"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)
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domingo, 18 de dezembro de 2011

Verney Lovett Cameron

Viajantes, aventureiros e exploradores

Verney Lovett Cameron - (Dorset (Inglaterra), 01/07/1844 - Leigthon Buzzard (Inglaterra), 24/03/1894) - Explorador. Tendo ingressado na Marinha de Guerra Britânica prestou serviço, em 1857, na campanha etíope e depois, durante alguns anos, na repressão ao esclavagismo na costa oriental africana. Em 1873, a Real Sociedade de Geografia de Londres encarrega-o de dirigir uma missão em busca de David Livingstone*, pelo que inicia a sua missão em Zanzibar, onde contrata Sidi Mubarak Bombay*. Passado pouco tempo, em Bagamoyo, no Tanganica (actual Tanzânia) toma conhecimento da morte deste missionário, ao cruzar-se com a caravana que transportava o seu féretro para Zanzibar. Apesar disso continua a sua marcha para Udjiji, na Rodésia do Norte (actual Zâmbia), local onde o missionário falecera, chegando aí em Fevereiro de 1874. Reúne toda a documentação, mapas elaborados por David Livingstone*, bem como o restante espólio que estava guardado na sua cabana e envia-os para Londres salvando, assim, todo um memorial informativo extremamente importante para o conhecimento europeu, quer da vida que foi deste homem quer das suas viagens e impressões sobre África. Aproveita aí a sua estadia para melhor topografar o lago Tanganica e descobre a saída Oeste do mesmo para o rio Lukuga. Prosseguindo a sua viagem atinge o rio Lualaba, do qual o Lukuga é um afluente e prossegue por aquele, na tentativa de resolver o mistério do curso do rio Congo, até que se vê forçado a deixar o mesmo, por se recusar a utilizar mão de obra escrava para prosseguir as suas investigações geográficas e deixando a glória da resolução do problema do curso do rio Congo em aberto, tendo sido Henry Morton Stanley* a resolvê-lo um pouco mais tarde. Rumando para Sudoeste atinge o rio Zambeze e prossegue a sua caminhada até à localidade portuguesa do Bié, em Angola. A 28 de Novembro de 1875 avista as águas do Oceano Atlântico, tornando-se no primeiro europeu a ligar o continente africano da costa oriental à costa ocidental, via terrestre. Sidi Mubarak Bombay*, que consigo iniciara esta portentosa viagem desde Zanzibar, também estava ali presente. Três anos mais tarde Verney Lovett Cameron visita o rio Eufrates, onde efectua estudos económicos sobre a viabilidade de actividades comerciais e, em 1882, acompanha Richard Francis Burton* em explorações pela Costa do Ouro, na parte ocidental africana. Publicou "Através de África", onde relata a sua famosa odisseia africana e, de parceria com Richard Francis Burton*, publica "Uma Costa do Ouro de ouro". Faleceu, por acidente, fruto duma queda de cavalo. 

Chuma, James - (Lago Niassa, 1850(?) - Zanzibar, 1882)- African-Bombay**. Pertencente ao povo jaua, era filho dum pescador de nome Chimilengo e de Chinjeriapi. Ainda jovem acaba capturado e vendido como escravo a um negreiro português, mas acaba libertado por um conterrâneo seu, de nome Weketoni e, juntos, integram-se na Missão Anglicana de Magomero, liderada pelo Reverendo Charles Frederik Mackenzie. Em 1864, James Chuma e Weketoni são levados para a Índia, ficando na escola de Shanapur, a cerca de 150 quilómetros de Bombaim, onde efectuam estudos básicos e aprendem a dominar inglês. Retornados a África cruzam-se com David Livingstone*, a quem se põem ao seu serviço, a partir de 10 de Dezembro de 1865. Numa deslocação deste missionário ao lago Niassa, em 1866, os dois african-bombays**  acompanham-no mas Weketoni, chegado ao lago, recusa-se a continuar com o explorador, juntamente com outros serviçais, por se reencontrarem agora no meio do seu povo. James Chuma será dos poucos que continuará ao serviço do missionário, na exploração do lago Moero e, depois, para o lago Banguelo, na Zâmbia. Em Abril de 1868, James Chuma e outros acompanhantes, entre os quais se encontrava Abdullah Susi, outro african-bombay**, recusam-se a acompanhar David Livingstone* na sua exploração centro-africana ao Reino do Cazembe, por temerem voltar a serem escravizados, prática habitual nas terras daquele Reino. Em Novembro desse mesmo ano, James Chuma e Abdullah Susi reingressam ao serviço do missionário e tornar-se-ão seus fiéis e incondicionais servidores até ao findar dos seus dias. Acompanha o missionário em todas as suas explorações, na busca das nascentes do rio Nilo  e assiste, em 1871, ao famoso encontro entre este e Henry Morton Stanley*, em Udjiji, onde se cruza também com Sidi Mubarak Bombay*. Quando David Livingstone morre, Chuma e Susi, entre outros, tratam da mumificação do cadáver, depois de lhe retirarem alguns órgãos que enterram sob uma árvore e, durante nove meses, transportam o corpo do explorador para Zanzibar, numa viagem de cerca de 1.500 quilómetros plena de riscos, onde defrontaram animais selvagens e combates com tribos hostis. O usual. No caminho cruzam-se com a expedição de Verney Lovett Cameron*, que ia em busca do missionário e que acaba por tomar conhecimento da notícia do passamento do explorador. Conseguindo levar a bom porto os seus intentos, atingem Zanzibar, onde entregam o féretro às autoridades britânicas e, posteriormente, desloca-se a Londres juntamente com Abdullah Susi, a expensas dum amigo de David Livingstone*, mas não a tempo de assistirem ao funeral do mesmo. Ambos são condecorados pela Real Sociedade de Geografia de Londres com a Medalha de Bronze. Retornando a Zanzibar, onde virá a falecer, alcoolizado e vitimado por uma tuberculose, James Chuma, tal como Abdullah Susi, tornou-se um nobre exemplo da verticalidade humana.

Susi, Abdullah - (Lago Niassa, ? - Zanzibar, 1891). African-Bombay**. Escravizado na sua adolescência, acaba libertado e remetido para a Índia, após o que regressa a Zanzibar. Integra-se nas expedições de David Livingstone*, de quem se tornará um leal servidor, com um percurso idêntico ao de James Chuma. Quando o explorador morre, acompanha o cadáver mumificado até Zanzibar, donde será remetido para a Grã-Bretanha, para as exéquias nacionais. Mais tarde acompanha James Chuma* a Londres, onde é condecorado com a  Medalha de Bronze da Real Sociedade de Geografia daquela capital. Retorna a África e coloca-se ao serviço de Henry Morton Stanley* e, em 1886, adopta o nome de David Susi, em homenagem ao seu mentor David Livingstone*.  
     
