiosa ao tão falado Reino do Monomotapa. Atinge a corte do mesmo, depois de ter atravessado Quelimane, Sena e Tete, a 01 de Janeiro de 1561 onde é bem recebido. Encontra aí António Caiado, que lhe serve de intérprete, enquanto não domina a língua mocaranga, conseguindo autorização para exercer o sacerdócio junto dos súbditos tendo, inclusivé, baptizado com o nome de Sebastião o próprio Monomotapa. A facção árabe da corte, incomodada com a permanência dos cristãos, moveu-se junto do Rei convencendo-o que aquela expedição era a ponta de lança de uma futura invasão portuguesa, pelo que receberam autorização real para matarem o jesuíta. Alertado para a conspiração que se montava contra a sua vida, recusa abandonar a corte, mesmo a instâncias de António Caiado que, bem informado pelos seus espiões, sabia a noite em que iam matar o prelado. A tudo Gonçalo da Silveira recusou, preparando-se para ser assassinado, o que vem a acontecer na noite de 15 de Março de 1561, tendo o seu corpo sido lançado para uma lagoa, a nordeste da futura cidade colonial de Salisbúria. Os seus assassinos não lhe sobreviveram muito tempo pois, por decisão do Monomotapa, também foram mortos. 



António Caiado - (Século XVI) - Aventureiro e explorador. Viveu na corte do Reino do Monomotapa onde se consta que explorava minas de ouro, ofertadas pelo monarca, por volta de 1530. Aquando da primeira expedição portuguesa liderada por Dom Gonçalo da Silveira àquele Reino, António Caiado desempenhava também a função de Capitão de Portas (1) e serviu-lhe de intérprete não tendo, apesar de tudo, conseguido evitar que este fosse morto.


(1) - Capitão de Portas - A função de Capitão de Portas foi instituída pelo Monomotapa, antes dos portugueses lá terem chegado. Com o advento destes o cargo manteve-se, com a finalidade de gerir a comunidade portuguesa que demandava as terras do Reino do Monomotapa, mas passou a ser gerido só por portugueses. O Capitão de Portas era nomeado directamente pelo Vice-Rei da Índia, o que lhe dava autoridade sobre os portugueses e restantes europeus que frequentavam aquela feira e essa nomeação carecia do acordo do Rei do Monomotapa. No início estava estabelecido na feira de Massapa, que era uma das "portas" de entrada neste Reino (donde o título Capitão de Portas). Competia-lhe, não só a gestão e administração da justiça e cobrança de impostos das actividades comerciais bem como solicitar autorização do Rei para estes entrarem e saírem do Reino, para além da aplicação do "empata"  e era Provedor dos Defuntos (1A). As suas decisões eram inapeláveis e tinha direito de vida e de morte sobre todos os habitantes da feira. Por o relacionamento entre os portugueses e o Monomotapa passar pela sua "Mulher Grande" (1B), que era uma prerrogativa feminina, também se chamava ao Capitão de Portas a "Mulher Grande do Monomotapa".


(1A) - Provedor dos Defuntos - Cargo administrativo que tinha por função tratar de todos os assuntos relativos a um falecido, nomeadamente dos que não tinham familiares, facto muito comum na ápoca dos descobrimentos marítimos e da conquista territorial, assuntos esses que iam desde o registo do óbito e relato de suas causas ao funeral e arrolarem e zelarem pelos bens materiais do falecido, decidindo pelo seu destino competente.


(1B) - Mulher Grande - Nome dado, num harém, à primeira mulher casada e que, assim, se torna na principal.



Francisco Barreto - (1520 - 01/07/1573) - Oficial do Exército Português. Em 1548 vai para a Índia, como Capitão de Baçaim e, em 1555, é nomeado Governador da Índia, cargo que ocupou até Setembro de 1558. Durante a sua estada na Índia ganhou a alcunha de "Louco", fruto da sua audácia demonstrada nos combates em participou, colocando-se sempre à frente dos seus homens para dar o exemplo. Regressado à metrópole prosseguiu a sua carreira militar até que, por se encontrar arruinado financeiramente, aceitou a missão de comandar uma incursão ao Reino do Monomotapa, a fim de conquistar as minas de ouro e punir as afrontas que o Rei daquele potentado africano infligia aos portugueses contando-se, entre estas, a morte de Dom Gonçalo da Silveira, de quem Francisco Barreto fora amigo. Desembarca em Moçambique em 1570 e a expedição, iniciada no ano seguinte, salda-se num desastre total, culminando com a sua morte nas margens do rio Zambeze, sem atingir os objectivos. 

Vasco Fernandes Homem - (século XVI) - Explorador. Integrado na expedição punitiva ao Reino do Monomotapa, de 1571 e chefiada por Francisco Barreto, assume o comando da mesma em 01 de Julho de 1573, após a morte deste em Sena. Regressando a Sofala, com o que restava da expedição, volta a partir de novo, em 16 de Maio de 1574, para o Reino do Monomotapa, que percorre durante dois anos. Era proprietário de vastos territórios na região de Chironga, a Oeste do Reino do Quiteve, onde se dedicava à exploração aurífera. Apercebendo-se que as famosas minas de ouro do Reino, que tanta lenda tinham criado e tantas mortes e guerras haviam causado, não possuíam a riqueza que se presumia, desfez-se das suas terras e retornou a Sofala, de vez, em 26 de Setembro de 1576. Terá aqui falecido.