"O Mundo não é uma herança dos nossos pais, mas um empréstimo que pedimos aos nossos filhos" (Autor desconhecido)
Mostrar mensagens com a etiqueta Deana Barroqueiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Deana Barroqueiro. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de maio de 2012

René Caillié

Viajantes, aventureiros e exploradores

René Caillié - (Mauzée, 19/09/1799 - Saint-Simphorien-Du-Bois, 17/05/1938) - Explorador. Filho de famílias do mais baixo estrato social, com um pai alcoólico e preso por roubo, de quem fica órfão aos onze anos,apaixona-se pela vida aventureira após, na adolescência, ter lido o romance sobre as aventuras de Robinson Crusoé: "Sobretudo a história de Robinson inflamava-me a jovem cabeça...".

René Caillié
Aos 16 anos, com sessenta francos no bolso "Não tinha senão sessenta francos..." segue como embarcadiço na fragata "Loire", com destino ao Senegal (1816) aportando na Angra de São Luís e depois em Dacar. Por aqui fica até "Após ter permanecido alguns meses nestes tristes locais, parti para S. Luís logo que os Ingleses devolveram a colónia aos Franceses." Chegado a São Luís toma conhecimento duma expedição britânica, liderada pelo Major Gray, que partira para explorar o interior de África e estava bloqueada em Fouta Djalon (actual Guiné Conacry), por decisão dum "almami" (soberano local). Decide juntar-se à expedição pois: "... quando me falaram na expedição; e, não duvidando que o Major Gray tendo necessidade de gente, acolheria a oferta dos meus serviços, se bem que para ele eu fosse estrangeiro, decidi-me a ir para a Gâmbia, por terra..." Apesar da sua resistência de jovem, acaba por quebrar o ânimo e, convencido por africanistas mais experientes, desiste do intento e retorna a São Luís.

Embarca daí para Guadalupe, nas Antilhas francesas, onde fica durante seis meses.  Retorna a França (Bordéus) e, com 18 anos, efectua nova viagem à África ocidental, desta vez ao protectorado francês de Bondu, que se localizava entre os rios Feleme e Gâmbia e era dependente da colónia francesa do Senegal. A leitura de várias biografias de exploradores daquela zona da África Ocidental, influenciou-o bastante, nomeadamente a vida aventureira do médico britânico Mungo Park (1771-1806), o primeiro europeu a atingir o rio Níger e a tentar descobrir todo o seu percurso, pagando estupidamente com a vida a sua ousadia e incúria. Como ele refere: "A minha paixão pelas viagens começava a acordar; a leitura de Mungo Park veio acrescentar uma nova força aos meus projectos; enfim, a minha constituição, tendo resistido a uma permanência assaz longa tanto no Senegal como em Guadalupe, dava-me a esperança de os executar desta vez com sucesso." Assim, retorna a São Luiz, no Senegal em finais de 1818, decidido a tornar-se explorador do interior africano. No Senegal toma conhecimento que a coluna britânica do Major Gray ainda se encontra no interior africano, bloqueada por novas exigências do rei de Boundou pelo que se oferece, de novo para se integrar na mesma. "O senhor Adrien Partarrieu, enviado pelo Major Gray para adquirir em São Luís as mercadorias exigidas pelo rei de Boundou, dispunha-se a juntar-se de novo à expedição. Apresentei-me ao senhor Adrien Partarrieu e propus-lhe acompanhá-lo sem salários e sem compromissos de nenhuma espécie de momento." Esta expedição, que virá a fracassar nos seus objectivos, será um tormento para René Caillié e para todos os restantes membros da mesma, conforme ele relata nas suas memórias, mas irá aprender com os erros cometidos ao longo da mesma, aprendizagem esta que ser-lhe-á útil no futuro.  

A fim de incentivar a penetração europeia no interior africano, extremamente desconhecido na época, diversos governos de países europeus criaram, juntamente com privados, as suas próprias sociedades de geografia, que funcionavam como pontas de lança da política colonial dos seus interesses político-económicos, incentivando exploradores e missionários a rasgarem o interior afro-continental, sendo estes os percursores dos mercadores e militares que dariam lugar depois à instalação do poder político-administrativo em determinada região. 
Tombuctu era uma cidade lendária e milenária que povoava o imaginário dos europeus. Fundada no tempo do Império do Mali, por nómadas tuaregues, com objectivos económicos de servir de entreposto comercial na permuta do sal (fonte da vida) por escravos (fonte de poder e do prazer) e ouro (fonte de riqueza), a sua localização, a cerca de meia dúzia de quilómetros das margens do rio Níger, tornavam-se dominadora e centralizadora das rotas caraveneiras que cruzavam o Sahara, o que lhe deu uma mais valia como poderio militar. Mas remonta a essa época a construção da formosa Mesquita de Djingareiber (1325), construída em barro e que ainda se mantém até aos dias de hoje, o que também lhe conferia um estatuto de liderança espirutual. A sua construção foi ordenada pelo Imperador Mansa Mussa, que colocou Tombuctu no centro das atenções do mundo de então, ao peregrinar faustosamente a Meca com um séquito de milhares de homens, em 1324. Tendo feito uma escala no Cairo, para visitar o Sultão local, espalhou tanto ouro que a cotação deste metal nos mercados caiu a pique. Desde 1988 a dita mesquita (e também a cidade) encontra-se classificada como Património da Humanidade, pela UNESCO. 

Localizada no coração do Mali, por volta de 1400 da era cristã estava sob domínio do Império Songhai e atinge, aí, o seu apogeu como centro difusor dos credos judaico, muçulmano e cristão e das culturas songhai, tuaregue e árabe. Dos seus cerca de cem mil habitantes (por volta de 1450) um terço dedica-se ao estudo corânico, vindos das mais diversas regiões do mundo árabe, desde a Granada ibérica à Meca arábica. Era um caldo de tolerância e toda essa mundivivência irá fenecer a partir de 1600 DC., com a queda do Império Songhai, fruto da invasão de forças berberes marroquinas que conquistam a cidade (1590) e liquidam os líderes religiosos  locais, acusados de falta de confiança e, também, com a ingerência europeia que estava, com a expansão das navegações, a dominar o litoral africano e a mercadejar em moeda forte com as redes de escravos, da pimenta africana e do ouro. Começavam então, lentamente, a surgir as brumas nevoentas que iriam mergulhar Tombuctu na letargia.


Tombuctu



Quando o Império Songhai claudica Tombuctu é também arrastada na queda. Fecha-se ao mundo, fruto da mentalidade dos seus novos senhores, onde apenas impera o pensamento monoteísta e monoétnico. A incapacidade de  defesa da cidade pelas forças marroquinas leva-as a descarregarem as culpas na população local, que acusam de conluio com os ataques externos vindos dos bambaras, fulas e tuaregues.


E assim se mantém até aos alvores do século XIX, ajudada geograficamente pela sua centralização desértica. Dos ventos secos e arenosos do deserto virão as poeiras que criarão a neblina isolacionista a que a remetem. Quando os europeus, neste século XIX, começam a virar as suas atenções para a exploração do interior do continente africano, que nos mapas era quase que representada por uma grande mancha incolor, o deserto do Sahara não irá escapar ao seu esquadrinhamento. E nem as suas violentas temperaturas e díspares amplitudes térmicas farão parar a iniciativa europeia. A fome do negócio, a sede da aventura e a gula da conquista de terras falarão mais alto. E contra isto não havia "harmattan"  (ventos secos do deserto) que os detivesse.


Tombuctu era uma cidade que estava entranhada nas mentes dos europeus aventureiros como uma lenda. A sua posição geográfica, protegida pelo deserto, a sua política de interdição de entrada na mesma a estranhos (muito menos infiéis, isto é, não islâmicos) com pena capital a quem ousasse desafiar, ainda mais acicatava a gula de a atingir. Espalhavam-e histórias fantasiosas de ser uma cidade opulenta, digna das "Mil e Uma noites".


Deste modo a Sociedade de Geografia de Paris instituiu um prémio de 10.000 francos a qualquer europeu que conseguisse chegar à mítica Tombuctu e regressar para contar o que vira. Em 1826, um britânico, o Major Alexander Gordon Laing (1793/1826) decidira estudar o curso do rio Níger. Para tal partira de Tripoli (actual Líbia) em 16 de Julho de 1825 e após várias vicissitudes na sua caminhada para sul, onde inclusivamente fora gravemente ferido em combate contra um grupo de tuaregues, conseguira entrar em Tombuctu a 18 de Agosto de ano seguinte. Tornara-se no primeiro europeu a entrar em Tombuctu vindo do norte. Mas não regressaria de lá, pois acabou assassinado a 26 do mês seguinte. Os governantes locais não toleravam interferências estrangeiras nem queriam estranhos na sua cidade, muito menos infiéis. Eram os duros tempos em que a aventura pagava-se, bastas vezes, com a vida. Mas mais que à aventura, a vida era cobrada ao desleixo, à incúria, à sobranceria, ao não se preparar cuidadosamente as explorações.


Alexander Gordon Laing

René Caillé decidiu arriscar tudo naquela que seria a viagem da sua vida: iria a Tombuctu e voltaria para relatar tudo e reclamar o prémio. Mas iria preparar-se convenientemente, para não correr riscos desnecessários nem cometer falhas. Rememorando a expedição falhada do Major Gay, em que participara, decidira agora que iria sozinho. Deslocando-se de novo para o Senegal, fixou-se a residir no seio de populações árabes, na região de Braknas, a sudoeste da actual Mauritânea, a norte do rio Senegal, aprendendo a viver com eles para aprender a tornar-se num árabe, pois ia: "aprender a língua árabe e as práticas do culto dos Mouros, a fim de mais tarde, enganando a sua zelosa desconfiança, conseguir penetrar mais facilmente no interior de África." Para tal aperfeiçoou o falar árabe, de que já dominava um pouco fruto  das viagens anteriores, bem como desde o comer, ao vestir, à higienização pessoal, aos costumes das leituras e práticas religiosas, de tudo aprendeu e absorveu, tornando-se num árabe. Assim, numa "Terça-feira 3 de agosto de 1824, às quatro horas da tarde, parti de São Luís acompanhado por dois homens e uma mulher, todos habitantes de N´pâl..." para a região de Braknas. Começava a preparação para a aventura.