* - Já biografado anteriormente.
** - Termo já explicado anteriormente.

Leituras

Atendendo à comemoração do cinquentenário da queda do Estado Português da Índia, ocorrido a 18/12/1961 recomendo a leitura da revista Visão História nº 14, saída neste mês de Dezembro, dedicada a este tema e com o título "Há 50 anos a queda da Índia Portuguesa" . Aborda, duma forma muito correcta, tudo o que se passou na época, quer os seus antecedentes (com um pequeno resumo desde que lá  chegámos, na época dos  Descobrimentos), quer os factos da invasão em si e quer as consequências dos mesmos. Complementa-se com entrevistas a pessoas que viveram os acontecimentos no terreno e ainda apresenta um bom suporte fotográfico.

Aliás, deixo aqui o registo do agrado com que leio as edições trimestrais da Visão História, uma revista temática sobre factos históricos, que "acuso" de ter contribuído para a minha preguiça, pois os temas que ela  aborda são tão bem explicados e confiáveis, numa linguagem simples e acessível, documentando-se com gráficos, desenhos e fotografias que dou por mim, volta não volta, a não ir pesquisar outras fontes para cruzar a informação. Passe o exagero.

Ainda sobre este tema saiu, recentemente, a lume um romance histórico denominado "Goa 1961 - a impotência do Estado  Novo na queda da Índia Portuguesa", de Paulo Aido (Zebra Publicações, Lisboa, 2011, 292 págs.). Para quem se quiser documentar sobre este tema, ao de leve e numa leitura suave, sem a carga pesada dum livro de História puro e duro, tem aqui uma oportunidade. Sem desprezo por outras publicações.

Exposição

"Vik" é uma exposição que visitei, com agrado, no Museu Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém. É uma retrospectiva da obra do artista brasileiro Vik Muniz, temporizada desde o princípio da década de 90 até ao presente. E é gratuita.

Gostei

De ler que, no Cazaquistão, a caça com águias-reais atrai turismo e que, das verbas daí resultantes, fundou-se um centro de conservação de falcões. Espero que tal corresponda à verdade. (Sábado nº 398).

Recomendo

Uma visita às grutas de Mira d´Aire, consideradas  as maiores de Portugal. Localizadas a cerca de 15 quilómetros de Fátima, percorrer os seus subterrâneos não é uma descida aos infernos, mas antes um festim geológico onde se combinam, na perfeição, a pedra e a água, tudo envolto numa sinfonia de luzes. Na região existem outras grutas também visitáveis, mas não tão extensas e profundas quanto esta.

Imbecilidades

"O gato duma viúva italiana herdou 10 milhões de euros." (Sábado nº 398). A notícia é apenas esta linha transcrita, pelo que nada mais sei. Mas espero bem que as autoridades competentes do País onde os factos ocorreram (admitindo a notícia como verdadeira) impeçam a concretização de tal testamento. Que o/a dono/a dum animal deixe testamentado uma certa verba para garantir um resto de vida com qualidade a qualquer animal que o acompanhou sempre, até estou de acordo. Agora, mais do que isso, é pura imbecilidade. Com tantas organizações humanitárias, ambientais, culturais ou científicas (entre outras) a carecerem de dinheiro para os seus fins filantrópicos, este gesto não é de quem gosta de animais. É de quem se quiz servir dum animal para se vingar de alguém (ou de alguéns) ou então não estava na plena posse das suas faculdades. E, sobre actos de vingança ou de maluquices, o Estado tem que intervir.  

Uma pergunta

"As declarações (de Sócrates) explicam porque é que a bomba lhe rebentou nas mãos e ele nos conduziu para a tragédia." Freitas do Amaral, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros ao Jornal de Negócios. (Sábado nº 398). Pergunto: estou com a memória confusa ou este senhor não fez parte do governo socratiano que nos conduziu a esta "tragédia"? Ele entrou em ruptura com José Sócrates e demitiu-se do Governo para não pactuar com esta "tragédia" ou largou o tacho, (desculpem-me, lá me veio um ataque de crise bloquista) ou saiu do Governo apenas por motivos de saúde? Alguém lhe explique que se a palavra é de prata o silêncio é de ouro. 

Memória da semana

15/12/1832 - Nascimento, em Paris, de Gustave Eiffel, engenheiro francês que paternizou a Torre Eiffel, bem como a estrutura da Estátua da Liberdade. Em Portugal a inspiração da sua traça ficou marcada na ponte D.Maria Pia, no Porto e no elevador da Glória, em Lisboa.
15/12/1899 - No decurso da Segunda Guerra Anglo-Boer, os britânicos são derrotados na batalha de Colenso (actual África do Sul). Travada junto ao rio Tugela, fechou o trágico ciclo da  "Black  Week" ("Semana Negra") por ter sido a terceira derrota britânica consecutiva, cujas tropas eram comandadas pelo General Henry Buller, custando-lhes o trágico balanço de cerca de 150 mortos, 750 feridos e 220 prisioneiros tendo, às mãos dos britânicos, falecido cerca de 50 bóeres.


16/12/1770 - Nascimento, na Renânia do Norte, do compositor musical Ludwig van Beethoven. Dentro do seu numeroso espólio musical destaca-se a 9ª Sinfonia - Ode à alegria - presentemente escolhida para hino da União Europeia.
16/12/1836 - Trava-se o combate de Blood River, no Natal (actual África do Sul), nas margens do rio Nacome e que opôs as forças zulus do Rei Dingane às forças bóeres lideradas por Andries Pretorius. A batalha culminou com uma estrondosa derrota zulu, apesar da sua superioridade numérica (calcula-se em 10.000 guerreiros) mas cujas lanças foram impotentes para o poder de fogo das espingardas bóeres (calculados em cerca de 500 homens). O nome "Blood River" ("Rio de Sangue") ficou a dever-se ao facto das águas do rio Nacome terem ficado tingidas de vermelho do sangue dos guerreiros zulus, que se calcula terem sofrido cerca de 3.000 mortos. A consequência directa desta batalha foi a confiança político-religiosa que se gerou no seio da comunidade bóer para virem a criar a efémera República da Natália (República do Natal), que viria a ser anexada pelos britânicos em 1843. Outra consequência foi que, posteriormente, esta vitória viria a servir de fonte de inspiração para os bóeres convencerem-se que eram um povo eleito de Deus e destinado a colonizarem África pois, segundo eles, esta vitória fora uma providência divina que, assim, determinava a superioridade racial branca, base teórica em que assentava a filosofia do "apartheid".
16/12/1915 - Albert Einstein publica a Teoria Geral da Relatividade.

