"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Karl Mauch

Viajantes, exploradores e aventureiros



Karl Gottlieb Mauch - (Stteten im Renstal (Alemanha), 07/05/1837 - Estugarda (Alemanha), 04/04/1875) - Explorador alemão. Apaixonou-se por África ainda na sua terra natal (Alemanha), onde exercia o mister de professor. Depois do Instituto Geográfico Alemão lhe ter recusado financiamento para explorações africanas, por não lhe reconhecer competência para tal, decide partir à aventura tornando-se embarcadiço num navio, para Durban, em 1864.










Lentamente começa a internar-se no sertão africano, elaborando mapas e recolhendo espécies animais e vegetais, que envia para a Alemanha, tornando-se mesmo num dos primeiros europeus a descobrir ouro, em Hartley Hills (Transval) em 1867. Adquire prestígio e o Instituto Geográfico Alemão altera a sua posição e começa a apoiá-lo, o que lhe permite aventurar-se mais ainda pelo interior africano.


Em 1868, contando 31 anos, inicia a que virá a ser a sua mais famosa expedição solitária. Tendo ouvido falar, por nativos, da existência duma grande cidade abandonada para lá das margens do rio Limpopo, as suas buscas acabam por o levar à descoberta das famosas ruínas de pedra do Zimbabué, no decurso do ano de 1871 e que mais não era que uma das cidades do Reino do Monomotapa*, tornando-se no primeiro europeu a descobrir tal civilização.


Imbuído do espírito da época, cujo paradigma assentava no eurocentrismo e faltando-lhe formação académica e arqueológica, já que era um autodidacta que se metera na aventura, recusa-se a aceitar que a civilização por si descoberta fosse obra de negros, mas sim que pertenceria a uma antiga civilização perdida de europeus. Baseando as suas ideias na Bíblia e nas lendas nativas que recolheu localmente, atribuiu as ruínas como tendo sido a capital do lendário Reino de Ophir, da Rainha de Sabá, amante do Rei hebreu Salomão, e onde ela guardaria parte do seu fabuloso tesouro.


Regressado à Alemanha escreve e publica o livro "The jounals of Karl Mauch - 1869/1872", mas viu as suas teses serem contestadas, incluindo pelo próprio Instituto Geográfico Alemão. Doente e sofrendo de depressões, buscou na morte voluntária a cura para a incompreensão a que fora votado pelo sociedade científica do seu País. Seria Gertrude Caton-Thompson** que estabeleceria, de vez, as raízes de origem africana da civilização do Zimbabué.


* - Já fichado.
** - A fichar.


Historiando Moçambique Colonial

Companhia do Mazane de Diu - Companhia comercial indiana que se estabeleceu na ilha de Moçambique a partir de 1686, quando o Vice -Rei da Índia concedeu, a partir daquele ano, à Companhia do Mazane de Diu o monopólio do negócio entre os dois territórios. O Mazane era uma entidade comercial que podia ter uma estrutura de carácter individual, familiar ou colectiva e de fortes recursos económicos e financeiros.

Intervinha na aquisição e troca de mercadorias, regulava o mercados dos preços, alugava ou comprava os meios de transporte que viesse a ter necessidade, estabelecia contactos e acordos com outras entidades, nomeadamente portuguesas, contratava pessoal e planificava a expansão do negócio.

Instalado, inicialmente em Diu, rapidamente alargou as suas áreas por diversas partes da Índia e, posteriormente, alargou a sua rede comercial a Moçambique. Tinha, a seu cargo, uma rede de funcionários com funções específicas, onde se podiam encontrar comissionistas, que eram gestores do negócio e que escolhiam a mercadoria e controlavam toda a contabilidade inerente à mesma, os caixeiros-viajantes que vendiam a retalho, os fiéis de armazém que guardavam a mercadoria e observavam a sua conservação, os alfaiates que costuravam e  reparavam os tecidos e todo um rol infindável de vendedores ambulantes, que palmilhavam os territórios do interior, mercadejando os produtos. Muitas vezes a orgânica comercial dos baneanes, moldada numa estrutura familiar, era geracional, fruto duma forte identidade de sangue que identificavam e caracterizavam as famílias hindus.

Em Moçambique, conluiando-se com as autoridades das áreas política, administrativa, fiscal e militar como cunha de entrada nos mercados, obtenção de monopólios territoriais e isenções fiscais, acabaram por correr com os comerciantes portugueses em muitas áreas, quando se apercebiam da sua fraqueza económica e fraco poderio militar.

No acordo de 1686 que foi estabelecido entre o Vice-Rei da Índia, o Conde de Alvor, e a Companhia de Mazane de Diu, e que entregava a estes o monopólio do comércio entre os dois territórios estabelecia-se, entre outras cláusulas, que: A) os funcionários portugueses davam prioridade e apoio aos seus negócios; B) os membros da Companhia estavam isentos de direitos aduaneiros sobre as importações e exportações; C) os compradores eram obrigados a pagar de pronto os bens adquiridos à Companhia, para evitar que esta ficasse com o capital empatado; D) os barcos da Companhia tinham prioridade sobre todos os outros, no tocante a facilidades alfandegárias e portuárias, reparação dos mesmos e recrutamento coercivo, caso fosse necessário, de tripulantes. A Companhia foi extinta em 1777.

////////

Aforamento - Nome dado às concessões feitas em Portugal, a partir do século XII e que tinham carácter enfitêutico no qual, através dum pagamento, que era anualmente estipulado, o enfiteuta assumia todos os direitos sobre o terreno. Tinha a finalidade de promover a agricultura no País, pois obrigava o enfiteuta a cultivar o solo. É na linha deste pensamento medieval que irá nascer, em solo moçambicano, a política dos prazos*.


Anil - Produto extraído das folhas da anileira, que é uma planta tropical herbácea ou arbustiva, da família das leguminosas, produto esse que era uma tinta que depois sofria um processo de desidratação. De tom azul servia para tingir diversos tipos de roupa. A sua cultura, em Moçambique, terá sido introduzida nas Quirimbas e na Zambézia,  no decurso do século XVII.


Baneane - Expressão portuguesa que se referia à casta hindu dos "vanias", comerciantes por tradição e integrados na Companhia do Mazane de Diu.

Boma - Paliçada defensiva que circundava as aldeias do Niassa, mas que apresentava no entanto um estrutura mais fraca e simples que as aringas* zambezianas.


Canarim - Indivíduo proveniente de Canará, localidade situada na antiga Índia portuguesa, e que era um espaço geográfico situado na costa industânica, entre Goa e Cananor.

Caneco - Termo depreciativo com que se referiam a pessoas de proveniência indiana e de baixo estrato social.

Monhé - Aportuguesamento da palavra "muinhe", que significa "senhor", tendo-se tornado num termo colonial depreciativo com que se referiam a pessoas de origem indostânica.

* - Já fichado.
*********************

Leituras

Através de amigo comum que nos apresentou, tive o privilégio de conhecer Francisco Xavier Valeriano de Sá, um dos mais profundos conhecedores da História da nossa presença na ex-Índia Portuguesa.

Nascido em Diu, completado os estudos secundários em Goa e universitários (economia) em Lisboa, para além de funcionário do BNU, Francisco Xavier de Sá dedicou-se ao estudo da história da presença portuguesa naquele antigo território indostânico, para além de se dedicar à fotografia, pintura e música goesa. 

Considero-o um erudito de fino trato e, sem dúvida, um Príncipe da Cultura, da "velha guarda" que o tempo, no seu inexorável andamento, se encarrega de fazer desaparecer. Sem complexos de esquerda ou de ser apodado de saudosista do passado, meteu a ombros a ingrata tarefa de biografar todos os políticos e religiosos que dirigiram os destinos daquele território, dando à estampa, depois de inúmeras dificuldades e sacrifícios financeiros, dois livros interessantes, a saber:

A) "Vice-Reis e Governadores da Índia Portuguesa" (Comissão Técnica de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999, 430 págs.), que contém o historial biográfico de todos os governantes lusos que lideraram a Índia, do primeiro (D.Francisco de Almeida) ao último (Vassalo e Silva). Como complemento deste trabalho monumental, o Autor deslocou-se àquele território e fotografou todos os retratos existentes na famosa Galeria dos Vice-Reis da Índia, galeria esta que foi idealizada e iniciada pelo Vice-Rei D.João de Castro. Salvou, para memória futura, todos este património iconográfico já que, de há muito, as pinturas estão em degradação face às inclemências climáticas (temperaturas e humidade elevadas) e ausência de competentes cuidados técnicos para preservação dos mesmos.

B) "O Padroado Português do Oriente e os Mitrados da Sé de Goa"  (Plátano Editora, 2004, 163 págs.), onde consta um resumo histórico do Padroado Português do Oriente, desde o seu início, à criação da Sé Metropolitana, Primacial e Patriarcal de Goa, bem como um resumo histórico dos Governos da Arquidiocese de Goa e do Patriarcado das Índias Orientais encorpando, depois, na relação cronológica dos governos e governantes da Diocese, Arquidiocese e Patriarcado de Goa, desde o seu início (1505) até ao final do milénio.

********************
Aconteceu

GovernoÀ sucapa, às escondidas, promoveu uma lei que impede as reformas antecipadas aos beneficiários da Segurança Social. Para salvar a dita cuja Segurança Social. Com o conluio do nosso inefável Venerando Chefe de Estado, esta Augusta Personalidade subscreveu o diploma e, depois, quiçá debaixo do braço dalgum contínuo, foi de mansinho, mui mansinho, para a Imprensa Nacional onde foi logo publicado.
"Prontes, já tá", penso que terão cogitado os nossos benditos governantes. Assim os malditos trabalhadores já não vão a correr pedir as reformas antecipadas.
Não sei porquê lembrei-me da música "Vampiros" de Zeca Afonso, quando ele canta: "No céu cinzento sob  o astro mudo/ batendo as asas pela noite calada / vêem em bandos com pés de veludo / chupar o sangue fresco da manada."

Assembleia da República - Na quinta feira, que antecedia o feriado pascal de sexta, os Senhores Deputados anteciparam o plenário para o período da manhã (que por norma acontece sempre no período da tarde). E, desta maneira singela, o Parlamento - a dita Casa da Democracia - os nossos Excelsos Representantes da Nação (ERN) puderam desaparecer, gozando umas mini-férias antecipadas.
A Função Pública, entre os quais os funcionários do Parlamento, o Sector Empresarial do Estado e o Privado trabalharam. Mas os ERN esses foram gozar à tripa forra.
Lá voltei a lembrar-me da música dos Vampiros: "São os mordomos do Universo todo / Senhores à força, mandadores sem lei / enchem as tulhas, bebem vinho novo / dançam a roda no pinhal do rei."

Mário Soares - Circulava, com  motorista, numa viatura do Estado a 199 km/hora na A8, quando foi interceptado pela BT da GNR. Perante a emissão da multa, no valor de 300 euros, reagiu dizendo ao motorista: "O Estado paga a multa". Lamentável este exemplo de como uma pessoa, com responsabilidades, dá aos cidadãos, não só do incumprimento da Lei como também de que  sejam outros (o Estado, ou seja eu, via impostos) a pagarem as tropelias dele. Oh "shôtor", "atão" custava-lhe muito pagar a porra da multa?
Não sei porquê voltei-me a lembrar do refrão dos "Vampiros" de Zeca Afonso: "Eles comem tudo / eles comem tudo / eles comem tudo / e não deixam nada."