René Caillié


A 16 de Maio de 1825 retorna a São Luís. Durante nove meses aprendera e prepara-se. Arranja alguns empregos sem importância enquanto tenta arranjar financiamento por parte das autoridades francesas para o seu projecto de ir  Tonbuctu. Não tendo recebido apoio das autoridades francesas para o seu plano René Caillié, desiludido, desloca-se para território britânico, na Serra Leoa, onde trabalha numa plantação de índigo: "Dali (da ilha de Goreia) passei à Serra Leoa. O general Charles Turner, governador deste entreposto inglês, acolheu-me com bondade e, para me reter na colónia que comandava, encarregou-me de dirigir uma fábrica de índigo e atribuiu este cargo que criou para mim um vencimento de 3.600 francos."  Juntando o seu salário durante alguns meses: "porquanto tinha cerca de 2.000 francos de economias e este tesouro parecia-me suficiente para ir até ao fim do mundo" acaba por auto-criar uma personalidade árabe para si, alegando que era um egípcio que fora levado à força pelos franceses de Napoleão Bonaparte, aquando da invasão deste ao seu País para o Senegal e que agora pretendia regressar a casa: "... informei-os (a uns mandingas e a uns saracolés com quem se travara de amizades para melhor obter informações do interior) em segredo que nascera no Egipto de pais árabes e que fora levado para França ainda de tenra idade por  franceses que faziam parte do exército que fora ao Egipto; que depois fora levado para o Senegal para ali tratar dos assuntos comerciais do meu patrão que, satisfeito com os meus serviços me libertara."
Integrando uma caravana mandingo, agora completamente disfarçado na pele dum árabe, René Caillié, em 1827, inicia a aventura da sua  vida que o guindará aos píncaros da fama. Partindo da aldeia de Kakondi: "situada na foz do rio Nunes a 50 léguas a norte da Serra Leoa..." (19 de Abril de 1827), depois de ter atingido Bokê, (a oeste da actual Guiné-Conacry) e ultrapassada a cadeia montanhosa do Fouta-Djalon (no zona central da actual Guiné-Conacry) passa o rio Níger em Courussa (no noroeste da actual Guiné-Conacry).




Atingido o planalto Kong fica aí retido largos meses por doença mas, em Janeiro de 1828, retoma a viagem e atinge a cidade de Jenné. "A cidade de Jenné é barulhenta e animada; todos os dias chegam e partem numerosas caravanas de mercadores que transportam todo o tipo de coisas úteis... A cidade é sombreada por alguns embondeiros, mimosas, tamareiras e borassos;... há muitos estrangeiros estabelecidos, mandingas, fulas, bambaras e mouros...." Após uma estadia embarca para Tombuctu pelo rio Níger, a 13 de Março: "Finalmente cerca das nove horas e meia deixámos o porto...". A 20 de Abril desse mesmo ano atinge Cabra, o porto de Tombuctu. "A 20 de Abril, às três horas e meia, os homens de Sisi-Abdallahi Chebir e eu rumámos a Tombuctu, dirigindo-nos para norte... /// Por fim, chegámos felizmente a Tombuctu no momento em que o Sol tocava no horizonte... /// Ao entrar nesta cidade misteriosa, objecto das pesquisas das nações civilizadas da Europa fui tomado por um inexplicável sentimento de satisfação..."


No dia seguinte (21 de Abril) "... fui passear pela cidade para examiná-la. Não a achei  nem tão grande nem tão povoada como esperava; o comércio é muito menos considerável do que faz crer a fama; nela não se vê, como em Jenné, esta grande afluência de estrangeiros vindos de todas as partes do Sudão. Não encontrei nas ruas de Tombuctu senão os camelos vindos de Cabra carregados de mercadorias trazidas pela flotilha; alguns ajuntamentos de habitantes sentados no chão sobre esteiras, conversando; e muitos mouros deitados diante das portas, dormindo à sombra. Numa palavra, tudo respirava a maior tristeza." Percorrera 2.500 quilómetros para ter uma decepção. Demora-se aqui apenas duas semanas e, disfarçado de mendigo, a 04 de Maio seguinte sai da cidade, integrando-se numa enorme caravana de 600 camelos; atravessa o Sahara, sempre para Norte até atingir Marrocos, em Fez, onde chega a 12 de Agosto e, depois, Rabat e, de seguida, Tânger. Só em Tânger é que o Cônsul francês o aceita, sob reservas, como seu compatriota, pois era tal o seu estado miserável, doente, com febres, roupas rasgadas, mal cheiroso por andar a dormir ao relento, esfomeado, sem dinheiro e cheio de feridas por ter sido atacado por cães, que os cônsules de Fez e Rabat recusaram-se a reconhecê-lo como europeu e muito menos francês. Todos se recusaram a acreditar que aquele farrapo humano fizera História. Tomavam-no por um árabe louco.   
Chega a França (Paris) onde, finalmente, a glória e a riqueza lhe batem à porta. Tinha sido o primeiro francês a entrar em Tombuctu e a sair de lá vivo, para relatar o que vira. As condecorações oficiais, o bendito prémio de 10.000 francos da Sociedade de Geografia, bem como uma pensão governamental vitalícia, tudo lhe é atribuído. Escreve um livro onde relata esta viagem, que titula de: "Voyage à Tombouctou et a Djenne´". O livro foi escrito com base nas suas memórias ainda frescas e com base nalguns apontamentos que ia anotando às escondidas de todos durante a sua viagem, enquanto fingia que lia o Corão. Mesmo as próprias leituras geográficas que fazia era com uma bússula que manteve sempre secreta na sua sacola de viagem e quando fingia que ia à mesma buscar ou colocar algo. Nunca cometeu nenhuma falha. Tinha nervos de aço. Por isso sobreviveu.


Capas duma edição de dois volumes

Dando por finda a sua vida de viagens retira-se, vivendo dos rendimentos que a mesma acabara por lhe proporcionar e, uma década depois desta viagem, África cobrou-lhe a façanha de a ter desventrado um pouco. René Caillié morreu vitimado por febres apanhadas em África. E só em 1894, sessenta e seis anos após a sua odisseia, é que a França se decidiu a ocupar de vez Tombuctu.

Nota: as citações do biografado foram retiradas da tradução portuguesa do livro "Viagem a Tombuctu" que de seguida se refere.



///////////////////////////////////////////////////



Existe, traduzido para português, pelo menos uma versão da obra de René Caillié. Trata-se do livro com o título "Viagem a Tombuctu", editado pelas Publicações Europa-América em dois volumes. O primeiro volume é de Fevereiro de 2007, com 241 págs. O segundo volume foi editado em Março de 2007, com 278 págs.

O livro é de escrita escorreita, sem grandes floreados, objectivo e, dentro dos parâmetros da mentalidade europeia de então, trata com justeza os personagens que se foram cruzando nas aventuras do Autor.


Tem o cuidado de relatar não só a sua narrativa histórica, mas também se debruça sobre usos e costumes dos povos com quem conviveu, os tipos de agricultura a que se dedicavam, gastronomia, vestuário que envergavam, cultos religiosos a que se entregavam, para além de descrição geográfica dos territórios que atravessava. Livro que, para a época, foi um manancial de informações utilíssimas sobre regiões totalmente desconhecidas dos europeus. Para os tempos actuais, não só é um notável livro de aventuras como também é um registo muito completo sobre como se vivia e morria naqueles duros e áridos tempos em que a vida humana era decidida pelo humor momentâneo de quem empunhava uma arma.  

*********************************************

Historiando Moçambique Colonial





Vasco da Gama - (Sines, 1468? - Cochim, 24/12/1524) - Navegador. Um dos mais célebres homens da história dos descobrimentos marítimos europeus e que protagonizou uma das mais famosas viagens marítimas do planeta, a do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, via continente africano. Perito em navegação, o Rei Dom Manuel I entregou-lhe o comando da armada que, em 08 de Julho de 1497, saiu de Lisboa a fim de tentar chegar à Índia, o que veio a conseguir.

No decurso desta viagem aporta, pela primeira vez, no actual território moçambicano, nas localidades de Inharrime (há dúvidas entre diversos historiadores se seria aqui ou em Inhambane), Quelimane e ilha de Moçambique no decurso do ano de 1498 e, de seguida, rumando sempre para norte, chega à almejada Índia,  a Calecute, a 20 de Maio deste mesmo ano.

Regressa a Lisboa onde chega em finais de Agosto de 1499, sendo promovido a Almirante do Mar da Índia. Em 1502 volta à Índia onde trava alguns combates punitivos, regressando a Lisboa dois anos mais tarde, após firmar tratados de vassalagem com o Sultão de Quíloa e tratados de aliança com os governantes de Cochim e Cananor  

Em 1524 efectua a sua terceira e última viagem à Índia, para onde fora nomeado Vice-Rei, mas a malária ceifou-lhe a vida, falecendo em Cochim.   


/////////////////////////////////////////////////////


Diogo Dias - (?/?) - Navegador. Irmão de Bartolomeu Dias*, integrou a sua armada que dobrou o cabo da Boa Esperança, pela primeira vez. Posteriormente segue na primeira armada de Vasco da Gama. Regressa de novo  Índia na armada de Pedro Álvares Cabral, comandando uma caravela que, apanhada em tormenta no cabo da Boa Esperança, fica isolada das restantes e deriva até à ilha de Madagáscar, baptizando-a de São Lourenço, por a ter descoberto no dia dedicado a esse santo católico. É-lhe ainda atribuído o mérito, ainda que discutível, de ter descoberto acidentalmente a baía de Lourenço Marques.


////////////////////////////////////////////////

Nicolau Coelho - (Felgueiras, 1460? - zona das Quirimbas, 1503) - Navegador. Comandou a "Bérrio", na primeira viagem marítima de Vasco da Gama para a Índia, tendo como seu piloto o lendário Pero Escobar*.  No decurso desta viagem foi este navio o primeiro a explorar e a efectuar sondagens no Canal de Moçambique, atendendo ao facto de ser a embarcação mais pequena da armada, bem como foi o primeiro a estabelecer contactos com o Sultão de Quíloa.