17/12/1903 - O norte-americano Orville Wright efectua, pela primeira vez na História, o voo com um avião mais pesado que o ar, baptizado de "Flyer", durante 12 segundos, tendo percorrido 36 metros.
17/12/1929 - Morre, em Lisboa, o Marechal Gomes da Costa (Manuel de Oliveira Gomes da Costa). Oficial de Cavalaria percorreu, até 1915, diversos territórios ultramarinos portugueses e, nomeado Comandante do CEP - Corpo Expedicionário Português, parte para França a combater na I Guerra Mundial, acabando derrotado na Flandres. Em 1926 lidera o golpe militar que, saindo de Braga a 28 de Maio, vem até Lisboa, golpe esse que instala a Ditadura Nacional, liquidando a 1ª República. Entra em litígio com outros revoltosos, afastando Mendes Cabeçadas da Presidência do Governo, que assume para si, bem como a Chefia do Estado, mas de forma não explícita, durante cerca de três semanas. Óscar Carmona e Sinel de Cordes, outros líderes da revolta, demitem-no, acabando preso e deportado para os Açores. Regressa no ano seguinte, promovido a Marechal, como compensação e para não servir de mártir a oposicionistas, mas já sem força política e militar nenhuma.

18/12/1961 - Tropas indianas invadem o Estado Português da Índia e anexam-no para a República da Índia. O Estado Português da Índia, composto pelos territórios de Goa, Damão, Diu e pelos enclaves de Dadrá e Nagar-Avelim eram, para o regime ditatorial do Estado Novo, um símbolo da grandeza do que Portugal fora 500 anos antes e a memória do seu Primeiro Império (o Segundo Império fora o Brasil e o Terceiro Império eram os territórios africanos, bem como Macau e Timor). Após a independência da Índia (1947) e desfeito o sonho de Mahatma Gandhi de todo o subcontinente indiano ser um só País, fractura essa ocorrida com a independência simultânea do Paquistão ficavam, fora da alçada do Governo Indiano, os territórios portugueses do Estado da Índia. Depois de goradas diversas tentativas de se dialogar com as autoridades portuguesas, o Governo indiano, liderado por Jawarhal Nheru, ordenou a invasão militar do Estado Português da Índia, acto que foi consumado em 48 horas. A queda deste território representou, para o Governo português liderado por Oliveira Salazar, um marco histórico profundamente negativo, já que o mesmo consolidava a premonição do findar da presença portuguesa fora do território europeu, iniciada em Fevereiro/ Março deste mesmo ano, com o eclodir da guerra em Angola e continuado no mês de Agosto seguinte, com o abandono do forte de São João Baptista de Ajudá, por imposição do governo do Daomé (actual Benim). Há quem defenda que, à semelhança do que se passou com Timor, faltou referendar o futuro do Estado Português da Índia.

 Foi dito

"Acrobata é o homem que parte as costelas para encher o estômago." Ambrose Bierce (1842-?) jornalista, escritor, humorista norte-americano. Desconhece-se a data do seu falecimento, pois o mesmo foi dado como desaparecido na guerra civil mexicana, após 1913. (Fonte: Citações para humoristas/José Manuel Veiga/Editorial Lio).

"Dai o que não é vosso, prometei o que não tendes e perdoai a quem não vos errou." Conselho dado ao Mestre de Aviz, futuro D.João I. (Fonte: Histórias rocambolescas... / João Ferreira /Esfera dos Livros)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

