"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)

terça-feira, 13 de março de 2012

António Fernandes

Exploradores, Viajantes e Aventureiros



António Fernandes - (?/ 1525) - Explorador. Condenado à morte, não se sabe por que crime, no reinado de Dom Manuel I, vê a sentença ser tansformada em degredo. Integrado na armada de Pedro Álvares Cabral, em 1500, é lançado (1) em Mombaça e, daí, segue para Quíloa, onde obtém as boas graças das autoridades locais. Na segunda viagem que faz para a Índia, Vasco da Gama vai encontrá-lo em Quíloa, onde serve de língua (2), tendo: "prestado informação a João da Nóvoa acerca do que se passava entre aquela bárbara e infiel gente", segundo relatou posteriormente o cronista João de Barros, nas suas "Décadas".

Por volta de 1505 ou 1506 encontra-se na feitoria de Sofala e, aventurando-se no interior, António Fernandes atinge as terras do Reino do Monomotapa e priva com o monarca, sendo o primeiro português a chegar àquele Reino. Entre 1511 e 1515 percorre, em diversas viagens, as terras do Reino do Monomotapa, vistoriando a actividade mineira  no mesmo e todas as informações colhidas transmite-as aos seus conterrâneos.

O seu peregrinar exploratório levou-o, também, a percorrer outros reinos, tais como os de Sedanda, Quiteve e Butua, pelo que é considerado como o primeiro português a internar-se não só no sertão moçambicano mas também no interior zimbabuano. Terá atingido um grande prestígio no seio das populações nativas do interior africano e, sobre ele, Gaspar Veloso escreveu: "...onde ele vai ainda que haja guerra por amor dele logo são apagadas...". Este notável aventureiro e explorador morreu em Sofala.

(1) - Lançado - Degredado que, no decurso duma viagem marítima era deixado, ao abandono, num qualquer ponto da costa africana, com a finalidade de estabelecer relações com os povos locais e transmitir essas informações a um próximo navio que por ali passasse.

(2) - Língua - Intérprete.

Língua do Estado - Intérprete oficial.

Historiando Moçambique Colonial

Reino do Monomotapa - Reino territorialmente extenso; cuja área abrangeria, nos tempos actuais, parte da zona oriental do Zimbabué e os territórios moçambicanos situados entre os rios Limpopo e Zambeze e que, desde sempre, povoou o imaginário dos portugueses, ávidos de lucro fácil e rápido, pois as informações que possuíam deste Reino é que era extremamente rico em ouro, esse mítico mineral que tanto aguçava o apetite dos conquistadores. A existência deste Reino, que bebeu parte da sua estrutura cultural do Reino do Zimbabué, com a proliferação de histórias sobre as suas míticas riquezas, é que levou os portugueses, logo no início das suas viagens marítimas para a Índia, nos anos quinhentos, a estabelecerem uma feitoria em Sofala, cuja missão principal era a de comerciar o ouro vindo desse Reino. No entanto Sofala acabou por ser um desastre económico para os cofres portugueses, não só porque o Monomotapa não possuía o ouro que a avidez lusitana lhe queria atribuir, como também a actividade de guerrilha comercial levada a cabo pelos arabizados lá instalados há bastante mais tempo naquelas paragens, minava a corrupta administração portuguesa. Ter-se-á iniciado a partir de linhagens carangas do planalto setentrional zimbabuano que, no século XV, se terão fixado no vale do rio Alto Luia, afluente do rio Mazoe que, por sua vez é afluente do rio Luenha e expandido, posteriormente, avassalando outros povos e reinos e nunca se tendo avassalado ao Reino do Zimbabué. A palavra "monomotapa" é a grafia aportuguesada de "Muene Mutapa" (Rei Mutapa) que foi um poderoso chefe que viveu no princípios do século XV, de verdadeiro nome Nzatsimba e que adoptou, como nome de guerra, o de Muntoba Ihuru Chamutapa. No entanto, foi o seu filho herdeiro Matope quem, após diversas incursões militares fundou, verdadeiramente, o Reino do Monomotapa, ao qual se encontravam mais ou menos avassalados outros reinos de menor dimensão territorial. Na linha sucessória, após a morte de Matope, ocorrida em 1480, o seu filho Nizima, sem o rasgo militar do seu pai, assiste ao desmoronar do Reino, criando-se outras dinastias rivais, das quais a mais importante terá sido a do Reino de Changamira, fundado por Changa, ex-Governador do Reino no tempo de Matope, a quem serviu com lealdade. Serão os changamires quem, no correr dos tempos, destruirão o poder real do Monomotapa, até que este se tornou num joguete nas mãos dos portugueses. Quando estes chegaram a Sofala já o Reino do Monomotapa abanava nas suas estruturas, mas o seu nome ainda inspirava sonhos fantasiosos de lendárias minas auríferas. No entanto, povos vindos do Sul sublevam as tribos do Reino a não pagarem tributos ao Muene, o que também facilitou a penetração portuguesa. Em 1560 uma missão jesuíta, encabeçada pelo Padre Dom Gonçalo da Silveira, atinge a corte do Monomotapa onde é bem recebida mas, fruto das intrigas dos islamizados, o prelado acaba morto tornando-se, assim, no primeiro mártir daquela confissão religiosa em terras do interior de Moçambique. Nove anos depois os portugueses, invocando várias razões, entre elas a morte de Dom Gonçalo da Silveira, enviam uma força numerosa para punir o Monomotapa. Reinando, em Portugal, Dom Sebastião, foi reunida a Mesa da Consciência, constituída por teólogos e juristas do Reino português, nas Cortes de Almeirim, em Janeiro de 1569, onde determinaram: "... os imperadores de Monomotapa mandam matar e roubar, muitas vezes, os seus vassalos e inocentes e fazem outros males e tiranias por causas leves e mandaram matar e roubar alguns portugueses, indo eles pacificamente e sem escândalo, antes com a sua doutrina e com exemplo se converteu el-rei, a rainha e os principais do reino, os quais depois todos apostataram, deixando a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo que professavam, voltando aos seus tiros gentílicos e, na morte do dito Padre D. Gonçalo da Silveira, não se guardou ordem natural nem figura de juízo..."; "...e visto outrossim, como roubaram e retiveram na sua terra dois portugueses que iam mandados pelo Capitão de Sofala para embaixadores, sendo eles invioláveis, segundo comum direito das gentes..."; "... e acolhem nas suas terras muitos mouros, inimigos da fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e que foram autores de muitas das ditas ofensas e lesões e o serão ao diante, sem se provar, que da parte dos ditos portugueses houvesse culpa ou desordem." Por fim decidiram: " Pode e deve El-Rei Nosso Senhor mandar promulgar o Santo Evangelho nos reinos e senhorios do Monomotapa..." Em relação ao desencadear da guerra aconselhavam: "... que, antes de se fazer a guerra ao dito rei do Monomotapa, se lhe requeira em nome de El-Rei Nosso Senhor que lance logo, em tempo limitado, todos os mouros de suas terras e senhorios, como inimigos que são da fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e entregue os mais culpados..."; "... e não deferindo o dito rei este requerimento e não lançando nem entregando os ditos mouros pode-se-lhe fazer guerra e seguir todos os direitos dela." No entanto, quer a morte do jesuíta D. Gonçalo da Silveira quer os outros motivos invocados não passaram de um pretexto oficial para sancionar uma invasão que nada mais tinha em mira senão o de atingirem as miríficas minas de ouro do reino, que tanto apetite abria à gula lusitana. Esta expedição, comandada por Francisco Barreto parte, da ilha de Moçambique, em Novembro de 1571 com destino a Quelimane e, a 18 de Dezembro seguinte, flecte para Sena, via Zambeze. Em Julho de 1572, depois de reorganizadas as forças em Sena, Francisco Barreto interna-se no Barué e razia alguns regulados daquela zona, até que chegam a Sena enviados do Reino do Monomotapa, que aceitam as condições dos portugueses. No balanço final, esta expedição saldou-se num novo fracasso, não por acção dos guerreiros do Monomotapa mas por incúria dos portugueses que, minados por febres tropicais, falta de comando militar efectivo (já que este tinha que submeter as suas decisões à chefia religiosa da expedição entregue ao padre jesuíta Monclaro, numa controversa decisão emanada de Lisboa) e sem nenhum apoio logístico perderam, nas matas, a quase totalidade dos expedicionários, incluindo o seu comandante e sem terem atingido os seus verdadeiros objectivos finais que era o de tomarem posse das minas de ouro do Reino africano. No entanto, apesar de militarmente esta expedição ter sido um desastre, ela trouxe, aos portugueses, um mais aperfeiçoado conhecimento do terreno o que lhes facultou, mais tarde, um melhor implante na escolha dos locais e das rotas das suas actividades comerciais. Vasco Fernandes Homem, que assume a chefia do que resta da expedição após a morte de Francisco Barreto, efectua um levantamento parcial das minas do Reino, apercebendo-se da sua fraca produtividade. No entanto, em 1589, Gatsi Rusere sucede a Nogomo e, tendo que fazer frente a revoltas intestinas no Reino, pede auxílio aos portugueses por troca da concessão das suas minas de ouro. Por essa altura já as matas são palmilhadas por muitos aventureiros, que se vão sedentarizando em diversas zonas do Reino, criando os seus próprios estados, enquadrados por temíveis milícias de escravos começando, assim, a ascenção dos prazos, que também ajudam à minagem do poder do Monomotapa. Entre 1611 e 1612 Dom Estevão de Ataíde (1) promove outra incursão militar a este Reino e ordena a construção de fortes e feiras que melhor cimentam a influência portuguesa. Os monomotapas tornam-se dependentes dos portugueses e, em 1616, necessitam do auxílio militar destes para fazerem face a convulsões internas, tendo para tal Belchior de Araújo, Capitão-Mor de Tete, acorrido em seu auxílio. Só em 1628 é que Nyambo Kaparidze, referido pelos portugueses como Capranzine, guerreia os seus opressores, auxiliado pelos reis do Quiteve e de Manica, o que origina a morte de centenas de portugueses. No entanto, a resposta portuguesa é fulminante e Diogo de Sousa, liderando um força militar portuguesa, reprime a revolta. Derrotado, Capranzine retira-se e, daí em diante, os  monomotapas são eleitos, muitas das vezes, consoante o interesse dos portugueses adoptando, inclusivé, nomes lusitanos como, por exemplo: Mazuva / Dom Filipe; Siti Kazumku Musapa / Dom Domingos. Em 1630 o Monomotapa Mavura expulsa os mercadores árabes ou arabizados instalados no seu Reino. Minados, os  monomotapas tornam-se vítimas do Changamire Dombo que, em 1693, lhes guerreia sem quartel, obrigando o Monomotapa Mandhé Pedro a refugiar-se em Tete, sob total alçada portuguesa. No início do século XVIII o Reino encontra-se em guerra civil que só terminará no início da segunda década desse mesmo século, fruto de lutas por sucessões dinásticas, ocorridas após a morte do Monomotapa Macombué. Dois dos seus filhos disputaram o poder a um outro, Nhacumnembire, que acabou derrotado e exilado no Reino de Changamire. Por volta de 1760 o Monomotapa Mupunzagatu foi assassinado, o que arrastou o Reino para outro período de guerra civil que originou, de vez, a quebra do que restava do poderio deste Reino, que acabou diluído em diversos regulados, ao sabor das conveniências portuguesas. Por esta altura as fronteiras do Reino estavam diminuídas e fixavam-se, parcialmente, na área de Tete, a sul do rio Zambeze. A principal causa da extinção deste Reino residiu na incrementação da política de instalação de novos prazos, nos quais os prazeiros, com os seus exércitos de achikundas munidos de armas de fogo, debelavam qualquer tentativa de autonomia. Contam-se, entre os prazeiros que assinaram a sentença definitiva do Reino do Monomotapa, Inácio de Jesus Xavier, João Lobo, José de Araújo Lobo,José do Rosário Andrade, Sebastião Morais de Almeida, Vicente José Ribeiro e Vicente Ribeiro da Fonseca. Em finais do século XIX o Monomotapa rebelar-se-á contra os portugueses, através do seu Rei Kandi e, depois, pelo seu filho Chioco, revolta essa que será definitivamente finda com a morte deste.

(1) - Já biografado a 01/02/2012.