Regressou ao Reino em 1499, tendo sido o primeiro a chegar a Lisboa e a dar a boa nova do desbravamento marítimo para a Índia. No ano seguinte comanda uma nau, na segunda armada para a Índia, armada essa que era liderada por Pedro Álvares Cabral e que descobriu (ou "achou") o Brasil. 

 Em 1503, comandando a nau "Faial", volta de novo à Índia, integrado na armada de Afonso de Albuquerque e, na torna-viagem (1), morre no naufrágio que sofre na zona do arquipélago das Quirimbas. 

(1) - Viagem de regresso.

////////////////////////////////////////////

Lourenço Marques - (?/?) - Comerciante e explorador. Muito pouco se sabe sobre o homem que explorou a baía do Espírito Santo (actual Maputo), em 1544, e a quem o seu nome foi dado à cidade que aí veio a ser fundada. Terá nascido no Algarve (Tavira) e admite-se que tenha integrado a armada de Dom João de Castro, que se dirigia para a Índia. Estabelecido em Melinde ter-se-á envolvido de amores com uma árabe que raptou e, para fugir da punição de tal acto, rumou para o arquipélago do Bazaruto*.

Comerciante e navegador enceta com António Caldeira a exploração da costa sul de Moçambique, atingindo as embocaduras dos rios Limpopo, Umbelúzi e Maputo, onde explora a baía referida como "Delagoa Bay" (inicialmente conhecida como "baía da Boa Morte").

Escreve a Dom João de Castro, Vice-Rei da Índia, a narrar as descobertas. Chegado a Lisboa o conhecimento de tal facto, o Rei de Portugal Dom João III ordena que seja fornecido a Lourenço Marques um navio com alguma mercadoria, para estabelecer contactos com os nativos daquela zona sul. Pelos relatos dos sobreviventes do naufrágio da nau "São João", ocorrido em 1552 na zona do Natal (actual África do Sul) apurou-se que Lourenço Marques ainda deambulava por aquelas paragens, no trato. 

Em 1557 serviu na Índia, como escrivão da feitoria de Cochim e, no ano seguinte, estava em Goa, perdendo-se aí o seu rasto.

///////////////////////////////////////////

António Caldeira - (? - 1552?) - Explorador. Pouco se sabe da vida deste navegador da época dos descobrimentos portugueses. À semelhança de Lourenço Marques explorou a baía "da Lagoa" (ou Delagoa Bay) baía esta que viria a tomar entre vários nomes o do seu companheiro de navegações. Ter-se-á estabelecido nesta zona a comerciar com os gentios e, em 1552, numa tentativa de localizar e socorrer os naúfragos da nau "São João", onde se achava Manuel de Sousa Sepúlveda, terá falecido no interior sertanejo.

//////////////////////////////////////////////// 

Manuel de Sousa Sepúlveda - (1505-1553) - Apesar de ter feitos estudos ecleseásticos, em 1534 foi para a Índia, onde atingiu valorosa projecção em feitos militares. Em 1536 enquadra-se na conquista de Damão e Diu e, até 1551, os seus feitos militares fizeram-se sentir nas várias partes dos mares e territórios da Índia.

Tendo-se casado, em 1548, com Dona Leonor de Sá, regressa ao Reino em 1552, capitaneando a nau "São João" a qual, ao chegar à actual costa sul-africana índica (zona do Natal) naufraga (Abril de 1552). Manuel de Sousa Sepúlveda e os restantes sobreviventes, entre os quais se encontravam a sua esposa e filhos, iniciam uma viagem pedestre para Moçambique.

Após múltiplos tormentos, motivados por febres, fome e ataques de gentios hostis, que foram rasiando os náufragos, chegam à zona da que viria ser a futura localidade Lourenço Marques (Dezembro de 1552). Em Janeiro seguinte, depois de sofrerem mais humilhações pelos naturais da zona, que lhes saquearam tudo incluindo as roupas, e com a morte a colher toda a sua família, Manuel de Sousa Sepúlveda, enlouquecido, interna-se no mato, nunca mais voltando a ser visto com vida.

O seu fim trágico e o da sua família, bem como as vicissitudes que os restantes náufragos passaram (só alguns é que vieram a ser salvos e relataram a odisseia) deram origem, na literatura portuguesa, a múltiplas obras.

//////////////////////////////////////////////////////

Jerónimo Leitão - (?/?) - Comerciante e navegador. Efectuou algumas viagens à baía de Lourenço Marques, de carácter comercial e exploratório tendo, inclusive, naufragado numa dessas viagens (1588/1589) junto à foz do rio Limpopo. Quatro  anos mais tarde, em nova viagem comercial àquela zona, recolhe os sobreviventes do naufrágio da nau "Santo Alberto" e, em 1597, repete novo salvamento a náufragos na ilha  da Inhaca.

Profundo conhecedor das terras do sul e das gentes locais, com quem negociava, escreveu, por ordens do Governo, uma "Lista da navegação de Moçambique até ao rio de Lourenço Marques".


//////////////////////////////////////////////////////


Carreira das Índias - Nome que se atribuía à ligação marítima permanente que se estabeleceu entre Lisboa e a Índia, promovida pela Coroa Portuguesa. Fruto da sua posição geográfica, a ilha de Moçambique* era um dos portos de paragem obrigatório para todos os navios dessa carreira, que buscavam mantimentos, comércio e pessoas, bem como promoviam o restauro das embarcações.

////////////////////////////////////////////////////////

Cartaz - Autorização de navegação no Oceano Índico que os portugueses emitiam a favor dos barcos que aí navegassem, sendo uma forma de vincarem o seu domínio marítimo. A falta do salvo-conduto implicava a apreensão da mercadoria do navio e, por vezes, a destruição do mesmo.

////////////////////////////////////////////////////

Inhambane - Antes da chegada dos portugueses era conhecida pelo nome de Otongue, capital do antigo Reino dos Bitongas ou Inhambane, nome este que terá derivado do chefe local Nhambi. Àquela região chegou a  armada de Vasco da Gama, onde efectuou a sua primeira aguada no futuro território de Moçambique.

De populações afáveis e já sofrendo de influências islâmicas os portugueses, inicialmente,não mostraram grande interesse em se fixarem nesta zona. Em 1560 Dom Gonçalo da Silveira* e outros jesuítas instalaram uma missão religiosa e só vinte anos mais tarde é que os portugueses instalaram, definitivamente, uma feitoria.* A partir da criação da Companhia do Mazane de Diu* a zona sofre um forte incremento asiático e, em 1761, foi elevada à categoria de vila. Em 1775 o comércio de Inhambane suplantava o de Sofala*, em marfim.

Em 1834 forças angunes de Manicusse**, que tinham invadido a zona de Inhambane a guerrear os regulados daquela área, derrotam estrondosamente uma coluna portuguesa comandada por Cândido da Costa Soares, Governador de Inhambane, composta por militares, moradores e escravos. Do massacre, que foi total, apenas ficaram para contar a história dez europeus, que tinham ficado de rectaguarda a defender o perímetro da vila.


Novamente em 28 de Julho de 1849 dá-se um confronto entre forças portuguesas, comandadas pelo Governador de Inhambane António Manuel Pereira Chaves e as mangas* leais a Manicusse, que resultam em novo desastre para as forças lusas e culminando com a morte do próprio Governador António Chaves. A força militar deste Governador era composta, para além dele, que a comandava, por um Tenente, um Sargento, dois Cabos e setenta e quatro Soldados a que havia a acrescer de forças nativas aliados do régulo** Candula. A 27 de Julho, estando em Morrumbene, Pereira Chaves toma conhecimento que os nativos rebeldes estavam em Magombane pelo que, nessa mesma noite, dirige a coluna para aí. Na madrugada do dia seguinte dá-se o recontro, fatal para as forças lusas, com a morte quer do Governador quer dos graduados militares e grande parte dos Soldados. No ano seguinte, a 16 de Março, os portugueses vingam esta afronta, derrotando as forças dos régulos de Inguana e de Paranguana, liquidando também estes.


Em 1885 o Padre católico Santa Rita Montanha e o Alferes António de Sousa, ligam Inhambane ao Transval, retornando no ano seguinte e tendo elaborado um extenso relatório  sobre os usos e costumes dos bóeres**, tais como tipo de governo, administração do comércio e agricultura, bem como hábitos sociais e religiosos.


No século XIX o incremento da população europeia veio a alterar a correlação das forças económicas com os islâmicos. A escravatura era a principal fonte de riqueza. Os escravos exportados por Inhambane eram altamente elogiados, relatando Vasconcelos e Cirne na sua "Memória da Província de Moçambique": "... os melhores que se conhecem nas duas Áfricas pela sua robustez, ânimo, formosura e valentia a ponto de que são bem poucos os navios que os carregam que não tenham levantes, mas que em chegando ao Brasil são pagos melhor que quaisquer outros."


Em 30 de Julho de 1875 é criado o serviço de correio terrestre entre esta localidade e a vila de Lourenço Marques**, com uma demora de cerca de quarenta dias na ida e retorno e, em Novembro do ano seguinte, cria-se a comarca judicial. Em 1955 foi elevada a capital do Distrito do mesmo nome e, no ano seguinte, é elevada a cidade, através da publicação da Portaria nº 11.594 de 12 de Agosto.

/////////////////////////////////////////////////////////////////

* - Já fichado.
** - A ser fichado.

************************************

Poesia

No passado dia 28 de Abril fui assistir, no Hotel Real Palácio, ao lançamento do livro de poesia Mentes Perversas e outras conversas, da poetisa Ana Paula Lavado (Edium Editores, 2012, 83 págs.), tendo sido alertado para esse facto pelo aviso feito por Deana Barroqueiro no seu blogue, romancista esta que também prefacia o livro em causa.



Ana Paula Lavado

Não sendo um especialista nesta "nobre arte do domínio da palavra"  que é a poesia e não sendo, também, um crítico literário (nem pretensões para tal) tenho a ousadia de dizer que, dentro da minha simplicidade de critérios, gostei de ter lido e relido os poemas. No remanso da minha casa e no silêncio da noite, saboreei a poesia de Ana Paula Lavado e... confesso, soube-me muito bem. Como a excelente chávena de café que fui ingerindo compassada no ritmo da leitura.  Há já algum tempo que não lia poemas com corpo e alma. Com forma e conteúdo.   