John Hanning Specke

Aventureiros, viajantes e exploradores
John Hanning Specke - (Bideford (Devon), 03/05/1827 - Corshan (Wiltshire), 15/09/1864) - Oficial do Exército Britânico e explorador. Em 1844 serve o seu País na Índia, participando na guerra contra os sikhs. Aproveitando a sua estadia no sub-continente indiano percorre os Himalaias e vai ao Tibet. Dez anos mais tarde está em África, onde integra uma expedição liderada por Richard Francis Burton*, com destino à Somália. No entanto, esta expedição redunda num fracasso quando são atacados por tribos somalis, acabando os dois exploradores gravemente feridos e salvos no extremo. John Specke é preso pelos nativos e sofre várias perfurações de lanças e setas, mas consegue mesmo assim escapar, retornando a Inglaterra a recuperar-se. Restabelecido, participa na guerra da Crimeia, na região do mar Báltico, onde algumas nações europeias batalhavam o Império Otomano. Em 1856 encontra-se em Mombaça, de novo com Richard Francis Burton, a fim de explorarem o desconhecido interior africano e tentarem localizar a posição geográfica dos Grandes Lagos Africanos e as nascentes do rio Nilo. Esta expedição foi mais uma epopeia duríssima que os dois exploradores tiveram que enfrentar, a par de ataques de tribos hostis e de animais selvagens, doenças, fome, trilhos desconhecidos, deserção de carregadores e também a de vencerem as desconfianças de muitos povoados que atravessavam, em que para os habitantes era a primeira vez que viam pessoas de pele branca. Era o desbravamento dos caminhos para as Montanhas da Lua**. John Specke acaba, inclusivamente, por ficar surdo dum dos ouvidos, depois dum escaravelho ter entrado dentro do mesmo e que só conseguiu removê-lo espetando, com violência, um objecto pontiagudo no pavilhão auricular. Mais tarde é atingido por cegueira temporária quando estão prestes a atingir o lago Tanganica, do qual serão os primeiros europeus a lá terem chegado (1858). Recolhendo informações sobre a existência doutro lago mais a Norte e por Richard Francis Burton se encontrar bastante doente e refém dum chefe tribal, John Specke prossegue a viagem acabando por atingir o lago Vitória (assim por si nomeado em homenagem à sua Rainha). Depois de efectuadas algumas medições rudimentares, apenas com um termómetro, já que a restante aparelhagem científica se tinha perdido e percorrido parte do lago, John Specke não resiste ao apelo da glória e apressa-se a regressar a Londres (Maio de 1859), onde chega uns dias antes de Richard Francis Burton, onde anuncia ter descoberto, sozinho, a nascente do rio Nilo, um dos mistérios que mais apaixonava os geógrafos da época. Foi o seu momento de glória máxima, que rapidamente acaba contestado por Richard Francis Burton que duvidava de tamanha certeza, atendendo a que as medições do lago Vitória e exploração do mesmo não tinham sido feitas com métodos científicos. A ruptura entre os dois exploradores consuma-se quando se aprestam a apresentar, na Real Sociedade de Geografia de Londres, os seus relatórios (Junho de 1859). Para trás ficavam anos de lutas conjuntas contra doenças, fome, gentios hostis, forças da natureza, animais, climas implacáveis e territórios adversos. Tudo isso ardia na fogueira das vaidades londrinas. Em Outubro de 1860 John Specke, liderando uma expedição financiada pela Real Sociedade de Geografia de Londres e acompanhado doutro explorador, James Grant, parte de Zanzibar em direcção ao Reino do Buganda (actual Uganda). Aqui chegados separam-se, seguindo James Grant para Norte enquanto John Specke segue para ocidente, atingindo de novo o lago Vitória (1862). Percorre-o, agora mais atempadamente, acabando por descobrir o curso do rio Nilo e as quedas de Rippon (Rippon Falls). Reunindo-se de novo a James Grant, seguem para Gondokoro, no Sul do Sudão, onde se cruza com um  dos mais famosos exploradores do século XIX, Samuel Baker e a sua esposa Florence von Sass, também ela exploradora e ex-escrava branca que Samuel Baker tinha adquirido num mercado de escravos búlgaros anos antes, aquando das suas deambulações europeias. O casal Baker também tinha sido um incansável perseguidor das lendárias nascentes do rio Nilo. Chegado a Cartum (Sudão), John Specke telegrafa para Londres a comunicar que a nascente do rio Nilo estava definitivamente descoberta. No entanto, novo debate polémico iria abrir-se entre ele e Richard Francis Burton, pois este alegava que, se John Specke não tinha seguido permanentemente o curso do rio desde que ele saía do lago Vitória até Gondokoro, não poderia garantir que o rio que encontrara mais adiante fosse o mesmo. No entanto, o debate entre os dois, marcado para o dia 15 de Setembro de 1864 na Real Sociedade de Geografia de Londres, não chegou a concretizar-se pois, na manhã desse dia, Jonh Specke morreu voluntariamente, no decurso duma caçada na sua propriedade. A sua morte levantou controvérsia, atendendo a que o mesmo era um dos mais famosos exploradores da sua geração, havendo quem levantasse a hipótese de ter sido um acidente de caça. Em homenagem a este desbravador de sertões africanos e descobridor de lagos foi dado o seu nome a uma montanha no Uganda, o monte Specke, local por ele percorrido e onde fora dos primeiros europeus a lá ter chegado. 
* Richard Francis Burton: já biografado em mensagem anterior.
**Montanhas da Lua: Na mensagem anterior (11/12/2011) sugeri o visionamento do filme "As montanhas da Lua", onde dava uma explicação da razão de ser deste título fílmico (e geográfico) e do qual o mesmo se reporta às actividades exploratórias quer de Richard Francis Burton, aí biografado, quer de John Hanning Specke, acima referido. Pormenorizo um pouco mais este nome: Nome mítico histórico-geográfico, originado no II Século DC, quando o egípcio Cláudio Ptolomeu afirmou que o rio Nilo - o Rio de Deus - nascia nas Montanhas da Lua. Após múltiplas expedições europeias, que remontam desde o Império Romano, só em meados do século XIX, depois de desencadeado o "Scramble for Africa", é que se veio a determinar a localização destas montanhas, aquando da busca incessante das nascentes do rio Nilo, localizando-as na cadeia de Ruwenzori, numa zona geográfica compreendida, actualmente, pelos países Uganda, Ruanda e Burundi. O facto do interior africano ser desconhecido para os europeus até ao desencadear da sua exploração, foi o alimentador principal da persistência deste nome mítico, durante cerca de dezassete séculos.    
Livro