Reino de Changamire - Vasta região do interior africano meridional, de limites incertos mas que se situava a Oeste do rio Save (territórios dos matabeles) no que é hoje o Zimbabué. Rico em minério, o seu ouro era comercializado em Sofala. Os seus chefes tiveram influência decisiva no Reino do Monomotapa, chegando a assumir a dinastia no decurso do século XVI. Foi um changamire, alto funcionário do Reino do Monomotapa que, em finais do século XV, rebelou-se contra o Monomotapa, assassinando-o juntamento com grande parte dos seus filhos. Cerca de cinco anos depois um dos filhos sobreviventes conseguiu executar o changamire, tendo os descendentes deste se refugiado no Reino do Butua. No decurso do século XVIII este Reino deu ampla protecção à feira do Zumbo, principal entreposto para exportação dos seus artigos para o litoral norte moçambicano, se bem que não autorizassem os comerciantes portugueses a penetrarem no seu território. Em 1743 o Changamire puniu forças suas que saquearam o Zumbo e, em 1772, outra expedição changamire salvou de novo esta feira, dum ataque das forças do Monomotapa Ganhambadzi, voltando-se a processar esta protecção em 1780. Os artigos comercializados giravam en torno do ouro, marfim, panos e missangas. A criação e posse de gado bovino era desenvolvida, não só por uma questão alimentar, mas também como forma de pagamento dos acordos nupciais, conferindo poder social e político, a quem possuísse grandes manadas. 


Reino do Quiteve - Integrava a nação chona e tinha a sua localização geográfica centralizada no actual Chimoio e estendia-se para Este até ao Dondo e para Oeste até Manica e, a Sul, até sensivelmente o rio Búzi. Presume-se que tenha sido em finais do século XIX que este Reino tenha iniciado um processo se separação do Reino do Monomotapa, o qual foi percorrido por António Fernandes, entre 1513 e 1514. Era rico, quer em agricultura quer em ouro e marfim e o seu Rei utilizava o título de "Sachiteve". Nas primeiras seis décadas do século XVI pouco se sabe deste Reino, havendo registos portuguese que, em 1561, entrou em conflito com o Reino do Monomotapa. Em 1574 o Sachiteve exige a Vasco Fernandes Homem que lhe indemnize os bens que este apropriava à força, acabando por o atacar na serra de Sitatonga, mas é derrotado e a sua capital incendiada. No ano seguinte submete-se aos portugueses, que lhe restituem os familiares aprisionados como reféns, tendo-lhes prometido também não vedar as rotas comerciais. Tornou-se independente do Reino do Monomotapa e, na relação com os portugueses, exigia a Sofala o pagamento anual da "curva", cifrada em 200 panos. Em 1640, auxiliado por Sisnando Dias Baião, o Sachiteve Peranha reassume o poder e reabre as terras do seu Reino aos portugueses. Este estado de graça durou apenas oito anos, altura em que mandou encerrar as minas de ouro e incrementar a agricultura, havendo a atestar tal facto, um relatório português que referia, em 1667, que o Quiteve não era produtor de ouro. Esta situação terminaria em 1676, quando diversos prazeiros mandaram assassinar o Sachiteve reinante e restauraram o domínio português. Em 1762 relatos portugueses referiam que o ouro deste Reino era de muito boa qualidade e que também era muito rico em marfim. Em finais do século XVIII o Reino do Quiteve era o mais importante economicamente, sendo apenas suplantado pelo do Monomotapa, tendo ainda sofrido um incursão militar portuguesa, por se ter aliado ao Reino do Changamire, a quem se avassalara. O primeiro quartel do século XIX apresenta-se turbulento, com crises dináticas em 1803 e instalação angune do chefe Nuqaba, que assolou a região entre 1827 e 1837, massacrando a família real em 1832. Dez anos depois o Reino é integrado no Reino de Gaza, por Manicusse, que entretanto derrotara Nuqaba. Manuel António de Sousa é nomeado Capitão-Mor do Quiteve e instala um conjunto de três aringas, que ligavam o rio Pungué ao Luenha, mas como o centro do Reino estava desprotegido este continuava a pagar vassalagem ao Reino de Gaza.


Reino do Butua - Nome atribuído pelos portugueses ao Reino dos povos chona-caranga, que se situava a Oeste do Reino do Monomotapa até ao princípio do deserto do Kalahari e, no sentido Norte-Sul, entre o actual Zimbabué (parte inferior) e o Transval, no que viria a denominar-se depois por Matabelândia (terra dos matabeles). O Butua, também referido pelos europeus como "Mãe do Ouro", era um dos reinos derivados do Reino do Zimbabué, tinha a sua capital em Khami e foi visitado por António Fernandes, que referiu ser o Reino muito rico em ouro. Pouco se conhece da estrutura interna deste Reino que não era vassalo do Reino do Monomotapa, com quem bastas vezes guerreava. Em 1640 estalou um guerra civil neste Reino, tendo sido massacrados diversos indivíduos ligados à corrente islâmica. Após ter sido deposto, o Rei do Butua pediu auxílio a Sisnando Dias Baião, que lhe reconquistou o trono abrindo, de seguida, o apetite a outros prazeiros que ali se instalaram. O Changamire Dombo ascende ao trono deste Reino e muda a capital de Khami para Danangombe, em finais do século XVII. 


Reino de Sedanda - Situava-se, geograficamente, a Sul do Reino do Quiteve. Estendia-se, sensivelmente, entre os rios Búzi e Save e terá sido visitado por António Fernandes, entre 1511 e 1512, podendo ter sido o seu fundador o Rei Inhamunda. Este Reino, em revolta contra o Reino do Monomotapa, do qual estaria avassalado, enviou em 1515 uma delegação a Sofala, a solicitar uma aliança com os portugueses bem como nomeação de representantes da Coroa Portuguesa na sua corte. Garantia, em troca, a liberdade de comércio e fornecimento de mercadorias. António Fernandes esteve nesse Reino, como representante dos interesses portugueses, entre 1517 e 1518, conseguindo aumentar o incremento comercial entre aquele Reino e Sofala. Em 1519 a situação piorou para os portugueses quando Inhamunda ordenou o bloqueio das rotas comerciais, confiscou mercadoria e escravizou enviados do Capitão de Sofala. Esta situação arrastou-se até 1526, apesar de cinco embaixadores do Reino de Sedanda terem visitado Sofala, em busca de resolução de conflito. Em 1526 Sofala fica cercada por forças do Reino de Sedanda o que obrigou o seu Capitão-Mor, Lopo de Almeida, a negociar, conseguindo-se o desbloqueio para as caravanas poderem circular. Após a morte de Inhamunda, parte deste Reino foi absorvido pelo Reino do Quiteve, obrigando os sedandas a rumarem para o Sul. No finaldo século XVI o Reino estender-se-ia do rio Save até à zona de Inhambane. Com a decadência de Sofala deu-se também a decadência deste Reino, tendo-se agravado no decurso do século XVIII, com a invasão de povos vindos do Sul, que se apossaram das suas riquezas. A posterior integração no Reino de Gaza e as actividades predatórias dos angunes levaram à quase destruição étnica, cultural e linguística dos sedandas, que se dispersaram no seio doutros povos, com quem se misturaram, o que também contribuiu para a sua auto-destruição.


Reino dos Tonga - No decurso do século XV ocupavam uma área que ia desde o rio Pungoé, a Sul, os rios Zambeze e Luenha, a Norte, e a Oeste e a Leste por diversas terras delimitadas por vários rios contando-se, entre eles, o Zangue, Mucua e Msicadzi. Culturalmente bem distintos dos chona-caranga, falariam uma língua com afinidades aos senas e o seu rei tinha o título de "Samungazi" que se corrompeu para o "Mongaz" português. Podem-se subdividir em dois grupos: os que se submeteram aos chona-caranga e ajudaram à formação do Reino do Barué e os que continuaram independentes e a resistir, quer aos monomotapas quer aos portugueses e angonis, entre outros. Dos tonga do Reino do Barué saíam as nomeações do "mukomowasha". Os tonga nunca foram integralmente dominados pelos monomotapas, que por diversas vezes pediram ajuda aos portugueses para os dominarem. Em 1572 batalharam os portugueses, contra a expedição de Francisco Barreto que, no entanto, contava entre os seus aliados tongas chefiados por Chombe e, apesar de vencidos, debelaram bastante as forças portuguesas e, de seguida, batalharam as forças do Monomotapa Nogono. No entanto, em finais do século XVI estavam formalmente avassalados ao Reino do Monomotapa. Em 1608 o Samungazi foi morto às ordens do Monomotapa Gatsi Rusere, que o desconfiava aliado dum rival, o que provocou a sublevação dos tongas. Em 1613 o Reino revolta-se de novo, o que obriga Diogo Simões Madeira a combatê-los, acabando por os derrotar, o que permitiu o restabelecimento do tráfego fluvial do Zambeze e o descongestionamento de Tete e das mercadorias para o reino do Monomotapa. Em 1640, um chefe Tonga, Sanapache, atacou diversos prazos, tendo sido repelido pelo prazeiro Lourenço Matos e, em 1667, face à constante prepotência dos prazeiros, despoleta-se nova revolta tonga, que acabou violentamente sufocada cinco anos mais tarde. Durante o século XVIII assistir-se-á à plena integração forçada dos tongas na política de consolidação dos prazos, desaparecendo este Reino, enquanto independente.



Dom Gonçalo da Silveira - (1523/1561) - Missionário jesuíta. Estudou na cidade de Coimbra, onde conheceu e se travou de amizades, para o resto da vida, com o grande poeta Luís de Camões que, mais tarde, cantará a morte do missionário na epopeia dos Lusíadas. Entrou para a Companhia de Jesus em 1543 e doutora-se em Teologia em 1550, em Espanha. Seis anos mais tarde segue para a Índia onde se manteve até 1560, tendo exercido o apostolado em várias partes do Oriente. Vai para Moçambique, decidido a ir ao Reino do Monomotapa, Reino este que lhe fora falado pelo Bispo católico de Cochim, Dom Jorge Temudo. Aporta à ilha de Moçambique em 05 de Fevereiro de 1560 e, acompanhado pelos padres André Fernandes e André da Costa, desce ao litoral de Inhambane, ao Reino Tonga. Demorando-se pouco e deixando aí os seus companheiros, regressa à ilha de Moçambique, onde organiza uma expedição religiosa ao tão falado Reino do Monomotapa. Atinge a corte do mesmo, depois de ter atravessado Quelimane, Sena e Tete, a 01 de Janeiro de 1561 onde é bem recebido. Encontra aí António Caiado, que lhe serve de intérprete, enquanto não domina a língua mocaranga, conseguindo autorização para exercer o sacerdócio junto dos súbditos tendo, inclusivé, baptizado com o nome de Sebastião o próprio Monomotapa. A facção árabe da corte, incomodada com a permanência dos cristãos, moveu-se junto do Rei convencendo-o que aquela expedição era a ponta de lança de uma futura invasão portuguesa, pelo que receberam autorização real para matarem o jesuíta. Alertado para a conspiração que se montava contra a sua vida, recusa abandonar a corte, mesmo a instâncias de António Caiado que, bem informado pelos seus espiões, sabia a noite em que iam matar o prelado. A tudo Gonçalo da Silveira recusou, preparando-se para ser assassinado, o que vem a acontecer na noite de 15 de Março de 1561, tendo o seu corpo sido lançado para uma lagoa, a nordeste da futura cidade colonial de Salisbúria. Os seus assassinos não lhe sobreviveram muito tempo pois, por decisão do Monomotapa, também foram mortos. 



António Caiado - (Século XVI) - Aventureiro e explorador. Viveu na corte do Reino do Monomotapa onde se consta que explorava minas de ouro, ofertadas pelo monarca, por volta de 1530. Aquando da primeira expedição portuguesa liderada por Dom Gonçalo da Silveira àquele Reino, António Caiado desempenhava também a função de Capitão de Portas (1) e serviu-lhe de intérprete não tendo, apesar de tudo, conseguido evitar que este fosse morto.


(1) - Capitão de Portas - A função de Capitão de Portas foi instituída pelo Monomotapa, antes dos portugueses lá terem chegado. Com o advento destes o cargo manteve-se, com a finalidade de gerir a comunidade portuguesa que demandava as terras do Reino do Monomotapa, mas passou a ser gerido só por portugueses. O Capitão de Portas era nomeado directamente pelo Vice-Rei da Índia, o que lhe dava autoridade sobre os portugueses e restantes europeus que frequentavam aquela feira e essa nomeação carecia do acordo do Rei do Monomotapa. No início estava estabelecido na feira de Massapa, que era uma das "portas" de entrada neste Reino (donde o título Capitão de Portas). Competia-lhe, não só a gestão e administração da justiça e cobrança de impostos das actividades comerciais bem como solicitar autorização do Rei para estes entrarem e saírem do Reino, para além da aplicação do "empata"  e era Provedor dos Defuntos (1A). As suas decisões eram inapeláveis e tinha direito de vida e de morte sobre todos os habitantes da feira. Por o relacionamento entre os portugueses e o Monomotapa passar pela sua "Mulher Grande" (1B), que era uma prerrogativa feminina, também se chamava ao Capitão de Portas a "Mulher Grande do Monomotapa".