Poemas que me souberam ao bom sabor adocicado dum mosto vinícola; que me fizeram fremir ao cheiro de pétalas polinizadas, tal como estes dois que reproduzo (esperando que a Autora - que não conheço - não me criminalize por não lhe pedir autorização).  

Tempo

Já não tenho tempo para frustações
Nem para me torturar com questões
De somenos conveniência.
De ouvir vozes desumanas
Frases feitas de gentes tiranas
Falsos pudores e falsa decência.

De tudo, prefiro ser louca
E deixar que a vida pouca
Me possa tranquilizar a mente.
Até que um dia a sorte
Me leve de encontro à morte
E eu morra serenamente!

///////////////////////////////////////

O Poeta


O poeta é inútil!
Que o seja.
mas enquanto o poeta verseja
vibra a voz a quem declama
nasce em cada nós uma chama
gritam os sentidos a quem sente.
E até o mais céptico descrente
que teima em ser cego e cruel,
sente um arrepio na alma
sente um calafrio na pele.

O poeta é inútil!
Que o seja.
mas que toda a sua inutilidade
me encha e me arda no peito
nela viva e morra de saudade.


E, assim, eis-me que agora decidi ir comprar os outros livros que esta poetisa publicou e que vêm referidos na badana do livro agora publicado. Livro este que recomendo a sua compra.


///////////////////////////////////////////


Como nota negativa (se calhar porque não há bela sem senão), desiludiu-me o local escolhido para efectuar-se o lançamento do livro: no Hotel Real Palácio. Classificado de "cinco estrelas" (a propósito, não vi nenhum porteiro) não tinha, na área da recepção, nenhum placa de publicidade e indicação do lançamento do livro. 


O lançamento do mesmo foi efectuado num saguão onde se concentraram dezenas de pessoas e que apenas tinha duas meias portas abertas, para circulação de ar. Algumas pessoas não conseguiram arranjar lugar no saguão e acabaram por não assistir em directo à cerimónia. Perto do saguão localizam-se zonas de convívio e de bar do hotel, cujos clientes conversavam animadamente, perturbando (inconscientemente) a normal decorrência do evento. 


Para "cinco estrelas" ... eu tinha arranjado um local maior, mais arejado e, de certeza, mais económico. E também no centro de Lisboa. 


******************************************


Leituras


No decurso das guerras nacionalistas que deflagaram em África, nas décadas de 60/70, onde movimentos revolucionários combateram a presença portuguesa na Guiné, em Angola e em Moçambique, a religião também teve o seu papel de rectaguarda nos teatros de guerra.

Atrair para a sua causa as comunidades islâmicas e islamizadas, que tinham maior incidência na Guiné e em Moçambique, foi uma das preocupações dos governantes portugueses. No tocante a Moçambique foi gizado uma estratégia na qual pontilhou Fernando Amaro Monteiro que, quer como operacional dos Serviços de Informações (1965/1970), quer como consultor de diversos governadores-gerais, teve um papel importante no delineamento da estratégia dessa política de aliciamento do Estado Novo.

Moçambique - memória falada do Islão e da guerra (Almedina, 2011, 347 págs.), da autoria de Abdoolkarim Vakil, Fernando Amaro Monteiro e Mário Artur Machaqueiro é um livro que se reporta a uma longa entrevista efectuada a Fernando Amaro Monteiro por Abdoolkarim Vakil e onde o entrevistado desfia as suas memórias sobre a sua envolvência no binómio religião/guerra em que teve parte activa.

Um testemunho privilegiado dum tempo de guerra agora desfiado num tempo de paz. 

/////////////////////////////////

O antigo Estado da Índia Portuguesa continua a alimentar o imaginário dos portugueses, seja em romances seja em registos históricos. História de Goa - de Afonso de Albuquerque a Vassalo e Silva, da autoria de Pedro Avelar (Texto, 2012, 295 págs.) é uma síntese histórica da presença portuguesa naquele território indiano desde que chegaram (1498) até que saíram de lá forçados (1961). Recomenda-se, principalmente para quem não tenha paciência para ler volumes complexos de História.

////////////////////////////////////

No correr da II Guerra Mundial, na Polónia, o oficial de cavalaria Slavomir Rawicz foi preso por forças soviéticas, acusado de espionagem. Julgado (?) acabou condenado a 25 anos de trabalhos forçados num gulague siberiano, mais precisamente o Campo 303.



Slavomir Rawicz


Em Abril de 1941, consegue fugir desse campo, juntamente com outros companheiros e, numa louca odisseia percorre, a pé, 6.500 quilómetros sempre para para sul, na busca incessante da Liberdade. Odisseia essa que o leva (e aos seus companheiros de fuga) a atravessarem os gelos siberianos, o deserto de Gobi, as neves do Tibete cruzando os Himalaias até entrar na Índia Britânica, ponto inicial da sua vida em liberdade. Estava-se, então, em Março de 1942 e, para trás, ficavam o frio, a fome, as roupas andrajosas, as traições, as cobras, as doenças, as... tudo o que se possa imaginar.  




Itinerário da fuga

É o relato desta impressionante viajem que se reporta o romance memorial Rumo à Liberdade, escrito pelo próprio Slavomir Rawicz (Editorial Presença, 2012, 283 págs.) que, felizmente, sobreviveu a todas estas provações e viveu para contá-las.

*******************************

  Filme

Sobre a odisseia da fuga de Slavomir Rawicz (atrás referida) foi realizado o filme Rumo à Liberdade, baseado no livro com o mesmo nome. Produzido por Joni Levin, Peter Weir, Duncan Hendersem e Nigel Sinclair, tem um naipe de actores onde marcam presença Ed Harris, Colin Farrel, Jim Stuirguess, entre outros.



Capa do DVD


Com 130 minutos de duração, encontra-se o mesmo em DVD legendado em português, o que nos permite passar um par de horas a ver excelentes representações de actores consagrados, enquadradas em belos panoramas fotográficos.


************************************************

Música

André Rieu (1949), é um violinista e maestro holandês cujos espectáculos atingem a quase perfeição e dos quais eu sou um apaixonado, não porque tenha assistido a algum (infelizmente), mas por visionamentos de DVD´s que tenho adquirido. Percorrendo o mundo com a sua orquestra, toca todo o tipo de música popular dos países que atravessa.



André Rieu - Amazing Grace

Considerado um genuíno embaixador da música clássica, um apaixonado pelas valsas, os seus  espectáculos têm feito mais para atrair multidões para apreciarem este tipo de música do que todas as palestras, livros, filmes, mesas redondas ou o que quer que seja em conjunto.



André Rieu - "The beautiful blue Danube" 

Vale a pena assistir a um concerto seu ou, em alternativa, ver DVD´s que reproduzem por completo os seus espectáculos, dos quais não tenho preferência por nenhum em especial, por serem todos excepcionais.

**************************************************

Frases de quem fez História

"O dinheiro não tem cheiro." - Tito Flávio Vespasiano (9-79 DC), Imperador Romano.

"Os cobardes agonizam perante a morte, os valentes nem se dão conta dela." - Caio Júio César (100-44 AC), Imperador romano.

"Eu não tenho ódio senão aos erros e não tenho amor senão à verdade." - Garcia da Horta (1501-1568), Médico, Botânico e Farmacólogo.
**************************************************

Seja amigo do ambiente. Utilize os textos do Novo Acordo Ortográfico como papel higiénico.

As referências aos produtos acima referidos (livros, filmes, músicas, etc.) são incompatíveis com intuitos publicitários ou comerciais. Reflectem, apenas, a opinião do Autor.

Todas as fotografias do presente texto foram colhidas do Google Imagens e os vídeos do Youtube.


****************************************


terça-feira, 13 de março de 2012

Bartolomeu Dias

Viajantes, aventureiros e exploradores


Bartolomeu Dias - (?/Atlântico Sul, 1500) - Navegador. Sendo desconhecida a sua data e local de nascimento, sabe-se que o mesmo era escudeiro real. A existência de vários homónimos seus contemporâneos obrigou eméritos historiadores a destrinçarem os factos que, historicamente, se podem atribuir sem dúvidas a este navegador.

A real política joanina da época centrava-se num objectivo: o atingimento da Índia contornando a costa do continente africano, pelos mares do Sul e, em simultâneo, a recolha de informes sobre a terra das especiarias, pelos caminhos do Oriente.

Se para Oriente foram enviados uns quantos espiões, nos quais se elevou o grande Pêro da Covilhã, "primus inter pares"; já para os mares meridionais, depois de sistematizadas as navegações, avultou a figura de Bartolomeu Dias que viria da dobrar o baptizado Cabo das Tormentas e rebaptizado Cabo da Boa Esperança.

Feito Capitão-Mor, por nomeação real, Bartolomeu Dias lidera uma expedição marítima de três navios que, em Agosto de 1487 sai de Lisboa rumando para o Sul da costa africana. Das três caravelas, comanda directamente uma, sendo as outras entregues ao seu irmão Diogo Dias e a João Infante. Tendo atingido a Serra Parda, onde findara o descobrimento anterior de Diogo Cão, navega à vista da linha da costa,  até atingir o Cabo das Voltas, em data incerta e, logo de seguida, a Angra das Voltas, assim apelidada pelo constante bolinar das naus, ou seja "pelas muitas voltas em que então ali andaram" (João de Barros, Ásia"); 

Deixando um dos três navios com alguns tripulantes, liderados pelo seu irmão Diogo Dias, na costa namibiana a fim destes tratarem de se reabastecerem de provisões que melhor aconchegassem os restantes aquando do seu regresso segue sempre na derrota para Sul acompanhado pelo navio capitaneado por João Infante.

A 26 de Dezembro atinge o Golfo de Santo Estevão; na dobragem do novo ano avista a Terra de São Silvestre e seis dias após o nascimento do novo ano atinge a serra dos Reis; após o que apanha ventos suestes que obrigam ao abandono da navegação à vista da costa durante dias, sempre para sul. Quando atinge a latitude dos ventos Oeste (35º a 40º Sul) e apanhando mares "já muito frios" (João de Barros, "Ásia") os navegantes flectem para Leste e, perante a ausência de terra que não logravam ver, Bartolomeu Dias ruma para Norte. Tinha ultrapassado o extremo meridional africano e rumavam agora no Oceano Índico, até que lograram avistar costa, a Angra de São Braz, a 03 de Fevereiro de 1488 e aguam na angra dos Vaqueiros. Prosseguindo a viagem na rota índica aporta na zona do rio Infante (Great Fish River), assim apelidado por ter sido o navio capitaneado por João Infante o primeiro a tê-lo atingido.