"Ébano - febre africana", de Ryszard Kapuscinski (Campo das Letras, Porto, 2002, 363 págs.). Ryszard Kapuscinski (1932/2007) foi um jornalista e escritor polaco que viajou por diversas partes do mundo, no exercício do seu mister. Apaixonada por África, devido à sua constante presença nas décadas de 60/70/80 neste continente, foi testemunha viva e participativa do findar do colonialismo europeu e do nascimento do neo-colonialismo euro-africano. Travou amizades com diversos líderes políticos e militares, assistiu a dezenas de golpes de estado e escapou a quatro sentenças de fuzilamento. Uma vida de mão-cheia de histórias. Considerado um dos maiores repórteres do mundo de então, tendo sido considerado, no seu País, como o jornalista do século XX, deixou várias obras escritas, entre as quais esta minha sugestão que, só pelo breve traço biográfico do autor aqui descrito, decerto despertará o interesse na sua leitura. O livro, em jeito de memória, reporta-se a impressões colhidas durante o seu périplo por diversos países africanos e das pessoas com quem se cruzou. Como o próprio diz: "Este não é assim um livro sobre África, mas sim sobre algumas pessoas de lá, sobre o encontro que tive com elas, o tempo que passámos juntos." Mas também é o relato das suas viagens aventurosas por esse continente que, segundo o próprio: "É um continente demasiado grande para ser descrito." Memória de aventuras que viveu, de percalços que sofreu, de pessoas com quem se cruzou e falou, à boa maneira africana, debaixo duma árvore. Um olhar humano sobre as gentes deste continente, dum europeu que foi mais africano que muitos africanos.
Música
Os "Pink Floyd" são uma das minhas bandas favoritas, para não dizer mesmo a minha banda favorita e, tornando-me repetitivo, para não dizer mesmo que, para mim, eles são "A Banda" e o resto é conversa, exageros à parte. Nascidos em meados da década de 60, lograram fundir o estilo rock com o sinfónico, incrementando o "rock sinfónico". Em 1966 Roger Waters e Roger Sid Barret juntaram-se a Rick Wright e a Nick Manson e formaram uma banda britânica que espantaram o mundo quer pela maviosidade dos acordes que inculcavam nos seus instrumentos, quer pelas letras contestatárias que integravam os mesmos, quer ainda pelo estilo de actuação nos palcos, uma revolução que passava pelo uso de iluminação psicadélica (ou não estivessem a atravessar a época do apogeu do psicadelismo), libertação de fumos (hoje tão vulgarizada), bonecos suspensos a atravessarem o palco. Até finais dessa década os "Pink Floyd" formam-se no firmamento musical como uma banda de culto, criando um som instrumental específico, que fazia-nos parecer que estávamos a navegar pelo espaço sideral, som esse em grande parte motivado pela iniciativa do uso de sintetizadores. O caminho, em plano inclinado, para a loucura do genial Sid Barret culmina com a sua saída do grupo, para desintoxicações sucessivas por abuso de drogas. Eram os tempos do império do LSD, alucinogéneo poderoso que abria, quimicamente, as mentes a novos caminhos do som e das cores. A busca dum substituto acaba por recair em David Gilmour (1968). O grupo perde um pouco da ingenuidade dos acordes de sons planadores mas ganha em maturidade tecnicista conseguindo, apesar de tudo, manter a sua linha segmentária da sonoridade sinfónica que, no fundo, é a sua marca registada e faz parte do seu ADN musical. Para além de lançamentos de álbuns, como "The piper at the gates of dawn" (1967) e "Ummagumma - vol. I e II" (1969) e de actuações ao vivo, assumem a banda sonora de filmes, tais como "More" (1969) e "Deserts of souls" (1970). A entrada na década de 70 leva-os a publicar mais um álbum "Medle" (1971) e o documentário musical "Pompeii - The Director´s cut" (1971), mas é em 1973 que é parido o melhor álbum desta banda e, para mim, o melhor de todos os álbuns do século XX: "The dark side of the moon". Um disco mágico, carregado duma sonoridade intemporal e que é já um clássico transversal a todas as gerações e um dos mais vendidos de todos os tempos. Descontando o exagero, penso que quando a Terra  for inabitável e os nossos descendentes partirem para outras galáxias levarão este disco na bagagem e ouvi-lo-ão durante a viagem. Estaremos todos cá para ver se tenho razão ou não. Bom, voltando à realidade, três ou quatro anos  mais tarde começa o princípio do fim deste grupo, com o seu fundador Roger Waters a entrar em litígio com os restantes elementos e, também ele, a caminhar para o penoso caminho da loucura, naquilo que parecia ser o estigma desta banda. No entanto, os álbuns "Wish you were here" (1975) e "Animals" (1977) mantêm a chama da genialidade a brilhar. A megalomania de Roger Waters, a querer a ssumir à força o patronato total da banda, afunda-o e afasta-o cada vez mais dos restantes companheiros. Litiga com os mesmos e só com prolongadas negociações é que permitem os "Pink Floyd" retornarem à ribalta, mas já sem este fundador (1986). "The wall" será o canto do cisne e, liderados por David Gilmour, efectuarão tournées mundiais, onde Lisboa esteve na rota, e que resultarão em álbuns, tal como "A delicate sound of thunder" (1988).
Documentário
Ver a actuação do grupo de danças "Riverdance" é puro prazer orgásmico. Hoje, a pesquisar a minha videoteca retirei um DVD deste grupo e revi "Live from New York City", que são 100 minutos de pura magia dançarina, coreográfica e musical. Na arte dançarina, melhor que aquilo é difícil. 
Gostei
Leio no Diário de Notícias que: "A Bertrand Chiado, em Lisboa, foi este ano distinguida pelo "Guiness" como a livraria mais antiga do mundo ainda em actividade. Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, e Aquilino Ribeiro ... todos aqueles escritores foram seus clientes."  Fundada em 1732 ainda hoje mantém as portas abertas ao público. Parabéns. E também não nos devemos esquecer da Livraria Lello & Irmão, no Porto, considerada uma das mais belas do Mundo. Dá gosto.
Recomendo
Uma visita ao "Fluviário de Mora", o primeiro grande aquário de água doce da Europa. Localizado no Parque Ecológico do Gameiro - Cabeção, concelho de Mora, foi inaugurado em 21 de Março de 2007 tendo, ao longo da sua vivência, sido distinguido com diversos prémios, quer museológicos quer arquitectónicos. Pessoa amiga aconselhou-me a ir visitá-lo e em boa-hora segui a sua opinião. Um conselho: almoçar num qualquer restaurante da zona e provar uma especialidade local, tal como migas de espargos, por exemplo. De evitar a sopa de cação (outra especialidade local), não porque não deva de ser boa, mas porque é um animal em riscos de extinção.
Associação
A "Quercus", palavra latina para "carvalho" (espero não me ter enganado a escrever) é uma associação ambiental que hoje elejo. Sendo uma das principais organizações de defesa ambiental do nosso País, são activos, com diversos programas pedagógicos, com iniciativas abrangentes para qualquer pessoa e gerindo três centros de recuperação de animais selvagens. Porque não começar por consultar o "site" deste organismo? Quem sabe se alguém não acaba por voluntariar-se nalgum programa deles, ou a fazer-se sócio ou mesmo a apadrinhar um animal selvagem.