"Tá" mal - Voltou-se atrás com a decisão de se nomear Teixeira dos Santos para a Caixa Geral de Depósitos. Lá seria mais um tacho. O ex-ministro, que foi um dos coveiros deste País (mas não o único), um pau mandado socratiano, talvez não tenha que esperar muito para lhe acomodarem qualquer coisita. Tadito, o homem também tem direito, que Diabo. Temos que ser democratas. Ou comem todos (um ou mais tachos) ou não come ninguém. Se os incompetentes deste País são premiados com tachos chorudos, tais como Freitas do Amaral (Presidente da ONU), Durão Barroso (Comissão Europeia), Victor Constâncio (BCE), António Guterres (Alto Comissário da ONU), Santana Lopes (Santa Casa da Misericórdia), por exemplo ou vão para paragens calmas, como José Sócrates (Paris), há que arranjar qualquer coisita.    

Foi escrito e dito


Coragem - Tem-se utilizado muitas vezes esta palavra para qualificar certas atitudes de governantes ou agentes desportivos nossos. "O ministro fulano de tal demonstrou uma coragem ao decidir isto ou aquilo", ou " o treinador fulano de tal demonstrou uma coragem ao não colocar em campo o jogador cicrano de tal" por exemplo. São comentários, essencialmente, na área política ou desportiva onde mais vezes tenho detectado o uso e abuso esta palavra.
E acho errado. Banalizou-se o sentido de "coragem". Actos de coragem acontecem dia-a-dia, praticados por anónimos. É o caso dos que lutam desesperadamente para salvar um filho da droga, trabalhando no duro em mais que um emprego para arranjarem dinheiro para pagarem desintoxicações; é o caso do bombeiro que arrisca a vida no meio dum incêndio para resgatar alguém que ficou retido no meio das chamas; é o caso do cônjuge que não abandona o seu parceiro atingido por uma doença fatal e luta desesperadamente ao seu lado até ao fim, sabendo da inevitabilidade do destino mas secando as lágrimas e indo de vitória em vitória até à derrota final; é... enfim, poderia enumerar aqui tantos casos de heroicidade anónima em que aqui, sim, há Coragem. E com "C" grande.
Agora o treinador que não põe certo menino a jogar ou o ministro que assina um diploma... meus senhores, tenham mais tento no uso de expressões. Para estas situações a nossa língua, que é muito rica, tem outros vocábulos: "dever", "obrigação", por exemplo.

Língua portuguesa - Sobre as hipóteses de um patrício nosso emigrar para o Brasil e tentar arranjar trabalho naquele País, a Visão nº 995 na pág. 62, sintetizou os pontos mais importantes para esse objectivo, facultando alguns conselhos. Num deles, refere: "A língua é a mesma: Só em teoria. A prática pode revelar-se desastrosa. Conselho essencial: fale devagar. E não se esqueça: fale devagar" (sic).
Pois é. E andámos nós a prostituir a nossa língua aos interesses económicos brasileiros, conspurcando-a por decreto.


Ricardo Araújo Pereira  (RAP) - Aliás sobre isto de ambos os países falarem a  mesma língua, foi humorizado por RAP, numa sua deslocação ao Brasil e num espectáculo que deu onde, no decurso do mesmo, humorizou: "Vou falar devagar. Não que seja retardado, mas porque sou português. Sei que para vocês é mais ou menos a mesma coisa, mas não é..." (retirado da Visão nº 995, pág.99)

Dinheiro - Interessante o artigo que li (Sábado nº 413, pág. 81) sobre um movimento que pretende acabar com o dinheiro fisicamente, e tudo passar a ser adquirido com cartões de débito. Exemplificando o caso sueco, que é um dos países onde cada vez circula menos dinheiro, as vantagens seriam, por exemplo, a diminuição de assaltos e de corrupção, atendendo a que todas as transacções electrónicas deixam registo. Para além do custo que orça aos contribuintes o fabrico, distribuição e garantia de segurança da circulação do dinheiro vivo.

*********************


Pensamento

"O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por gente inferior." - Platão, filósofo, 428AC - 327 AC.


********************


Seja uma pessoa culta e educada. Mande o Acordo Ortográfico à merda.

Todas as marcas ou produtos referidos no presente texto são incompatíveis com intuitos publicitários. As referências aos mesmos reflectem, apenas, a opinião do Autor e nada mais do que isso.


******************* 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Fernando Laidley

Viajantes, aventureiros e exploradores




Fernando Laidley - (Luanda, 1917 - Lisboa, 2010) - Aventureiro. Passa, neste corrente mês de Abril, o segundo aniversário do falecimento (por doença) de Fernando Laidley. Em 1955, acompanhado por José Guerra, pilotando ambos um Wolksvagen (o popular "carocha") que não tinha qualquer preparação especial, partem de Lisboa rumo ao continente africano e entrando por Marrocos, atravessam a Argélia, a Líbia e dirigem-se para o Egipto. Daqqui descem toda a costa oriental africana (Sudão, Quénia, Tanganica (actual Tanzânia), Moçambique e África do Sul) até ao Cabo da Boa Esperança. Daqui rumaram para o Sudoeste Africano, Angola, Congo Belga, África Equatorial Francesa, Nigéria, África Ocidental Francesa e, de novo, entram na Europa e param em Lisboa. Em cerca de nove meses tinham circundado, via terrestre, o continente africano, tendo sido a primeira equipa a conseguir tal feito.


Em 1957, acompanhado apenas dum pequeno leão, o "Boma", efectua a viagem entre Luanda/Lourenço Marques/Bissau ligando, via automóvel e pela primeira vez, as três províncias ultramarinas portuguesas situadas na placa terrestre africana. Depois de ter saído de Luanda e atingido Lourenço Marques, (sul de Moçambique), ruma para o centro desta Província e flecte para a Rodésia do Sul, entrando depois do Congo Belga e passando, de seguida, para a África Equatorial Francesa, percorre o Chade, Camarões, Nigéria (colónia britânica), Níger Francês e, finalmente, atinge a Guiné portruguesa, chegando a Bissau.  


Posteriormente, em 1960, Fernando Laidley fará outra ligação, via automóvel, partindo de Lisboa e chegando a Goa, depois de ter travessadso a Europa (Espanha, França, Itália, Jugoslávia, Grécia) entrado na Turquia e atravessado a Pérsia e o Paquistão. Em Carachi ultimou a viagem de barco, para não ter que entrar na Índia independente. Estava-se em vias de se perder o Estado da Índia Portuguesa, face às reivindicações da toda poderosa República da Índia e esta viagem servia os proprósitos políticos do Estado Novo, de quem Fernando Laidley foi sempre um incondicional apoiante, para efeitos de propagandear a presença portuguesa naquele longínquo território.

Estas três viagens deram notoriedade nacional (e também alguma internacional) a Fernando Laidley, tornando-o num filho querido do regime. Efectuou outras viagens de menor impacto mas sempre todas elas inseridas num espírito de aventura e de servir a causa nacional.

Em 1990 efectua o seu último e grande périplo. Aos 70 anos de idade efectua o 1º Raid Trans-Saariano Duplo Planalto do Tassili, num total de 12.000 quilómetros, metade dos quais em pleno deserto saariano. Foi obra.


Neste interim efectuou múltiplas outras viagens quer pelo continente africano quer pelo Oriente (Macau e Taiwan). Quando rebentou a guerra em Angola (1961) esteve no Norte daquele território a efectuar reportagens de guerra.

Tive a felicidade de conhecê-lo há uma década e meia atrás e, desde o princípio, criou-se entre nós uma excelente empatia. As nossas crenças políticas, apesar de opostas, não beliscaram minimamente a nossa amizade. Aliás, Fernnado Laidley tinha a distinta "lata" de, conservador e monárquico como se assumia dizer, com notório exagero, na sua roda de amigos que o melhor amigo dele era "um comunista". Deixou-me a incumbência de, um dia, quando eu entendesse a melhor altura, dar a conhecer os seus apontamentos sobre a última viagem que efectuou no deserto do Sahara, viagem esta que nunca chegou a publicar. Já ninguém se interessava por ele. O regime tinha caído e outros valores se levantavam. Curta é a memória dos homens.


Deixou vários livros escritos, que hoje apenas se encontram em alfarrabistas. Destaca-se o "Roteiro Africano", que relata a odisseia da 1º volta a África; "Missão em África",  que relata a viagem que efectuou acompanhado dum leão entre Luanda/Lourenço Marques/Bissau e "Missão na Ásia"; que se reporta à ligação automóvel de Lisboa a Goa. Sobre a guerra em Angola publicou "Missões de guerra e de paz no norte de Angola" e sobre outras viagens que efectuou escreveu "Reportagem em dois continentes".


Foi um homem que amou até à exaustão a sua Santíssima Trindade: as mulheres, África e os desertos. Contava por várias as mulheres que amara, por dezenas os países que visitara e por milhares os quilómetros que guiara.




Historiando Moçambique Colonial



Prazo - A palavra "prazo" significa aforamento, período de  tempo acordado ou convencionado para a realização de alguma coisa, como também pode significar esfera de influência ou jurisdição. Assim, os Prazos da Coroa seriam o outorgamento dum direito real por um determinado período de tempo, dos terrenos da Coroa.


Os portugueses, em meados do século XV, dominavam as rotas marítimas da costa oriental africana, nunca tendo sido sua política penetrarem no interior do continente. No entanto, a busca do ouro, do qual o Reino do Monomotapa* era, aparentemente, rico levou os portugueses a penetrarem no interior do Zambeze. O enfraquecimento do Monomotapa, acabando por se transformar num fantoche nas mãos dos portugueses, aliado à miragem do ouro e da prata nas minas nunca alcançadas no seu Reino, levou a que centenas de aventureiros de várias nacionalidades palmilhassem o mato zambeziano, até Tete, constituindo pequenos principados particulares, que foram crescendo em anarquia e ao sabor da lei do mais forte.


Os novos conquistadores, mercê do poder das armas de fogo, substituíram-se aos chefes locais, criando exércitos privados com os seus escravos (achikundas*) e tornando-se senhores de vastas áreas. No fundo tornaram-se régulos de raça branca, mas cafrealizados. A falta crónica de mulheres brancas levou-os a constituírem haréns com mulheres nativas e os filhos, mestiços, eram os seus herdeiros. Começou-se, assim, a correr o risco dos conceitos da civilização branca e cristã acabarem por ser absorvidos pela africanização do estilo de vida dos conquistadores.


Fruto disso, bastas vezes estes indivíduos entraram em conflito com a Coroa Portuguesa e, se bem que no fundo aceitassem a sua origem portuguesa e, por arrastamento, a soberania da bandeira real, já não admitiam que a Coroa interferisse nos seus domínios, onde eram senhores absolutos.