Acabando por ceder às pretensões de grande parte da sua tripulação que, cansada da viagem e com parcos meios para navegarem em mares desconhecidos, requer o regresso ao Reino. Efectua a torna-viagem, explorando agora os cabos das Agulhas e das Tormentas, acabando por chegar à barra de Lisboa num incerto dia de Dezembro de 1488.

Esta decisão de regressar ao Reino acabará por lhe cercear, no futuro, a nomeação para liderar outras viagens exploratórias, pois Dom João II não lhe perdoará a tibieza com que defrontou o motim da tripulação. O monarca tivera a percepção que se perdera ali, nas costa meridionais índicas, a rara ocasião de se ter antecipado o relógio da História. Um dos factos desta amargura real prende-se com o facto de, por exemplo, Bartolomeu Dias não ter sido feito nobre, contrariamente a que sucedera com Diogo Cão.

Na sucessão real, o novo Rei (D.Manuel I) acompanhará o pensar do seu antecessor e Bartolomeu Dias não é escolhido para liderar ou mesmo participar na armada que rasgará o véu do desconhecimento dos mares índicos; sendo o comando da mesma entregue a Vasco da Gama.

Após ter cumprido a viagem da sua vida, continua ligado à marinha sem grandes aparatos, para além de ter exercido o cargo de recebedor do Armazém da Guiné, entre 1494 e 1497 até que, em 1500, capitaneando uma nau integrada na Armada de Pedro Álvares Cabral, após o achamento do Brasil, Bartolomeu Dias cumpre a viagem da sua morte ao acompanhar o destino do seu navio num naufrágio que os apanha no Atlântico Sul.  

Postumamente o Rei D. Manuel I, a 02 de Julho de 1501, publica um alvará no qual, atendendo ao facto de ter morrido ao serviço da Coroa e, sem sequer aludir à sua descoberta da dobragem do Cabo da Boa Esperança, perdoa-lhe algumas verbas que estaria em dívida quando exercera o cargo de recebedor do Armazém da Guiné (que exerceu entre 1494 e 1497), dizendo: "... a quantos esta nossa carta de quitação virem, fazemos saber que pela arrecadação da conta que foi tomada a Bartolomeu Dias, escudeiro da nossa Casa e recebedor que foi do Armazém da Guiné nos anos de 1494, 1495, 1496 e parte do ano de 1497 se mostra receber de dinheiro doze contos novecentos e noventa e dois mil e dois reais, e muitas artilharias, pólvora, navios, cordoalha, enxárcia, velas, mastros, vergas e outras muitas coisas necessárias para despesas e maneio da dita casa, as quais aqui se não declaram para escusar larga leitura; do qual dinheiro e coisas, posto que pelo encerramento da dita arrecadação se mostre algumas delas ficar devendo a nós, por o dito Bartolomeu Dias falecer em nosso serviço na viagem da Índia, onde o enviámos

Na magnanimidade real prevalecera a sua morte em serviço, em detrimento do feito maior que fora a dobragem do Cabo Tormentoso.

Historiando Moçambique Colonial

Paiva de Andrada - (Lisboa, 1846 - Paris, 1928 - Joaquim Carlos Paiva de Andrada) - Explorador e Oficial do Exército Português (Coronel). Explorador de grande mérito é considerado, à escala lusitana, o "Cecil Rhodes português". Tendo concluído o curso de Oficial de Artilharia em 1867 é nomeado, dez anos mais tarde, adido militar em Paris, tendo assistido à guerra franco-prussiana. No ano seguinte (1878) cria a Sociedade dos Fundadores da Companhia Geral do Zambeze e obtém, nesse mesmo ano, do Governo português, os direitos de prospecção para uma vasta área que abarcava, na época actual, Manica e Sofala, parte do Zimbabué, do Malawi e também da Zâmbia. Tentando seduzir capitais franceses, Paiva de Andrada percorre grande parte desses territórios com técnicos mineiros daquele País (França), mas os relatórios destes são desfavoráveis.

Em Manica associa-se a Manuel António de Sousa, outro predador de almas e terras, verdadeiro senhor da guerra e prazeiro tipicamente feudal. Esta sociedade será frutuosa para os dois e, só no embate que travarão com as pretensões de Cecil Rhodes, é que serão derrotados. Andarilho incansável, percorreu as terras de Manica, Sofala e as do Reino de Gaza, sempre na busca de minas auríferas. Entre finais de 1884 e Fevereiro de 1885 percorre Manica, estabelecendo contactos com régulos e avassalando-os.

No biénio 1886/87, por questões relacionadas com as minas da zona de Manica, desloca-se à corte de Gungunhana pelo que, partindo de Chiloane dirigiu-se à corte deste potentado, atravessando o rio Gorongosa, após o que regressou a Sofala pelo vale do Búzi; de Sofala dirigiu-se ao rio Pungoé, subindo este até Mucaca, segundo depois para Vila Gouveia, donde marchou pelo Barué para o vale do Luenha.
No biénio 1888/89, com o fim de avassalar régulos, parte de Neves Ferreira, segue pelo rio Pungoé até Mucaca e, daqui, segue por Doere, Gomani, Chimoio e Manica; indo depois ao regulado de Mutassa, donde regressou a Vila Gouveia por Chimoio. Depois dum curto repouso segue para o Luenha e interna-se, de seguida, nas terras da Machonalândia (actual Zimbabué).

É um dos pais da feitoria da Beira, estudou a bacia do rio Save bem como a navegabilidade do rio Pungoé, navegabilidade esta que já analisara em 1883, numa expedição que efectuara juntamente com Gorjão de Moura.  Para além de todas esta actividade ainda criou companhias majestáticas, financiadas com capital estrangeiro como, por exemplo, a Companhia de Moçambique, para melhor servir a penetração e consolidação portuguesa nas terras do centro de Moçambique.

Em Outubro de 1890, a disputa de interesses económicos que incidiam sobre a região de Manica fá-lo-ão entrar em rota de colisão com as forças militarizadas de Cecil  Rhodes, a British South Africa Company (BSAC). E é neste contexto que Paiva de Andrada, juntamente com Manuel António de Sousa e João de Resende, sendo este último o representante da Companhia de Moçambique em Manica, acaba preso pelas forças da BSAC, facto este que ocorre a 15 do mês seguinte. Levado para a Cidade do Cabo, acabou por ser libertado, depois dos protestos diplomáticos do Governo português, junto de Londres.

Retirou-se da vida activa em 1907, tendo sido um dos principais percursores da entrada do capitalismo em Moçambique. Durante cerca de duas décadas palmilhou todo o centro e centro sul de Moçambique, um peregrinar pedestre de milhares de quilómetros por entre selvas, pântanos, rios, gentios inimigos, moscas de sono e febres palustres. A sua visão de implementação de companhias majestáticas estava adiantada para a época, ainda muito agarrada, em termos económicos ao sistema feudalizante dos prazos. O surgimento das companhias majestáticas ajudou a partir a resistência armada que muitos senhores de prazos, puros barões feudais, que persistiam na manutenção dum sistema económico feudal, assente na guerra como forma única de satisfazer as suas necessidades básicas. Para todos os efeitos a História veio-lhe dar razão.

Reino/Distrito de Manica - O Reino de Manica remonta ao início do século XVI e ter-se-á criado por fragmentação do Reino do Monomotapa. O seu Rei tinha o título de "Chicanga" e a riqueza mineira do território, aliado à amenidade do clima e abundância de água permitiu a criação de um Estado rico. Por outro lado os manicas dominavam rotas de comércio do ouro entre o interior e os portos marítimos.

Em 1575 Vasco Fernandes Homem atravessou este território, para atingir o Reino do Monomotapa, tendo sido bem acolhido pelos manicas. Foi celebrado um tratado entre os portugueses e o Chicanga, comprometendo-se este a facilitar a actividade mercantil dos portugueses em troca duma pensão anual paga em géneros. Dispondo de um bom dispositivo militar, cerca de 5.000 guerreiros, não é pacífica a teoria se o Reino era ou não avassalado ao Monomotapa.

No decurso do século XVII os chicangas começam a proibir a exploração das minas, devido à ganância dos portugueses e também devido à secagem das ditas minas. Por volta de 1630 recusam pagar qualquer tributo aos monomotapas e apoiam Capararidze, um Monomotapa deposto. O Monomotapa reinante, auxiliado pelos portugueses, derrota e mata o Chicanga, substituindo-o por um irmão, dócil às suas pretensões. O novo Chicanga reabre as minas à exploração e avassala-se ao Monomotapa. Fruto disso surge um incremento de novas feiras, sendo a principal a de Chuambo, perto de Macequece. Em 1673 o Chicanga auxilia o Monomotapa a liquidar alguns portugueses mais gananciosos na sua área.

Apesar disso, em 1719, João de Távora Sampaio reabre a feira de Manica e, ao longo do século XVIII, o relacionamento entre os portugueses e os chicangas foi muito instável. Tinha por base a tentativa dos chicangas controlarem a produção do ouro, no seu Reino, lançando e criando aleatoriamente sucessivos impostos, o que veio a esfriar o relacionamento com os portugueses. Os tributos tinham que ser devidos para pagar travessias, investiduras, recepções, resolução de conflitos e eram direcionados para vários elementos do poder, o que aumentava a carga fiscal. O Reino de Manica avassala-se ao Reino de Changamire e, no final deste século XVIII, entrou em guerra civil, por alteração do ramo dinástico. É nesta fase que se dá a expansão do Reino para o planalto de Inhanga, que se processou até aos princípios do século XIX.