Uma pergunta
Uma equipa de arquitectos holandeses teve que pedir desculpas por ter projectado, para o centro de Seul (Coreia), um par de torres gémeas, que faziam lembrar as nova-iorquinas que sofreram os atentados do "11 de Setembro", maqueta essa que originou os protestos dos familiares das vítimas (Público). Vamos lá a ver se começamos a exorcizar estes fantasmas do "11 de Setembro" e não castremos a criatividade de qualquer tipo de actividade humana em nome dum trágico acontecimento, que o foi sem dúvida, mas que faz parte da História. É passado. Já cheira mal tanto choradinho. Quantas "torres" por esse Mundo fora já não foram destruídas, ao longo da História da Humanidade? E várias delas por participação directa dos Estados Unidos. E, já agora, vem-me a talhe de foice uma pergunta: será que essas pessoas que protestaram contra esta maqueta, também subscrevem protestos contra o Governo americano por ter financiado, ou apoiado, ou ficado quedo e calmo sobre o outro "11 de Setembro"? Não se lembram de qual? O de 1973, que derrubou, em sangue, o governo chileno de Salvador Allende, eleito democraticamente e que acabou por dar lugar a uma feroz ditadura militar presidida por Augusto Pinochet. Já se esqueceram dos estádios de futebol chilenos cheios de presos políticos, vários deles depois fuzilados?  Não reclamam deste "11 de Setembro"? Ambos foram tragédias, ambos ceifaram vítimas inocentes, ambos são de lamentar. Mas, tal como não foi impeditivo que, posteriormente, pelo Mundo se fossem construindo novos estádios de futebol, também não devemos imnpedir que se construam novas torres.
Aconteceu
Descobertas 208 novas espécies animais e vegetais, na bacia hidrográfica do rio Mekong, na Ásia (Público). Esperemos que não desapareçam em breve, face à actividade humana.
A Igreja Católica, nas Filipinas, pretendendo que os seus fiéis seguissem a tomada de posse dum Bispo, via "net", por lapso enviou para os seus devotos um "site" pornográfico (DN). Errar é humano, mesmo quando se pensa que se está sob protecção divina. Ou será que Deus também queria ver sexo?
Está a acontecer
Entre os dias 10 e 24 deste mês de Dezembro circula, na baixa alfacinha, um autocarro movido 100% a energia eléctrica e construído em Portugal, para transportar, gratuitamente, todos aqueles que pretendam fazer as suas compras na baixa, entre a Praça do Comércio/Martim Moniz/Praça da Figueira/Rossio/Praça do Comércio. Uma iniciativa interessante. Pena não ser durante todo o ano ou, pelo menos, nas quadas festivaleiras: Carnaval, Páscoa e Santos Populares. Mas é um princípio.
Vai acontecer
Lançamento do livro "Cinema no Estado Novo - a encenação do regime", de Patrícia Vieira (Edições Colibri). Dia 16 de Dezembro, às 19H30, na Livraria Babel da Cinemateca Portuguesa (Rua Barata Salgueiro), em Lisboa.
Lançamento do livro "Em nome da Pátria" de João José Brandão Ferreira (Publicações Dom Quixote). Dia 19 de Dezembro, às 18H00, no restaurante Jardim da Luz (Largo da Luz), em Lisboa.
Memória da semana
12/12/1863 - Nascimento de Edward Munch, pintor expressionista norueguês. Dos diversos quadros da sua autoria, um deles, "O grito", pintado em 1893, atingiu o valor estimado em 1.300.000 US$, estando considerado um dos ícones culturais de sempre.
12/12/1901 - Pela primeira vez na história mundial das comunicações é enviada, pelo físico Guglielmo Marconi, uma mensagem sem fios através do Oceano Atlântico e ligando duas placas continentais quando, na Cornualha (britânica) enviou o código morse da letra "S" para Terra Nova (canadiana), acabando por calar, de vez, os seus detractores que diziam que a curvatura da Terra impossibilitaria a recepção da mensagem. Foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Física em 1909.
12/12/1913 - A Polícia recupera, em Florença (Itália), o quadro "Mona Lisa", pintado em 1503 por Leonardo da Vinci, o qual tinha sido furtado dois anos antes do Museu do Louvre, em Paris (França), por Vincenzo Peruggia. Este alegou que o fizera por motivos patrióticos, ao querer retornar para Itália peças levadas à força por Napoleão Bonaparte.
12/12/1915 - Nascimento de Frank Sinatra, que ficou na história da música com o cognome "The Voice" tendo, também, sido actor de cinema (cerca de 60 filmes) e apresentador de televisão. Vencedor de múltiplos prémios (Óscar, Grammys, Globo de Ouro) e com duas estrelas no "Passeio da Fama" (carreira de televisão e música) teve uma vida plena, que terminou em ataque cardíaco (1998). Disse: "Só se vive uma vez e, do jeito que eu vivo, uma vez é suficiente."
13/12/1521 - Morre, em Lisboa, o Rei português D.Manuel I, que passou à História com o cognome de "Venturoso", por ter sido no seu reinado que uma armada lusa, comandada por Vasco da Gama, chegou à Índia e porque o domínio desta rota marítima trouxe para o Reino inúmeras riquezas. Que, diga-se de passagem, ele se apressou a delapidar sem cuidar onde.
13/12/1937 - Ocorre o Massacre de Nanquim. No decurso da guerra sino-japonesa, neste dia a cidade chinesa de Nanquim cai nas mãos do Exército japonês. O General japonês Matsiu Iwana ordena às suas tropas a destriução da cidade, a fim de criar o terror psicológico no seio da população chinesa. Em resultado disso, foram massacrados cerca de 150.000 prisioneiros de guerra e 50.000 civis e sucederam-se 20.000 violações em mulheres (os números são aproximados). Nenhum governo japonês assumiu, até à data, o reconhecimento deste genocídio.
14/12/1503 - Nascimento, em França, de Nostradamus. Médico e escritor, foi na astrologia que entrou para a História ao legar as suas profecias. Dizem os seus seguidores que ele profetizou o apocalipse terrestre para 2012.
14/12/1911 - O explorador norueguês Roald Amundsen é o primeiro humano a atingir o Pólo Sul.
14/12/1918 - Assassinato de Sidónio Pais, Presidente da República portuguesa, na estação do Rossio, em Lisboa. "Morro bem, salvem a Pátria." terão sido as suas últimas palavras, a fazer fé no relato do jornalista Reinaldo Ferreira, que se debruçou sobre o mesmo logo após o atentado. Reinaldo Ferreira foi o célebre "Repórter X", jornalista, escritor ("Memórias de um ex-morfinómano", p.ex.) e pai do poeta com o mesmo nome. Sidónio Pais tinha tomado o poder um ano antes, após um sangrento golpe militar, e inaugurado a "República Nova", em oposição à "República Velha" nascida em 1910, e dera um cunho vincadamente presidencialista à sua actuação.
14/12/1955 - Portugal ingressa na ONU, como membro de pleno direito.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Richard Burton