Mas este hibridismo cultural levava também aos novos senhores feudais a necessitarem do apoio da Coroa quando, por exemplo, surgiam disputas territoriais sobre os limites das suas terras com os seus vizinhos. A Coroa Portuguesa, por seu lado, não queria perder a soberania das terras mas o caso zambeziano era típico, pois a conquista das mesmas não fora orientada e planificada por si, mas sim ao sabor do aventureirismo particular. A necessidade também dos conquistadores, por vezes, terem das tropas da Coroa os auxiliarem nas suas guerras contra os gentios rebeldes, acabou por levar a uma solução de consenso entre as partes.


Assim, vamos encontrar no início do século XVII, na zona da Zambézia, múltiplos brancos já africanizados, exercendo o poder total em vastas áreas, poder esse adquirido pelas suas iniciativas individuais, mas ainda carentes do auxílio da Coroa, para apoio militar e regulamentação jurídica das suas propriedades, por um lado e, por outro, a Coroa Portuguesa que, detendo um direito histórico de planificação de conquista não o levara a cabo, mas  também encontrando-se aberta a abrir mão a prerrogativas que lhe eram caras, para não perder a soberania total nesses mesmos territórios. Por volta de 1613 os Dominicanos tomaram a iniciativa de solicitar à Coroa o reconhecimento do seu direito sobre terrenos que lhe tinham sido doados pelo Capitão D. Nuno Álvares Pereira, admitindo-se que tenha sido este o primeiro passo, direccionado à Coroa, para que esta aceitasse uma situação de facto.


Anteriormente, a Coroa Portuguesa tinha reconhecido ao comerciante Diogo Simões Madeira** a posse de terrenos que lhe tinham sido doados pelo Monomotapa Gatsi Rusere, como prémio por serviços prestados. Como não havia regulamentação jurídica para estas situações, em 1618, o Rei de Portugal concede ao Vice-Rei da Índia, de quem Moçambique dependia, poderes para legislar em relação às terras da Zambézia. Até aí existia apenas uma determinação da Coroa que impunha que os portugueses do interior obrigavam-se a obedecer à Coroa e a administrar as terras conforme o Monomotapa decidisse. 


Assim, a partir de 1629, a Coroa começou a reconhecer "de jure" os direitos dos proprietários dos terrenos, independentemente do modo como os haviam adquirido e que podiam ter sido por actos de guerra, casamento ou doação. Era reconhecido o direito à posse da terra a quem quer que a requeresse, mas limitava o período de posse a três gerações, sendo a sucessão obrigatoriamente pela linha feminina e as herdeiras eram obrigadas a casar com portugueses brancos ou seus descendentes, não poderiam abandonar o prazo, que passava a ser o seu local de residência, tinham que pagar um foro e a fornecerem exércitos armados quando a Coroa os requisitasse. A concessão do prazo caducava após a terceira geração, podendo a Coroa renovar à mesma família ou outorgá-la a outra. Dentro dos seus domínios o prazeiro geria-o como quisesse e entendesse, tendo total autoridade e sem ter que prestar contas a ninguém.


Esta ordenação jurídica, na qual o Estado transfere toda a sua autoridade para o prazeiro, por um período de três gerações e enquanto este reconhecesse a soberania da Coroa, remonta a uma disposição legal da Idade Média, que era a Lei das Sesmarias, a qual foi promulgada em Portugal, País eminentemente agrícola, pelo Rei D. Fernando, em 1376, com o fim de desenvolver a agricultura. Assim, ao publicar essa Lei, pretendeu-se desenvolver a agricultura, obrigando os proprietários das terras a cultivarem as mesmas e, caso não o fizessem, seriam obrigados a entregarem o cultivo das terras abandonadas a outros, por um período de tempo a determinar entre as partes. No decorrer do tempo acordado todos os direitos do proprietário passavam para o cultivador das terras, chamado "sesmeiro". Mais tarde, o Rei D. Afonso V reestruturou a Lei, dividindo os contratos em duas categorias: o emprazamento e o aforamento. No primeiro todos os direitos eram completamente transferidos do proprietário para o cultivador e no segundo caso o proprietário mantinha todos os direitos, cobrando apenas uma quarta parte do cultivo. Esta última forma de contrato tinha, por período de tempo, uma vida mas, com o evoluir dos anos, acabou por se fixar em três gerações.


Verifica-se, assim, que os Prazos da Coroa são uma fusão do emprazamento - transferência completa de todos os direitos do proprietário para o cultivador, ou seja da Coroa para o colono - e do aforamento - atribuição do prazo por três gerações - pelo que se pode, perfeitamente, considerar que a linhagem de jurisprudência dos prazos zambezianos vem na linha sucessória da Lei das Sesmarias.


Tem-se questionado qual o poder dos senhores dos prazos (prazeiros), se seriam meros funcionários administrativos, tipo governadores de terras que recebiam ordens e executavam-nas ou se exerciam o poder total. É de crer na segunda posição. Efectivamente, não é viável que tendo os prazos sido construídos à revelia da Coroa, por rasgos individuais e de forma violenta e tirânica, viessem depois esses mesmos conquistadores aceitarem comportar-se docilmente perante os ditames da Coroa. Aliás, a história biográfica de inúmeros prazeiros zambezianos mais reforçam esta opinião de rebeldia para com o poder central. No limite dos seus prazos, os senhores eram absolutos: executavam todos os actos políticos, administrativos, religiosos, lançavam impostos e cobravam-nos,decretavam guerras, tinham poder de vida e de morte sobre os seus habitantes e administravam a justiça a seu bel-prazer. 


Autênticos potentados do sertão zambeziano, de grandes casas senhoriais recheadas de haréns, sem obedecerem a ninguém a não ser na aceitação da soberania da Coroa - e, mesmo assim, muitos deles até isso discutiram -  comandando exércitos privados de milhares de homens e donos de terras imensas, estes predadores de terras e gentes, a ferro e fogo entraram na lenda moçambicana, provocaram um hibridismo cultural e foram o ténue elo de ligação entre África e Europa.


A rápida integração dos aventureiros portugueses nas sociedades tribais ter-se-á, fundamentalmente, devido a três factores: A) o de terem encontrado nas sociedades africanas um sistema feudal idêntico ao que tinham deixado na Europa; B) terem atacado as chefias mas não mexendo na estrutura tribal; C) terem encontrado o Reino do Monomotapa em fase de declínio e a ajuda do poder das armas de fogo.


Dentro dos prazos a população dividia-se, essencialmente, em escravos armados que eram os achikundas, e os colonos indígenas. Os escravos integravam-se nos exércitos dos prazeiros e os colonos indígenas, autênticos servos da gleba, dedicavam-se à agricultura. Por a agricultura ser apenas de subsistência e por o poderio dos prazeiros assentar na extensão territorial e manutenção dum poderoso exército, verificava-se que o escravo achikunda tinha um melhor estatuto social que os colonos indígenas.


A 07 de Abril de 1760 o Conselho do Ultramar, numa tentativa de disciplinar a  extensão territorial dos prazos ordenou, numa Provisão, que os prazos das regiões interiores não poderiam ultrapassar as três léguas quadradas e os prazos sitos ao longo da costa e dos rios, ou que possuíssem minas, não ultrapassassem uma légua quadrada e, em 25 de fevereiro de 1779, emite outra Provisão que determinava que os arrendatários residissem nos mesmos. No entanto, quer esta quer outras disposições legais, nunca foram cumpridas, quer porque a administração portuguesa era fraca e corrupta quer porque os prazeiros eram ricos e poderosos. No decorrer do século XIX começam a aparecer prazeiros a dedicarem-se à agricultura, abandonando a política belicista. Em 22 de Dezembro de 1854 e em 24 de Outubro de 1880 são publicados dois Decretos que extinguem os prazos, mas este regime de extinção foi revisto em 18 de Novembro de 1890 por António Enes** e regulamentado, de novo, por uma Portaria de 07 de Julho de 1892.


Até à década de 30 do século XX os prazos existiram na Zambézia, pois a publicação do Decreto nº 5713 de 10 de Maio de 1919 autorizava a existência dos mesmos provisoriamente e a sua liquidação, necessária com o advento do capitalismo e a criação de companhias majestáticas**  custou, à Coroa Portuguesa, muitos dissabores e lutas intestinas contra estes senhores da guerra, de terras e de gentes, que nunca quiseram abrir mão dos pergaminhos conquistados pelos seus antepassados.


A política dos prazos zambezianos durou cerca de 300 anos e, desde o longínquo tempo do Reino do Monomotapa até aos alvores do século XX (nascimento e morte dos prazos) foi a única maneira que os portugueses tiveram para conseguirem penetrar no interior do centro de Moçambique.



Manuel António de Sousa - (Goa, 1835 - Barué, 1892) - Prazeiro. Oriundo de Goa, foi um dos dos mais famosos e poderosos senhores da guerra do século XIX, tendo mantido sempre uma fidelidade total à bandeira portuguesa. Puro predador de gentes e de terras, chegou a Moçambique aos 18 anos de idade, tendo combatido sempre ao lado dos portugueses durante cerca de 30 anos, criando um exército de milhares de homens e usando como nome de guerra "Gouveia".


Formou o Estado Secundário da Gorongosa** onde se instalou por volta de 1854/55 e era Capitão-Mor de Manica e Quiteve, cargo para que foi nomeado em 1863. Dominou a Revolta do Massingir** e integrou forças suas nas segunda e terceira expedições militares contra o Bonga**.


Em 1887 vem a Lisboa, onde é condecorado e promovido a Coronel de Segunda-Linha pelo Governo de Lisboa, como prova de reconhecimento dos seus bons ofícios à causa portuguesa. Apodera-se do trono do Reino do Barué*, fruto do casamento que firmou com uma filha de Chipatata e eliminando potenciais candidatos ao trono baruísta, atingindo o zénite da sua vida aventurosa.


Juntamente com Paiva de Andrada* e João de Resende foi preso pelas foças da BSAC (de Cecil  Rhodes*) na zona de Manica, começando aqui o seu declínio, pois os seus lugares-tenentes (Cambuenba*, Luis da Gorongosa, Guizi) aproveitando a sua prisão, abandonam-no. Libertado da prisão sul-africana, por pressão do Governo Português, tenta reconquistar os seus domínios, entretanto rebelados por o suporem morto.


Na tentativa de retomar o Reino do Barué, ataca as forças de Hanga*, em Inhachirombe, acabando ferido e abandonado pelos seus. Reza a história que terá sido seteado por uma criança que o viu escondido e ferido, no mato, quando fugia depois da derrota de Inhachirombe. O seu crâneo ornamentava a aringa* de Hanga que também usava, pendurado no pescoço, o seu anel.



Através duma Portaria Provincial, assinada em 25 de Janeiro de 1915, o Governador-Geral Joaquim José Machado** determinou que a vila de Catandica passasse a denominar-se Vila Gouveia, em homenagem a Manuel António de Sousa.

* - Já fichado.
** - A ser fichado.

********************************



Aconteceu

Faleceu António Tabuchi. Um italiano que amou Portugal, que divulgou a sua cultura, que estudou Fernando Pessoa. Um livre-pensador, um  europeísta. Um Homem sem fronteiras. Portugal deve-lhe muito. Espero que a sua memória seja perpetuada no nosso País.
Porque, por mim... obrigado Tabuchi, por tudo o que me deste.




Está a acontecer



Exposição fotográfica alusiva ao 25 de Abril. Na Biblioteca Museu da República e da Resistência (Lisboa), de 02 a 30 de Abril corrente.