(1A) - Provedor dos Defuntos - Cargo administrativo que tinha por função tratar de todos os assuntos relativos a um falecido, nomeadamente dos que não tinham familiares, facto muito comum na ápoca dos descobrimentos marítimos e da conquista territorial, assuntos esses que iam desde o registo do óbito e relato de suas causas ao funeral e arrolarem e zelarem pelos bens materiais do falecido, decidindo pelo seu destino competente.


(1B) - Mulher Grande - Nome dado, num harém, à primeira mulher casada e que, assim, se torna na principal.



Francisco Barreto - (1520 - 01/07/1573) - Oficial do Exército Português. Em 1548 vai para a Índia, como Capitão de Baçaim e, em 1555, é nomeado Governador da Índia, cargo que ocupou até Setembro de 1558. Durante a sua estada na Índia ganhou a alcunha de "Louco", fruto da sua audácia demonstrada nos combates em participou, colocando-se sempre à frente dos seus homens para dar o exemplo. Regressado à metrópole prosseguiu a sua carreira militar até que, por se encontrar arruinado financeiramente, aceitou a missão de comandar uma incursão ao Reino do Monomotapa, a fim de conquistar as minas de ouro e punir as afrontas que o Rei daquele potentado africano infligia aos portugueses contando-se, entre estas, a morte de Dom Gonçalo da Silveira, de quem Francisco Barreto fora amigo. Desembarca em Moçambique em 1570 e a expedição, iniciada no ano seguinte, salda-se num desastre total, culminando com a sua morte nas margens do rio Zambeze, sem atingir os objectivos. 

Vasco Fernandes Homem - (século XVI) - Explorador. Integrado na expedição punitiva ao Reino do Monomotapa, de 1571 e chefiada por Francisco Barreto, assume o comando da mesma em 01 de Julho de 1573, após a morte deste em Sena. Regressando a Sofala, com o que restava da expedição, volta a partir de novo, em 16 de Maio de 1574, para o Reino do Monomotapa, que percorre durante dois anos. Era proprietário de vastos territórios na região de Chironga, a Oeste do Reino do Quiteve, onde se dedicava à exploração aurífera. Apercebendo-se que as famosas minas de ouro do Reino, que tanta lenda tinham criado e tantas mortes e guerras haviam causado, não possuíam a riqueza que se presumia, desfez-se das suas terras e retornou a Sofala, de vez, em 26 de Setembro de 1576. Terá aqui falecido. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Historiando Moçambique Colonial


Amuralhados - Os amuralhados eram construções de pedra (zimbaués) amontoadas umas sobre as outras, sistematicamente ordenadas e perfeitas e não possuindo nenhum elementos de ligação a uni-las. Tendo por função serem habitações, fortins defensivos, túmulos ou áreas demarcadas de fundições de ferro, encontram-se diversos tipos de amuralhados nas zonas de Manica e Sofala. A datação desses amuralhados devem remontar desde o século XIV, tendo os seus construtores sido os povos bantos.

Os machonas, grandes utilizadores deste tipo de construção, terão encontrado na abundância da pedra nas suas áreas de implantação a facilidade da matéria prima para construírem os seus diversos tipos de amuralhados, uma das bases culturais do Reino do Monomotapa. Com o desintegrar da cultura machona, resultante das sucessivas invasões de povos bantos (barotses, changanas, matebeles) e com a machadada final assestada pela chegada dos europeus e com a consequente substituição das velhas instituições políticas do Reino do Monomotapa pelos interesses dos novos conquistadores, os amuralhados deixaram de se construir, face à fuga perante o inimigo.

Assim, pode-se aceitar que a cultura das construções dos amuralhados do Reino do Monomotapa desapareceu depois da destruição da cultura machona por outros povos africanos e finalizada pela presença europeia. Após a queda do Reino do Monomotapa este tipo de construção manteve-se, na sua essência, no seio do povo Waungwe e entre os povos bavenda, no Transval Norte, povos estes que estiveram menos sujeitos a invasões inimigas e, assim, conservaram a influência da cultura machona no seu seio. 


Arte rupestre - A arte rupestre moçambicana é um importante legado das formas de expressão espiritual que os povos ancestrais, que habitaram este território, nos legaram. As pinturas rupestres são em muito maior número que as gravuras e o material mais utilizado, para a consumação das mesmas, eram os seixos. Por norma, as pinturas animalistas são polícromas e os locais escolhidos para fixarem a sua arte foram as cavernas e os abrigos naturais, sendo as rochas dolatíticas ou gravíticas as que melhor se prestaram para as suas reproduções.

Foi a partir de 1721 que a Prelazia de Moçambique informou a Academia Real de História Portuguesa da existência de desenhos de animais em rochas situadas perto das ruínas de zimbaués. A datação mais antiga das pinturas rupestres em solo moçambicano remetem-nos para o Período do Paleolítico e a sua carta pré-histórica assinala, entre outras localidades ou zonas, vestígios desta arte em Chiloane, Chifumbazi e Cachombo, na área de Tete, na meia encosta do monte Chimbanda da serra do Zembe, em Chimoio e, próximo de Manica, no contraforte do Vumba, do monte Chinhamapere, todos eles com pinturas rupestres de interesse artístico.

Também entre o Ligonha e o Rovuma existem nove estações de arte rupestre: Riane, Monapo, Nacavala, Campote, Murrupula, Mogovolas, Ribaué, Marrupa e Montes Oizulos. Em Riane e Monapo encontram-se figuras polícromas do tipo animalista, paleolíticas, sendo as de Riane mais ricas em movimentos, cor e arte relativamente às do Monapo, mas em ambas são de belíssimas imagens de arte. Em Nacavala, Murrupula e Mogovolas, as figuras serão do período do Neolítico, contendo traços geométricos e de menor impacto visual que as anteriores e a de Campote possui uma escrita hieroglífica. Ainda na zona do Monapo, no monte Namelépia (coisa escrita, derivado do verbo ku-lepa - escrever) existem pinturas  a tinta branca e preta, representando animais, homens e símbolos ainda não decifrados.

Nas outras localidades arqueológicas a actividade artística é testemunhada pela cerâmica aí encontrada. No sopé do monte Malembué (ma - muitos, lembué -escritos), no Niassa, existem pinturas rupestres de homens e animais alados e terrestres, pintados a branco entrecortados com traços de côr ocre. Na região de Samo, em Chiuta (Tete) existem pinturas de côr ocre num enorme rochedo representando círculos e riscos dos quais não se consegue definir quala ideia dos artistas que aí as gravaram. Ainda nesta zona de Chiuta, em Zangaia, existem pinturas a ocre, representando animais pré-históricos, homens e palhotas.

A arte rupestre era inspirada, principalmente, em cenas de guerra, dança e caça e os animais mais representados são os grandes herbívoros (gazelas, antílopes, bovinos, etc.). O manuseamento do fogo e do ferro, tanto no fabrico de armas como de cerâmicas, são também legados representativos da arte pré-histórica.




Instalação dos povos asiáticos - Investigações arqueológicas  presumem a chegada dos asiáticos à costa meridional africana no século VI, povoando a ilha de Madagáscar. Poderiam ser indonésios já misturados com sangue africano. Admite-se também que, por essa época, navegadores indonésios se tenham estabelecido a Sul de Sofala, em pontos litorais situados entre os rios Save e Limpopo, tendo trazido plantas alimentares e, também, que sejam responsáveis pela introdução do xilofone, um instrumento musical de grande repercussão no litoral sul de Moçambique, entre o povo chope (timbila). Sofala seria o seu centro portuário marítimo mais importante e as relações comerciais com os povos bantos reportar-se-iam ao planalto aurífero entre os rios Zambeze e Limpopo.

A busca do ouro na costa africana poderá ter estado, também, na origem da chagada dos persas da dinastia Sassanida, atendendo a que, depois do ano 570 DC, com a ocupação do Iémen, os Sassanida monopolizaram o controlo do comércio com a costa oriental africana. O seu porto mais importante, no Golfo Pérsico, era Siraf, que abastecia o planalto interior de Shiraz. Em 640 DC as invasões árabes nesta área não cortaram as rotas comerciais marítimas africanas a a ascensão do Califado dos Abássidas, em 750 DC, ainda implementaram mais esse comércio. Vários historiadores árabes relataram as rotas marítimas africanas e no seu comércio, que se estendiam até ao Sul de Sofalaeconómico persa dos princípes de Shiraz, datado no princípio do primeiro milénio (DC), incrementou ainda mais as relações comerciais com a costa africana.

É nesta época que um tronco da dinastia Shiraz se desloca para Quíloa, onde se instala, estabelecendo feitorias avassaladas que pontilhavam a costa africana. Quer a ilha de Moçambique, quer Angoche, quer Quelimane, eram avassaladas a Quíloa, quando os portugueses lá chegaram, em 1498. Quíloa era o principal centro cultural, comercial e religioso islâmico da costa africana, com construções de pedra, cunhagem de moeda local e era detentora duma grande mesquita de traçado árabo-persa, completada em 1300. A sua supremacia manteve-se ao ao final do século XV, quando se travou uma luta pela sucessão do Sultanato, o que provocou uma saída forçada de líderes que rumaram para o Sul. Destes, há o registo de dois deles: Husseine (ou Hassani) e Mussa, que procuraram em Quelimane e ilha de Moçambique refúgio. Husseine vem a morrer na viagem e foi sepultado na ilha de Mafalale, na foz do Angoche, tendo Mussa criado um Sultanato e posto à frente do mesmo Xosa, filho de Husseine. Mussa retirou-se para a ilha de Moçambique, onde ainda terá assistido à chegada da armada de Vasco da Gama, em 1498. Paralelamente à revolta dos princípes shirazes, também contribuiu para a queda de Quíloa a dissidência de vários sultões avassalados, entre os quais o Sultão Youssuf, de Sofala, que entraram em rota de colisão com Quíloa em busca de mais autonomia o que a acrescer à chegada dos portugueses, determinou a queda política.

Outro povo asiático que também se encontrava instalado em Moçambique, aquando da chegada dos portugueses eram os indianos, se bem que em muito menor número.  



Zimbaué ou zimbabué - 1) Nome dado às ancestrais construções de pedras existentes no Reino do Zimbabué e no Reino do Monomotapa, podendo também significar o lugar onde residia o Monomotapa.


Aconteceu


Passaram-se 25 anos sobre o falecimento de José Afonso. Uma voz que nunca se calou. Mesmo depois deste tempo passado, a sua voz ainda se ouve e, sem querer ser profeta ou futurista, daqui a 50 anos ainda se ouvirá.

Assisti ao programa "Maior que o pensamento" que a RTP 1 lhe dedicou, e que transmitiu no vigésimo quinto aniversário do seu passamento. Apreciei o gesto. Já vai sendo tempo de determinadas pessoas exorcizarem os seus fantasmas e, em relação a este Homem, por exemplo, verem-no como o compositor e cantor excepcional que foi e deixarem-se benzeduras e abrenúncios porque "ele é comuna"  e outras bacoquices quejandas.

Zeca Afonso conquistou o seu espaço e, agora, demonstrou que também conquistou o seu tempo. Viveu com dificuldades, morreu com dificuldades. Os amigos acudiram-lhe nas horas mais amargas, mas tudo o que lhe arranjavam era pouco para a doença que o atormentava. O Estado, tão mãos largas nas benesses que dá aos seus cães de fila políticos, parece que se esqueceu deste Homem. Mas o legado que,  felizmente, nos deixou já faz parte do património lusíada.  E este legado é uma excelsa bofetada de luva branca na classe política que mandava na altura no País. Pena é que em vez de luva branca não tenha sido uma marreta.

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E por falar em políticos que na altura mandavam neste País, quem era o Primeiro-Ministro, quem era? Não era um tal de Cavaco Silva que agora é Presidente da República. Pois. Enquanto Zeca Afonso, em plena ditadura e sem protecção nenhuma não calava a sua voz, tendo inclusivamente sido preso pela polícia política, o nosso Venerando Chefe de Estado, Grande Timoneiro da Nação e Suprema Honestidade em Pessoa não quiz aparecer na Escola António Arroios, porque na mesma estava a decorrer uma manifestação de adolescentes. Em plena democracia e com a protecção policial que é garantida a uma pessoa que desempenha aquele cargo... acho isto uma pura cobardia.