Aventureiros, viajantes e exploradores

Richard Francis Burton - (Torquay (Inglaterra), 19/03/1821 - Trieste (Itália), 20/10/1890) - Oficial do Exército Britânico e explorador, bem como geógrafo, escritor (escreveu mais de 40 obras), tradutor, diplomata, etnologista e linguista (falava mais de 20 línguas) e, talvez a melhor profissão que o defina, seja a de aventureiro de primeira água. Na realidade, esta personalidade ímpar do século XIX, conjuntamente com David Livingstone e Henry Morton Stanley, formou uma trindade suprema no desbravamento dos desconhecidos e inóspitos sertões africanos, por europeus. Richard Burton, no decurso da sua infância e adolescência acompanha a sua família pela Europa onde, dotado duma capacidade espantosa para aprender línguas, acaba por dominar o francês, o italiano e o latim, para além do romani, fruto dos amores que terá tido com uma rapariga desta etnia e de se ter lançado a estudar o árabe, língua que também virá a dominar e que, mais tarde, tão útil lhe irá ser, para além de se ter tornado num hábil praticante de esgrima. Em 1842, depois duma atribulada vida estudantil, onde foi expulso de vários colégios devido ao seu espírito contestatário e irrequieto, vai para a Índia, onde se alista no Exército Britânico daquela colónia. Aqui, aproveitando o seu dom para línguas, acaba por dominar o guzerate, o marate, o persa e aprofunda os conhecimentos de árabe, tornando-se um estudioso e apaixonado pelas filosofias e religiões orientais absorvendo, na sua pele, o modo de viver indiano. No primeiro trimestre de 1849 retorna a Londres e percorre a Europa, indo a Bolonha onde retoma as suas aulas de esgrima. Em 1853, rentabilizando os seus conhecimentos do modo de ser e pensar oriental, fruto da sua estadia na Índia vai, disfarçado de muçulmano, em peregrinação a Meca, disfarçado de árabe. Esta viagem arriscada, já que era uma deslocação proibida a europeus, punida com a pena capital caso fosse descoberto, guinda-o para a fama nos salões londrinos. De Meca segue para o Cairo e daí desloca-se, de novo, para a Índia onde se reúne ao seu antigo Batalhão. Colocado em Adén, no Golfo Pérsico, é aproveitado pela Real Sociedade de Geografia de Londres para integrar uma expedição à Somália e tentar obter mais informes sobre os Grandes Lagos Africanos, de que já tinha ouvido falar e, em Setembro de 1854, trava conhecimento com John Specke, outro membro da expedição e cujo inter-relacionamento de amor-ódio irá acompanhá-los até ao fim da vida deste último. Na primeira parte desta expedição, Richard Burton desloca-se, sozinho, pela Somália, disfarçado de muçulmano e onde se demora cerca de três meses, entrando na capital, Harar, um dos centros difusores do islamismo puro e onde qualquer cristão era morto. Consegue chegar à fala com o Emir local e recolhe toda a informação pretendida, sem ninguém desconfiar da sua falsa identidade, o que lhe valeria a tortura e decapitação e efectua a viagem de retorno, reunindo-se depois ao grupo que irá partir para a viagem. Este grupo era composto por Richard Burton e mais três oficiais britânicos, os Tenentes Jonh Specke, G. Herme e William Stornay, para além da habitual coluna de nativos africanos com as mais diversas funções, tais como a de carregadores, pisteiros, caçadores e criados. Atacados por tribos somalis hostis, a missão redunda num fracasso, acabando Jonh Specke ferido por atravessamento de várias setas e lanças no seu corpo, depois de ter sido preso pelos atacantes e Richard Burton é ferido por uma seta que lhe trespassa o maxilar. Os outros dois oficiais são mortos e, miraculosamente, os dois sobreviventes conseguem fugir, em direcção ao mar, onde acabam recolhidos na praia por um barco que ia a passar ao largo. Transportavam, nos seus corpos, as lanças e setas que os tinham trespassado. Em 1855 participa na Guerra da Crimeia, onde volta a ter problemas disciplinares com os seus superiores militares. Dois anos mais tarde a Real Sociedade de Geografia de Londres financia uma nova expedição ao interior africano, na tentativa de se descobrir as míticas nascentes do misterioso rio Nilo, expedição esta que é  entregue a Richard Burton e a Jonh Specke. A 27 de Junho de 1857 partem de Zanzibar com destino ao interior desconhecido, tendo sido contratado Sidi Mubarak Bombay. Numa tormentosa e épica viagem, pura descida aos infernos, os dois exploradores atingem o lago Tanganica, em 1858, tornando-se nos primeiros europeus a lá terem chegado. Tendo recolhido informações sobre a existência doutro lago, onde eventualmente o rio Nilo nasceria, Jonh Specke prossegue a viagem sozinho, ficando Richard Burton retido nas margens do lago Tanganica, por doença e refém dos caprichos dum chefe local. Jonh Specke acaba por atingir o outro grande lago, que baptiza de lago Vitória, sendo o primeiro europeu a lá ter chegado e, depois de o mapear parcialmente e tirar algumas medições topográficas rudimentares, por só ter um termómetro na sua posse, apressa-se a regressar a Londres a fim de comunicar a sua descoberta e declarar o lago como a nascente do rio Nilo, registando-a só para si e desprezando a participação de Richard Burton. Era o fim dum casamento de interesses aventureiros. A polémica estalou entre os dois exploradores, com Richard Burton a pôr em causa a idoneidade desta afirmação atendendo a que, tendo-se perdido bastante material de medição científica na viagem, as medições topográficas feitas por Jonh Specke eram duvidosas, enquanto não se realizassem outras. Após uma nova viagem de Jonh Specke à zona dos lagos, desta vez acompanhado por James Grant, em 1863, este volta a confirmar que o lago Vitória era a nascente do rio Nilo. Abraçando a carreira diplomática, Richard Burton é colocado, como Cônsul, em diversos pontos do planeta, tais como na ilha Fernando Pó (Guiné Equatorial), onde aproveita para efectuar novas expedições na África Ocidental nomeadamente numa perigosa viagem secreta ao reino do Daomé e, de seguida, em Santos (Brasil). Aqui, a sua veia exploratória volta a latejar e desce o rio São Francisco, desde a sua nascente até às quedas de Paulo Afonso, em canoa. Em 1869 assume o consulado de Damasco (Síria) e, em 1871, é colocado em Trieste (Império Austro-Hungaro, actual Itália), onde virá a falecer. Deixou várias obras escritas, para cima de 40 livros, entre romances e traduções, tais como "Goa e as montanhas azuis" (1850),"África Oriental" (1856), "Os lagos da África Equatorial" (1860), "O Kama Sutra de Vatsyayana" (1883), "O livro das mil e uma noites" (1885), "O jardim perfumado de Saykh Nefzawi" (1886), "As noites suplementares das Mil e Uma Noites" (1886/1898 em dezasseis volumes), "O Kasidah" (1886); para além de ter feito uma tradução do épico camoniano "Os Lusíadas" (1880) e uma biografia sobre Luís de Camões (1881). Postumamente (1898) foi publicada uma outra controversa obra sua: "O judeu, o cigano e o Islão". Nada escapou aos seus escritos, numa época onde imperava a moral vitoriana, desde sexo, incluindo o homossexualismo, castração, canibalismo, droga, poligamia, rituais religiosos e análise de diversas religiões. Professou diversas religiões, tendo sido sufista, islamita, budista, entre muitas outras, tendo falecido agnóstico. Mulherengo, alcoólico, opiómano, foi acusado de homossexualismo e pederastia. Para além dos livros deixou inúmeros escritos em jornais, fundou a Sociedade Antropológica de Londres (1863) e foi agraciado como Cavaleiro do Império (1886) pela Rainha Vitória. A sua vida lendária de 40 anos de viagens, a que um ataque cardíaco pôs termo, deu origem a inúmeros livros, filmes e documentários. De espírito aberto, avançado no seu tempo, controverso, polémico, sedutor, irascível, oportunista, ou mesmo megalómano, a Richard Burton, puro cometa das Sete Partidas do Mundo, não se lhe pode negar que foi um aventureiro com "A" grande e um dos maiores exploradores do século XIX.

Nota: os nomes sublinhados reportam-se a biografados anteriormente.

Livro

"Histórias rocambolescas da História de Portugal", de João Ferreira (Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, 335 págs.). Acabei de ler este livro que bastante prazer me deu. Didáctico e rigoroso nos factos, divertido e escrito com suavidade, conta-nos diversos episódios da nossa História num correr de caneta divididos em 13 temas, que abordam desde os primórdios da nossa nacionalidade até aos tempos abrilinos, num total de 68 histórias. E, no fim, ficou-me um desejo de pedir ao João Ferreira (apesar de não o conhecer) que escreva um segundo volume. 

Exposição

"Cuerpos de Dolor - A imagem do sagrado na cultura espanhola 1500/1570", no Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa), até 25 de Março de 2012. Exposição que aborda a escultura sacra sobre virgens, mártires e crucifixos entre outras peças (cerca duma trintena), esculpidas por escultores "nuestros hermanos". Para além duma visita ao Museu em si, que vale sempre a pena.