Vai acontecer


Conferência evocativa da passagem do 20º aniversário do falecimento de Salgueiro Maia. Serão oradores Vasco Gonçalves e Maria Inácia Rezola. No próximo dia 03 de Abril, pelas 18H00, na Biblioteca Museu da República e da Resistência. Entrada livre.




****************************


Foi dito



"Entre o governo que faz o mal e o povo que o consente há uma certa cumplicidade vergonhosa". (Victor Hugo). Não sei porquê, ao ler esta frase, lembrei-me da segunda vitória eleitoral que José Sócrates teve, nas legislativas. E não só.



**************************
Defenda a sua língua materna. Recuse-se a escrever com as normas do actual Acordo Ortográfico.


Todas as marcas ou produtos referidos no presente texto são incompatíveis com intuitos publicitários. As referências aos mesmos reflectem, apenas, a opinião do Autor e nada mais do que nisso.


******************************





sábado, 24 de março de 2012

Mary Mitchel Slessor

Mary Mitchel Slessor



Mary Mitchel Slessor - (Aberdeen (Escócia), 02/12/1848 - Calabar (Nigéria), 13/01/1915) - Missionária da Igreja Presbiteriana Unida da Escócia.

Cresceu no seio duma família pobre, filha de pai alcoólico e tendo seis irmãos. Desde muito nova que começou a frequentar a Igreja local, tornando-se profundamente religiosa. Será, aliás, a sua profunda reliogisidade que a acompanhará até ao fim dos seus dias e que lhe dará forças para as provações que sempre suportou. Em 1859 a família muda-se para Dundee, mas a vida continu a não lhes sorrir fruto do vício do chefe de família. Com onze anos de idade é obrigada, tal como a sua mãe, a ir trabalhar na indústria têxtil, para reforçar o provento familiar, trabalhando durante doze horas na fábrica, onde só tinha duas horas para refeições. Os estudos ressentem-se e a fome é uma constante na casa familiar, onde o alcoolismo do pai roubava os magros proventos para sustentar o seu vício. Só com a sua morte é que, lentamente, a vida começou a suavizar-se na família. Durante 14 anos trabalha na fábrica, sempre doze horas por dia, para além de ao fim de  semana refugiar-se na Igreja.

O seu sentir missionário começa a avolumar-se, desde que, em criança, lera histórias de missionários que a sua Igreja tinha, em diversas partes do Mundo, desde a China ao Calabar. A morte de David livingstone, outro missionári escocês, oxorrida em 1874 veio a despoletar de vez essa sua intenção de partir. Inspirando-se na obra de David Livingstone, a 05 de Agosto de 1876, Mary Slessor parte de Liverpool, a bordo do "Etiópia" com destino a uma Missão da Igreja Presbiteriana Unida no Calabar (ao sudeste da actual Nigéria), como professora-missionária, onde chega a 11 do mês seguinte, ficando colocada em Duke Town, durante quatro anos. 


Em 1879 retorna à Europa a tratar-se,por doença, regressando ao Calabar no ano seguinte, onde lhe encarregam de tratar dos assuntos femininos na Cidade Velha. Aqui ficará dois anos, sendo a única europeia ali a viver. Em 1883 vem de novo à Escócia, para novos tratamentos da sua saúde debilitada, onde fica durante dois anos. No regresso ao Calabar o seu destino é ir viver no meio da tribo Ibaca, a pedido do seu rei, Ocon. Depois segue a fixar-se em Town Creek, onde fica seis meses.

Colocada, inicialmente, em missões litorais conseguiu, após várias insistências, ser colocada no interior  do território, onde só iam homens, pois eram terras de caçadores de cabeças e de canibais. Assim, a 03 de Agosto de 1888, parte para a aldeia de Okoyongo onde chega, depois duma violenta jornada, por rios e trilhos, onde a fome, as roupas encharcadas e, sendo a única pessoa europeia na viagem, a ter que confiar nos acompanhantes de circunstância, tornaram a viagem num pesadelo.

Durante cerca de 40 anos exerceu o seu apostolado no Calabar, superintendo várias missões no interior do território. De tudo um pouco esta valorosa mulher viu, assistiu e interveio, sempre que pôde na defesa dos fracos, dos oprimidos, dos humilhados. Desde mercados de escravos onde resgatou crianças; passando por crocodilos a procurarem pessoas junto dos rios; a um hipopótamo ter virado uma canoa onde seguia, só se tendo salvo por lhe ter atirado com uma panela para a bocarra; a suspeitos serem obrigados a mergulharem um braço em óleo a ferver para demonstrarem a sua inocência; a viúvas serem mortas para acompanharem os defuntos na outra vida; a gémeos serem amaldiçoados e mortos por serem obra de demónios, tendo salvo alguns; a salvar uma aldeia inteira de ser chacinada por alguns habitantes terem sido culpados pelos feiticeirtos pela morte do filho dum chefe tribal; a evitar conflitos bélicos entre tribos locais por questões de posse de gado ou de mulheres; de tudo o que se possa imaginar nessa antiga África do obscurantismo, do paganismo e da surpestição, Mary Slessor viveu. Viveu e combateu. 

A sua coragem de dizer "não" à barbárie, na cara dos que ordenavam tais barbáries; o exemplo abenegado que deu por várias vezes na defesa da vida de pessoas que a buscavam em fuga; a recusa no aproveitamento de bens materiais para seu próprio benefício; a altivez com que se apresentava perante potentados locais e olhava-os de frente sem medo; o ter demonstrado por várias vezes não recear a morte em exemplos nobres de resgate de pessoas; tudo isso grangeou-lhe respeito e admiração entre os nativos, que carinhosamente a apelidavam de "Ma" (Mãe). 

Ainda veio por mais duas vezes à sua Escócia (1898 e 1907), sempre em tratamentos das doenças tropicais mas, em 1908, regressa a África, de vez, onde virá a falecer.

Por tudo o que viveu, por tudo o que deu, por tudo o que fez, esta lendária mulher coragem entrou na História como a "Rainha Branca do Calabar".



Historiando Moçambique Colonial


Banto - Palavra criada pelo filologista Black (século XIX), estudioso das línguas dos povos da África Austral, que reparou que a raiz "tu" ou "ntu" (pessoa) era comum a tdos os idiomas. O plural desta raiz "ba-ntu" (povo, gente) generalizou-se e adoptou-se para designar todos os povos, a Sul do Equador, com uma remonta origem linguística comum.


Cambuemba - (?/?) - Lugar-Tenente de Manuel António de Sousa*. Quando este foi preso, juntamente com Paiva de Andrada e João de Resende, pelas forças da BSAC de Cecil Rhodes, em 1890, Cambuemba, juntamente com Luís da Gorongosa e Ghizi, também eles lugares-tenentes de Manuel António de Sousa, entraram em rota de colisão com os interesses portugueses. Batalhando sempre a Companhia de Moçambique, Cambuemba, operando a partir da sua aringa de Chemba, entre 1893 e 1896, expulsa dos prazos de Chiramba e Tambara os portugueses e chega a isolar Sena. Em 1896 estabelece acordos com o Bonga de Massangano e com o Reino do Barué.
Em Maio de 1897, sendo um dos líderes da revolta tonga, expulsa os europeus de diversos prazos, bloqueando a navegação fluvial do baixo Zambeze e voltando a provocar o isolamento de Sena. No entanto acaba derrotado, em Setembro desse mesmo ano, face ao poder de fogo das forças portuguesas, tendo estas conseguido uma vitória plena, destruindo quase todas as aringas inimigas,prendendo a maioria dos amambos senas e tongas e liquidando centenas de rebeldes.
Cambuemba refugia-se no Reino do Barué, na corte do Makombe Hanga*, que congrega à sua volta todos os opositores aos portugueses, juntamente com Luis da Gorongosa e Guizi. Em 1900 Hanga nomeia-o comandante das forças baruístas, apesar de ser do povo tonga e, dois anos mais tarde assume, directamente, a defesa de Missongue, a capital baruísta, contra o ataque português liderado por João de Azevedo Coutinho*.
Tendo sido derrotado nessa batalha acaba preso, na sequência da mesma, tendo sido deportado a ferros para a ilha de São Tomé, onde virá a falecer. 


* - A ser biografado.


Chibalo - Trabalho forçado. Era uma medida arbitrária e violenta, que a autoridade administrativa colonial impunha, justificando-se quase sempre com o argumento da indolência típica dos nativos. Ainda vigente no decurso do século XX, génese de muitas revoltas nativas contra os portugueses como, por exemplo, no Barué, aquando da ligação duma estrada de Tete para Macequece.
Pelo seu estilo de escravatura que esta medida impunha, as autoridades coloniais quase nunca pagavam o trabalho ou, quando o faziam, era de forma insuficiente. O conluio de régulos com a administração colonial, que os presenteava quando lhes arranjavam braços, contribuiu para queda do prestígio desta instituição no seio das populações.


Hanga - (?-Rodésia do Sul, 1910) - Makombe baruísta. Sucede a seu pai, Chipatata, depois de ter vencido outros pretendentes. Insubmisso aos portugueses consegue congregar, à sua volta, outros opositores dos mesmos, ultrapassando o conceito tribal. É assim que o vemos nomear, para o comando das suas forças, Cambuemba, que era tonga, o mesmo se passando para a nomeação do mukomowsha, bem como o ter-se aliado aos angunes e celebrado casamentos com  mulheres senas. Derrotou Manuel António de Sousa, que acabou morto pelas suas hostes. Em 1902, depois da queda de Missongue, capital do seu Reino, refugia-se na Rodésia do Sul e continua a fomentar revoltas contra os portugueses.  