No início deste século continuavam avassalados ao Reino do Changamire. Em 1830 e no seguimento dessa década, a região é assolada por invasões angunes, tendo a própria feira de Manica sido arrasada em 1836. Em 1874 o Reino é de novo invadido por povos do interior pelo que o Rei, que entretanto alterara o título dinástico de Chicanga para Mutassa, pede auxílio a Muzila, do Reino de Gaza. Mas as impis (1) deste acabam derrotadas, pelo que se socorreu a Manuel António de Sousa, tendo os achikundas (2) deste prazeiro debelado o perigo. Devido a isso o Mutassa enviou-lhe uma "ponta da terra", em sinal de submissão. Após a morte deste prazeiro, em 1892, a região sudoeste do território foi anexada pelos reis Lobengula (Rei da Matabelândia e da Machonalândia (3)e Muizilicati (Rei da Matabelândia) e a restante parte do território ficou sob a alçada da Companhia de Moçambique, terminando a existência deste Reino.

O território de Manica está, indelevelmente, ligado àquela companhia majestática mas, ainda mais, ao seu mentor, que foi Paiva de Andrada, que a percorreu em todos os sentidos. Em 1882 Paiva de Andrada elaborou um relatório que entregou na Sociedade de Geografia de Lisboa, onde alertava para que se modificasse o sistema de administração política do território, tendo como princípio basilar a ocupação real e efectiva do mesmo, explicando o quão ténue era a soberania lusitana no centro do território moçambicano. Apoiada nas referências do relatório de Paiva de Andrada, a Sociedade de Geografia de Lisboa propôs ao Governo de Lisboa que fosse criado um comando militar que abrangesse a região de Manica, subordinando-se a mesma a um comando de sessenta soldados e oficialato europeus. Em 14 de Junho de 1884 publicou-se o Decreto que criou o Distrito de Manica, com sede na antiga vila com o mesmo nome. Sobre este território Paiva de Andrada escreveu uma curta memória descritiva, em 1890, e que reza o seguinte:

"Dá-se hoje o nome de Manica tanto ao antigo reino deste nome como ao vasto território que compreende tudo aquilo e que é limitado ao norte pelo rio Zambeze, o qual, por um decreto com força de lei do a no de 1884, constitui desde então um dos actuais dez distritos da província de Moçambique. É só da relativamente pequena terra do reino de Manica, ou de Manica propriamente dita, que me ocupo. O reino de Manica confina ao norte com o antigo reino do Barué e a terra de Unhama, sendo separado do primeiro pelo curso do rio Arângua, que mais próximo da costa toma o nome de Pungoé, ao noroeste e oeste com a grande terra Manhungue, sendo dela em parte separado pelo curso do rio Odzi; a oeste e a sudoeste com a terra Bocha, também separada de Manica pelo rio Odzi; pelo sul e sueste até à margem do rio Revué, com as terras Djingue e Vumba; e finalmente com a terra de Ganda, que compreende todo o território a leste de Manica, situado entre os rios Revué e Pungoé. Direi algumas palavras com respeito aos chefes de todas estas terras do distrito de Manica. O antigo reino do Barué é hoje propriedade particular de dois filhos de Manuel António de Sousa, que há muitos a nos estão a educar em Lisboa por conta do Estado, na Escola Académica, e são netos do velho Mocambo, falecido régulo, que solenemente determinou em vida que o seu reino passasse à propriedade destes seus dois netos. Unhama, que é separado do Barué pelo rio Caurese, afluente do Luenha, tem por chefe o régulo Saunhama, que mais deve ser considerado um Inhacuana ou muanamambo (autoridade) de um prazo da coroa, do que como um régulo. A grande terra de Manhungue, que se estende muito para o norte do território compreendido entre os rios Luenha e seu afluente Mazoé, que limita ao oeste com o rio Mucheque, e que mais para o sul se estende ao longo do Save entre este rio e o rio Odzi até ao limite da terra Bocha, tem como régulo um dos pretos mais inteligentes, mais simpáticos e mais dedicados ao Rei de Portugal que eu conheço; infelizmente é muito velho. É o nosso bem conhecido e sempre leal régulo Macone. Quando pequeno, esteve por bastante tempo na vila de Sena, e tem pelos brancos portugueses como que adoração. Pouco depois de eu e o Manuel António de Sousa termos chegado a Manica, tive notícias de que as manifestações de regozijo na povoação de Macone, quando souberam que estávamos próximos, foram comoventes, e que o régulo declarara que, se o rei de Portugal quisesse entregar a sua terra aos ingleses, ele com toda a sua gente abandonaria esta terra e iria para algum terreno que continuasse a ser verdadeiramente português. Este régulo tem numerosas forças muito aguerridas. As terras Bocha, Djungue e Vumba têm respectivamente como régulos Marangue, Zimunha e Chirara, todos régulos mais pequenos sujeitos a Gungunhana, e que desde a estadia de João de Resende em Manica, mantinham como ele frequentes relações. Ganda é ao mesmo tempo nome da terra e nome da butaca do régulo. É a terra de Quiteve, que já fica mais próxima da costa, fosse um prazo da Coroa. É na terra de Ganda que está a povoação de Chimoio, que tenho citado e é meu particular amigo. Tenho dito em que terras do reino de Manica está encravado. Com relação à sua geografia física e hidrográfica direi que a área deste pequeno território está situada na bacia hidrográfica dos três grandes rios, Pungoé ao norte, Búzi ao centro e leste e Save no sul e sueste. Com relação à bacia dos dois últimos grandes rios, podemos restringir a designação hidrográfica, dizendo, em substituição do que acabo de escrever, que o território de Manica está situado nas bacias dos rios Pungoé, Revué (que é um afluente do Búzi) e Odzi (afluente do Save). O território de Manica é todo muito montanhoso; vindo da costa pelo caminho que indiquei, entra-se nele subindo pelo vale do rio Revué. É na margem esquerda deste rio que estava a antiga vila, feira ou chuambo de Macequece, em ruínas há muitos anos, e que João Resende escolheu em 1888 para sede da Companhia de Moçambique, dando pouco depois à nova povoação ou chuambo o nome de Andrada, continuando a parte da terra de Manica em que a povoação está construída a ter o nome de Macequece. O vale do Revué terá aí dois quilómetros de largura, serpenteando nele o leiro actual do rio; vastas serranias cortadas em parte por importantes afluentes do Revué se elevam dum e doutro lado, separando, as que ficam da margem esquerda, a bacia do Revué da do Pungoé, e as da margem direita, a daquele rio da do rio Odzi. A povoação de Andrada está no vale, mas num pequeno "plateau" suficientemente elevado sobre o leito do rio; de sobre este terraço, a vista do nobre vale comas enormes serras ao norte e sul é realmente encantadora. A montante de Andrada, o vale do rio começa a estreitar-se; as serras de um e outro lado a aproximarem-se, encaixando-se mais o rio, que a uns vinte quilómetros já vai apertado entre elas, correndo em muitas cascatas aí e desde a sua origem, onde as duas linhas de serras já estão unidas; mais para norte e oeste das origens do Revué, tendo desaparecido a bacia central, o grande maciço de serras tem, para um lado, vertentes para o Odzi. Tendo na minha primeira viagem a Manica feito caminho pelo Barué e atravessado o Pungoé muito em cima e em altura onde a divisória das águas deste rio e do Revué tem mais de quatro mil pés, supus durante muito tempo que a bacia do Revué era um verdadeiro "cul de sac" e que não poderia ser aproveitada como via de grande penetração para o interior. Há três anos tive razões para supor o contrário e desde então repetidas vezes tenho minuciosamnte informado a Direcção Geral do Ultramar sobre o assunto, tratando da enorme importância económica que deve vir a ter o caminho de ferro, a que desde o princípio dei nas minhas comunicações o nome de caminho de ferro de Sanhate. Num dos ofícios que estão em viagem para Lisboa, dou detidas informações acerca de Andrada, descrevendo edifícios, citando dimensões, para demonstrar como é bem manifesta na localidade a efectividade de uma sólida ocupação. Por curiosidade histórica, João de Resende levantou, no ano de 1888, as muralhas do nosso antigo forte, e dentro dele fez muitas construções, incluindo a grande casa de alvenaria em que ele mora e estão os escritórios da companhia; fora do forte, há também casas de alvenaria e muitas construções de madeira onde moram empregados europeus, outras para hospedar mineiros e mais pessoal que por ali passa constantemente, e alijamentos para numerosos pretos de serviço. Entre as ruínas das casas do antigo chuambo há muitas que mostram ainda claramente todas as repartições interiores. Na maior parte, estas ruínas são de casas de que se sabe quem eram os antigos donos. Uma delas era de um tio e sogro de Manuel António de Sousa; e ainda vive em Macequece um preto, bem velho, falando correntemente português, que foi criado do falecido parente de Manuel António de Sousa e que habitou na casa a que me refiro. Também por curiosidade histórica, Manuel António de Sousa resolveu mandar levantar uma nova casa, exactamente no lugar e com as repartições que a antiga tinha, e para este fim já se tinha começado a limpar do mato e ervas o local das ruínas. A uns cinco quilómetros a montante de Andrada e do lado da mesma margem, tem o Revué um importante afluente chamado Chua, que se despenha de um "plateau" elevado e cujo curso depois se desenvolve  num largo vale que parece todo rodeado de enormes montanhas. Aí trabalham mais de vinte mineiros e operários portugueses, espanhóis e franceses, empregados todos da Companhia de Moçambique. As barracas, algumas em forma de bonitos "chalets", em que estes empregados da Companhia vivem, espalhadas pelas encostas dos montes, tinham uma aparência muito pitoresca, e a todos revelavam um centro de actividade de gente branca. Em todos os países, o tipo geral das construções dependo do material que para elas mais facilmente pode ser empregado. Os ingleses do Cabo e do Natal, que não têm o flagelo da mosca tsé-tsé, e podem fazer os seus transportes em carros, e que além disso, como no horroroso país em roda de Kimberley e em torno de grandes centros de actividade do Transval, não têm arvoredo, utilizam, como material mais económico e de mais fácil emprego, a folha de ferro ondulada para fazerem as suas habitações. À cabeça de carregadores e por entre o mato não é possível transportar grandes folhas de ferro, pesadas e flexíveis; por outro lado temos abundância de madeira; portanto, as nossas primeiras habitações, correspondentes às abafadoras barracas de folha inglesa, são de madeira e palha, aliás muito melhor abrigo contra o calor; mas esta diferença justificada do sistema de construção é frequente objecto de crítica e de censuras contra nós. Direi, como curiosidade, que o Dr. Jameson (4), portador das minhas recomendações, hospedado pela Companhia de Moçambique, o melhor que foi possível na estação Sarmento, numa barraca rectangular com duas repartições, asseada, e de confortável abrigo, quando deitado e lendo os jornais, teve a contrariedade de deitar fogo a esta barraca, comunicando-se o incêndio a todas as construções da Companhia de Moçambique que ali havia, do lado para onde soprava o vento. Quando soube da notícia, compreendi o aborrecimento que o doutro deveria de ter tido; mas não me deixei de ressentir um pouco, quando mais tarde, por acaso, encontrei publicada num jornal da África do Sul uma crítica desfavorável acerca da aparência caquética do chefe da secção de Sarmento, e da natureza inflamável das casas desta estação. Continuando nas informações acerca do Revué direi ainda que mais acima, quando o rio já está encaixado entre montanhas próximas, há a povoação de Mogudo, parente do Mutaça, chefe desta região, e o antigo e constante emissário do régulo nas suas relações com o comandante militar de Sena e capitão-mor de Manica. Nesta bacia do Revué há poucas povoações indígenas. Nas vertentes do Pungoé ou na região norte de Manica, o país ainda é mais deserto. Nos rios desta vertente, designados nos documentos antigos como sendo muito auríferos, tinha agora a Companhia de Moçambique alguns pesquisadores. Toda a linha divisória de águas entre as vertentes do Pungoé e as do Revué, dentro de Manica, tem uma grande cota, formando as serras entre os dois rios por toda a parte uma barraca que é muito difícil de transpor. Assim é claro que, salvo despesas excessivas com aberturas de túneis, ou construção de linhas funiculares, seria impossível fazer seguir um caminho de ferro como está marcado em projecto no mapa da província de Moçambique, vindo da costa pelo vale do Pungoé para, depois de já ter entrado em Manica, passar para o Revué; e o mesmo se daria se pretendêssemos que o caminho que efectivamente se há-de construir, da margem do Pungoé, atravessando no Quiteve, mais próximo da costa, e enquanto a divisória tem pequena cota, para a bacia do Revué, de entrando em Manica pelo vale deste rio, continuasse para o interior, passando nessa altura para o vale do Pungoé. Por este lado, pois, a penetração é quase impossível. A terceira grande bacia hidrográfica em que está situado o território de Manica é, como disse, a de Saveo, ou mais restritamente a do Odzi; este rio serve, do lado poente, de limite ao reino de Manica, e portanto todo o terreno a que me refiro está nas vertentes, ou directamente do rio principal, ou dos numerosos afluentes da sua margem esquerda. Para simplificar, citarei, a partir de jusante para montante, apenas, e por motivos especiais, três desses afluentes que não são geograficamente os mais importantes: o Sucura, o Mutare, que alguns ingleses nas suas correspondências designam pelo nome de Untáli, e o Zonzoro. Podemos teoricamente considerar estes três rios paralelos, indo sucessivamente confluir em três pontos da margem esquerda do Odzi, sendo os restantes vales, bem como os dos outros afluentes intermédios não mencionados, separados uns dos outros por grandes esporões muito elevados, junto das terras divisórias do Revué e do Odzi, das quais destacam, e que vão diminuindo de cota e desaparecendo à proporção que se aproximam do vale do último destes rios. Os dois primeiros citados afluentes nascem nas serras que separam a bacia do Revué do Odzi, o terceiro nasce mais a oeste, e quando o Revué já tem acabado, no grande maciço que separa o Odzi do Pungoé. As enormes serras que separam o Revué do Odzi são, tanto numa como noutra vertente, profundamente entalhadas por numerosos rios, entre os quais estão os três citados, por cujos vales se pode subir até atingir diversos colos ou gargantas onde, com mais ou menos facilidade, se passa duma para outra bacia hidrográfica. É nas vertentes do Odzi e seus afluentes que está a maior parte da população indígena de Manica; no Mutare e numa relativamente pequena área, que todos os pesquisadores declaram não ter na Califórnia, na Austrália ou em qualquer parte do mundo, rival em abundância e riqueza de filões auríferos, é que desde 1888 têm sido feitas as principais descobertas de filões, e é ali que estão, ou pelo menos estavam, muitos empregados da Companhia de Moçambique e a maior parte dos representantes e pesquisadores das empresas arrendatárias que têm pessoal em Manica. A aringa (5) do régulo Mutassa está situada na bacia hidrográfica de Odzi junto à margem do rio Zonzoro e portanto mais a oeste do que todos os outros lugares de que tenjho falado, o que explica como agentes da "British South Africa Company", vindo do interior e tendo atravessado o Odzi, chegaram à aringa do régulo sem que, nem no Mutare, nem no Chua, nem em Macequece ou em Andrada, o ponto que fica mais a leste, por alguns dias houvesse conhecimento da sua chegada. Parece-me que quem ler esta breve descrição que tenho feito poderá facilmente traçar um esboço, mostrando a posição relativa das diferentes localidades cujos nomes são frequentemente citados."