E é esta pobre figura o Comandante Supremo das Forças Armadas. Mas ele não tem culpa, coitadito. A culpa é de quem lá o pôs. É de todos aqueles que votaram neste singelo homenzinho que tem (ou teve) como amigos pessoas que andam a contas com a Justiça, pessoas que me estão a ir ao bolso, via impostos, para pagar os seus desfalques. Porque eu nunca tive dinheiro em off-shores, nunca comprei e vendi acções de empresas ligadas a falcatruas, nem nunca troquei de casa por outra de condomínio fechado num negócio que foram levantadas objecções por alguns políticos na última campanha presidencial, nem nunca pus um ar de fastio e dizer ao meu interlocutor que teria que nascer duas vezes para ser tão honesto quanto eu. Não, Cavaco Silva é que terá que nascer várias vezes para ser tão honesto quanto eu. 


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E já agora essa teoria do "tiro ao Cavaco", desenvolvida e condenada por Marcelo Rebelo de Sousa no seu comentário dominical na TVI, não tem pés nem cabeça. Cavaco Silva não durava um dia numa campanha presidencial norte-americana, onde a vida das pessoas é descascada até ao osso, como soe dizer-se.

Uma pessoa que queira ser Presidente da República, ou de Junta de Freguesia ou de qualquer outro cargo político, tem que se sujeitar a ser escrutinado diariamente e tem que ouvir a críticas políticas que lhe dirigirem, sem perder a cabeça ou refugiar-se em choradinhos da treta. Marcelo Rebelo de Sousa, na defesa do seu amigo Cavaco Silva, foi demagógico ao misturar Presidência da República com Presidente da República.

Uma coisa é o orgão institucional que eu, por exemplo, como republicano dos quatro costados que sou, defendo com unhas e dentes. Outra coisa é a pessoa que, transitoriamente, desempenha a função. Cavaco Silva não é a Presidência da República mas sim o Presidente da República. Tal como os seus antecessores e os que vierem a seguir. Por isso, independentemente do respeito que se é devido a uma pessoa que desempenha esse cargo (igual para todos os outros cargos políticos), esse respeito não o isenta de críticas políticas, bem como não o isenta de processos judiciais.

Só que Marcelo Rebelo de Sousa, na destreza da sua oratória, lança a confusão para a frente e faz-nos criar complexos de culpa. Mas não a mim. Por isso, sempre que tal se justificar na minha opinião, farei sempre "tiro ao Cavaco". Ou a qualquer outro político.   


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Carlos Cruz e os restantes arguidos do caso "Casa Pia" acabaram de novo condenados, agora no Tribunal da Relação, que confirmou as mesmas penas, mais ou menos, que já tinham sido atribuídas pelo Tribunal de 1ª Instância. Bom, lá veio a lenga-lenga do costume, que estão inocentes, patati e patátá. Agora vai mais um recurso para o Tribunal Constitucional, o que lhes evitou irem direitinhos para a pildra.

A Polícia investigou... e eu não lhes pude chamar pedófilos. A Polícia só investiga, não condena. O Ministério Público acusou... e eu não lhes pude chamar pedófilos. O Ministério Público só acusa, não condena. Foram para o contraditório e um Juiz confirmou as acusações... e eu não pude chamar-lhes pedófilos. A decisão do Juíz não era condenatória. Três juízes de 1ª instância condenaram todos eles a prisão por pedofilia... e eu não pude chamar-lhes pedófilos. É que havia recursos. Agora três juízes da Relação confirmam as penas prisionais...e eu continuo a não lhes poder chamar pedófilos. É que há um recurso para o Constitucional... e eu ainda me arriscava a levar com um processo de difamação, por atentar ao bom nome destes ilustres senhores. 

Só que eu posso ser peidófilo mas não sou pedófilo. Acho que cu de rapaz não me satisfaz.


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A Divisão de Trânsito da PSP de Lisboa resolveu efectuar um auto-stop numa rua que marginaliza o bairro da Madre Deus, em Lisboa e onde se encontram instaladas duas escolas, uma primária e outra secundária. À hora que estavam a efectuar a operação de controle das viaturas que circulavam e dos seus condutores, estavam também diversos pais a levarem os seus filhos para a escola primária. Com um aparato policial enorme tinha, como cereja no topo do bolo um PSP armado de "shot-gun" como que a dar cobertura aos seus colegas, caso algum condutor tentasse a fuga.

Mas, pergunto eu: estes polícias são parvos ou tiraram o curso de burrice por correspondência? Será que os responsáveis por esta operação não podiam escolher outra hora ou mesmo outro local naquele bairro para desencadearem a operação?

E é fácil de explicar estas minhas perguntas: imaginem que eu sou "marado dos pirulitos" e que, apanhado pelo auto-stop, acelero a viatura e saio dali desabrido. Não era a primeira vez que tal acontecia numa operação destas, diga-se de passagem. Lembro-me duma no Algarve em que em fuga atropelaram um polícia que veio a morrer (era um Sub-Chefe se não me falha a memória).  Não só punha as vidas das crianças em risco como arranjava ali uma confusão tremenda, com os pais aos  berros a gritarem pelos seus miúdos. E o PSP da "shot-gun" o que é que fazia? Disparava? Com a dispersão dos chumbos arriscava-se a atingir um inocente. Ou então não fazia nada para evitar acidentes. Então para quê aquele exibicionismo, feito Rambo de pacotilha?

Quando é que estas iluminárias brilhantes têm mais cuidado em escolher locais para fazerem as operações de auto-stop?

Mas será que no meio daquele conjunto de miolos policiais nenhum se apercebeu disto? Não haverá um alguma inteligência?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Chaplin Court Treatt

Aventureiros, exploradores e viajantes

Chaplin Court Treatt - (Londres, 03/09/1888 - Los Angeles, 15/07/1954) - Oficial da Royal Air Force. Tendo efectuado os seus estudos em Westminster, quando eclode a I Guerra Mundial é mobilizado para França, integrado num batalhão de Infantaria mas, em 1915, acaba colocado no Royal Flying Corps, como observador aéreo. Mantém essa actividade até ao ano seguinte, quando acaba ferido num acidente de avião onde o seu piloto morre. Após recuperação hospitalar é colocado no Egipto, onde fica até ao findar do conflito. Finda a guerra mantém-se na RAF (Royal Air Force) e integra uma equipa que estuda a viabilidade de ligações aéreas entre a África do Sul e a Grã-Bretanha. Em 1922, concluído estes estudos, fica na África do Sul onde conhece Stella Maud Hinds, com quem celebrará matrimónio no ano seguinte.

Será nessa época que começa a amadurecer a ideia de ligar a Cidade do Cabo ao Cairo, via automóvel, aventura essa que nunca tinha sido completada anteriormente, mas apenas tentada. Em 1903 Tom Prata saíra do Cabo e atingira o Sudão mas não passara daí. Dez anos mais tarde (1913) o Capitão Kelsey fizera nova tentativa, mas a aventura terminara abruptamente, quando morreu na Rodésia, vitimado pelo ataque dum leopardo.

Com o fito de atingir os seus objectivos e com o apoio incondicional da família da sua esposa, o casal Court Treatt desloca-se a Londres, levando uma carta de apresentação elaborada pelo General Smuts, ao tempo Primeiro-Ministro da África do Sul, a fim de conseguirem obter as necessárias autorizações e apoios logísticos e financeiros.

Depois de realizada a viagem, que lhes trouxe fama e glória, outras se seguiram pelo continente africano. Em 1934 o casal divorcia-se e Chaplin Court Treatt volta a casar em 1937. Preferindo a máquina de filmar à espingarda, várias vezes defendeu a necessidade de se preservar as espécies selvagens africanas do extremínio, principalmente os animais de grande porte, especialmente apetecíveis pelos caçadores de caça grossa.

Stella Maud Hinds Court Treatt - (Blaubank (África do Sul), 11/03/1895 - Joanesburgo, 20/12/1976) - Aventureira, escritora, documentarista. Casada com Chaplin Court Treatt, efectua com ele a primeira ligação automóvel da Cidade do Cabo ao Cairo. Desta viagem escreveu o registo memorial "Cape to Cairo: the record of a historic motor journey" (1927). Depois desta expedição realizou outras viagens ao interior do continente africano, nomeadamente ao Sudão.

Juntamente com o seu marido e com o seu irmão Errol Hinds (que também participou na viagem Cabo/Cairo) escreveram o guião, dirigiram e realizaram o filme "Stampede" (35mm, mudo, a preto e branco, 1929) que é uma história fictícia de aventuras, muito em moda na época e que relata a vida de Boru, um menino adoptado que se trava de amizades com o filho dum chefe tribal e, mais tarde, já adulto, trone-se ele próprio um líder salvando o povo da fome e da miséria. Retratando a mentalidade colonial da época, molda os africanos como seres primitivos, numa fase de evolução lenta e. em algumas partes, efectuando comparações com animais.

Posteriormente o seu filme documentário "Sudan Sand: filmimg the baggara arabes" (1930) é um relato de como foi efectuado o "Stampede", onde ela descreve como este foi realizado, com recurso a membros da tribo Habbannia, dos povos nómadas baggara, que interpretaram papeis no filme.

Um outro registo fílmico, em jeito de documentário é o "Stark Nature" (1930) onde retrata paisagens e gentes sudanesas.

Depois do divórcio, voltou a casar-se, agora com um médico, embarcando o casal para a Índia a viver. Retornou à sua África do Sul natal, onde veio a falecer. 

A expedição - Desde sempre esteve nos objectivos hegemónicos do colonialismo britânico, em África, dominar o maior espaço de território possível onde qualquer súbdito de Sua Majestade pudesse caminhar sempre sem nunca o Sol se pôr. Impossível? Não... conseguiram-no. Da Cidade do Cabo ao Cairo (ou do Cairo ao Cabo, é indiferente) foi uma viagem que se tornou possível efectuar sempre em território administrado pelos britânicos.

Em 23 de Setembro de 1924 iniciou-se a primeira travessia motorizada sul-norte, do continente africano, expedição essa que foi realizada pelo Major Chaplin Court Treatt, secundado pela sua esposa Stella Maud Hinds. Com partida na Cidade do Cabo, a expedição era composta por meia dúzia de participantes que se transportavam em dois camiões  militares Croosley. A 24 de Janeiro de 1926, depois de percorridos cerca de 20.000 quilómetros, a expedição atingiu o Cairo. Dessa viagem foi efectuado um documentário fílmico sobre a mesma, obtendo-se imagens inéditas, até então, do continente africano.

A viagem, que apenas foi efectuada em território britânico, teve o seguinte percurso: África do Sul (Cape Town, Bristown, Pretória, Pietersburg); Rodésia do Sul (Bulavaio); Rodésia do Norte (Livingstone, Broken Hill, Abercorn, Karonga); Tanganica (Mwaya, Dodoma); Quénia (Nairobi); Sudão (Mongalla, Wau, El Obeid, El Dueim) e Egipto (Wadi Halfa, Assuão e Cairo). Apenas se referiram algumas das localidades que os aventureiros atravessaram não sendo, por isso, esta uma lista exaustiva.

Na época, grande parte do continente africano não era atravessado por estradas, sendo o continente mais conhecido por travessias aéreas. As florestas, os rios caudalosos, a lama, as zonas montanhosas, os pântanos, bem como as planuras desérticas sudanesas, tudo contribuía para as dificuldades da marcha. A acrescer a tudo isto havia a somar os ataques dos animais, as doenças, a falta de postos de combustível, de oficinas para aquisição de peças ou reparação das viaturas. A humidade equatorial, as picadas dos mosquitos, as mordidas das cobras, os crocodilos nos rios, o calor seco do deserto, o calor húmido dos trópicos e o frio montanhês seriam companheiros constantes dos aventureiros que, para não levarem peso excessivo que só faziam consumir mais combustível e fatigar as viaturas, tinham prescindido de roupas e outros artigos de conforto pessoal. A alimentação seria suprida pela caça e a viagem em si seria filmada. Para tal, mais importantes que objectos de conforto pessoal, havia que dar lugar a espingardas e material cinematográfico, recaindo sobre estes últimos especial cuidado, por causa da humidade ou danos de solavancos da viagem. As doenças seriam combatidas artesanalmente por Stella Maud Hinds, que para tal tirou um curso básico de primeiros socorros,m onde aprendeu a dar injecções. 