Reino do Barué - A nação barué, desde sempre independente, situava-se a Norte do Reino do Quiteve, tendo como outros limites geográficos a Gorongosa a Este, a Zambézia a Norte e, a Sul, o rio Pungoé, sendo a sua população formada, principalmente, por chonas e carangas e que se fundiram, mais tarde, com tongas.
Os seus reis tinham o título de "makombes". Avassalado ao Reino do Monomotapa, em 1608 revolta-se contra o  Monomotapa Rutsi Ruserere, adquirindo a sua independência, mantendo-a até finais da década de 20 do século XVII, altura em que a perde momentâneamentenpara o prazeiro António Lobo da Silva.
Na primeira metade do século XVIII o Reino estende os seus domínios para Sul, até às margens do rio Luenha. Em 1788 o cientista Manuel Galvão da Silva percorre o Reino, que apresenta uma boa estabilidade política, marcando mesmo a sua independência pelo afrontamento que impõe aos portugueses, que têm que lhe pagar tributos, para poderem percorrer os seus territórios.
Entre 1828 e 1830, devido a uma crise dinástica, o Barué esteve sem Makombe, tendo o novo Makombe aceite um tratado de livre trânsito com as autoridades portuguesas. O Reino sofre incursões angunes entre 1834 e 1838 e surge nova crise dinástica, em 1846, quando surgem dois pretendentes: Chibudo e Chipatata, sendo o primeiro protegido por Muzila* que, no entanto não o consegue entronizar, acabando o segundo por ascender a Makombe.
Este Reino era desejado por Manuel António de Sousa* que, desenvolvendo a sua política de anexação deste território, guerreou e submeteu os senas e tongas, povos súbditos do Barué, o que obrigou Chipatata a aliar-se a Bonga*, de Massangano, inimigo jurado de Manuel António de Sousa. No entanto tal aliança não colheu frutos, o que acabou por obrigar Chipatata a reconhecer a superioridade militar de Manuel António de Sousa pelo que, em 1869, é este senhor da guerra quem salva o Reino do Barué de nova ameça angune.
No entanto Chipatata acabará por pagar caro tal aliança pois, ao permitir o casamento duma sua filha com Manuel António de Sousa, acabará por entregar o Reino nas mãos deste predador. Hanga, filho de Chipatata, consegue reunir à sua volta chefes baruístas que estavam descontentes com Manuel António de Sousa e conspiram contra o mesmo, mas acaba derrotado e foge para junto do Bonga de Massangano, onde se exila durante alguns anos, até 1890, quando as forças da BSAC de Cecil Rhodes** prendem Manuel António de Sousa, que escoltava Paiva de Andrada** e João de Resende, levando-os a todos para a África do Sul. Aproveitando este revés do seu inimigo, Hanga consegue sublevar o Barué e ainda capta a confiança militar de importantes lugares-tenentes de Manuel António de Sousa para as suas hostes:Cambuemba, Capovo, Luis da Gorongosa e Guizi (1).
Após se ter libertado da prisão sul-africana, por pressão do Governo Português junto das autoridades londrinas, Manuel António de Sousa parte à reconquista do Barué, com  o apoio de forças militares portuguesas, comandadas por João de Azevedo Coutinho*, mas acabará ferido e morto pelas forças de Hanga, que exibirá o seu crâneo como troféu valioso. Assim se reconquista a independência do Barué, em 1892, mas o Reino será atravessado por uma crise dinástica, pois ao trono perfilam-se Hanga e também Samaconde, ambos filhos de Chipatata. Samaconde acaba por ascender ao poder, em 1894, desenvolvendo uma política favorável aos portugueses mas acabará derrubado anos mais tarde, refugiando-se na Rodésia do Sul, onde morrerá exilado. Assim, Hanga ascende ao trono baruísta tornando-se, em difinitivo, Makombe, se bem que ainda tenha que derrubar outro rival, de nome Chipitura, acabando este por morrer em 1899.
A fim de fazer face à ameaça portuguesa Hanga tentou estabelecer acordos com o Bonga de Massangano e com os angunes, mas não logrou ter êxito nestas tentativas. Aliando-se aos tongas, Hanga trava a sua última batalha, em 1902, quando as forças portuguesas, de novo comandadas por João de Azevedo Coutinho,invadem o Reino em finais de Julho desse ano. Com a queda de Missongue, a capital do Reino do Barué, Hanga refugia-se na Rodésia do Sul, onde morrerá, em 1910.
O seu filho, Chikwore, sucede-lhe e subleva várias regiões de Tete e da Zambézia, em finais de Março de 1917, acabando derrotado por forças portuguesas no findar desse mesmo ano, pelo que, à semelhança do seu pai, refugia-se na Rodésia do Sul. As razões desta revolta prenderam-se com o recrutamento obrigatório de carregadores para a guerra que se travava contra os alemães (I Guerra Mundial, que será dissecada mais à frente) no Norte de Moçambique; com a imposição do imposto de palhota e com as brutalidades praticadas pelos sipaios nas populações indefesas, obrigadas a trabalhar em regime de escravatura (chibalo) na construção duma estrada que ligava Tete a Macequece.
Mas o Reino do Barué ainda iria provocar algumas dores de cabeça aos seus novos senhores pois, no ano seguinte, Makosa, primo de Chikwore, que ascendera a Makombe após a derrota e exílio do seu familiar, promove nova revolta contra os portugueses, provocando surtidas de guerrilha até Outubro de 1918, altura em que é definitivamente derrotado, refugiando-se em Mekoto, na Rodésia do Sul e desaparecendo, de vez, o Reino do Barué enquanto nação independente.


* - A ser biografado.

** - Já biografado.

(1) - Todos eles tinham o elo comum de terem servido sob as ordens de Manuel António de Sousa, de quem aprenderam as tácticas de combate. Existem poucas ou nenhumas referências biográficas destes, salvo o de Cambuemba, que foi o que mais se destacou dentre eles.
De Guizi sabe-se que casou com Nhana Imanga, uma das viúvas de Manuel António de Sousa, mas não soube aproveitar as vantagens políticas que este casamento lhe poderia ter dado em relação aos seus outros companheiros dissidentes. Combateu os portugueses entre Sena e Barué ao lado de Cambuemba, até que, em 1897, derrotado, refugia-se no Barué.
Todos estiveram presentes na derrocada de Missongue, em 1902, tendo Cambuemba sido preso e deportado, Luis da Gorongosa sabe-se que foi preso e desconhecendo-se o seu destino, nada tendo conseguido apurar dos outros.


Sipaio - Polícia indígena subalterno, sucessor do achikunda*. Diferenciava-se deste por não defender o prazeiro (que era um indivíduo defenido) mas sim a administração colonial (que era uma entidade abstracta), para além do facto de não só estar mais disciplinado, como também ter uma farda própria, que era igual em todo o território.
Elos importantes na ligação entre as populações e a administração colonial, aos sipaios que actuavam nas zonas rurais eram-lhes concedidos, no início, reminiscências do tempo dos achikundas, tais como o direito de saque, por exemplo. Com o evoluir dos tempos tais direitos foram sendo retirados e substituídos por formas mais modernas de subsistência, tais como vencimento fixo e subsídios.
O sipaio e o régulo, na grande generalidade dos casos, foram as duas entidades nativas que melhor facilitaram a vida à administração colonial portuguesa para se implementar no seio das populações.

* - Já fichado.



*************************

Livro



"1421 - o ano em que a China descobriu o Mundo", de Gavin Menzies (Publicações Dom  Quixote, 2008, 527 págs.) é um livro polémico que defende a teoria de que, antes da costa americana ter sido atingida por Cristóvão Colombo (1492) e, também, que antes da viagem de circum-navegação planetária iniciada por Fernão de Magalhães e continuada por Sebastião del Cano ter sido completada (1521), já os chineses tinham navegado à volta do mundo, um século antes.
Segundo o autor, em 1421 um frota de cem navios chineses, comandada pelo Almirante Zheng He, saiu da China (governada na altura pelo Imperador Zhu Di), em direcção à Índia, desceu ao Cabo da Boa Esperança, cortou o Atlântico Sul, mapeou as costas sul-americanas, entrou o Pacífico e atingiu a Austrália, tendo retornado ao País em 1423, com apenas sete naus sobreviventes.
Ao regressar ao País Zheng He vem encontrar a Pátria num caos tremendo, já com outro Imperador no trono que, face aos custos da viagem e às dificuldades que se atravessava, ordenou a destruição da frota e dos documentos relativos à mesma, perdendo-se um espólio valioso.
Caberia, assim, à China a glória de ter sido a primeira Nação a circum-navegar o planeta, a descobrir a Antártica, a Austrália e a resolver o problema da longitude, segundo a tese apresentada por Gavin Menzies, Oficial da Marinha Britânica que, para consubstanciar a sua tese, viajou pelas sete partidas do mundo, percorreu a maioria dos países existentes onde vasculhou centenas de museus e bibliotecas.
No entanto a maioria dos historiadores contemporâneos, especializados nestas matérias de viagens náuticas, não aceita as teorias de Gavin Menzies, o que não obsta à leitura do livro.
Até porque o mesmo dá-nos pistas interessantes e põe-nos a pensar. Em suma, tira-nos as palas dos olhos.



*************************


Filme


Ao deambular por uma livraria deparei com o livro "O nome da rosa", de Umberto Eco, agora segundo uma versão mais actualizada, com uns acréscimos. Não me convenceu, ficando sempre com a sensação de que é "mais do mesmo".
Mas veio-me à memória o filme inspirado nesta obra, realizado por Jean-Jacques Annaud, em 1986. Se, por norma, diz-se que um filme não consegue, por si só, transmitir toda a mensagem do autor do livro (o que não é de admirar face à limitação de tempo que um realizador dispõe) a verdade é que este filme é, na minha opinião, soberbo.
Aliás, é o único filme interessante na filmografia de Sean Connery.
Esta trama "policial", desenrolada na Idade Média, tem um naipe de actores com interpretações sem mácula, um  cuidado no guarda-roupa, nos diálogos e na cadência do desenrolar das situações, à medida que as mortes vão ocorrendo que fazem dele um filme que, para quem não goste de ler livros maciços, é mais do que suficiente para perceber a mensagem do escritor.
Sem dúvida, um filme a ver... ou a rever.
  

****************************
Nasceram sete crias de lince ibérico, no Centro de Reprodução do Lince Ibérico, em Silves. Atendendo a que o lince é uma espécie em risco de extinção, aqui está uma boa notícia. É pena que estas boas notícias sejam cada vez mais raras. Mas enfim...
O que é mesmo pena é que a nossa classe política não esteja em vias de extinção.
///////
Em Toulouse (França), após 32 horas de cerco, a polícia invadiu o apartamento de Mohamed Mehra, suspeito de múltiplos homicídios naquela região, acabando o mesmo morto no decurso dessa acção (22/03).
Pergunto eu: 32 horas? Mas a Polícia não tem mais nada para fazer do que andar nesta palhaçada? Para gáudio da imprensa que adora este tipo de notícias: dá pano para mangas. 
Nunca ninguém me explicou a razão do arrastamento da resolução destas situações. Isto não tem muito que saber: é chegar ao local, interpelar o suspeito, dar-lhe um prazo e, caso este não se renda, é entrar e resolver a situação rapidamente. Muito mais quando nem sequer há reféns.

//////

Um gato foi atropelado numa rua, em Lisboa. Nada de especial. Infelizmente situações destas acontecem. Mas o que vem para o caso é que há mais de uma semana que o gato continua esparramado na rua. Cada vez mais espalmado contra o alcatrão, sempre que um carro passa por cima. À vista de todos nós.
Dos serviços de higiene camarários nada. Os homens da recolha do lixo dizem que só recolhem o lixo dos contentores. Num alerta dado por mim num departamento camarário, que sim senhor, que iam tratar do assunto. Então não? Está-se mesmo a ver. O gato, ou melhor, o que resta, lá continua, cada vez mais fundido com o alcatrão.
Quando chegar o Natal e vierem, todos pressurosos, baterem-me à porta a desejarem-me Boas Festas, de mão estendida, vou colocar-lhes, em vez duma nota, uma foto do gato esparramado.



//////////



Enoja-me a posição de Eduardo Catroga, antes e depois de ser "chairman" da EDP. Dar o dito por não dito e tentar vender-nos gato por lebre. Aliás, este "pintelho eléctrico"  é o reflexo de grande parte da classe política portuguesa: vendedores da banha da cobra. Não passam dum bando de aldrabões que, pela terceira vez após o "25/04", atiraram este País para, de mão estendida, hipotecar a sua soberania aos interesses estrangeiros. Eduardo Catroga faz-me lembrar aquela casta de políticos que, em nome do Estado negociaram determinado contrato ou concessão e, depois do mesmo assinado e com a tinta acabada de secar, passaram-se para o outro lado. Sãos os Ferreiras do Amaral, os Pinas de Moura deste País, entre outros. O sentido Pátrio desapareceu. Tudo em nome da voragem de altos vencimentos. Alguém lhes diga que, quando morrerem, não poderão levar a fortuna consigo.   