Filme

"As montanhas da Lua" (135 minutos). Em meados do século XIX iniciou-se a exploração geográfica (e não só) do interior do continente africano, por parte de potências europeias, interior este que era do quase total desconhecimento dos europeus. Na zona dos Grandes Lagos Africanos existiam grandes manchas em branco no mapeamento deste continente e sabia-se, por recolha de informações junto dos nativos, da existência de grandes montanhas e às quais, iniciaticamente, se deram o nome de "Montanhas da Lua", precisamente por serem longínquas e, até então, ainda inantigíveis. Essa zona das "Montanhas da Lua" abrangia o que são hoje o Congo Oriental, o Ruanda, o Burundi, o Uganda e a parte interior da Tanzânia. Diversos exploradores iniciaram a conquista geográfica destes territórios estando, entre eles, o acima biografado Richard Burton. E é sobre uma parte da vida deste explorador que recomendo o filme "As montanhas da Lua", que se reporta principalmente na viagem que, em 1854, ele e Jonh Specke encetaram à descoberta das nascentes do rio Nilo, tendo atingido os lagos Tanganica e Vitória. Realizado por Bob Rafelson e com os papéis dos dois exploradores entregues a Patrick Bergin (Richard Burton) e Ian Glen (Jonh Specke) o filme, para além de descrever esta portentosa viagem aventureira, retrata uma outra anterior que ambos tinham efectuado à Somália e da qual só miraculosamente é que escaparam com vida e também a disputa que ambos travaram em Londres, quer sobre a legitimidade da descoberta do lago Vitória como nascente do rio Nilo quer sobre a veracidade científica da mesma, disputa essa travada na Real Sociedade de Geografia de Londres e que, na época, apaixonou a opinião quer dos peritos quer pública. Um filme magistral. 

Lamento

A polícia alemã descobriu, num quarto de hotel, na cidade de Colónia, uma centena de serpentes, 70 tartarugas e 20 rãs, tendo detido dois japoneses e um chinês, por suspeita de tráfico de animais de espécies raras (DN Globo). Não lamento a captura dos animais pela Polícia e a sua entrega ao Jardim Zoológoco local, um mal menor para suprir um mal maior. O que eu lamento é que os ditos suspeitos tenham sido soltos após o pagamento duma caução. E, também, que nenhum deles tenha sido mordido por uma serpente venenosa (os traficantes, não os polícias).

Associação

Hoje reporto-me ao Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, que fica na Quinta da Murta - Picão, na freguesia de Gradil - Mafra. Este Centro luta pela preservação do lobo enquanto animal livre. O Centro pode ser visitado (já o fiz) e... já agora apoiado. Uma pequena ajuda monetária da nossa parte não custa nada. Por isso aqui fica a sugestão: tirar o rabo do sofá, desligar a televisão e dar um passeio até este Centro, fazer por lá um lanche ao ar livre (levado de casa), ver os lobos e... adoptar um, através duma pequena contribuição que será sempre uma grande ajuda para os mesmos. Este Natal dê uma prenda aos lobos ibéricos. Eles merecem.

Imbecilidades

Bom, agora a moda é o "retrossexual", que é o indivíduo que "rejeita a ditadura de uma imagem perfeita e reclama o regresso de um homem simples e real" (DN Pessoas). Então... temos o heterossexual, o homossexual, o transssexual, o bissexual, o metrossexual e, agora, o retrossexual. Aguardo, expectante, a próxima imbecilidade. Estou a pensar propôr o "humanóide normalóide". 

Uma pergunta

A Conferência da ONU sobre as alterações climáticas, realizada em Durban, foi uma fantochada. Enojo-me com estes políticos que organizam eventos à  escala planetária, onde se gastam milhões e... nada decidem de conclusivo, adiando tudo para a próxima cimeira. Nesta, então, tiveram que prolongar a mesma mais 24 horas para conseguirem um acordo que lhes permitisse salvar a face. Quito, Rio de Janeiro, Cancun, Copenhaga, agora Durban , enfim, um périplo mundial onde os nossos ilustres e sacrificados representantes viajam em grande estilo, hospedam-se em cinco estrelas, comem caviar, bebem do fino e depois duns paleios amorfos, cheios de floreados e de boas intenções... marcam outra cimeira. E porque não vamos todos esperá-los aos aeroportos, quando aterram de palito na boca e barriga cheia e não lhes atiramos às trombas o produto das nossas evacuações previamente guardadas em sacos de papel?

Aconteceu

O Prémio Nobel da Paz foi atribuído a três mulheres: Ellen Johnson Sirleaf, Presidente da Libéria; Leymah Gbowee, activista liberiana dos Direitos Humanos e Tawakkol Karman, jornalista iemenita.

A atleta portuguesa Ana Dulce Félix conquistou a medalha individual de prata de seniores femininos nos Campeonatos Europeus de Crosse. E, em Selecções, neste mesmo certame, Portugal arrecadou, em feminino as medalhas de prata nas classes de Séniores e Sub-23.

Vai acontecer

Lançamento do livro "Elementos da cultura militar - glossário de termos linguísticos e estudo introdutório sobre organização e simbólica castrense", de João Freire (Edições Colibri). Dia 12 de Dezembro, às 18H00, na Associação 25 de Abril (Lisboa).  

Tertúlia "Finis Imperii", sobre o Ciclo Olhares Sobre a Índia: "Sirius", de Marques da Silva. No dia 14 de Dezembro, na SHIP - Sociedade Histórica de Independência de Portugal (Lisboa). Entrada livre.

Memória da semana

09/12/1706 - Falecimento, em Lisboa, de D.Pedro II, Rei de Portugal.
09/12/1843 - Surgem, em Inglaterra, os primeiros postais de Natal, criados por Henry Cole e John Horsley.
09/12/1907 - São colocados à venda, em Delawere, os primeiros selos norte-americanos alusivos ao Natal. A receita revertia para a luta anti-tuberculose.

10/12/1901 - São atribuídos, pela primeira vez, os Prémios Nobel.

11/12/1842 - Nascimento de Robert Koch,médico bactereologista, fundador da microbiologia e descobridor do "bacilo de Koch" (1882) entre outros. Foi contemplado com o Prémio Nobel da Medicina (1905).
11/12/1908 - Nascimento, no Porto, de Manoel de Oliveira, realizador cinematográfico.
11/12/1972 - Alunagem da nave espacial norte-americana "Apolo 17". Foi a última viagem espacial tripulada à Lua, tendo sido a que mais tempo ali permaneceu (três dias).

Foi dito

"Antes ter como símbolo um par de corvos do que um par de cornos" - (Boca a Boca, de Pedro Bandeira Freire).
"Roma não paga a traidores" - General romano Cipião quando se recusou pagar o prometido a Audaz, Ditalco e Minuro, os três assassinos de Viriato quando estes compareceram a reclamar a recompensa por tal acto. (Histórias rocambolescas... de João Ferreira, livro acima citado).