No dia 23 de Setembro de 1924 partiram da Cidade do Cabo e percorreram a África do Sul até terem entrado na Rodésia do Sul, a 02 de Novembro de 1924, quando atravessaram o rio Limpopo, que estava quase seco. A 25 de Novembro entravam em Bulavaio e, passado um mês (28 de Novembro) abandonaram as secções dos tectos das viaturas para estas ficarem mais leves. A 27 de Abril de 1925 atingem Victoria Falls (Cataratas Victória) onde repousam até 21 de Maio seguinte. Em Junho entram no Tanganica e em Setembro/Outubro já circulam pelo Quénia e Uganda, nestes territórios sem grandes problemas. Em Outubro estão no Sul do Sudão e a 20 de Dezembro atingem El Obeid e, oito dias mais tarde, entram em Cartum. Os primeiros dias de Janeiro de 1926 encontram a expedição já no Egipto, tendo abandonado Eadi Halfa a 08 desse mês. Treze dias mais tarde entram, triunfalmente, no Cairo, entre filas de multidões que os aclamam. Tinham findado uma viagem épica que cobrira uns 20.000 quilómetros.

As viaturas utilizadas - Foram usadas dois camiões da marca Crossley, modificando-se o modelo 25/30, modelo este que foi fabricado entre 1919 e 1925. Com um motor de quatro cilindros, movido a gasolina tinham uma cilindrada de 4.536 cc. Com suspensão levantada (para melhor galgarem terrenos acidentados) estavam equipados com telas mosquiteiras e os tectos dos mesmos foram adaptados para serem retirados e servirem de jangadas para atravessarem rios mas. a fim de pouparem combustível e ficarem menos pesados, acabaram por retirar os mesmos, substituindo-os por lonas, algum tempo depois da viagem se ter iniciado. Cada camião transportava cerca de uma tonelada de material. Após  a expedição, as viaturas foram embarcadas, em Alexandria, para a Grã-Bretanha, onde ainda serviram como mote publicitário à marca.

Historiando Moçambique Colonial

Sofala, Feitoria de - A localidade de Sofala aparece referida como tendo existência própria nos princípios do século X a qual, fruto da sua posição geográfica, terá sido uma das localidades escolhidas pelos mercadores para, criando aí uma feitoria, melhor efectuarem  as trocas de ouro, marfim e escravos provenientes do interior.

No século XI Sofala era um dos mais importantes entrepostos comerciais do ouro, na costa oriental africana, avassalada a Quíloa e sendo bastante procurada não só por árabes, mas também por outros mercadores asiáticos, tais como chineses, indianos, indonésios e persas. Por sua vez estes mercadores traziam, por permuta, produtos tais como arroz, cana-de-açúcar, citrinos, têxteis e missangas, entre outros. Assim, quando os portugueses se instalaram em Sofala, encontraram uma sociedade não só estruturada como também miscigenada com os povos africanos, calculando-se que a população de Sofala ascenderia a 800 pessoas e os africanos dos subúrbios atingiriam as 10.000 pessoas. De notar, ainda, que a antiga povoação de Sofala, não era uma única mas sim composta por três povoados: Sagoa, sobranceira ao longo do rio; Iangoe e um terceiro povoado na foz do mesmo.

O primeiro europeu a ter visitado aquela zona, na busca de informações de ouro e rotas marítimas para a Índia, terá sido Pêro da Covilhã, em 1489. Em 1505 os portugueses criam uma feitoria nesta localidade com o fim de captar o ouro dos reinos do Monomotapa, Bútua e Mocaranga, substituindo-se aos árabes, tendo sido nomeado como seu primeiro Capitão-Mór Pêro de Anaia. A autorização para a construção da fortaleza, que ficaria conhecida como fortaleza de São Caetano, foi concedida aos portugueses por Youssuf, ao tempo Sultão de Sofala.

No entanto, não foi pacífica a instalação dos portugueses em Sofala, pois os árabes, longamente instalados naquela região e perfeitamente enquadrados com os povos locais fomentaram revoltas armadas e promoveram percursos alternativos do escoamento dos produtos do interior, via Tete e Sena, para outras feitorias que possuíam em Quelimane e Angoche. É, assim, que vemos o Xeque Youssuf, que dera autorização para a construção da fortaleza, alterar os seus pontos de vista, acabando por guerrear os portugueses, mas acabando derrotado e  morto. Sucede-lhe, no Xecado, o seu filho Soleimão, mas por pouco tempo pois foi substituído pelo seu irmão Maulide, que trava novas guerras com os portugueses, acabando também vencido e morto, em 1511, sucedendo-lhe o seu sobrinho Quiumbe, com o beneplácito dos vencedores.

Mas, entretanto, já os portugueses tinham começado a internar-se pelo rio Zambeze, a fim de atingirem o Reino do Monomotapa. Com a instalação dos portugueses nas feitorias de Tete e Sena e a dominá-las, no correr da década de 30 do século XVI, Sofala perde o seu estatuto de feitoria importante para os interesses lusitanos, importância essa que decai em favor da ilha de Moçambique, ilha esta que começa a subir na hierarquia das povoações dominadas pelos portugueses. Fruto, não só da má gestão administrativa da mesma como também da oposição dos árabes mas, essencialmente porque o ouro que se julgava ali afluir em torrentes foi sempre em quantidades diminutas provocando, na contabilidade da feitoria um prejuízo financeiro enorme, Sofala começa a perder importância estratégica e económica a partir de meados do século XVI e acaba por morrer lentamente, nunca mais tendo voltado a recuperar os tempos de esplendor dos séculos anteriores.
São Caetano, Fortaleza de - Em 1505 o Rei de Portugal, Dom Manuel I, no regimento que outorga o comando duma armada a Dom Francisco de Almeida, que ia partir para a Índia, decreta no nº 17 do dito regimento: "Como bem sabeis nós nesta viagem, com a ajuda de Nosso Senhor, queremos que se faça a fortaleza de Sofala para o que vai ordenado por capitão Pero de Anaia". E, mais à frente, no ponto 20 do mesmo regimento, determina: "... fazer a fortaleza tendo respeito às cousas que neste caso mais se deve olhar a saber o sítio mais forte e que seja mais seguro do mar comer a terra, porque somos informados que gasta o mar ali muita dela e que há ali também grandes cheias de rio". Em Setembro de 1505, a mando de Pêro de Anaia, inicia-se a construção duma fortaleza, que ficou conhecida como de São Caetano, com madeira da região, já que as cantarias devidamente aparelhadas, vindas da metrópole especificamente para a sua construção, tinham-se perdido num naufrágio.

No ano seguinte e após a morte de Pêro de Anaia, que apenas erigiu uma tranqueira circundada por um fosso, inicia-se a construção da fortaleza, agora em alvenaria, sob a direcção do Capitão-Mór Manuel Fernandes, começando por erigir-se um torreão, com  pedra e cal vinda da metrópole e da feitoria de Quíloa. Cerca de quatro anos mais tarde reconstruiu-se, de novo, a fortaleza, mantendo a traça original. A fortaleza era de formato quadrangular, com um muro com 25 palmos de altura e quatro baluartes redondos nos seus cantos, segundo testemunho de Frei João dos Santos. Possuía uma cisterna para recolha de água das chuvas e uma capela no seu interior, onde se albergava a imagem de São Caetano, santo padroeiro da fortaleza. Com o declínio comercial da feitoria a fortaleza entrou em degradação irreversível.

No entanto, em 1836, ainda serviu de baluarte inexpugnável a incursões de povos vindos do Sul, mas em finais desse mesmo século XIX já só restava uma torre de pé e, entre 1905/06 deu-se a derrocada total, deixando de existir qualquer vestígio da que foi a primeira fortaleza a ser construída no território de Moçambique.
Anaia, Pêro de - (?- Sofala, 1506) - De ascendência castelhana, saiu de Lisboa integrado na armada de Dom Francisco de Almeida, em Maio de 1505, com a missão de construir uma fortaleza em Sofala, tendo em vista a proteção ao comércio que se pretendia implementar para o interior, com especial incidência no do ouro. Torna-se, assim, no primeiro Capitão-Mór de Sofala, onde desenvolveu uma intensa actividade bélica, com os árabes e diplomática, com os chefes nativos. Faleceu em Sofala, de doença.
Feira  - Povoação ou local onde se realizavam concentrações comerciais, no interior.
Feitor - Administrador duma feitoria competindo-lhe, entre outras coisas, as funções de receber e vigiar as mercadorias a transaccionar ou transaccionadas, verificar as cargas e descargas das mesmas, lavrar os livros de receitas e despesas, atribuição de confiscos, multas, registos do ouro, marfim e escravos e arrolamento de estragos.


Feitoria - Posto comercial que se situava, por norma, no litoral, criado pelas companhias mercantis ou pelo Estado, com a finalidade de melhor se captarem os produtos da região ou para servirem de intermediários entre as terras do interior e outras.

Face às dificuldades de comunicação no início dos Descobrimentos, as feitorias tinham uma estrutura pesada e complexa mas, a partir do século XVII, com o evoluir da navegação marítima e dum maior aceleramento das mesmas, as feitorias começaram a cair de importância, caminhando para o seu desaparecimento e dando lugar a outras estruturas administrativas.

A dispersão das feitorias, em pontos estratégicos, levava a um pontilhado à escala intercontinental que dava a Portugal, na época dos Descobrimentos, um poderio económico mundial. Em Moçambique a primeira feitoria a ser criada foi a de Sofala, segundo-se a da ilha de Moçambique. As primeiras feitorias portuguesas do interior  a serem abertas foram as de Sena e Tete, por efeitos de melhor captação de ouro do Reino do Monomotapa.

Um poema
Camarada inimigo
Esteve aqui um inimigo sem fome, muita 
Deixou-me este inimigo uma ração de combate com formigas
E dois pedaços de jornal com excrementos
E vinte e duas latas de cerveja vazias
E capim pisado
Contou-me muita informação precisa este inimigo
Sei que há três meses fazia muito frio em Lisboa (Portugal)
Caetano está bom na legenda mas só tem meia cabeça na foto
E o seu sorriso acaba onde começa mais excremento
Caetano está bom mesmo e o Povo Português muito triste
Hoje há três meses pois Eusébio não alinha por ter menisco
E santo Francisco de Paula é senhoria em Lisboa e dos pobres
Sei ainda que este inimigo tema a doença da sede para esquecer
Tem pouca fome porque ainda não sabe aprender a esquecer
Tem diarreia, tem lombriga, tem solidão
E só sabe fumar metade do cigarro
Este inimigo deixa muita informação e rasto
Não pode ser um inimigo tão assim tanto
É um camarada trabalhando no campo inimigo
É pelo menos um agente duplo.
(Mutimati Barnabé João / Eu, o povo / 1975)

Quo vadis África?

Em Tete (Moçambique), uma menina de seis anos foi violada, envenenada e, depois, extraíram-lhe os orgãos genitais. As autoridades suspeitam de práticas de feitiçaria. (Correio da Manhã, 15/02/2012).

Como eu condeno a violência gratuita, e para me manter fiel a este princípio, eu até pagava do meu bolso para me deixarem tratar da saúde mental e física do ou dos autores deste nefando crime.

Em Pemba (Moçambique) uma mulher entrou num espaço reservado a ritos de iniciação de rapazes, pelo que acabou condenada no local, pelo líder espiritual da cerimónia ritual, a ser possuída  pelos rapazes iniciáticos. Assim, a dita mulher acabou violada consecutivamente por dezassete rapazes. Posteriormente a polícia deteve alguns dos "campeões do sexo" mas foi avisada para soltar os mesmos, o que acabou por acontecer.

Como se isso não bastasse, o jornalista Pedro Nacuo veio defender os violadores, num artigo que escreveu no jornal "Notícias", defendo que a mulher tinha sido devidamente punida. Registe-se que o referido jornalista Pedro Nacuo tinha sido premiado anteriormente com o Prémio Saúde  para Jornalistas, patrocinado pelo pelo Ministério da Saúde de Moçambique em parceria com o Sindicato de Jornalistas e ONU, em 2011, por um trabalho que efectuara sobre a saúde feminina.

Por outro lado, o jornal "Notícias", numa nota editorial referiu que se demarcou da posição do jornalista mas que, inspirado no princípio da liberdade de imprensa e de opinião, deixou passar o artigo.