////////////


A Presidente da Libéria, que foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz, pela sua luta em prol dos direitos das mulheres, defendeu a criminalização do homossexualismo. Não sei porquê deu-me uma vontade de lhe oferecer o "De profundis" de Oscar Wilde. Mas não, devo ser eu que estou a delirar e li mal a notícia.


////////


Nalgumas escolas próximas de Dodoma, capital da Tanzânia, as crianças portadoras do virus HIV têm que usar, obrigatoriamente, um laço vermelho na lapela do uniforme. Não sei porquê lembrei-me de estrelas amarelas, nazis, etc. e tal. Mas não, devo ser eu que estou a delirar e li mal a notícia.


**************************


Está a acontecer



Exposição subordinada ao tema  "Guerra colonial /Tarrafal / 50 anos depois". A nossa memória colectiva revisitada em textos, fotos e mapas afixados em paineis, numa exposição coordenada pelo jornalista, escritoe e historiador António Valdemar e concepção gráfica do cenógrafo e artista plástico Fernando Filipe. A decorrer até 30 de Abril próximo, na Sociedade Portuguesa de Autores (Rua Gonçalves Crespo - 62 - Lisboa).


Festival de Gastronomia Serrana, no concelho de Tavira. A comida confeccionada aos poucos e saboreada do mesmo modo. O conceito do "slow food". Até 15 de Abril próximo.


///////

Vai acontecer


Na Biblioteca Museu da República e Resistência (Lisboa) exibição do filme "Os miseráveis". No próximo dia 28 de Março, pelas 18H00. Entrada livre.



Na Biblioteca Municipal da Penha de França (Lisboa) leitura e discussão da obra "Memória de elefante", de António Lobo Antunes. No próximo dia 28 de Março, pelas 11H00. Entrada livre, mediante inscrição prévia.



***************************




Defenda a sua língua materna. Recuse-se a escrever com as normas do actual Acordo Ortográfico.


////////


Todas as marcas ou produtos referidos no presente texto são incompatíveis com intuitos publicitários. As referências aos mesmos reflectem, apenas, a opinião do Autor e nada mais do que isso.


*************************** 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Delia Julia Denning Akeley

Viajantes, aventureiros e exploradores



Delia Julia Denning Akeley - Winsconsin (EUA), 05/12/1875 - Daytona (EUA), 1970. Exploradora, caçadora e etnógrafa. Filha de emigrantes irlandeses, cansada da rudeza da vida familiar que levava, sendo a mais nova de oito irmãos, foge de casa aos treze anos de idade cortando, até ao fim da sua vida, com os laços familiares.

Em Milwaukee, onde chega em fuga, trava-se de conhecimento com Artur Reiss, com quem acaba por casar, uma casamento mais de necessidade e de circunstância do que de amor. É aqui que acaba por travar conhecimento com Carl E. Akeley, um caçador, taxidermista e escultor, e que foi o grande amor da sua vida, pelo que logo Artur Reiss passou à história, como um pequeno precalço da sua vida.

Casa-se, em 1902, com Carl E. Akeley que, ao serviço do Museu de História Natural de Chicago, efectuava safaris africanos para melhor recriar o salão africano daquele museu, safaris estes que se efectuaram em 1905 e 1909.

Para Delia Akeley esta primeira ida a África, em 1905, foi um descobrir dum novo e maravilhoso mundo que a irá acompanhar até ao fim dos seus dias. Durante dezoito meses, tempo que durou o primeiro safari, Delia Akeley aperfeiçoa os seus dotes de caçadora de caça grossa e, da sua conta pessoal, são enviados para o museu de Chicago, dois elefantes e um búfalo.

Em 1909, agora ao serviço do Museu de História Natural de Nova Iorque (NY) regressam ao Quénia para caçarem mais exemplares para o museu nova-iorquino. Esta expedição durará dois anos, e parte dela, contará com a presença de Teodore Roosevelt, Presidente dos EUA que se desloca a caçar ao Quénia e onde também abate dois elefantes que ofertará ao Museu Nacional de Washington.


Delia Akeley salvou a vida ao marido quando ele, certa vez e sem a sua companhia, se ausentou para localizar uma manada de elefantes e acabou gravemente ferido perante a investida dum paquiderme que o projectou pelo ar. Três dias depois deste evento é que Delia Akeley toma conhecimento dos factos, por carregadores que entretanto chegaram ao acampamento, e que tinham fugido da investida do elefante e abandonado Carl Akeley à sua sorte, convictos que ele estava morto e, surpesticiosos com eram, não tocavam em mortos. Decidida a localizá-lo consegue persuadir alguns carregadores a acompanhá-la, na busca do marido no meio da selva. Demorou dias a localizar o rasto do marido e à noite tinha que amarrar os carregadores, para estes não lhe fugirem com medo dalguma fera ou do frio. Finalmente, já desesperada, teve a sorte de o encontrar depois de disparar tiros de alerta, ao que este respondeu. Carl Akeley tinha perfuração pulmonar, traumatismo craniano e algumas costelas partidas e, mesmo assim, sobrevivera à sede e à fome, sozinho na selva.

Nesta segunda expedição a África, nativos capturam para Delia Akeley um macaco, que ela apelida de "JT", e a quem se afeiçoa como um animal de estimação a quem permitia todas as tropelias. Trá-lo para Nova Iorque, estudando o seu comportamento. Durante nove anos conviveu com este macaco, que estudou ao pormenor até que acabou por ter que o entregar ao Jardim Zoológico face aos seus comportamentos agressivos. Desta situação nascerá um livro da sua autoria: "JT the biography of an african monkey" (1928), onde  defendia que os primatas podiam comunicar com os humanos e tinham um linguarejar próprio.

Cansada de viver à sombra do marido e estando este envolvido  emocionalmente com outra pessoa, a exploradora Mary Jobe com quem virá posteriormente a casar, o casal consuma o divórcio em 1923. Três anos mais tarde Carl Akeley morrerá, numa outra expedição africana, de pneumonia, quando visitava o santuário dos gorilas nos montes Virunga. Já não tinha Delia ao pé de si para o salvar. 

Após o divórcio Delia Akeley viaja muito por África, centrando as suas atenções mais em estudos etnográficos de povos primitivos. Era uma caçadora de caça grossa experiente e uma atiradora de elite. Viveu na selva com pigmeus e estava preparada para uma morte rápida. Levava sempre consigo uma maneira rápida de acabar com a vida. Como ela disse, certa vez, numa entrevista: "Sinto sempre medo da selva e estou preparada para uma morte violenta. Nunca viajo sem levar comigo os meios mais adequados para acabar rapidamente com a minha vida se receber alguma ferida mortal. Mas este tipo de vida selvagem encanta-me."

Após a morte de Carl Akeley o Museu de História Natural de Nova Iorque contrata Mary Jobe para dar continuidade ao trabalho do falecido, o que Delia Akeley considera uma afronta a tudo o que ela labutara anteriormente para o referido museu. A somar a isso o facto do falecido ter declarado a sua segunda esposa como sua herdeira universal, relegando Delia Akeley como se nunca tivesse contribuído com nada para o seu património ainda mais a magoou.

Aos 49 anos de idade (1924), já era uma africanista experiente e conceituada, atravessou África de costa a costa, partindo do Quénia, atravessando o Uganda e atingindo o Oceano Atlântico no Congo Belga. Expedicionara sózinha, sem recurso a caçadores europeus ou guias e ao serviço do Museu de Artes e Ciências de Brooklin (NY), que a contratara para capturar exemplares da fauna africana e efectuar estudos etnográficos de tribos primitvas. Como ela própria referiu, depois: "Desde a minha primeira experiência com tribos primitivas da África Central, há já vinte e dois anos, fiquei com a firme convicção de que se uma mulher se aventurasse sozinha, sem escolta armada, e vivesse nas aldeias, conseguiria estabelecer amizade com as mulheres e obter informações muito valiosas e verdadeiras sobre os seus costumes tribais."

Chegada a Mombaça organiza uma expedição contratando carregadores e adquirindo animais de carga. Atravessa o Quénia e atinge o rio Tana, que atravessa de canoa durante dez semanas, explorando e fotografando o mesmo até atingir o posto britânico de San Kuri, onde repousa. Dirige-se para a Etiópia, atravessando o deserto somáli de camelo, numa viagem em que, naquela época, poucos europeus (todos homens) se tinham aventurado a tal. Demorou três meses a atingir o posto militar de Muddo Gashi, na Somália perante a incredulidade dos soldados aí de serviço, custando-lhes a crer que uma mulher, única pessoa europeia duma expedição, tivesse logrado tal façanha. Retorna ao Quénia, até Nairobi, onde embarca para os Estados Unidos toda a colecção de animais mortos e por si embalsamados na expedição. Dirás, desta aventura, mais tarde: " Fiz a primeira parte da minha viagem de canoa, subindo o rio Tana e viajando terra adentro a partir do Oceano Índico. Cacei no capim e ao longo da margem, à procura de elefantes e de antílopes, conservando e secando eu própria as peles. Tirei muitas fotografias e revelei os negativos conforme pude. Comprei camelos aos somalis, uma tribo nómada e pouco amistosa, e continuei a atravessar a terra árida do deserto entre i rio Tana e a Abissínia, avançando sempre à luz da lua para evitar morrer de insolação."


Deixa-se ficar no Quénia, até que decide ir viver com uma tribo o mais primitiva possível para estudá-la. Opta em deslocar-se para o Congo Belga, terra de feiticeiros e canibais, de selvas impenetráveis e com extensas áreas onde os europeus não tinham penetrado. Em Março de 1925 navega pelo rio Epulu e penetra numa selva africana diferente de todas aquelas que tinha conhecido até então. Muito mais fechada, densa e húmida, onde os próprios nativos eram muito mais violentos e pouco amistosos para consigo, fruto da sua condição de branca. Para muitos deles a pele branca significava escravidão, chicote e fome. 

Fixa-se durante meses na zona dos rios Ituri e Aluwini, onde viviam os mbuti , tribo de pigmeus em estado primitivo e sem qualquer contacto com europeus. Delia Akeley vive como um deles, estudando-os ao pormenor e fixará em centenas de fotografias a sua vivência no meio daquela tribo e da selva. Com as pigmeias vai à colecta do mel e frutos e com os pigmeus vai à caça do elefante. Meses depois está completamente esgotada e saturada, pelo que resolve terminar ali a sua estadia no meio dos pigmeus.