Após a independência de Moçambique os limites geográficos de Manica mantiveram-se inalterados mas, de Distrito, passou a Província.
(1) - Regimento, coluna militar; o mesmo que "manga".
(2) - Termo que definia o escravo guerreiro que, na Zambézia, servia militarmente o seu amo, o prazeiro (senhor dos prazos). O termo achikunda é uma forma aportuguesada do verbo chona-caranga "kukunda", que significa "vencer". Os achikundas teriam tido a sua génese por volta de meados do século XVII, sendo recrutados de diversos povos. O conjunto destes escravos armados, com funções militares, policiais, guarda-costas e também de caçadores, formavam os exércitos privados dos senhores dos prazos, chegando a atingir a casa dos milhares, nalguns casos. Pertenciam à elite dos escravos e não podiam ser vendidos. Era-lhes permitido escravizar elementos das populações vencidas nas suas incursões e mantê-los como sua propriedade. Só tinham funções de guerra mas, no correr dos tempos, com o decréscimo populacional devido a guerras, doenças, fome e o crescimento desmesurado do tráfico de escravos, levou muitos prazeiros a vendê-los pondo fim, deste modo, a uma tradição secular o que provocou, no decorrer do século XIX, diversas revoltas destes achikundas contra os seus donos. Com o advento do capitalismo e a lenta abolição do comércio esclavagista e um melhor domínio administrativo do poder colonial, os achikundas evoluíram para os sipaios.
(3) - Territórios integrados na actual República do Zimbabué.
(4) - Refere-se a Leandar Jameson, braço direito de Cecil John Rhodes (este já biografado em 31/12/2011), sendo ambos inimigos acérrimos dos portugueses.
(5) - Aldeia fortificada, de raiz zambeziana, cuja concepção poderá ter sido desenvolvida a partir da ideia dos musitus, mas em escala maior e com outros tipos de materiais, situadas juntos de cursos de águas ou estradas importantes, tendo funções quer defensivas quer ofensivas. Muralhadas a troncos de árvores entrelaçadas, ou pedras, com seteiras, podendo-se ainda levantar paliçadas e, por vezes, separadas por valas, estes recintos bem fortificados tinham, no seu interior, para além da casa do prazeiro e do seu pessoal, bem como do gado, todo o tipo de casas oficinais necessárias à manutenção da cidadela. Correspondia, no Sul, ao kraal ou aos cocolenes.


Leituras



Sobre Bartolomeu Dias e a sua época aponto dois bons romances históricos, cuja aquisição e leitura recomendo, a saber:

Registo o agrado que me proporcionou a leitura do romance histórico "Levante, 1487 - a vã glória de João Álvares", de José Maria Pimentel (Edição do Autor, 2010, 444 págs.) que se reporta à viagem em que, pela primeira vez, navios lusos liderados por Bartolomeu Dias, mergulharam as quilhas dos seus navios em dois oceanos: o Atlântico e o Índico.

Transcrevo aqui o esclarecedor conteúdo da contra-capa do livro: "Acontece na costa desértica do Namib. Três naus do Rei João de Portugal (duas caravelas e uma urca) lançam ferro num lugar já conhecido de antes como Angra do Salto. A escala leva apenas o tempo necessário para o transbordo de todos os mantimentos para as caravelas, que abalam logo depois para a descoberta mais ansiada do Rei - a passagem para o mar das Índias, pelo sul do grande continente africano.
Na Angra do Salto fica a esvaziada urca dos mantimentos. Fica também o capitão Diogo Dias, com o encargo de a aprovisionar com água e mantimentos até ao glorioso regresso das caravelas do seu irmão - o capitão-mor Bartolomeu Dias.
João Álvares é o mestre da urca, competente, com origem nobre, dotes de bravura e um mesquinho azedume contra os caminhos da política no Reino. Com ele, são nove os marinheiros que, durante nove longos meses, comungam na inóspita angra com os Kwepes locais desígnios inimagináveis. Chegam as caravelas do cabo e recolhem os sobreviventes e os sinais do drama, e transportam-nos até ao poderoso rio do grande Reino do Kongo, onde se consuma a missão do Rei João e se sepultam segredos."

Baseado em factos históricos que aconteceram, suportado por uma boa bibliografia, dotado dum interessante glossário alfabético para os leitores menos avindos a termos de antanho e narrado na primeira pessoa de seis dos participantes desta viagem que partilham, no meio de muitos outros camaradas da aventura, o exíguo espaço das embarcações, a escrita torna-se de tal modo cativante e galopante, que o livro se transforma numa máquina do tempo e nos leva aos idos de 1487 e, de leitor, nos tansforma num qualquer anónimo marujo ali presente.

***************

O outro romance histórico sobre Bartolomeu Dias que, há muito, me prendeu trata-se de "O navegador da passagem - a história de um descobridor de mundos que o Mundo ignorou" , da autoria de Deana Barroqueiro (Porto Editora, 2008, 437 págs.). A minha paixão pela escrita de Deana Barroqueiro não me tolda a mente nem me desfoca o sentir lúdico que tenho pelos pontilhados da ponta da sua pena. 

"O navegador da passagem" é o romance de um homem amargurado, que se sente injustiçado por, ao ter aberto as portas da estrada aquática da canela, do cravinho e do colorau (mas não tendo franqueado as mesmas) foi forçado a deixar que outros depois de si as passassem e, à premonição da chegada do seu fim, anunciado num cometa quando ia de navegação no Atlântico Sul, revê a sua vida, no muito que deu e no pouco que recebeu.