Felizmente que diversas organizações de intervenção cívica em Moçambique actuaram e denunciaram estes três actos criminosos, (a violação da senhora, o estúpido artigo de Pedro Nacuo e a posição comodista do jornal "Notícias"), não se calando. São as ditas associações a WLSA Moçambique - Mulher e Lei na África Austral; LAMBDA - Associação de Defesa das Minorias Sexuais; Fórum Mulher; AMMCJ - Associação das Mulheres na Comunicação Social e FORCOM - Fórum das Rádios Comerciais.
(Fonte: http://www.wlsa.org.mz/?blogviewid=53& target)
Aconteceu

Em Lisboa cinco marmanjos assaltaram, à mão armada, uma ourivesaria, quando esta se encontrava em plena laboração. O dono da mesma reagiu e ripostou, também a fogo de pistola, contra "as vítimas da sociedade" ferindo dois deles, que acabaram por ficar internados no hospital, um com um pulmão perfurado e o outro com uma bala junto à coluna. (Correio da Manhã, 15/02/2012).

Ora bem, se estes dois meninos precisarem de serem operados... sê-lo-ão. À custa de quem, pergunto eu? Dos nossos impostos claro está.

Pois é, este par de jarras deveria era de se levantarem, irem para os centros de saúde, de madrugada, tentarem marcar uma consulta que depois, caso houvesse, os remeteriam para um hospital que depois os operariam, quando houvesse vagas. Que é o calvário dos cidadãos honestos. Mas não, para os coitadinhos dos gatunos, não.

No dia 27 de Novembro de 2009 ocorreu um acidente de viação na zona dos Restauradores, em Lisboa, quando uma viatura em excesso de velocidade embateu numa outra. Na viatura causadora do acidente seguia o, na altura, Secretário-Geral do Sistema de Segurança Interna, Mário Mendes de seu nome, sendo a mesma conduzida por um motorista da GNR. Mário Mendes ia atrasado para assistir à tomada de posse de Governadores Civis e essa seria a razão porque a sua viatura seguia em velocidade excessiva numa das principais artérias da capital e em hora de grande movimento.

Levado o caso a Tribunal o motorista foi condenado. Só e apenas ele. A Mário Mendes, que seguia na viatura, nada recaiu. Para assistir a uma tomada de posse de Governadores Civis (que era um assunto de alta importância de Segurança Interna, não haja dúvidas, sim senhor) autoriza uma velocidade louca dentro da cidade. Quando a coisa correu mal, só o elo mais fraco (o motorista) é que pagou as favas. Puta de Justiça.  

Segundo Frederik Reinfeldt, Primeiro-Ministro sueco: "O sistema não é mágico. É impossível as pessoas reformarem-se hoje aos 64 anos. Se quiserem manter o nível de vida terão de trabalhar até aos 75 anos" (Sábado nº 407). Eu até digo mais: deviam-se obrigar as pessoas a trabalharem até ao dia da véspera da morte. No dia da morte, magnânimamente, concedia-se tolerância. 

Leitor da Sábado (tal como doutros órgãos de imprensa) por vezes fico meio-burro a tentar perceber o teor dalgum trabalho que apresentam. Foi o que se passou com o artigo subordinado ao tema "O que é que estás a fazer?" da rúbrica "Sociedade" (págs. 72 a 77) que é duma imbecilidade a toda a prova. O assunto é tão pimba, tão pimba, mas tão pimba que  até diria que as letras cantadas(?) pelo impagável Zé Cabra são cultura ao pé desta chachada. 

À cautela reli o trabalho todo, não fosse cometer alguma injustiça contra os altos intelectos que idealizaram, gizaram, produziram, realizaram e colaboraram neste artigo, mas o que mais consegui foi uma tremenda dor de cabeça que só me passou com duas rodelas de batatas cruas atadas nos cornos (com licença de Vossas Mercês), e 3/4 de garrafa de whiskey de Sacavém que um lelo me vendeu, quando eu ia a passar no Marquês de Pombal. Numa revista como a Sábado... enfim, é de lamentar. É que isto de encher chouriços tem que se lhe diga.

Mário Crespo (jornalista da SIC) e Rúben de Carvalho (comentador da SIC e membro do PCP)protagonizaram uma lamentável gafe e fizeram figura de parvos ao criticarem a postura física do nosso Ministro das Finanças (Victor Gaspar) perante o seu homólogo alemão (Wolfgang Schuble), considerando-a como de subserviência. Não, não era. O alemão sofreu um atentado há uns anos atrás e, por isso, desloca-se em cadeira de rodas o que obriga os seus interlocutores, estando de pé, a curvarem-se para dialogarem com ele.

O par de distraídos lusitanos desconhecia este facto. Mais profissionalismo, meus senhores. Vejam lá se justificam o que ganham. É que há actos que não ficam apagados por pedidos de desculpas posteriores. Até porque ficamos sem saber se os pedidos de desculpas são sinceros ou apenas formais. 

Vai acontecer
Sessão evocativa subordinada ao tema "Relembrar Zeca Afonso", apresentada por Viriato Teles. Na Biblioteca Museu da República e Resistência (Rua Alberto de Sousa - 10 - Lisboa), no próximo dia 23 de Fevereiro, pelas 18H00.


Foi dito
"Olho por olho e acabamos todos por ficar cegos" - Mahatma Ghandi.
Foi escrito

"... Aos 15 anos colocam-te um cigarros nos beiços e durante 20 anos arruínam-te dentes, pulmões e deixam-te viciado, e agora que estás acossado ao frio e à porta  de um restaurante convencem-te de que pertences a um grupo de livres-pensadores que resiste à higienização global do politicamente correcto. ..." - Luís Pedro Nunes, na crónica "Em manutenção", Revista do Expresso de 04/02/2012.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Historiando Moçambique Colonial

 
Moedas em Moçambique - Em Moçambique existiram uma grande variedade de moedas, quer portuguesas quer estrangeiras, com valores variáveis de terra para terra, dentro do próprio território, numa autêntica anarquia financeira que só no século XIX é que se começou a pôr cobro através de promulgação de diversa legislação. Sintetizando este assunto, pode-se referir que, para além da permuta directa de objectos para se concretizarem negócios e utilização de cauril e missangas, as moedas mais antigas terão sido as contas de barro e de vidro, enfiadas num fio com um palmo de comprimento denominadas de mites. Um conjunto de 10 mites chamava-se liponte e 20 lipontes correspondiam a uma motava, que equivalia a um cruzado. A moeda de ouro vem a seguir, sendo a mais pequena a tanga que valia 3 vinténs, correspondente a 60 réis e a maior era o metical, que equivalia a 480 réis. Utilizava-se, também, a moeda de estanho em pães, chamada calaim e cada pão pesava meio arrátel (1 pondo), valendo o pondo 120 réis ou 2 tangas. Para compras de menor vulto utilizavam-se as maçoutas, que eram barras de cobre de meio palmo de comprimento e que correspondiam a 3 vinténs. Com o incremento da fixação europeia em Moçambique e a entrada de aventureiros e comerciantes estrangeiros, assiste-se ao aparecimento de diversas moedas de vários países a circularem livremente no território, cambiadas livremente ao sabor dos intervenientes nos negócios. A juntar a estas existiam moedas do território, tais como a barrinha e a meia-barrinha, ambas de ouro, bem como moedas de cobre de 40, 20 e 10 réis, o que aumentava a confusão. A partir de 1852 começou-se a fixar o valor cambial das moedas, em corpo legislativo, numa tentativa de moralizar o sistema financeiro do território. Em 26 de Maio de 1854 uma Portaria Provincial fixava o valor das moedas estrangeiras em curso no território e determinava a retirada de todas as moedas provinciais, bem como também impunha que as moedas teriam que ser cunhadas na Casa da Moeda,em Lisboa, e teriam o valor determinado pela metrópole. Posteriormente diversa legislação foi sendo promulgada retirando de circulação as moedas estrangeiras e autorizando a entrada de outras até que, em 1897, é unificada a circulação monetária com a metrópole. A libra inglesa, fruto da forte influência britânica no território, circulou livremente até meados do século XX. 

Antigas moedas, pesos, medidas e tributos que circularam em Moçambique

Almude - Medida de capacidade, equivalente a 12 canadas ou 48 quartilhos para líquidos; 16 a 25 litros para medição de cereais e, reportando-se ao sistema métrico, correspondia a 25 metros.

Alqueire - Medida de capacidade para produtos secos e líquidos, correspondente a 13,8 litros.

Alquime - Liga de metais que imita o ouro; ouro falso.

Arrátel - 1) Medida de peso correspondente a 459 gramas; 2) libra.

Arroba - Medida de peso correspondente a 14,688 quilos ou um quarto de quintal ou a 32 arráteis.

Avelório - O mesmo que missanga.

Bar - 1) Jazida aurífera, área de exploração de minérios; 2) Peso indiano, variante de 141 a 330 quilos, correspondente ,nos tecidos, a 20 corjas e, no marfim, era uma medida variável entre 540 a 640 arráteis, consoante fosse a sua qualidade. 

Bar de fato - Medida equivalente a 400 panos.

Barganim - Moeda que valia 24 bazarucos.

Bazaruco - Moeda de pequeno valor e de fabrico grosseiro. Originária da Índia Portuguesa, podia ser cunhada em cobre, estanho ou chumbo.

Binzo - Nome do tributo anual que os portugueses pagavam aos makombes (reis do Barué).

Boca - Oferenda com que se presenteava um chefe local para se poder contactá-lo.

Braça - Medida de comprimento de 10 palmos (2,20 metros). Entree os marinheiros equivalia a 1,83 metros se bem que, no século XIX, correspondesse a 1,76 metros.

Calaim - Moeda de estanho, que pesava meio arrátel.

Canada - Medida de capacidade correspondente a 2,622 litros.

Candim (ou Candil) - Medida asiática que correspondia a 460 quilos no peso e, na capacidade, a 20 alqueires.

Caracos - Contas de adorno.

Cauril - Pequena concha marinha que era utilizada como moeda de troca.

Ceitil - Moeda portuguesa que valia um sexto do real.

Chupata - Tributo alfandegário que os potentados locais cobravam aos mercadores sertanejos, para deixarem transitar as mercadorias nos seus domínios, tributo este que também se aplicava às pessoas.

Conta - 1) Esfera muito pequena, perfurada no centro, que podia ser de metal, vidro, osso, madeira ou de qualquer outro material; 2) Missanga.

Contaria - Conjunto de contas.

Corja - Medida igual a 20 panos.

Côvado - Medida que correspondia a 66 centímetros.

Cruzado - Moeda portuguesa, de ouro, equivalente a 400 réis.

Curva - Corrupção fonética da palavra chona "kuruva", tributo trienal de vassalagem prestada ao Monomotapa ou a qualquer outra entidade poderosa (como o Rei do Quiteve), pelo Capitão de Moçambique, para que os caminhos do interior desses mesmos reinos ficassem livres para os comerciantes portugueses poderem mercadejar as suas fazendas. Este tributo já se encontrava estabelecido antes da chegada dos portugueses.

Dente da terra - Dente do elefante mais próximo do chão depois de abatido e que, por isso, se considerava mais pesado e, assim, mais valioso, sendo a oferta do mesmo um tributo precioso. Por outro lado também era acto de submissão oferecer um dente de elefante cheio de terra no seu interior, que significava que todas as terras e riquezas da mesma passavam para a posse da entidade ou pessoa que recebia a oferta.  

Empata - Corrupção fonética da palavra chona "mupeto", que se reportava ao acto de se confiscar mercadoria a algum comerciante que não tivesse pago a curva, apreensão essa determinada pelo Capitão de Portas.

Faraçola - Peso que correspondia a 12,393 quilos ou 332 arráteis.

Grão - Medida farmacêutica que equivalia a 0,0648 gramas.

Kharag - Imposto fundiário árabe, colectado sobre a posse das terras.

Kuluva - Multa aplicada a qualquer súbdito que desobecesse ao seu chefe tribal.

Larim - 1) Moeda de prata ou de ouro, equivalente a 60 réis; 2) Tanga. 

Légua terrestre - Medida de comprimento de cinco quilómetros e que também corresponde à distância que uma pessoa cobre numa hora, andando a passo.

Légua marítima - Medida de comprimento correspondente a 3,2 milhas terrestres ou 5,9 quilómetros.

Libra - 1) Arrátel; 2) Moeda de prata portuguesa; 3) Peso, na indústria farmacêutica, de 12 onças.

Liponte - Conjunto de 10 mites.

Lirale - Barras de cobre que eram utilizadass como unidades monetárias nas transacções entre os povos do interior e do litoral, na zona a Sul do save, antes da chegada dos portugueses.