Parte para a remota aldeia de Niangara, na margem do rio Uela, no norte do Congo belga perto da fronteira sudanesa. Vai a caçar em Bafuka e convive com canibais, só se apercebendo disso quando servem carne humana à refeição: "O sultão enviou uma caçarola com comida para os meus criados e quando me aproximei com a lanterna para ver o que era descobri um antebraço bem cozido. Como os nativos da selva comem habitualmente macaco, achei que iam fazer um festim. Mas, para meu horror, o pedaço seguinte que descobri foi uma mão de bom tamanho que pertencia evidentemente a um ser humano. Fiquei bastante doente e o pior é que descobri que os meus dois criados de confiança eram canibais." Acaba por adoecer de malária, em Bafuka, caindo à cama e recordará, mais tarde: "Quando não estava a delirar conseguia ouvir o cozinheiro e o meu criado a discutir como deveriam preparar o meu corpo quando morresse e como iriam repartir os meus pertences. Todas as manhãs um deles entrava na minha tenda e perguntava-me educadamente se pensava morrer nesse dia." Quando recupera abandona aquela zona e dirige-se para Stanleyville e daí, navega pelo Congo até Leopoldville e de comboio até Boma, que atinge em Setembro de 1925.


Retorna a Nova Iorque onde a sua fama a precede. Em 1929 volta a África, para dar continuidade aos seus trabalhos sobre os pigmeus, sendo esta a sua última viagem a este continente. Arranca de Cartum, no Sudão, navega pelo rio Nilo e entra no Congo Belga, instalando-se nas margens do rio Ituri, em Avabuki. Durante cinco meses roda milhares de metros de filmes e de fotografias sobre pigmeus, e recolhe todo o tipo de instrumentos de arte, de artesanato, de caça, de ornamentos e de utensílios domésticos que pode, rodeando-se dum verdadeiro espólio etnográfico. Delia Akeley tinha a perfeita consciência que estava a registar os últimos sobreviventes da verdadeira e velha África antes de serem totalmente colonizados pelos europeus.

De regresso aos Estados Unidos centra-se em conferências científicas por todo o país e a escrever o seu livro "Among the pigmies in the Congo forest". Volta a casar-se com um antigo amigo seu, abandonando de vez a vida aventureira, indo viver esta nova fase da sua vida em Vermont. Tendo enviuvado em 1951, muda-se para Daytona, até que a morte a colhe aos 95 anos.

/////


Nota: As transcrições do discurso directo foram retiradas do livro "Memórias de África", de Cristina Morató, já  anteriormente referido.



*********************************

Historiando Moçambique Colonial

Abada - 1) Rinoceronte; 2) Nome que se dá ao chifre de rinoceronte e que, segundo convicção popular bastante disseminada em diversas partes do mundo, produz efeitos afrodisíacos quando reduzido a pó. Por outro lado, estes chifres, quando trabalhados num torno por artesãos, tornam-se taças translúcidas, provocando alterações de tonalidade que podem, em teoria, revelar a presença de veneno em bebidas. Assim, a busca do seu chifre, que ainda é muito frequente nos dias de hoje, quase que levou à sua extinção. A crença do seu poder afrodisíaco não tem, na ciência, qualquer fundamento.

Amanbo - Chefe territorial, súbdito dum Régulo, que desempenhava também a dupla função religiosa de manter os costumes ancestrais do seu povo e de servir de elo de ligação com os actos sobrenaturais.

Âmbar - É um produto que pode ser obtido por duas vias: vegetal e animal. No campo vegetal é uma resina fóssil, proveniente dum pinheiro existente na Europa e que era utilizado com fins medicinais, sendo conhecido por âmbar amarelo. No outro campo, há o âmbar pardo ou cinzento, sendo extraído do intestino dos cetáceos (baleias e cachalotes), tornando-se uma espécie de cera dura. Abundando no Oceano Índico, era utilizado para diversos fins, tais como o farmacêutico, de adorno, de feitiçaria e de perfumaria. Era um produto que tinha bastante procura em Moçambique sendo, no século XVI, monopólio dos capitães de Sofala e ilha de Moçambique.

Ankhoswe - Guardião da sucessão dinástica do povo Chewa, do tipo matrilinear, função que acumulava com a de conselheiro real. Podia, ainda, exercer o cargo de chefe territorial.

Argentina - Nome que inicialmente era conhecido o pequeno Reino de Chicova, devido à forte presunção inicial do mesmo ser rico em prata.


Caçadores das terras - Forças irregulares nativas, fornecidas pelos régulos avassalados, quando convocados para tal. Podiam ter funções policiais ou guerreiras, numa determinada região e eram, quase sempre, pagas pelo direito de saque.


Caçadores de carne - Designação referente aos caçadores que eram contratados para abastecerem de carne de caça diversas empresas, públicas ou privadas, que laborassem no interior do território.


Cafraria - Terra dos cafres; África.


Cafre - Aportuguesamento da palavra árabe "kafir", que significa "infiel" (no sentido religioso, por não seguir os ensinamentos do Alcorão). Era deste modo que os árabes se referiam aos africanos que não professassem a religão muçulmana. Utilizada em sentido depreciativo, queria significar pessoa rude, do tipo bárbaro e, como tal, de capacidade intelectual limitada e de pouca ou nenhuma confiança. O sentido de superioridade rácica que prevaleceu nos povos colonizadores levou-os a generalizar este termo para qualquer tipo de africano.


Costa da Crafraria - Era a denominação inicial que os portugueses, nos primórdios das suas viagens marítimas, se referiam à costa africana e que abrangia desde o cabo das Agulhas à baía de Lourenço Marques.


(Frei) João dos Santos - (Évora, 1560/70(?) - Goa, 1622/25 (?)) - Sacerdote dominicano. Tendo tomado as ordens religiosas em 1584, como frade das Ordem dos Pregadores embarca, dois anos depois, para Moçambique estabelecendo-se em Sofala, até 1591. De seguida vai para Tete e, no ano seguinte, é colocado nas Quirimbas, local onde exerceu o sacerdócio até 1594. No ano seguinte ruma para Goa, onde se fixa durante cinco anos, após o que regressa a Portugal. Em 1608 publica o seu livro "Ethiopia Oriental e vária História de cousas notáveis do Oriente", que é um notável acervo dos conhecimentos de geografia, antropologia, flora e fauna que adquiriu ao longo da sua estadia africana e indiana. Em 1610 ou 1611 regressa a Moçambique e, após uma tentativa frustada de se estabelecer na corte do Monomotapa Gatsi Rucere, foi requisitado por Diogo Simões Madeira(*) para se estabelecer na área de Chicova, afim de exercer o seu apostolado, o que vem a suceder. Desta sua estadia resulta a "Relação do descobrimento das minas de prata de Xicova", saído à estampa em 1618, bem como ficou inédito um manuscrito intitulado "Comentário da região dos Rios de Cuama". Retorna a Goa, onde virá a falecer.


Presídio - Nome dado a uma oferta anual (e que depois passou a trienal) que os portugueses entregavam ao Monomotapa, como forma de testemunho de agradecimento pelos tratados de amizade e aliança que se firmavam. O presídio era pago em fazendas diversificadas e quinquilharias variadas e teve uma duração de cerca de 300 anos, até ser extinto em princípios do século XVIII.

Reino de Chicova - Pequeno Reino que se situava na zona de Tete, a Sul do rio Zambeze e que estava avassalado ao Reino do Monomotapa. A existência  de minas de prata nos seus territórios despertou o interesse e a consequente instalação dos portugueses. No ano de 1572 Francisco Barreto (**), no decurso da sua expedição militar ao Monomotapa, deixou uma guarnição de cerca de 200 homens, com a missão de conseguirem determinar onde se situavam as muito faladas minas de prata de Chicova. Esta guarnição acabou por ser chacinada pelas populações locais, cansadas de serem permanentemente espoliadas dos seus bens pelos invasores portugueses. Em 1614 Diogo Simões Madeira (*) mandou construir o forte de S. Miguel, mas as minas de Chicova nunca passaram de uma lenda. Foi em Chicova que se deu o massacre que vitimou o Governador Vilas-Boas Truão (*), em 1807.


Suhaíli - Palavra de origem árabe que significa "costa", "litoral" e, por extensão, "povo que vive no litoral". Com a chegada dos mercadores ao litoral de África e com a sua instalação nessas áreas, com o decorrer dos tempos acabaram por se misturar com os autóctenes, quer pela via do casamento, quer pela via do interesse comercial ou pela via do factor religioso. Assim, da fusão de africanos e árabes nasceu uma cultura cruzada em múltiplos campos, que vem dar origem a um novo grupo étnico, os suhaílis, os quais se estendiam em toda a costa oriental africana até ao centro litoral moçambicano. Em Moçambique deu-se, no litoral norte, este secular cruzamento biológico e cultural entre árabes escravocratas com mulheres macuas, pelo que os suahílis estendiam-se, ao longo da faixa litoral, desde o Rovuma até ao centro. 


Sultanato de Angoche - Este Sultanato terá sido fundado já no decorrer da segunda metade do século XV, por Mussa, alto dignitário de Quíloa que, tendo fugido de lá, juntamente com Husseine, rumaram para o litoral Sul, em busca de segurança. Tendo Husseine falecido, Mussa enterrou-o na foz do Angoche e, antes de se retirar para a ilha de Moçambique entronizou Xosa, filho de Husseine, como Sultão de Angoche. Foi o filho deste que deu continuidade à linhagem nobre do Sultanato. Esta feitoria afro-árabe serviu de escoamento aos produtos árabes vindos de Sofala quando os portugueses, ao instalarem-se ali, começaram a estrangular o comércio arabizado. Em 1511, como forma de tentarem acabar com essa via de escoamento dos produtos árabes e bem assim de se libertarem do estrangulamento que Angoche estava a praticar sobre a ilha de Moçambique, os portugueses atacaram Angoche e arrasaram-na, mas não deixaram nenhuma guarnição, o que permitiu ao Sultanato erguer-se das cinzas e revitalizar-se. No entanto o domínio que os portugueses começaram a estabelecer no vale do Zambeze, levou ao declínio de Angoche, devido à diminuição do volume de mercadorias vinda do interior, para exportação. Em princípios do século XVII o Sultanato estava comercialmente arruinado, tendo apenas uma economia de sobrevivência. Tendo sido conquistado pelos maraves do Karonga (1) Muzura, a sua actividade comercial resumia-se a conchas e missangas, marfim, âmbar e, principalmente, escravos. Após a dissolução da influência marave, o Sultanato readquiriu a sua independência. No século XVIII o seu comércio era quase nulo e Angoche sobrevivia num autêntico marasmo. Por volta de 1730 a povoação é assaltada e saqueada e o Sultão assassinado, vivendo o seu herdeiro em Mombaça pelo que, em 1755, os portugueses colaboram na sua restauração, reiniciando também um incipiente comércio com a ilha de Moçambique. Em finais deste século deu-se um surto de deslocação populacional dos imbamelas para a sua área, pelo que o Sultanato, com receio de perder o domínio dos portos, negociou a fixação dos mesmos entre Angoche e Sangage. O Sultano ressurge economicamente em meados do século XIX, graças ao incremento e desenvolvimento do tráfico esclavagista. Do seu porto exportavam-se escravos não só para Zanzibar, Comores e Madagáscar, como também para o Brasil. Em 1847 o Sultão de Angoche cortou decapitou três emissários do Governador da ilha de Moçambique, que ali os tinha enviado para exigir vassalagem. Hassane-Issufo (*) ascende ao poder do Sultanato em 1849 e passa-o para o seu irmão Mussa-Quanto quando o prazeiro João Bonifácio Alves da Silva (*) invade as suas terras, em 1861. Após o falecimento de Mussa-Quanto (*) perfilaram-se vários pretendentes ao poder do mesmo, acabando por ascender Ussene Ibrahimo (*). Após a morte deste é Farelay (*) quem passa a dirigir os destinos do Sultanato. Em finais do século XIX o Sultanato entrou em derrapagem económica, por a ilha de Madagáscar, que era o seu principal sustentáculo financeiro, ter caído soba  alçada do domínio colonial francês. No entanto, até finais da primeira década do século XX este Sultanato guerreará sempre os portugueses, até ter claudicado de vez.