Deana Barroqueiro, consagrada capitã-mor desta imaginária jornada quinhentista, leva-nos a viajar  pelas cortes joanina e manuelina, puros viveiros de intrigas, maledicências e traições, onde tudo era válido pela benesse da proximidade do poder, traçando-nos os perfis de Dom João II e de Dom Manuel I , férreo o primeiro e sortudo o segundo, para além de nos fazer embarcar em naus claustrofóbicas, pútridas e sobrelotadas de anónimos miseráveis que pouco se apercebiam do gigantismo que estavam a construir, naus carregadas de febres, viscosidades e doenças mas, onde no meio deste pantanal de madeirame, era capaz de florir o amor ficcionado da escrava Leonor pelo seu amo.

Bem documentado, pelo que se pode observar pela bibliografia consultada, bem estruturado na sequência narrativa dos factos, e bem encorpado numa linguagem escrita que, atirando-nos por vezes para as expressões da época, torna-se clara quando enquadrada no todo do texto, é mais um livro que lustra as letras portuguesas. Aqui e em qualquer parte do mundo. Por isso, sem complexos e com o à vontade de quem nunca se cruzou com a Autora posso, camonianamente, dizer: "Ditosa Cultura que tal escritora tem". 

Poesia


Ao ler a paixão romanceada da escrava Leonor por Bartolomeu Dias, veio-me à memória uma personalidade que tive a felicidade de conhecer e que que me honrou fazendo o favor de ter sido meu amigo, conselheiro e, acima de tudo, meu Mestre.

Refiro-me ao Professor Fernando de Macedo, poeta e dramaturgo que, infelizmente para mim e para muitos, já partiu para a Grande Grande Viagem. Conheci-o num jantar de aniversário de Umbelina Gil,  cantor da ilha do Príncipe.
Oriundo de São Tomé, neto do último Rei angolar daquela ilha, intelectual de craveira, Professor Universitário (jubilado quando o conheci), resistente à Ditadura e "compagnon de route" de muitos que ousaram dizer "não" a quem não nos queria deixar dizer "não" e que, depois, inicia um longo e lento caminho para o conservadorismo e a redescoberta do cristianismo, deixou em mim, apesar de muitas saudáveis divergências, uma saudade imensa. 

Mas deixou-nos os seus escritos, parte dos quais eu tive o sublime prazer de os dactilografar em primeira mão.  Dum conjunto de poemas inspirados na leitura do livro "História Trágico-Marítima" (anotada por António Sérgio, Editorial Sul, Lda.) a que ele titulou de "Mar e Mágoa" (Edição do Autor, São Tomé, 1994, 99 págs.) retiro e transcrevo dois poemas, titulados de "Leonor, Leonor" e "O lamento da escrava", poemas estes que me foram trazidos à memória pelo leitura dos amores da escrava Leonor no livro de Deana Barroqueiro, acima referido.


Leonor, Leonor
Descalça ondulante
alva e nua
ancas d´arremesso d´ondas
areias pisando ardente.
Ah! Leonor
Olhos d´Eden perdido
seios renegando angústia
passo lento
sem destino apetecido.
Oh! Leonor
Em sensual tristeza
d´abandonado desejo
chão abraça em desespero
como se ela a natureza.
Leonor, Leonor!
Poema baseado no seguinte texto: "E vendo-se D. Leonor despida, lançou-se logo ao chão e cobriu-se toda com seus cabelos que eram muito compridos, fazendo uma cova na areia, onde se meteu até à cintura sem mais se erguer dali. Manuel de Sousa foi então a uma velha sua aia, que lhe ficara ainda uma mantilha rota, lha pediu para cobrir D. Leonor, e lha deu; mas contudo nunca mais se quiz erguer daquele lugar onde se deixou cair quando se viu nua." - História Trágico-Marítima; Perda do Galeão Grande São João; Pág. 35, Volume 1. 
O lamento da escrava
De mim, tens memória, senhor?
Sou quem ao fogo
te refugou peixe seco
e à noite te dava amor.
Sou aquela que escolheste
percorrendo a sanzala
(esta não, aquela sim)
fui eu a que recebeste.
Eu sei que outros levaram
o suor dos nossos corpos
e a muitos maltrataram.
Tu não foste assim.
Porque morreste, deixando
teu calor dentro de mim?

Poema baseado no seguinte texto: "Depois que André Vaz se apartou de Manuel de Sousa e sua mulher, ficou com ele Duarte Fernandes, contra-mestre do galeão, e algumas escravas das quais se salvaram três." - História trágico-marítima, Perda do Galeão Grande S. João, pág. 36, Volume 1.

///
Esta noite, quando fechar o computador, vou reler "Mar e Mágoa", beber um tinto amornado e saborear um cigarro forte (como ele o faria). E sei que terei por companhia Fernando Macedo, com a sua longa cabeleira branca afunilada em rabo de cavalo, o seu sorriso sarcástico e o seu humor bonacheirão. Mesmo em holograma a sua companhia é-me mais querida que muitos de carne e osso. 
Culinária
Leitor que sou de tudo o que a escritora Deana Barroqueiro escreve, tive oportunidade de, tempos atrás, ter lido uma receita de culinária que a mesma publicou no seu blogue, no pretérito 17 de Fevereiro, receita essa que se reportava a "Lulas à Coge Çofar".
Amante que sou de adquirir, entre diversas coisas, de revistas antigas de culinária tenho uma "Crónica Feminina Culinária" nº 11 (sem data de lançamento mas reportando-se à década de 60/70 do século passado) a qual contou com a participação "dos mestres de cozinha, doçaria e serviço de mesa do Hotel Ritz de Lisboa." (sic)
Ora bem descobri aí, na página 31, a receita do "Bolo da Rainha do Sabá", receita essa que, cá em casa, já produzimos (1). Não achei nada de especial no bolo e, ainda hoje, estou para saber o que teria a ver a mítica Balkis, Rainha do Sabá, com este bolo. 



Mas podemos fantasiar que foi o doce que ela, juntamente com  o Rei Salomão, manjou na única noite em que se amaram e cujo fruto se viria a chamar Menelik, génese de uma lendária linhagem dinástica etíope que viria a fenecer nos revolucionários idos de 1975, com a morte do Negus Hailé Selassié que, para muitos crentes do Kebra Nagast, foi o último descendente directo da Casa Real judaica.

Caramba, o que um bolo nos põe a fantasiar. Mas, de qualquer modo, aqui vai a receita que transcrevo sem qualquer alteração:

"Desfazem-se no almofariz 60 gr. de amêndoas. Derretem-se 125 gr. de chocolate, partido em bocadinhos, em duas colheres-de-sopa de água a ferver, deixando-se cozer durante 10 minutos. Há quem deite 2 colheres-de-café deste produto solúvel na água a ferver que se destina a derreter o chocolate.
Acrescentam-se 125 gr. de manteiga ao chocolate, trabalha-se de forma a obter-se uma massa, incorporando-se depois as amêndoas, o açúcar (125 gr.), a farinha (50 gr.) e 3 ovos. Mexe-se muito bem sempre que se acrescenta um novo elemento.
Unta-se uma forma de "charlotte" e deita-se-lhe dentro a preparação, que cozerá no forno, em banho-maria, durante 35 ou 40 minutos. Deixa-se arrefecer, desenforma-se e serve-se coberto com natas batidas adicionadas de açúcar baunilhado."
(1) Digo "produzimos" pois tenho uma parceria com a minha mulher: ela faz os bolos e eu como-os.


Vai acontecer

Durante o corrente mês de Março uma exposição comemorativa do centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, figura grada das letras portuguesas do século XX, nas áreas do conto, crónica e romance. Na Biblioteca Museu da República e da Resistência (Rua Alberto Sousa - 10 A - Zona B do Rêgo - Lisboa) durante as horas normais de expediente. Entrada livre.

Encontro de escritores lusófonos onde tecerão comentários sobre o estado da literatura e poesia nos seus diversos países. No próximo dia 17 de Março, pelas 15H00, na Biblioteca Municipal Por Timor (Rua S.Bento - 182/184 - Lisboa). Entrada livre.

Exposição colectiva de artes plásticas, subordinada ao tema "Os Cavaleiros Templários". Entre os dias 18 e 30 de Março corrente, na Casa da Cultura dos Olivais (R. Conselheiro Mariano de Carvalho - 67/68 - Olivais - Lisboa).


Aconteceu

Mais uma vez o nosso mui amado Venerando Chefe de Estado voltou a borrar a pintura, agora a acertar contas atrasadas com José Sócrates, no seu prefácio do livro "Roteiros VI". O homem não acerta mesmo, coitado. Eu ando para aqui a cogitar que ele vai ter que nascer duas vezes para aprender a ser um político a sério. Sobre este seu comportamento muito se tem escrito e eu nada de novo viria para aqui  debitar. Até porque quase ninguém me lê e ninguém me liga nenhuma, que é o mais certo. Mas, de qualquer modo, de tudo o que se escreveu recomendo a leitura do artigo de opinião de Gonçalo Bordalo Pinheiro que, sobre este tema, publicou na Visão nº 411, subordinada ao título "As perguntas da semana". Lapidar.

Leio no Público que os golfinhos voltaram ao Tejo. Mas apenas pintados nas sapatas da Ponte 25 de Abril. É pena, mas é o mundo em que vivemos. É tudo ou quase tudo fictício, virtual, a fingir.

A Procuradora Cândida de Almeida, Directora da Direcção Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), estranhou que se tivesse feito burburinho por a Caixa Geral de Depósitos (CGD) ter patrocinado um Congresso do Sindicato que os representa. Disse a senhora que a escolha do banco se devera a ser do Estado, com dinheiros 100% públicos e não correr nenhum processo crime daquela instituição bancária. Azar. Quatro dias depois (13/03) destas afirmações o Diário de Notícias parangonava uma notícia onde quatro gestores da CGD tinham sido acusados pelo DIAP de Évora por burla tributária. Anda a dormir esta senhora?

************************

Defenda a sua língua materna. Recuse-se a escrever com as normas do actual Acordo Ortográfico.

Todas as marcas, referências ou produtos aqui referidos são incompatíveis com intuitos publicitários, reflectindo apenas a opinião do Autor.