Mão - Medida de comprimento de dois palmos, correspondente a 44 centímetros. Na Índia correspondia, como medida de peso, a 24 arráteis e como medida de capacidade, a 12 canadas.

Mão travessa - Medida de comprimento correspondente a 10 centímetros.

Maçouta - Moeda de cobre, composta por uma barra de palmo e meio de comprimento e dois dedos de largura, que valia 3 vinténs.

Maina - Medida de peso, de 1,03275 quilos ou 1/12 de faraçola.

Marfim - Era um produto avidamente procurado pelos portugueses (paralelamente ao ouro e escravos) para efeitos de fabrico de objectos de obras de arte, sendo referido como ouro branco. O marfim, para ser comercializado, era dividido em quatro categorias, conforme o seu peso: A) marfim Grosso:18 arráteis ou mais; B) Marfim Meão: entre 13 e 18 arráteis; C) Marfim Miúdo: entre 3 e 13 arráteis; D) Marfim Seira: até 3 arráteis de peso. Os dentes de marfim, que são os dentes incisivos dos elefantes, classificavam-se em duas qualidades: o branco e o verde, sendo esta última a preferida por ser mais compacta e perder o verde facilmente, tornando-se num branco alvar que nunca amarelecia com o tempo. Um dente de elefante podia atingir cerca de 2 a 3 metros de comprimento e pesar até 80 quilos pretendenso-se que o mesmo, na perfeição, fosse opaco, macio, branco, ausente e falhas ou gretas e de ponta arredondada.   

Matamingo / Matamugo - O mesmo que missanga.
 
Maz - Unidade de peso asiática correspondente a 1,16 gramas.

Metical - 1) Moeda, de ouro, cujo valor podia variar entre os 400 e os 500 réis; 2) Peso para metais nobres, equivalente a 24 quilates ou 96 grãos (4,479 gramas); 3) Actual moeda unitária moçambicana, cunhada após a independência. 

Milha marítima - Medida de comprimento correspondente a 1852 metros.

Missanga - Pequena conta de vidro, colorida e perfurada, com que se fazem objectos de adorno, tais como colares, gargantilhas, pulseiras, bandoletes e anéis, entre outros.

Mite - Fio de contas com cerca de 25 centímetros.

Motava - Conjunto de 20 lipontes.

Mudende - Imposto de capitação colonial, que recaía sobre as mulheres com mais de 18 anos.

Mugumas - Contas de metal.

Mujena - Adorno composto por conchas brancas rodeladas, alternando as mesmas com peças de madeira avermelhada e com o comprimento aproximasdo de uma braço de pessoa adulta. No século XIX chegou a servir de moeda na zona do Bazaruto, equivalendo a 200 réis.

Mulomo - Oferenda que se efectua em sinal de paz ou de vassalagem.

Mungaz - Missanga de grande tamanho e de cores vermelha ou azul. 

Mussoco - Vulgarmente conhecido por "imposto de palhota", era um imposto de capitação anual que poderia ser pago em géneros, serviçosd ou dinheiro.

Mutore - Unidade de pagamento de um tributo pago aos dignitários do Reino do Barué, que correspondia, sensivelmente, a 152 panos.

Oitava - Medida de peso, correspondente a 1/8 de onça ou 0,0036quilos.

Onça - Peso que corresponde à décima sexta parte do arrátel, ou 0,0287 quilos.

Pagode - Nome do pardau de ouro.

Palhota (Imposto de) - O mesmo que mussoco.

Palmo - 1) Medida de 0,22 metros ou 8 polegadas; 2) Medida correspondente a uma mão aberta.

Panja - Medida que correspondia a 26,25 litros de cereais.

Pano - Medida de bergantil (que é um tecido de algodão), com 8 mãos de comprido e um côvado de largura, sendo o mesmo considerado unidade de medida e de conta em Moçambique, para os tecidos de origem indiana.

Pardau - Moeda da Índia Portuguesa, que valia 360 ou 300 réis, consoante fosse de ouro ou de prata.

Páreas - Tributo de vassalagem pago a um chefe tribal.

Pasta - Pedaço de ouro bruto, com o peso de 100 meticais ou 425 gramas.

Pataca - Moeda de prata, que valia cerca de 6 cruzados, no século XVIII (2.400 réis).

Pequenino - O mesmo que sapeca.

Perna da terra - Tal como o "dente da terra" era um tributo que se oferecia a uma dignidade, constando a mesma da perna do animal abatido que tocava no chão.

Pipa - Vasilha de madeira com capacidade de 21 a 25 almudes.

Polegada - Medida correspondente a 2,54 centímetros.

Pondo - Moeda de estanho equivalente a 120 réis, correspondendo a 2 tangas.

Ponta da terra - Porção de terra que se oferecia a um dignitário como sunal de submissão ou de vassalagem. Tinha o mesmo significado que o "dente da terra".

Quartilho - Medida correspondente a um quarto de canada.

Quilate - Peso correspondente à vigésima quarta parte da onça.

Quinhenta - Nome que se dava à moeda portuguesa de cinquenta centavos.

Quintal - Peso correspondente a quatro arrobas ou 58,725 quilos.

Real - Moeda unitária portuguesa, de valor variável consoante as épocas.

Rubo - Medida de peso correspondente a 1/4 de maina ou 0,25819 quilos.

Saguate - Gratificação, presente, oferta.

Sangue, Tributo de - Tributo que o Sachiteve (título dinástico do Reino do Quiteve) cobrava à parte queixosa, quando ordenava a aplicação da pena de morte.

Sapeca - O mesmo que pequenino, valia meio bazaruco.

Tael - Unidade de peso asiática correspondente a 16 mazas.

Tanga - O mesmo que larim.

Tonel - Vasilha para armazenar líquidos, com capacidade para 2 pipas tendo, por medidas, cerca de 1,5 metros de altura por um metro de diâmetro.

Tonelada - Medida de peso correspondente a cerca de 790 quilos (13,5 quintais). Presentemente corresponde a 1000 quilos.

Vara - Medida de comprimento, correspondente a 1,10 metros.

Velório - O mesmo que missanga.

Vintém - Moeda de cobre, de 20 réis.

Xerafim - Moeda de prata, que equivalia a 300 réis.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Baltazar Pereira do Lago

Historiando Moçambique Colonial


Dom Estevão de  Ataíde - (? / 1613) - Capitão-Mor e Governador de Moçambique. Em 1606 é nomeado Capitão-General de Moçambique e Conquistador do Trino do Monomotapa. A sua brilhante capacidade de liderança ficou patente na tenaz resistência que opôs, com êxito, a dois cercos que os holandeses impuseram à ilha de Moçambique, em 1607 e 1608, acabando estes derrotados. No decurso da sua actividade governativa expedicionou militarmente ao reino do Monomotapa e criou as fortalezas militares de Luabo, Santa Cruz, Quelimane e São Sebastião de Cabora-Bassa, para além de ter incrementado e desenvolvido várias feiras contando-se, entre elas, a de Massapa.


Tendo governado o território entre 1607 e 1609, volta a exercer o mesmo cargo em 1611, depois de ter prometido ao Vice-Rei da Índia, Rui Lourenço de Távora, que conquistaria as minas de prata do Reino de Chicova. No entanto não acabou o seu mandato pois foi acusado pelo Governo da Índia, de quem ainda os governantes moçambicanos dependiam, de contrabando e fuga ao fisco. Viu os seus bens a serem arrestados na totalidade, numa sindicância efectuada contra si, levada a cabo pelo Juiz Desembargador Francisco da Fonseca Pinto. Pobre e doente, morreu na ilha de Moçambique, tendo sido sepultado na capela-mor da Igreja de São Paulo, por lhe ter sido recusado sepulcro na capela de Nossa Senhora do Baluarte, como era apanágio a todos os capitães e demais figuras gradas do território. Sobranceira à porta da sacristia da capela-mor da Igreja de São Paulo encontra-se uma janela fingida, na qual se encontra, no vão da mesma, uma pedra epitáfio com a seguinte inscrição: "Aqui jaz Estêvão de Atayde Capitao que foi duas vezes desta fortaleza que defendeo de dois cercos que teve dos olandeses e geral da conquista e das minas de prata. A quem a Compª recebeo. Faleceo neste colgº aos 8 de Outubro de 613. Posta anno de 1633." A encimar o epitáfio encontra-se, em relevo, o escudo dos Athaídes, composto por cinco barras atravessando o escudo da direita para a esquerda. 



Baltazar Pereira do Lago - (? - ilha de Moçambique, 03/07/1779) - Capitão-General de Moçambique. Foi o governante que mais tempo esteve à frente daquele território, tendo o seu governo durado treze anos e nove meses, entre 1765 e 1779. Também conhecido como o "Marquês de Pombal de Moçambique" a sua actuação sobressaiu no meio da apatia crónica que assaltava grande parte dos governantes daquelas terras, sendo um dos mais dinâmicos e prolíferos políticos que dirigiu Moçambique, facto a que não terá sido alheio a sua longevidade como governante.


Desassombrado e sem complexos, em 1776, após o falecimento do Secretário do Governo, informa Lisboa que não nomeava substituto por não encontrar, em Moçambique, pessoa honrada e verdadeira. Atacou sempre que pôde a corrupção e a imoralidade que estavam sobejamente instaladas na sociedade colonial, tanto a do poder laico como a do poder clerical, não hesitando em demitir, suspender ou deportar quem se atravessasse à sua frente. Relate-se, a título exemplificativo, um ofício por ele dirigido ao Governador de Inhambane, aquando duma sublevação liderada por muçulmanos: "... não me poupe pólvora a Sua Majestade; ande-me com a cabeça dos mouros para as bocas das peças e não se meta com as suas mulheres porque então castigarei Vossa Mercê...".



Na ilha de Moçambique introduz obras de melhoramentos no Palácio de São Paulo, no Colégio São Francisco de Xavier, no Hospital Militar que amplia com mais duas enfermarias, manda construir o Hospital da Misericórdia, conclui o Arsenal da Marinha, organiza uma escola de pilotagem e difunde escolas básicas; expropria terras aos gananciosos e manda plantar, compulsivamente, mandioca e todo o tipo de culturas necessárias aos interesses do território. Pode-se considerar Baltazar Pereira do Lago como o pai da introdução da mandioca em Moçambique pois mandou vir, do Brasil, esta planta e ordenou o seu cultivo obrigatório, isento de impostos todos os que plantassem continuamente, pelo menos dois hectares desta planta. Hoje, do Rovuma ao Maputo, a mandioca é uma dos alimentos base das populações moçambicanas.


Foi dos poucos governadores do território a sair da ilha de Moçambique e visitar a Zambézia, onde ordenou a construção de diversos edifícios para acolher as repartições públicas e camarárias, quer em Quelimane, quer em Tete e restabeleceu a feira de Dambarare, em 1769. Em Janeiro de 1776 debelou, com muita dificuldade, uma sublevação das forças macuas do Reino Morla, por falta de efectivos militares e pela recusa do Vice-Rei da Índia em lhe ceder duas companhias de sipaios. Velho e cansado, fruto duma actividade política longeva para a época, morreu pobre e caluniado na ilha de Moçambique, tendo o seu nome ainda sofrido, após o seu falecimento, um controverso processo de arresto fiscal sobre os seus parcos bens.   

Moçambique, Hospital da ilha de - A primeira estrutura com vínculo hospitalar a ser construída na ilha de Moçambique ocorreu  no ano de 1681, por doação testamentária de terreno feita por um natural dali, tendo as obras sido custeadas pelo erário público. A sua finalidade inicial era destinada aos enfermos militares e, no ano seguinte, o mesmo foi entregue aos cuidados do clérigos hospitalares de São João de Deus, com uma dotação orçamental de três mil e quinhentos cruzados.

Em 1731 aproveitou-se o terreno para se construir o convento de São João de Deus, ficando a obra em forma quadrangular, com quatro secções destinadas a enfermarias, oficinas, residência clerical e capela anexa, onde se laborava a farmácia, laboratório e depósito de roupas, viradas para um pátio central dotado dum poço de água. Em 1755, face à precariedade

Em finais da segunda década do século XIX o Governo de Moçambique seccionou o hospital em duas partes, utilizando uma das metades para instalar um regimento de infantaria em co-habitação mas, meio século mais tarde, já o mesmo voltava, na íntegra, às suas exclusivas funções hospitalares. Em 1876 arrancou-se, nos terrenos do antigo convento, com a construção dum hospital mais amplo e melhor dotado, cuja manutenção e funcionamento perdurou até após a independência. 