(1) - Título dinástico marave.
(*) - A ser biografado posteriormente.
(**) - Já biografado.


Terras do Bororo - Zona geográfica indefinida na sua extensão, mas que os portugueses se referiam, no século XVI, às áreas a Norte do rio Zambeze, entre o Chire a a costa.


*******************************


Livro

A 25 de Abril de 1560 sai, de Lisboa com destino à Índia, uma armada de seis naus, na qual se integrava a "São Paulo" que era capitaneada por Rui de Melo Câmara. Era uma nau comercial de 500 toneis de arqueação e transportava 520 pessoas, no total. Em Maio, navegando por zona das Canárias, são surpreendidos por ventos Este, com cerca de 100 quilómetros/hora de velocidade e têm a primeira vítima, que foi um marujo que estava no cesto da gávea. A tempestade que sofrem era tão forte que quase atira com os navios para as costas marroquinas, acabando a mesma dispersa. Em finais desse mês de Maio estão nas costas da Guiné, onde a "São Paulo" fica meses a navegar em alto mar praticamente parada, por falta de vento. O excesso de calor, a humidade excessiva e a queda violenta e abrupta de chuvadas, a falta de alimentação adequada, tudo se conjuga para adoecerem cerca de 300 pessoas, para as quais só o sangramento e a toma de purgantes e xaropes são as únicas panaceias. Em finais de Julho atravessam a linha do equador e passam pelas ilhas da Trindade, de Ascensão e Tristão da Cunha.

Por esta altura, o piloto António Dias, desce para uma latitude Sul muito alta (40º) e flecte o navio para Oriente, informando quem o questiona que, quando tivesse atingido a latitude de Ceilão, rumaria então para Norte. Só que, por erro de cálculo, flecte a nau um pouco para Leste e o resultado é que, a 20 de Janeiro de 1561 estão perto do cabo Camorim, avistam bambus e vegetação à tona da água que nada tem a ver com a flora indiana e apercebem-se de dezenas de ilhas e ilhotas desconhecidas, até que são apanhados por uma tempestade que lhes quebra os mastros.

Durante a noite o navio, já sem velas, anda à deriva até que ao nascer do dia encalha num baixio e já dali não sai. Há quem salte do navio para, a nado, atingir um ilha e acaba morto ou ferido contra os corais. Decidem descer um esquife (1) da "São Paulo" e, durante todo esse dia (22/01/1560) após vária idas e vindas entre a nau e uma ilha, desembarcam todos os 330 náufragos sobreviventes, até ao cair da noite. Estão sem comida e água e, quando nasce o dia, alguns sobreviventes começam a saquear os bens dos mortos, um costume da época.  Estavam em Sumatra, mais concretamente no cinturão de ilhas que envolvem a costa Oeste desta, nas que são hoje as ilhas Malami, Siberute e Sitora. Naquela época Sumatra fazia parte do sultanato de Achém, liderada por Aladim-al-Sakar, inimigo dos portugueses desde que Afonso de Albuquerque conquistara Malaca (1513), criando uma feitoria que lhes fazia frente comercial.

Começa a desenhar-se a desunião entre os náufragos, quando alguns destes acusam os oficiais, os ricos mercadores e os padres de tentarem fugir no esquife, abandonando os outros ali. Pensam matarem as mulheres e as crianças, para terem menos bocas a alimentar e menos corpos para salvarem. Por fim dois padres jesuítas que estavam entre eles, Manuel Álvares e João Roxo, conseguem reunificar os desavindos e todos reconhecem no Capitão do navio o seu Capitão em terra, reconhecendo-lhe autoridade total.

Ficam ali estabelecidos, não faltando alimento dos recursos  naturais (peixe, palmitos, cocos, etc.) até que em finais de Fevereiro (1561) avistam um bateis malaios e dois dos náufragos, que tinham ido à busca de alimentos, são encontrados mortos e parcialmente canibalizados. Tinham entretanto construído uma barca com remos e vela, com madeirame da "São Paulo" e recuperado o esquife e, em meados de Março, preparavam-se todos para partir quando o Capitão ordena o embarque apenas das mulheres, dos seus amigos, de homens ricos e dos oficiais, deixando em terra 170 homens entregues ao seu destino. Não havia espaço para todos, porque parte do navio fora preenchida com bens materiais dos homens ricos e com a construção duma casa de banho e quarto para as mulheres, que acabaram por tirar espaço e capacidade de carga.

Dos abandonados em terra cerca de 80 atiram-se a nado para os navios, na tentativa de os escalarem, mas são repelidos na ponta das espadas e lanças dos que lá se encontram. Aos que ficam em terra é-lhes recusado qualquer tipo de armamento para se defenderem bem como é recusado o embarque a crianças doentes. Não havia lugar a humanitarismos. É-lhes ordenado pelo Capitão que caminhem nove léguas para Sul, até uma enseada, onde serão então recolhidos. Atingida esta enseada ordenam-lhes, por um batel que vem a terra, que caminhem mais 30 léguas para Sul, para outra enseada, enquanto o navio navega à costa na mesma direcção.

É quando avistam uma pequena flotilha de juncos pirata malaios, que o barco português os combate  e leva-os de vencida graças à artilharia que tinham retirado da "São Paulo". Finalmente, com os juncos malaios apresados, já têm navios para embarcarem os que  estavam em terra. Como acto de vingança, pelo portugueses mortos no combate, decapitam os prisioneiros malaios excepto o piloto que os leva para o Sul de Sumatra, até à foz do rio Menencabo, na ilha de Mitau, onde são bem recebidos pelos gentios. A maior parte dos portugueses fica em terra a descansar, até que são atacados pelos malaios que liquidam 60 deles, conseguindo os restantes fugirem de novo para os navios. Depois de dias de provações atingem  o estreito de Bunda, onde são casualmente encontrados por navios portugueses que por ali passavam e os salvam. 


(1) - pequeno barco de apoio.

/////

Ora é sobre esta história da viagem e naufrágio da nau "São Paulo" e das peripécias dos seus sobreviventes que se narra no romance histórico "Malabar", autoria de Mário de Sousa Cunha (Bertrand Editora, 2008, 538 págs.), romance que, com agrado, li esta semana.



//////

Sobre a fonte histórica deste naufrágio pode-se ler o relato do mesmo através do testemunho escrito dum seu participante, de seu nome Henrique Dias em "Relação da viagem e naufrágio da nau São Paulo", (Volume I - Págs. 446/470) e que foi editado em dois volumes por Bernardo Gomes de Brito em "História Trágico-Marítima", entre 1735/36.  
************************************


Poesia



Sobre a temática dos naufrágios transcreve-se um soneto de Camilo Castelo Branco:


Senhor! Vós que soprais a tempestade,
cavando abismos sobre o mar irado,
ouvide os roucos sons do afogado,
que geme nos umbrais da eternidade!


Nesses transes cruéis d´ansiedade,
rolando contra a rocha espedaçado,
a prece, que murmura o desgraçado,
é grito de perdão!... meu Deus! - piedade!


Perdoai-lhe, Senhor! ouvi, piedoso,
o brado d´aflição, que manda aos céus,
o filho, o amigo, o irmão mais caridoso!


Ouviu-lhe o seu clamor entre escarcéus;
pois, naquele morrer angustioso
bradou-lhe o coração - "Perdão, meu Deus!"

//////////////////////

Hoje (21/03/2012) assinala-se o Dia Mundial da Poesia. Muito justamente considerada como sendo o domínio da nobre arte da palavra, em homenagem do dia de hoje transcrevo, de memória (desde já me penitenciando dalgum lapso) o primeiro poema sobre o qual verdadeiramente me debrucei, nos meus idos tempos do liceu, era eu um rapazote. Ainda hoje, meio século volvido, esse poema baila na minha memória. Trata-se duma cantiga de amigo, da autoria do trovador medieval Estevão Pais Coelho e reza deste modo:


Sedia la fermosa seu sirgo torcendo
Sa vox manselinha fermoso dizendo
Cantigas d´amigo.


Sedia la fermosa seu sirgo laurado
Sa vox manselinha fermoso cantando
canbtigas d´amado.


Par Deus de Cruz, Senhora,
que d´amor mui haveis sofrido
que tam bem cantades
cantigas d´amigo.


Par Deus de Crus, Senhora,
que d´amoe mui haveis laurado
que tam bem cantedes
cantigas d´amado


Ayutre comesteis, que haveis advinhado!  


*****************************



Música


Robert Johnson - (1911 - 1938) - Compositor e cantor de blues rurais, do delta do Missipi. Nascido no seio da mais baixa escala da miséria humana, tem uma infância infeliz e violenta onde, inclusivamente, vê a sua mãe a fugir dum linchamento, naqueles duros tempos rácicos do Missipi. Apenas com  estudos rudimentares, cresce ao abandono, já que a sua mãe, na luta pela sobrevivência e com onze filhos, quase que se dedica apenas aos múltiplos amantes. Aprende a tocar harmónica e, depois, guitarra ao ver Son House e Charley Patton a tocarem este instrumento.


Cria o estilo de tocar viola com um gargalo de garrafa do dedo mindinho, o "bottleneck", desenvolvendo uma sonoridade metálica, tipo havaiano. As suas letras são o reflexo da vida errante que leva, que abarcam os amores passageiros, a solidão, a saudade da terra. Compôs 32 canções e nunca teve direitos de autor. Morreu jovem, eventualmente envenenado por um marido ciumento. Hoje é considerado uma lenda e inspirador de muitos músicos do panorama do rock´n roll.






*********************************

Filme

Inspirado na personagem de Robert Johnson, em 1896 Walter Hill realizou o filme "A encruzilhada", no qual um jovem (Ralph Machio) ajuda a fugir dum asilo de idosos um velho "bluesman" (Joe Seneca) e ambos partem para o Missipi, em busca duma lendária canção nunca editada de Robert Johnson. No entanto o destino leva-os a uma encruzilhada, local de eleição do Diabo para capturar futuras almas em troca duma vida terrena gloriosa e, aí, o jovem vê-se envolvido num (brilhante) duelo de guitarras com um guitarrista do Diabo, que acaba por  vencer e assim, resgatar a alma do velho que o acompanhava. Um filme singelo, mas um reconhecimento à importância dos blues do Missipi, que neste filme têm a sonoridade electrizante de Ry Cooder. A ver, numa soalheira tarde domingueira ou no esplendor duma noite de calor.







*******************************

Defenda a sua língua materna. Recuse-se a escrever com as normas do actual Acordo Ortográfico.


//////


Todas as marcas ou produtos referidos no presente texto são incompatíveis com intuitos publicitários. As referências aos mesmos reflectem, apenas, a opinião do Autor e nada mais do que isso.


**********************************