Nossa Senhora do Baluarte, Capela de - Localizada na ilha de Moçambique e integrada no complexo da Fortaleza de São Sebastião, foi erigida em 1522, quando a Armada de Dom Pedro de Castro se dirigia para a Índia e aí estacionou a aguar. Construída em cantaria vinda do Reino de Portugal, cantaria essa que fora transportada pelas naus da Armada, localizou-se a mesma por cima duma bateria de artilharia, sendo o único edifício em estilo manuelino existente em toda a costa oriental africana.

Posteriormente, à semelhança das igrejas cristãs indianas, foi-lhe acrescentado um alpendre. Esta capela é constituída por três corpos, sendo a capela em si o maior deles, ligando-se ao alpendrado e à sacristia possuindo, no seu interior, a única imagem ali existente que é a de Nossa Senhora do Baluarte. O seu nome advém do facto da mesma ter sido construída num dos quatro baluartes da fortaleza de São Sebastião, precisamente o baluarte de Nossa Senhora.   

São Lourenço, Fortim de - Inicialmente construiu-se o fortim de São Lourenço entre 1587 e 1589, na ilha de Moçambique, mas foi de curta duração, pois foi mandado arrasar em 1595 e, sobre estas ruínas, ergueu-se um outro pequeno forte mandado construir por ordem do Governador António Cardim Froes, em 1762, na ponta sudoeste da ilha, com a dupla finalidade de controlar o movimento das embarcações que entravam na baía do Mossuril, do lado sudoeste e, por cruzamento de fogo com as bocas da fortaleza de São Sebastião, proteger a contra-costa da ilha, que está virada para o mar.

Podia aquartelar cem homens, dispunha de paiol e ampla cisterna para recolha de água das chuvas. Encimado numa pequena ilhota, ao sul da ilha de Moçambique, estava bem municiado com vinte e dois canhões, desconhecendo-se o autor do projecto. Em 1940, por decisão do Governo-Geral da colónia, este fortim, que era tutelado pelos militares e que dele se desinteressaram, passou a integrar o património da Câmara Municipal da ilha de Moçambique. 


São Paulo, Palácio de - Um dos mais emblemáticos monumentos da ilha de Moçambique, começou a ser construído entre 1618 e 1620, sobre as ruínas da Torre Velha e da sua cerca fortificada, para albergar um colégio jesuíta. Em 1776, após a expulsão do território de Moçambique dos frades desta Ordem, por decisão do Marquês de Pombal, o convento passou para sede do Governo e residência do Capitão-General, razão porque também passou a ser conhecido por Palácio dos Capitães-Generais. Tal decisão deveu-se por, na altura, haver falta de habitação condigna que acolhesse ilustres visitantes que aportassem a esta ilha e também para dar um mínimo de dignidade às funções de quem exercia o poder territorial. 

Baltazar Pereira do Lago, que foi o melhor Governador que Moçambique teve durante todo o período da presença portuguesa e que governou entre 1765 e 1779, efectuou obras de fundo, quer de restauro quer de ampliação do ex-colégio, mandando construir mais quatro casas de raiz anexas ao mesmo, duplicando a sua fachada, à custa do casario que lhe estava anexo e que servia de habitação aos frades. O custeamento destas obras, orçadas em 6.500 cruzados, foi suportado pela valorização da pataca, pertença da Fazenda Real e pela contribuição dos moradores locais que forneceram mestres e escravos, bem como também suportaram o transporte dos materiais.

O Palácio, geminado com a Igreja de São Paulo, donde lhe colheu o nome, localiza-se frontal ao porto, tornando-se num edifício de dois pisos, construído em quatro panos quadrados unidos nas extremidades. No seu interior existia um pátio ajardinado e o acesso à ala nordeste fazia-se por uma escadaria de dois lanços em ferro trabalhado de influência francesa. Do lado sudoeste fica a Igreja de São Paulo e do lado nordeste, após a passagem dum jardim com pomar, existia uma hospedaria para albergar peregrinos.

Transformado em museu, ainda no tempo português, manteve a sua função depois da independência e, após recentes obras de recuperação, apresenta um espólio museológico digno de menção, nomeadamente no tocante a tecidos e mobiliários, possuindo uma das maiores colecções do mundo em mobília indo-portuguesa; bem como arte sacra na igreja anexa, contendo um retábulo e um púlpito barroco, ambos em talha dourada. 


São Sebastião, Fortaleza de - É a mais importante fortaleza militar construída pelos portugueses na costa índica, a partir da proposta do arquitecto Miguel de Arruda, em 1545, situando-se na ponta nordeste da ilha de Moçambique. No entanto as obras só arrancariam uns dez anos depois e arrastar-se-iam ao longo de decénios. É o único monumento, em toda a costa índica, onde se pode encontrar arquitectura manuelina abobadada, na sua Capela de Nossa Senhora do Baluarte.

A fortaleza possui quatro baluartes - São João, Nossa Senhora, Santo António e São Gabriel - e duas baterias rasantes, estando uma destas junto à capela. Antes da construção desta fortaleza os portugueses tinham erigido uma outra em 1507, extremamente simples, referida como fortaleza de São Gabriel, da autoria de Duarte Melo, e que ficou conhecida, em termos populares, como "fortaleza velha". Em 21 de Setembro de 1903, por descuido, explodiu a pólvora armazenada no paiol, o que provocou a destruição do baluarte de Nossa Senhora e da cortina de pedra protectora, só se tendo salvo a capela aí existente.

No decurso do século XX a fortaleza apenas servia de referência memorialista dum passado que fora grandioso, tendo servido para fins militares defensivos, nomeadamente no decurso da guerra nacionalista (1964/1974) onde tropas especiais iam efectuar períodos de repouso após intervenções de combate e também serviu de prisão para presos políticos, à semelhança do que viria a acontecer após a independência. 


Moçambique


Nas comemorações do 25º aniversário da morte de Samora Machel foi inaugurada, na Praça da Independência em Maputo, uma estátua "...em bronze, nove metros de altura e foi produzida na Coreia do Norte, passando a ser a maior da África Austral". (M de Moçambique nº 12). Ao evento, segundo a notícia lida na "M de Moçambique" estiveram presentes diversos chefes de estado da África Austral bem como Dilma Roussefe, Almeida Santos, Kenneth Kaunda e Graça Machel. Samora Moisés Machel foi um homem que não deixou ninguém indiferente. Goste-se ou não dele, a  verdade é que ninguém ficou indiferente à sua passagem meteórica pela política moçambicana e africana. Deixou uma marca indelével, isso ninguém o pode negar, para o Bem e para o Mal. Não está em causa as comemorações dum seu aniversário, que neste caso se reporta ao seu violento falecimento. Ele liderou a FRELIMO no decurso da guerra nacionalista, emergindo duma crise interna, liderou as negociações para a independência, e liderou o País nos seus primeiros anos de jovem Nação. O seu lugar na História está mais que justificado.

Mas Moçambique, enquanto País, devia de ter um pouco mais de pudor nas comemorações do seu falecimento. Essa de inaugurar uma estátua com nove metros de altura, passando a ser a maior da África Austral, é dum novo-riquismo estupidificante. Faz-me lembrar as carpideiras, que eram umas profissionais do antigamente, que eram pagas para chorarem nos funerais de alguém. Quanto mais carpideiras houvesse num determinado funeral, mais importante teria sido, em vida, o falecido. Puro teatro. Aqui a mesma coisa. Quanto maior a estátua mais importante terá sido, em vida, o falecido. A fechar esta parte do comentário, pergunto: com que altura será construída uma eventual futura estátua a Eduardo Chivambo Mondlane, o homem que liderou todo o processo do nascimento da FRELIMO e do desencadear da guerra nacionalista? Que também teve uma morte violenta este Pai da Pátria.

A segunda questão prende-se com o facto da mesma ter sido construída na Coreia do Norte. Moçambique é um País que assenta, presentemente, numa democracia parlamentar. Com altos e baixos, certamente, mas a verdade é  que devemos reconhecer que o regime político que vigora em Moçambique  ultrapassa os mínimos obrigatórios para se considerar uma democracia parlamentar. Completamente o oposto do que se passa na Coreia do Norte, que é uma das mais violentas ditaduras do planeta. Não vejo qual a razão de Estado que tenha levado Moçambique a ter que aceitar este "elefante branco" norte-coreano. Percebo que a classe política da Coreia do Norte tivesse querido homenagear Samora Machel, com quem tinha muitas afinidades ideológicas. Agora o que não entendo é o que levou os dirigentes moçambicanos a não só aceitarem este tipo de arte bacoca de novo riquismo, como também a exibi-la despudoradamente numa das praças mais emblemáticas da capital. Um estátua que foi construída, muito provavelmente, por operários forçados (mas não esforçados) dum pseudo-País que tem uma grande percentagem da população a morrer à fome. Fome de comida, fome de liberdade. 

A terceira e última questão prende-se com a presença de Graça Machel (ou Graça Mandela?). Discursou no evento e a sua presença não é de admirar. Foi viúva de Samora Machel e, assim, é lógico que tivesse sido convidada. Mas gostaria de saber o que discursou. De certeza que cantou loas ao seu ex-marido. Correcto. Só  lhe fica bem. Deve ser para amenizar o facto de, na altura, o cadáver de Samora Machel não ter arrefecido e já ela andar enrolada com "Madiba". Aliás, segundo as crónicas desses tempos, já o enrolanço acontecia ainda em vida do ditador. Gostava de ter Sol na eira e chuva no nabal, em simultâneo. Se foi para se penitenciar de não ter conseguido seguir o exemplo de Janet Mondlane... já vem tarde.



Positivo


A Índia está a ultimar uma versão de triciclos movidos a hidrogéneo, que não emitem CO2 calculando-se que, até 2020, já estejam em circulação um milhão destes veículos citadinos. (Visão nº 986).



Negativo


Na Nigéria, desde 2009, já terão morrido cerca de um milhar de pessoas vítimas da violência dos islâmicos radicais do grupo Boko Haram que pretendem islamizar à força todo o País e erradicar a presença ocidental (Visão nº 986. O radicalismo incomoda-me, seja de que tipo for. Assim, o radicalismo islâmico, tal como qualquer outro, é estupidificante. Mas o negativo disto tudo é o silêncio dos ditos islâmicos moderados. Sei que há uma frase, cujo Autor de momento não recordo, que disse: "Mais do que os gritos dos maus incomoda-me o silêncio dos bons." E é este silêncio dos ditos islâmicos moderados, que nunca ouvi condenarem qualquer atrocidade dos radicais, que rotulo de profundamente negativo. Será que têm medo dos radicais? Estarão reféns de uma estúpida solidariedade religiosa? 

Viagem no tempo



Eu era puto e recordo-me de ter lido a história do Milagre das Rosas, que se reportava, mais ou menos, a que o nosso Rei Dom Dinis andava desconfiado que a sua mulher, a Rainha Santa Isabel, andava a dar cabo do erário público gastando muito dinheiro a comprar pão para dar aos pobres. Certa vez, ia a Rainha com uma aia que levava um cesto cheio de pão para as suas obras de caridade quando o Rei se cruzou com ela e perguntou-lhe, desconfiado: "Que levais aí?" Ao que ela respondeu: "São rosas, meu senhor." E, descobrindo o pano que cobria a cesta eis que, em vez do pão, apareceram mesmo rosas. 

Ora bem esta história tem uma nova versão actualizada que, mais ou menos, será assim: estava Dom Miguel Relvas a passear no laranjal e a fazer contas de cabeça aos seus inúmeros compromissos políticos, sociais, económicos, desportivos e afins quando viu, ao longe,  umas enteadas suas, chamadas de  RTP e Lusa a rirem-se muito e enroladas em algo que não conseguia discernir à distância. Desconfiado, já há algum tempo, que as mesmas andavam a aprender javardices com um determimado pajem, um tal de Rosa Mendes, violando deste modo as suas ordens de serem obedientes e bem comportadas, aproximou-se de mansinho e, abordando-as de surpresa, perguntou-lhes o que é que estavam a esconder. No imediato as meninas, apanhadas de surpresa, descobriram os seus colos e disseram: "é o Rosa, meu senhor." Irado, Dom Miguel Relvas logo ordenou a expulsão do Reino do dito Rosa que, assim, num ápice e por uma ousadia sua, se viu desterrado para longe.      


Partiram


Etta James, cantora norte-americana de blues e jazz.
Gustav Leonhardt, cravista holandês.



Foi dito



"A maior desgraça de uma Nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos" - Mia Couto, escritor e biólogo moçambicano.